terça-feira, 9 de abril de 2024

Seis meses depois, Israel estaria perto de eliminar o Hamas?

Já se passaram seis meses desde que os integrantes do Hamas invadiram Israel em 7 de outubro e mataram cerca de 1.200 pessoas, além de terem feito centenas de reféns.

Em resposta, Israel prometeu “esmagar e destruir o Hamas” para que este não representasse mais qualquer ameaça e trazer todos os reféns para casa.

Na guerra brutal que se seguiu, pelo menos 33 mil palestinos foram mortos, segundo o Ministério da Saúde gerido pelo Hamas, e grande parte de Gaza foi destruída.

Israel afirma ter matado milhares de combatentes do Hamas e desmantelado grande parte da vasta rede de túneis que o Hamas tem usado para realizar ataques.

A BBC Verify, o serviço de verificação da BBC, vasculhou declarações públicas e postagens nas redes sociais das Forças de Defesa de Israel (FDI) e avaliou as evidências por trás das declarações de Israel.

·        Quantos líderes do Hamas foram mortos?

Antes de 7 de Outubro, acreditava-se que o Hamas tinha cerca de 30 mil combatentes em Gaza, de acordo com relatórios que citam comandantes das FDI.

Muitas das principais figuras políticas do Hamas, como Ismail Haniyeh, amplamente considerado o líder geral do grupo, vivem no exterior. Mas acredita-se que grande parte da sua estrutura de liderança militar esteja dentro de Gaza.

Em um comunicado recente, as FDI afirmaram ter matado cerca de 13 mil combatentes do Hamas desde o início da guerra, embora não tenham dito como calcularam esse número.

Israel também publica os nomes de líderes individuais do Hamas que afirma terem sido mortos.

Um total de 113 pessoas foram nomeadas desta forma desde outubro, sendo que a imensa maioria delas foi dada como morta nos primeiros três meses do conflito. Neste ano, em comparação, o exército israelense não havia comunicado oficialmente a morte de qualquer líder importante do Hamas em Gaza até março.

Em 26 de março, as FDI afirmaram ter matado Marwan Issa, vice-comandante da ala militar do Hamas. Considerado um dos homens mais procurados de Israel, ele seria o líder mais importante do grupo que foi morto desde o início da guerra. Os Estados Unidos disseram acreditar que ele foi morto, mas o Hamas não confirmou.

As FDI publicam nomes de indivíduos que dizem serem líderes do Hamas que foram mortos, mas não é possível verificar se são membros do grupo. Um dos citados nessa categoria foi Mustafa Thuraya, que trabalhava como jornalista freelance no sul de Gaza quando o seu veículo foi atingido em janeiro.

Também encontramos nomes duplicados na lista, que descontamos do total.

Fora de Gaza, o líder político do Hamas, Saleh al-Arouri, morreu em uma explosão no subúrbio de Dahiyeh, no sul de Beirute, em janeiro. Israel é amplamente considerado responsável por esse ataque.

No entanto, especialistas com quem conversamos disseram que muitos dos líderes de destaque do grupo em Gaza, incluindo Yahya Sinwar, ainda estão vivos.

“As FDI não conseguiram chegar ao alto escalão da liderança do Hamas”, diz Mairav ​​Zonszein, analista de assuntos sobre Israel e Palestina do Grupo de Crise Internacional.

“Tanto a nível simbólico de chegar aos principais líderes, como também a nível de substituição do Hamas como detentor do território, isso é algo que não foi capaz de alcançar”, acrescenta Zonszein.

·        Quantos reféns permanecem em Gaza?

Segundo dados oficiais israelenses, 253 pessoas foram feitas reféns no dia 7 de outubro. Destas:

  • 109 foram libertadas como parte de trocas de prisioneiros ou em acordos separados
  • 3 foram resgatadas diretamente pelo exército israelense em operações militares
  • Os corpos de 12 reféns foram recuperados, incluindo três que as FDI admitiram ter matado em uma de suas operações

O refém vivo mais jovem confirmado tem 18 anos e o mais velho 85.

Dos 129 reféns restantes, Israel afirma que pelo menos 34 estão mortos.

O Hamas diz que o número de reféns mortos é maior – resultado dos ataques aéreos das FDI. Mas não é possível verificar essas afirmações.

Os dois reféns mais jovens nos ataques do Hamas foram Ariel e Kfir, que tinham 4 anos e 9 meses, respetivamente, no momento em que foram raptados. Suas mortes foram relatadas, mas não confirmadas.

·        Quanto da rede de túneis do Hamas foi destruída?

Como parte da sua promessa de eliminar o Hamas, Israel prometeu destruir a extensa rede de túneis que o grupo utiliza para transportar mercadorias e pessoas.

“Pense na Faixa de Gaza como uma camada para os civis e depois outra camada para o Hamas. Estamos tentando chegar a essa segunda camada que o Hamas construiu”, disse o porta-voz das FDI, Jonathan Conricus, em outubro.

O Hamas disse anteriormente que a sua rede de túneis se estende por 500 km, embora não haja forma de verificar isso de forma independente.

Perguntamos às FDI quantos túneis e que proporção da rede total de túneis eles haviam destruído. Na resposta, eles afirmaram que as suas forças tinham "destruído grande parte da infraestrutura terrorista em Gaza".

As FDI ocasionalmente mostraram evidências de túneis do Hamas que descobriram. Por exemplo, em novembro, divulgaram imagens de parte de uma rede de túneis por baixo do hospital al-Shifa, na cidade de Gaza, que, segundo as FDI, estava sendo usado como centro de comando.

Para tentar determinar a extensão da rede descoberta pelas forças israelenses, a BBC Verify analisou todas as mensagens das FDI no Telegram fazendo referência aos túneis em Gaza, entre 7 de outubro de 2023 e 26 de março de 2024.

Destas, 198 mencionaram a descoberta de túneis, onde o exército afirmou ter localizado túneis ou poços de túneis. Outras 141 mensagens afirmam que um túnel foi destruído ou desmantelado.

A maioria delas não forneceu detalhes precisos ou localizações específicas, por isso não é possível corroborar a extensão da rede que as FDI descobriram ou destruíram.

O labirinto abaixo de Gaza é composto por vários componentes, incluindo rotas de túneis e salas de vários tamanhos, bem como o ponto em que o túnel encontra a superfície – estes são conhecidos como poços de túneis.

Das mensagens que analisamos, 36 faziam referência a ataques a mais de 400 poços de túneis. No entanto, equiparar um poço a um túnel inteiro seria um equívoco, diz Daphné Richemond-Barak, especialista em guerra subterrânea que leciona na Universidade Reichman, em Israel.

A simples destruição dos poços dos túneis deixa a rede intacta, diz ela. “Não creio que tenhamos visto muita destruição total de túneis nesta guerra”, acrescenta.

·        A ofensiva de Israel teve um preço alto

Os objetivos de guerra de Israel tiveram um custo imenso para os palestinos em Gaza. Mais de 33 mil pessoas foram mortas, segundo o Ministério da Saúde administrado pelo Hamas.

A última análise demográfica do ministério, de 5 de abril, indica que mais de 70% dos mortos eram mulheres e crianças.

Muitos outros foram deslocados e ficaram desabrigados enquanto as forças israelenses tentavam destruir a infraestrutura do Hamas. Mais de 1,7 milhão de pessoas foram deslocadas internamente, segundo as Nações Unidas.

As áreas residenciais ficaram em ruínas, as ruas movimentadas foram reduzidas a escombros, as universidades foram destruídas e as terras agrícolas foram duramente afetadas.

Mais de 56% dos edifícios de Gaza foram danificados ou destruídos desde 7 de outubro, de acordo com a análise de dados de satélite.

Seis meses desde o início da guerra, ainda não está claro se Israel atingiu os seus objetivos.

 

Ø  Seis meses depois, objetivos não foram cumpridos e cessar-fogo está distante

 

A certeza da vitória total contra o Hamas, repetida insistentemente pelo premiê Benjamin Netanyahu durante os seis meses de guerra na Faixa de Gaza, soa a cada dia como balela.

Sua campanha militar para vingar o massacre de 1.200 pessoas e o sequestro de outras 240 no sul do país se revelou catastrófica e levou Israel a um beco sem saída: embora enfraquecido, o Hamas não foi, nem será, extinto; metade dos reféns ainda se encontra em Gaza —sabe-se lá em que condições— e seu retorno deixou de ser prioridade para o governo.

Se depender do primeiro-ministro, a prometida vitória não ocorrerá em breve, muito menos o cessar-fogo exigido pelo Conselho de Segurança da ONU. O premiê trata de buscar um pretexto para adiar o fim da guerra que matou pelo menos 32 mil palestinos, segundo os cálculos feitos pelo Hamas, e transformou o enclave em terra arrasada.

Dia sim, dia não, ele acrescenta a conquista de Rafah, onde se encontram mais de 1,3 milhão de palestinos deslocados, a seu plano para a vitória final, embora os preparativos para esta empreitada estejam estancados. A sobrevivência política do primeiro-ministro e da coalizão fundamentalista que ancora o governo ruma para o colapso no pós-guerra.

O confronto desencadeado pela ação terrorista do Hamas produziu um desastre humanitário, pela dificuldade de acesso da população palestina a mantimentos. De acordo com relatório da entidade Integrated Food Phase Classification, a insegurança alimentar afeta 1,1 milhão de habitantes em Gaza, e a fome é iminente nas províncias do Norte.

“É preciso parar de restringir a ajuda humanitária, parar de matar civis e trabalhadores humanitários e parar de usar os alimentos como arma. Não há mais vidas inocentes perdidas”, desabafou o chef José Andrés, fundador da World Central Kitchen, após 

Em nome da segurança interna, Netanyahu perdeu a guerra da narrativa já na primeira fase da justificada ofensiva em Gaza. O antissemitismo no mundo floresceu e termos como genocídio e Holocausto passaram a ser relativizados.

O premiê enfrenta atualmente a revolta dentro e fora de Israel. A unidade nacional gerada pelo massacre brutal do Hamas em solo israelense dissipou-se. A defesa da saída de Netanyahu e a convocação de eleições antecipadas no meio de uma guerra voltaram a ser alardeadas em protestos de israelenses, como ocorria sistematicamente antes do massacre do Hamas.

A invasão de Gaza decorreu sem um plano do governo sobre o dia seguinte ao fim da guerra, embora a coalizão fundamentalista do premiê defenda vigorosamente a reocupação do território. A tensão entre colonos e palestinos se acirrou em outra frente de batalha, na Cisjordânia, impulsionada pela ação de ministros extremistas do governo.

As relações entre Israel e seu aliado mais poderoso chegaram ao nível mais baixo, após desafios sistemáticos de Netanyahu a Joe Biden. No último contato entre os dois, nesta quinta-feira, o presidente americano falou duro com o premiê e condicionou o apoio a Israel à proteção de civis em Gaza, embora os EUA ainda mantenham em dia o fornecimento de ajuda militar ao país.

Em seis meses, as tragédias se multiplicaram — mortes de civis, reféns, jornalistas e funcionários de organizações humanitárias; relatos de estupros de mulheres sequestradas pelo Hamas; e ataques a hospitais palestinos pelas forças israelenses em busca de terroristas.

Com tudo isso, o ponto de inflexão para o desfecho dessa guerra, a maior desde a independência de Israel, ainda parece estar muito distante e a anos-luz da chamada solução de dois Estados.

 

Ø  Nenhuma embaixada de Israel está segura, diz líder militar do Irã

 

O major-general Yahya Rahim Safavi, conselheiro militar do líder supremo do Irã, Ali Khamenei, afirmou neste domingo (1º) que nenhuma das embaixadas de Israel está segura. A declaração vem em meio às preparações de retaliação do país muçulmano após um ataque de Israel à embaixada iraniana em Damasco, Síria.

Safavi salientou ainda que 28 embaixadas e consulados de Israel na região, como na Turquia, Egito, Jordânia e Bahrein, estão temporariamente fechados devido a possíveis retaliações iranianas.

O encerramento dessas atividades "aconteceram por medo, isso significa que confrontar esse regime brutal é um direito legal e legítimo", afirmou.

No último dia 1º, Israel realizou um ataque aéreo à embaixada iraniana em Damasco. O embaixador, que estava no prédio, não ficou ferido.

No entanto, o ataque matou militares de alta patente do Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica (IRGC, na sigla em inglês), grupo ligado ao Exército do Irã, como os generais-brigadeiro Mohammad Reza Zahedi e Mohammad Hadi Hajj Rahimi.

Zahedi, em específico, é o oficial de maior patente assassinado por Israel deste a morte do general Qassem Soleimani, chefe do IRGC, em 2020. Ao todo, desde dezembro de 2023, 18 oficiais do Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica foram assassinados por Israel.

 

Fonte: BBC Verify/g1/Sputnik Brasil

 

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