Poder do
agronegócio e ausência do Estado são determinantes para aumento da fome nos
países do Cone Sul
A
segunda edição do Atlas dos Sistemas Alimentares do Cone Sul, lançada cerca de dois anos após a primeira avaliação, mostra
um reforço nas estruturas que mantêm a insegurança alimentar e a fome como
realidades persistentes em países sul-americanos.
Organizada
pela Fundação Rosa Luxemburgo, a publicação observou a realidade de cinco
nações, Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai. Em comum, esses países
têm um modelo de agronegócio que privilegia exportações em detrimento do abastecimento
interno e um cenário econômico e social que afasta a população cada vez mais
dos alimentos saudáveis e das dietas tradicionais.
O
problema se potencializa também frente à crise ambiental e aos altos e baixos
políticos e econômicos que tomam conta, inclusive, da realidade internacional.
As questões globais fortalecem as desigualdades locais.
“Vivemos
atualmente em meio a crises simultâneas, severas, intensas e prolongadas, com
uma mudança muito acelerada na correlação de forças e na luta política (...)
Dizemos que esta crise é estrutural porque é resultado da forma como se
organiza o sistema, e não se pode superá-la sem enfrentar os fundamentos do
próprio capitalismo”, alerta o documento.
O Brasil
de Fato conversou com Patricia Lizarraga, coordenadora de projetos da
Fundação Rosa Luxemburgo na Argentina, e Jorge Pereira Filho, que ocupa o mesmo
cargo no Brasil. Na entrevista, a necessidade de envolvimento do estado nas soluções foi um dos principais pontos destacados.
“A
necessidade de contar com políticas alimentares e de produção de alimentos, não
de commodities, nos 5 países é fundamental para pensar em reduzir os números da
fome”, afirmou Lizarraga. “Sem dúvida, sem estado não é possível. Porque não há
como competir com o agronegócio”, concluiu.
O
Atlas também destaca os “sujeitos coletivos da resistência”, iniciativas populares e comunitárias de combate ao problema da insegurança
alimentar e da fome. Jorge Pereira Filho ressalta que esses caminhos também
precisam de fortalecimento do poder público.
“Temos
embriões de uma proposta nova de fazer uma circulação de alimentos e uma
produção de alimentos que rompe com paradigma atual. No entanto, a escala
dessas iniciativas apoiadas pelo poder público é muito pequena, é insuficiente
e incomparável com o peso que o estado dá para manter o modelo do sistema
alimentar baseado nas commodities e nas transnacionais.”
LEIA
A ENTREVISTA:
·
Quais são os principais pontos que esta
nova edição do Atlas dos Sistemas Alimentares do Cone Sul traz?
Jorge
Pereira Filho: Essa publicação é parte de um esforço que envolveu 5
países, Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai. Foi uma construção
bastante participativa, desenvolvida sobretudo a partir da criação de um
comitê, de um conselho editorial, em que estiveram presentes integrantes de
movimentos populares do campo e da cidade e especialistas, bem como ONGs que
trabalham com o tema da soberania alimentar.
Nós
partimos de um ponto bastante fundamental nesses países. Eles desfrutam de
recursos naturais e de uma condição geográfica propícia para a produção de
alimentos de qualidade. Porém, a cada ano, suas populações vêm enfrentando com
cada vez mais gravidade o problema da fome.
Retomando
o pensamento do Josué de Castro, de que a fome não é uma questão natural e sim uma questão
decorrente da ordem econômica e política, vamos discutir, na atualidade, quais
são as causas principais que fazem com que esse problema seja estrutural nos
países e agravado pelas crises decorrentes do modelo político e social em que
vivemos.
Ou
seja, tanto a crise sanitária decorrente da pandemia como as crises geradas
pelas guerras, a questão da desigualdade social e econômica, enfim, tudo isso
monta um pacote em que está estruturado um sistema alimentar cujo modelo
principal é a produção de commodities para o exterior e não produzir alimentos
saudáveis aqui para a nossa população.
Um
ponto a se destacar é que estes 5 países vivem em realidades políticas ora
semelhantes, ora muito distintas. Mas superar esse modelo de produção de alimentos de uso do espaço agrário, que prioriza a produção para o
exterior, é um problema comum e que se coloca para todos esses distintos
governos, seja mais progressista, seja mais afinado com a ótica
neoliberal.
·
É um problema de soberania alimentar que se
repete nessas regiões então?
Patricia
Lizarraga: Sim e eu gostaria de focar em dois eixos. Os cinco países têm
realidades muito diferentes. Se você olhar Uruguai e Chile, você não vê os
números de pobreza, de fome que tem no Brasil e na Argentina. Mas vemos que há
muitas formas de fome.
Temos
países como Uruguai e Chile que têm número de má nutrição muito grandes,
principalmente entre crianças mais pobres. O que queríamos refletir é que não
tem a ver só com a falta de comida, mas com a qualidade da comida. Isso também tem a ver com soberania alimentar. O Chile importa
seus alimentos principais, como os legumes, que deixou de produzir para
produzir minérios.
O
outro ponto é a presença do estado. Só com o estado presente, regulando preços,
com políticas alimentares, é possível pensar em começar a reduzir esses
números. Agora, na Argentina, vemos muito claro que com o andamento do estado
neste governo de Javier Milei, passamos de 46% para 60% de pessoas na
pobreza.
Então,
a necessidade de contar com políticas alimentares e de produção de alimentos, não de commodities, nos 5
países é fundamental para pensar em reduzir esses números e começar a reduzir
esses números.
·
Quais são as diferenças observadas entre as
duas edições do Atlas?
JPF:
Podemos destacar pelo menos 2 elementos. O primeiro é que a ordem global vai se
deteriorando cada vez mais do ponto de vista político e econômico. Assistimos a
emergência da guerra na Europa, que se alastra sem uma perspectiva de fim, discursos cada vez
mais militaristas.
Vemos
a União Europeia, cada vez mais, embalando essa loucura, essa aventura militar
em seus países. Os Estados Unidos estimulando cada vez mais a escalada militar
na Ucrânia. Vemos a emergência da fome e todo o descalabro que está
acontecendo na Palestina por conta de um ataque de uma potência, que provoca um
verdadeiro genocídio entre a população palestina.
Isso
tudo nos afeta, claro. Mesmo que estejamos geograficamente distantes desses
conflitos, porque boa parte dos fertilizantes são importados da região da
Ucrânia, da Rússia. Além disso, intensifica-se uma tendência histórica de
crescimento do preço do alimento. Essa é uma tendência que vinha antes dessa deterioração da
ordem global, mas que se intensifica agora com as guerras que estão ocorrendo
ao longo do mundo. Conforme o investimento dos estados vai priorizando a ação
militar, obviamente isso só se agrava.
Também
é bom destacar que, ao mesmo tempo, verifica-se, nesses países que compõem o
cone sul, uma intensificação da exploração dos recursos naturais. O Brasil
bateu recordes de exportação do agronegócio no ano passado. Isso não se deve ao
crescimento da produtividade. Se deve ao crescimento da ampliação da produção,
com mais áreas incorporadas para o agronegócio.
Isso
tem um impacto social, avançando sobre territórios indígenas, sobre povos
tradicionais, sobre áreas da reforma agrária e, obviamente, do ponto de
vista ambiental. O
adiantamento da crise climática é uma espiral que só aprofunda esse ciclo
negativo que estamos vivendo.
Mesmo
com a mudança de governo no Brasil, ainda não temos assistido a uma resposta na
dimensão da gravidade que o problema se encontra. Basta pegar o orçamento
do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), que está abaixo das médias históricas do governo
petista, mesmo entre os anos 2002 e 2016. Podemos ver a situação dos estoques
da Conab, que estão em escalas absolutamente mínimas, insuficientes para
exercer uma de suas missões, que é um papel regulador dos preços dos alimentos
no mercado nacional.
Claro
que isso se deve a toda uma política de destruição do papel do estado como um
ente regulador dessa ação do mercado, que vem ocorrendo desde o golpe contra a
ex-presidenta Dilma Rousseff (PT) até o último governo de Jair Bolsonaro (PL),
quando isso se intensificou.
Sem
o enfrentamento desse sistema alimentar, controlado pelas transnacionais e que
prioriza as commodities, não vamos enfrentar adequadamente o problema da fome.
Não basta só distribuir renda, porque, como estamos vendo, o preço dos
alimentos vai aumentando também, de uma forma escalar.
Ou
seja, se não há uma ação direcionada do estado para conter esse modelo de produção de commodities e favorecer a produção de alimentos saudáveis, não vamos
garantir a soberania alimentar e nem combater o problema que leva a fome a mais
de 33 milhões de brasileiros e brasileiras.
Por
último, destaco também que esse lucro das commodities e esse ganho de produção
que eles vêm verificando nos últimos anos, têm ocorrido à custa da redução da produção de alimentos que fazem parte da dieta do povo brasileiro. Temos uma
redução da área de arroz, de feijão, de mandioca plantadas e o Atlas mostra.
Isso tudo está conectado com a situação que vivemos hoje.
PL:
Temos que começar a dar mais ênfase nas consequências das mudanças climáticas
nesta região para os preços dos alimentos e para a disponibilidade de
território para a produção. Há um exemplo muito recente aqui na Argentina.
Houve muitas inundações há cerca de 1 mês e o preço da alface está em US$ 10 o
quilo (cerca de R$ 50). Se perdeu toda a produção de verduras. Os incêndios
também tiveram muito a ver com os preços dos alimentos no Chile, por exemplo.
Também
há a pressão dos países da Europa, principalmente, pela transição energética.
Há aí uma disputa pelo território dos grandes projetos. Eu conheci, no ano passado, no
Ceará, os projetos eólicos, que têm muito impacto na disponibilidade de peixe.
Em Mar Del Plata também há essa discussão agora. Aqui na Argentina tem muitos
projetos de minério, lítio e petróleo. Isso vai avançando em territórios que
podiam ser usados para produzir alimentos.
Acho
que, nos próximos anos, será um problema muito grande aqui na nossa região.
Sobretudo para a terra para produzir alimentos.
·
Vocês notaram a aplicação de mais soluções
para a soberania alimentar entre a produção da primeira e da segunda edições do
Atlas?
JPF:
A segunda sessão do Atlas, que discute as alternativas, foi realizada com
bastante carinho e cuidado. Não bastava para nós apenas fazer um diagnóstico de
uma situação que nossa experiência de vida constata diariamente que é
recorrente. A fome na região e os problemas causados por esse sistema alimentar
são uma temática cotidiana. Mas pouco se discute e se dá visibilidade para as
construções que apontam para um outro modelo de sistema alimentar e que
garantem, mesmo numa escala pequena, dignidade e comida de verdade na mesa de milhões de pessoas.
Esse
foi um dos esforços que realizamos ao longo do Atlas. Para fazer essa
construção de um leque de alternativas e apresentar embriões de um possível
novo modelo do sistema alimentar, que tenha outro paradigma, o ponto de partida
foi a escuta ativa dos movimentos populares, camponeses e urbanos, que realizam
na prática essas experiências.
Estamos
falando de um leque de ações, que vai desde as ações de solidariedade —
que explodiram na pandemia e vincularam a produção camponesa de alimentos e sem
agrotóxicos e a ação solidária nas comunidades periféricas das grandes cidades
— distribuição de marmitas, cestas básicas, estímulo à disseminação de hortas
comunitárias, possibilidade de garantir o acesso a preço justo para essas
populações periféricas, na maior parte negras. Que tenham possibilidade de se
alimentar dignamente e que não sejam reféns da lógica do mercado, que
estabelece para elas que o alimento possível de ser consumido é o alimento
ultraprocessado mais barato.
Notamos,
por exemplo, que houve, durante a pandemia, uma explosão de consumo de ultraprocessados. O miojo, por exemplo, e uma série de alimentos que são mais
acessíveis à população com menor poder aquisitivo. O que procuramos descrever e
discutir é que essas experiências alternativas precisam ser potencializadas
pelo estado para se realizarem. Uma possibilidade de um sistema alimentar que
garanta a soberania para a população. Esse é o ponto de partida.
São
experiências muito interessantes, porém, para terem um papel mais relevante do
ponto de vista do enfrentamento de um problema histórico, precisam do apoio de
políticas públicas. Claro que temos muitas medidas inovadoras e precisamos
destacar o PAA e o programa das Cozinhas Solidárias.
É
uma promessa de fazer chegar a essas populações um alimento produzido no campo,
por comunidades ribeirinhas, pelos povos indígenas, em comunidades camponesas
familiares, com participação ativa da comunidade na organização nessas
periferias. É um alimento saudável, de qualidade, mas que também estimula a
organização comunitária.
Temos
embriões de uma proposta nova de fazer uma circulação de alimentos e uma
produção de alimentos que rompe com paradigma atual. No entanto, a escala
dessas iniciativas apoiadas pelo poder público é muito pequena, é insuficiente
e incomparável com o peso que o estado dá para manter o modelo do sistema
alimentar baseado nas commodities e nas transnacionais.
Isso
é importante destacar, porque mesmo os programas que estão destinados à agricultura familiar, muitas vezes estão concentrados em financiar culturas como
soja e milho, ou seja, destinadas à exportação em sua maioria. Sem trabalharmos
essa contradição que temos, sobretudo no Brasil, mas que também se espalha nos
outros países da região, não vamos conseguir dar a dimensão necessária para
esses esforços que a gente descreve na parte 2 do Atlas.
PL:
Sem dúvida, sem estado não é possível. Porque não há como competir com o
agronegócio. Não tem possibilidade de crescer frente ao poder do agronegócio
nesses 5 países. Isso é muito similar nos 5 países.
Eu
gostaria aqui de pensar na Argentina, que em 3 meses de desmantelamento do
estado e das políticas alimentares, do orçamento para as cozinhas comunitárias,
que chamamos de comedores, a fome subiu imensamente, terrivelmente. Os preços dos alimentos também.
Com
essa lógica do livre mercado, de que o mercado vai regular e vai equilibrar os preços,
tivemos, em 2 meses, 70% de inflação. Sem o estado regulando o preço,
subsidiando o pequeno agricultor. As grandes empresas têm muito subsídio, tem
muito dinheiro. Então, sempre parece que para o pequeno agricultor é mais um
plano social, algo muito pequeno e vista como algo que não é bom.
Na
pandemia, começaram a crescer as redes de comercialização, cooperativas e, só
em dois meses, tudo desapareceu aqui na Argentina. É um cenário muito grave e
só há a possibilidade de começar a construir uma alternativa em um governo
pós-Milei. É como foi com Jair Bolsonaro no Brasil.
Sem
estado não é possível, não tem chance de pensar em um outro sistema de
alimentação, regulação dos ultraprocessados, que alimentos chegam às crianças,
que lugar dá aos ultraprocessados na mídia, no marketing. Há muita coisa para
fazer e só o estado pode pensar isso.
Fonte:
Brasil de Fato

Nenhum comentário:
Postar um comentário