segunda-feira, 8 de abril de 2024

Por que a China está acumulando tanto ouro

Em 2023, país asiático comprou mais do metal precioso do que qualquer outro banco central. Entre os motivos está preocupação com futuras sanções envolvendo o dólar. Aumento da reserva ajudou a disparar o preço do ouro.

O preço do ouro bateu um novo recorde histórico essa semana, chegando a 2.300 dólares (cerca de R$ 11,3 mil) a onça, à medida que questões geopolíticas, expectativas de cortes nas taxas de juro nos Estados Unidos e o acúmulo do metal pela China estimulam o interesse dos especuladores.

O ouro é visto por investidores como um porto seguro em tempos de turbulência e uma cobertura contra a desvalorização de moedas, em um momento em que o mundo vive conflitos no Oriente Médio e na Ucrânia que influenciaram no recente aumento dos preços, juntamente com o pico da inflação pós-pandemia.

A medida do Banco Popular da China (PBC, na sigla em inglês) de comprar grandes quantidades de ouro se refletiu em outros bancos centrais – sobretudo de mercados emergentes. Mas por que, afinal, a China está acumulando tanto ouro?

Aumento da reserva de ouro da China

O PBC tem aumentado as suas reservas de ouro nos últimos 16 meses consecutivos, de acordo com o Conselho Mundial do Ouro –uma associação comercial internacional para a indústria do ouro com sede no Reino Unido. Em 2023, o PBC comprou mais ouro do que todos os outros bancos centrais do mundo.

O Conselho Mundial do Ouro calculou as compras do metal precioso pela China no ano passado em 225 toneladas métricas, pouco menos de um quarto das 1.037 toneladas compradas por todos os bancos centrais do planeta

Só em janeiro e fevereiro, o PBC aumentou as suas reservas de ouro em 22 toneladas, escreveu, na plataforma X, Krishan Gopaul, analista sênior de Europa, Oriente Médio e África do Conselho Mundial do Ouro.

Agora, o banco central da China detém cerca de 2.257 toneladas de ouro nos seus cofres.

Tal como o PBC, os consumidores chineses têm comprado moedas, barras e joias de ouro depois de seus investimentos imobiliários, a moeda yuan e o mercado de ações do país terem desvalorizado devido aos recentes problemas econômicos na segunda maior economia do mundo.

"Desde o início do ano, temos visto enormes compras no varejo chinês, quantidades recordes de compras na Bolsa de Ouro doméstica de Xangai", disse à Bloomberg TV no mês passado John Reade, estrategista-chefe de mercado do Conselho Mundial do Ouro.

Alternativa ao dólar

A China depende fortemente do dólar americano para o comércio com o resto do mundo. Sendo a moeda de reserva mundial, a maioria das matérias-primas são cotadas em dólares e mais de metade do comércio mundial é realizado utilizando a moeda americana.

Ao mesmo tempo que cresceu para desafiar o domínio econômico dos EUA ao longo dos últimos 30 anos, a China acumulou enormes reservas cambiais, principalmente em dólares. Mas Pequim teme ter-se tornado demasiado dependente do dólar e está empenhada em diversificar as reservas do PBC.

A China vem reduzindo gradualmente suas participações em dólar, que dominuíram em um terço desde 2011, para cerca de 800 bilhões de dólares, segundo dados dos EUA. A queda se acelerou desde a pandemia de covid-19.

O objetivo da diversificação alinha-se com os de outros países do Brics – grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul e que deve dominar a economia global até 2050.

O Brics até discutiu a ideia de uma moeda comum no futuro, o que poderia potencialmente desafiar o dólar como moeda de reserva mundial.

Por que a China quer diversificar

As nações do Brics, incluindo a China, estão preocupadas com a forma como Washington utiliza o dólar como arma para preservar a sua posição econômica e geopolítica global.

O atual status do dólar permite aos EUA pedir dinheiro emprestado a um custo muito mais baixo. Washington também pode utilizar a moeda como instrumento diplomático, por exemplo, ao impor sanções à Rússia, ao Irã e à Coreia do Norte.

Após a invasão da Ucrânia pela Rússia em fevereiro de 2022, os EUA e a União Europeia impuseram várias rodadas de sanções a Moscou, incluindo o congelamento das reservas cambiais do banco central russo.

Sob pressão dos EUA, a maioria dos bancos russos também foi expulsa do sistema de pagamentos SWIFT, que facilita as transferências internacionais de dinheiro.

"Penso que [as sanções] fizeram com que muitos bancos centrais pensassem cuidadosamente sobre o que detêm nas suas reservas", disse Reade à Bloomberg no mês passado.

Os líderes chineses estão preocupados que o país possa enfrentar restrições semelhantes dos EUA se decidir lançar alguma ofensiva militar ou se a guerra comercial com Washington piorar.

O presidente chinês, Xi Jinping, disse que seu país poderia reconquistar Taiwan, uma ilha democraticamente administrada que Pequim considera seu próprio território, pela força, se necessário. Se uma tentativa de anexação de Taiwan vir a cabo, Pequim poderia sofrer fortes sanções americanas, por exemplo.

O analista do Conselho Mundial do Ouro espera que as compras dos bancos centrais continuem durante vários anos, um sinal de que a diversificação está longe de terminar.

Mesmo depois vários meses de compras, as reservas de ouro da China representam cerca de 4% do total do PBC – valor bem abaixo do limite de reserva dos bancos centrais dos países desenvolvidos.

Muitos analistas acreditam que o preço do ouro tenha sido sobreinflacionado pelos especuladores e que a procura contínua por parte de bancos centrais como o da China pode não estimular os preços a subirem muito.

Mesmo assim, ao contrário do papel-moeda, o ouro tem valor intrínseco, pois é uma mercadoria rara e difícil de extrair. Também tem múltiplos usos econômicos, em eletrônica, odontologia, ferramentas médicas e nos setores de defesa, aeroespacial e automotivo.

¨      EUA e China planejam negociações sobre excesso da capacidade de produção chinesa

Os Estados Unidos e a China concordaram em manter negociações sobre o modelo econômico chinês e o que os EUA consideram uso excessivo da capacidade industrial do país asiático.

Os dois lados manterão “intercâmbios intensivos” sobre um crescimento econômico mais equilibrado, de acordo com um comunicado dos EUA emitido depois de um encontro de dois dias entre a secretária do Tesouro norte-americana, Janet Yellen, e o vice-primeiro-ministro chinês, He Lifeng, na cidade de Guangzhou, no sul do país. Eles também concordaram em iniciar intercâmbios sobre o combate à lavagem de dinheiro, segundo o comunicado dos EUA.

Yellen disse que o intercâmbio sobre um “crescimento equilibrado” criaria uma estrutura para ouvir as opiniões de cada país e tentar abordar as preocupações americanas sobre o excesso de capacidade industrial na China.

“Penso que os chineses percebem o quanto estamos preocupados com as implicações da sua estratégia industrial para os Estados Unidos, com o potencial de inundar os nossos mercados com exportações que dificultam a concorrência das empresas americanas”, disse Yellen a jornalistas após o anúncio.”Não vai ser resolvido em uma tarde ou em um mês, mas acho que eles ouviram que esta é uma questão importante para nós”, acrescentou.

A agência de notícias oficial da China, Xinhua, disse que os dois lados concordaram em discutir uma série de questões, incluindo o crescimento equilibrado dos Estados Unidos, da China e da economia global, bem como a estabilidade financeira, finanças sustentáveis e cooperação no combate à lavagem de dinheiro.

¨      Haddad cita boas relação com EUA e China mas vê potencial brasileiro subestimado pelos dois

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, frisou que o Brasil mantém relações boas com Estados Unidos e China, mas ponderou que vê o potencial brasileiro subestimado pelos dois países.

“Em nenhum momento de conversa de Lula com Xi Jinping ou Biden pareceu desprezo pelo Brasil, mas a subestimação do potencial de parceria parece notável”, disse o ministro, em evento da revista digital Phenomenal World.

A Alemanha, por outro lado, citou Haddad, tem um olhar hoje para a América do Sul com um apetite benéfico para os dois lados. O país, afirmou, vê o Brasil como um fornecedor de energia limpa, mas também como um parceiro que pode se reindustrializar sob premissas sustentáveis.

Haddad ponderou que o momento brasileiro ainda inspira cuidados, mas se tudo correr bem, o médio e longo prazo prometem ser bons para o País. “O Brasil vive riscos de solavancos de curto prazo, ainda temos um ambiente político interno que inspira muitos cuidados”, disse o ministro, que defendeu que as instituições precisam estar mais afiadas. “Tivemos um bom 2023 desse ponto de vista, gostaria de chegar em 2024 com a mesma sensação.”

Ainda sobre o cenário global atual, Haddad o classificou como desafiador e em certo sentido aterrorizante ao destacar o grau de novidade atrelado ao conflito entre Estados Unidos e China.

“A Rússia não podia fazer frente aos Estados Unidos do ponto de vista econômico e o Japão não podia fazer frente ao militar. Essa é a exclusividade do momento que estamos vendo”, analisou o ministro, que salientou que ambos os países são parceiros importantes do Brasil.

 

Ø  China usa IA para semear divisão nos EUA e em outros países, aponta Microsoft

 

A China está aumentando o uso de conteúdo gerado por inteligência artificial (IA) e contas falsas em redes sociais para semear a divisão nos Estados Unidos e em outros países, aponta o relatório mais recente do centro de análise de ameaças da Microsoft, divulgado nesta quinta-feira (4).

Pequim dobrou seus alvos e aumentou a sofisticação de suas operações de influência no exterior, afirma no relatório Clint Watts, responsável pela unidade de análise de ameaças da gigante tecnológica americana.

“A China usa contas falsas nas redes sociais para sondar os eleitores sobre o que mais os divide, a fim de semear a discórdia e, possivelmente, influenciar o resultado das eleições presidenciais de novembro nos Estados Unidos em seu favor”, explica Watts. “Também aumentou o uso de conteúdo gerado pela IA para promover seus objetivos em todo o mundo.”

Segundo o relatório, as operações de influência chinesas continuam “explorando de forma oportunista” acontecimentos como o descarrilamento de um trem no Kentucky ou os incêndios no Havaí para gerar desconfiança em relação a autoridades americanas.

Essas pesquisas sobre assuntos internos americanos “indicam um esforço deliberado para compreender melhor que grupo demográfico de eleitores apoia que assunto ou posição e que temas geram mais divisão, antes da reta final” da corrida pela Casa Branca.

Segundo as conclusões do relatório, há poucos indícios de que essas tentativas de manipular a opinião pública estejam conseguindo o efeito desejado pela China. O centro de análise de ameaças havia informado no fim de 2023 que internautas “afiliados” ao governo chinês fizeram-se passar por eleitores americanos nas redes sociais com o objetivo de influenciar as eleições de meio de mandato de novembro de 2022.

“Essa atividade continuou e essas contas publicam quase que exclusivamente questões internas dos Estados Unidos que geram divisão, como o aquecimento global, as políticas fronteiriças, o consumo de drogas, a imigração e a tensão racial”, aponta Watts, lembrando que eleições importantes vão ocorrer neste ano em todo o mundo, principalmente na Índia e Coreia do Sul.

“Usam vídeos originais, memes e infográficos, bem como conteúdo reciclado de outras contas políticas de destaque”, explica o executivo. Ele ressalta que a Microsoft observou um aumento do conteúdo gerado por IA defendendo posições chinesas antes das eleições presidenciais de janeiro em Taiwan.

O relatório também afirma que a Coreia do Norte começou a usar a IA para roubar criptomoedas, perturbar cadeias de abastecimento e aumentar a eficácia da inteligência militar.

 

Fonte: Deutsche Welle/IstoÉ      

 

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