Paulo
Nogueira Batista Jr: Lula e seus adversários
A
situação do governo Lula, difícil desde o primeiro dia, parece ter sofrido
alguma deterioração nos meses recentes. Não chega a ser surpreendente. Sempre
há uma lua de mel e ela sempre acaba. Mais importante, a herança recebida dos
governos anteriores é pesada, são muitas as dificuldades de recuperar a máquina
pública e – ponto de quero tratar hoje – são poderosos os adversários políticos
do governo.
Cheguei
a pensar em intitular o artigo “Governo sitiado”, mas me pareceu pesado e
sombrio demais. Aí pensei em amenizar colocando um ponto de interrogação, mas
isso também não resolveu. Não cabe espalhar pessimismo e desânimo. Os
adversários são poderosos, mas o governo Lula tem seus recursos e pode
prevalecer.
Antes
de entrar no assunto, porém, faço uma advertência. As questões de política e
economia política são sempre pantanosas, obscuras, sujeitas a incertezas
radicais. Quem se aventura a escrever ou falar sobre isso precisa avisar o
leitor ou a leitora de que o que se diz ou coloca no papel fica sempre no
terreno das conjecturas e hipóteses. Muitos dos que se aventuram não o fazem e,
pior, se deixam embalar pela própria retórica e cometem não só afirmações
taxativas sobre o presente e o passado, como se lançam em previsões, adotando
às vezes um tom profético. E a história mostra que mesmo os grandes profetas se
enganam.
• Os
cinco blocos de poder
Mas
vamos ao assunto. O objetivo fundamental dos adversários do governo Lula é
claro e cristalino: enfraquecê-lo para que chegue derrotável à eleição de 2026.
Derrotável significa para eles não apenas a possibilidade de ganhar a eleição.
Caso isso não seja possível, desejariam encontrar um Lula fragilizado,
suscetível a fazer concessões importantes.
Obviamente,
os adversários formam um grupo bem heterogêneo, o que facilita o seu
enfrentamento. Lula, com sua vasta experiência e grande habilidade, sabe
aproveitar-se dessas diferenças para avançar.
Para
facilitar a exposição, vou distinguir quatro grandes blocos políticos, ou cinco
se incluirmos a centro-esquerda liderada pelo Presidente da República. Os
adversários principais são:
1. A
extrema-direita, que emerge depois de 2018 com a eleição de Bolsonaro.
2. A
direita tradicional ou centro-direita, isto é, o establishment, os donos do
poder e do capital, cuja fração hegemônica é o capital financeiro, o chamado
“mercado”.
3. A
direita fisiológica, o chamado ”Centrão”, que não tem ideologia definida, mas
controla o Congresso e age de maneira consistente, sempre procurando abocanhar
pedaços de poder e recursos orçamentários.
4. Os
militares, quase sempre hostis à esquerda e historicamente propensos a golpes
de Estado.
Com
exceção da direita fisiológica, todos esses blocos de poder têm importantes
ramificações internacionais. A extrema-direita bolsonarista encontra eco e
apoio em Trump nos Estados Unidos, em Milei, na Argentina, e em diversos países
da Europa, onde a extrema-direita governa ou cresce em popularidade e ameaça
vencer eleições. A direita tradicional sempre teve ligações umbilicais com os
EUA e encontra contrapartes influentes em todos os países desenvolvidos e no
resto da América Latina. Os militares, por sua vez, mantêm vínculos históricos
com os militares americanos, sendo a sua formação muito influenciada pelas
concepções políticas e estratégicas do Departamento de Defesa.
Qualquer
taxonomia é sempre uma simplificação. As fronteiras entre os blocos políticos
são fluidas. Há muitas figuras intermediárias, com os pés em mais de uma canoa.
Com frequência, os blocos se misturam, estabelecendo diferentes alianças
políticas e combinações variáveis ao longo do tempo. A própria palavra “bloco”
talvez não seja a mais adequada, pois passa uma sensação enganosa de solidez e
uniformidade.
• A
Arca de Noé
É
imenso, portanto, o desafio para Lula. Quando se critica o governo atual, e eu
mesmo o faço com alguma frequência, não se deve perder de vista esse contexto
político – tanto mais que Lula e a centro-esquerda, com todas as suas
deficiências e limitações, são os únicos que oferecem uma perspectiva de
desenvolvimento com justiça. Politicamente falando, recorde-se, não há nada
significativo à esquerda de Lula. A extrema-esquerda existe, mas não tem peso
político real e também não oferece saídas convincentes para nossos problemas.
O
melhor que se pode esperar nesse cenário tão complicado é que o governo Lula
consiga negociar com alguns adversários, reforçando a sua posição – sem,
contudo, transigir no essencial e sem se descaracterizar. Esse requisito é
fundamental, como tento explicar na sequência.
A
estratégia de Lula, desde 2021 ou 2022, tem sido isolar o principal adversário,
a extrema-direita. Foi assim que ele venceu a eleição. Compôs com a direita
tradicional para derrotar Bolsonaro que, em busca da reeleição, contava com a
máquina do governo e a fidelidade, ou pelo menos a simpatia, de uma parte muito
expressiva do eleitorado. Lula ganhou por pequena margem, o que sugere que fez
a escolha correta.
Note-se,
a propósito, que os donos do poder têm sempre uma pequena dificuldade no
Brasil: raramente ganham eleições presidenciais. Os seus candidatos não
costumam ser competitivos e nem sempre fazem bonito nessas disputas.
Historicamente, os donos do poder recorrem a dois expedientes tenebrosos.
Apoiam candidatos caricatos, mas bons de voto (Jânio em 1960, Collor em 1989 e
Bolsonaro em 2018). Se esta alternativa não está à mão, eles não se vexam em
descartar suas supostas ”credenciais democráticas” para patrocinar golpes
militares (como fizeram contra Getúlio, Juscelino e Jango) ou parlamentares
(como fizeram contra Dilma).
No
caso de Bolsonaro, assim como nos de Jânio e Collor, suponha-se que seria
possível controlá-los depois da eleição. De 2019 em diante, entretanto, a
desordem foi maior do que se esperava e a possibilidade de controlar Bolsonaro
menor do que se esperava. O establishment brasileiro, ou uma parte
significativa dele, parece ter se dado conta de que mais um mandato para
Bolsonaro poderia ser desastroso para seus interesses. Tentaram uma terceira
via, que não decolou. Lula foi percebido como alternativa, contanto que se
mostrasse disposto a negociar com eles. Encontraram receptividade. Lula deixou
claro que não seria revanchista nem radical. Formou-se então a Arca de Noé
(expressão do próprio Lula), a ampla e heterogênea coligação que venceria as
eleições em 2022.
Não
querendo e nem podendo praticar um estelionato eleitoral, Lula teve que formar
um governo heterogêneo, tão heterogêneo quanto a Arca de Noé. Na área
econômica, a presença de neoliberais se faz sentir claramente. Não só no
primeiro escalão, como no segundo escalão dos ministérios e do Banco Central.
Como
a direita fisiológica controla o Congresso, Lula também teve que abrigá-la no
ministério e até numa instituição financeira da importância estratégica da
Caixa Econômica Federal. Assim, o primeiro e o segundo escalão do governo são
uma mistura indigesta de quadros da centro-esquerda, da centro-direita e da
direita fisiológica.
Ao
mesmo tempo, Lula busca aplacar os militares. Não se dispõe a confrontá-los; ao
contrário, deseja cooptá-los ou pelo menos neutralizá-los. Foi por isso que
resolveu não patrocinar eventos de condenação do golpe militar de 1964, no seu
aniversário de 60 anos. Parte da esquerda ficou revoltada, sem levar na devida
conta, talvez, o quadro político adverso que tentei descrever acima.
• A
caminho das eleições de 2026
Prevalece
no governo (ou assim me parece) a percepção de que a principal e mais
destrutiva face da oposição continua sendo a extrema-direita bolsonarista.
Imagine, leitor ou leitora, que ela volte ao poder em 2027, seja com Bolsonaro,
seja com alguém que ele indique. Não preciso falar mais nada.
O
tempo dirá, mas os demais blocos não parecem ter força eleitoral para se
contrapor à centro-esquerda nas eleições de 2026. Será provavelmente tão
difícil quanto foi em 2018 e 2022 construir uma terceira via competitiva.
Assim,
a aliança constituída para as eleições de 2022 tende a se repetir em 2026. Não
se deve esperar que Lula faça qualquer movimento para desalojar a direita
tradicional de suas posições de poder no governo. Tampouco que tente romper com
a direita fisiológica. Ou que descuide das sempre problemáticas relações com as
Forças Armadas.
Confrontação
nunca foi um traço da personalidade do Presidente da República. Ele chegou
aonde chegou escolhendo suas batalhas e comendo pelas beiradas. Por que mexeria
nesse time que está ganhando?
• A
máscara se apega ao rosto
Para
terminar, um alerta que me parece importante. Apesar de tudo que escrevi acima,
há um risco que não pode ser negligenciado: o de que o governo Lula e com ele
toda a centro-esquerda se descaracterize e perca o rumo estratégico. E esse
risco é especialmente relevante na disputa com a extrema-direita.
Onde
reside a força política e eleitoral de figuras como Trump, Bolsonaro e Milei?
Em grande parte, na difusão da ideia de que eles se opõem a um “sistema”, um
conjunto de instituições e interesses viciados que exclui a grande massa da
população, inclusive a classe média. Na Europa, por exemplo, os partidos
socialistas e social-democratas se confundiram com o establishment e
copatrocinaram nas últimas décadas políticas econômicas e sociais excludentes,
a chamada agenda neoliberal. Assim, quem cresceu com a crise do neoliberalismo
foi a extrema-direita. A centro-esquerda minguou, posto que foi vista como
parte integrante desse maldito “sistema”.
O
PT é a social-democracia brasileira e corre o risco de cair na mesma armadilha.
Vou dizer uma coisa meio desagradável. No Brasil, de modo geral, há muito jogo
de cintura e pouca espinha dorsal. A centro-esquerda não foge a essa regra. Ela
acredita, ou diz acreditar, que continua fiel a seus propósitos. Que todas as
concessões são um preço a pagar nas circunstâncias. As medidas cautelosas e a
retórica conformista seriam assim uma máscara, a ser retirada quando as
condições forem mais favoráveis.
Compreendo.
Mas não vamos esquecer o poema de Fernando Pessoa:
“Fiz
de mim o que não soube,
E o
que podia fazer de mim não o fiz.
O
dominó que vesti era errado.
Conheceram-me
logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando
quis tirar a máscara,
Estava
pegada à cara.
Quando
a tirei e me vi ao espelho,
Já
tinha envelhecido.
Estava
bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei
fora a máscara e dormi no vestiário
Como
um cão tolerado pela gerência
Por
ser inofensivo
E
vou escrever esta história para provar que sou sublime.”
O
poema caiu como uma luva, não é mesmo?
Ø Supercomputador mais potente do Brasil terá capacidade
quadriplicada e será o mais poderoso da AL
O
governo federal informou nesta semana que o supercomputador brasileiro Santos
Dumont passará por aperfeiçoamento e terá a maior capacidade de armazenamento
da América Latina até novembro deste ano.
De
acordo com a nota do governo, a expansão é fruto de um acordo entre o
Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC) e a empresa do Grupo Atos,
Even, que terá investimentos de US$ 19,4 milhões (cerca de R$ 100 milhões).
"O
Supercomputador Santos Dumont terá sua capacidade quadruplicada para atender às
crescentes necessidades da comunidade acadêmica. Com essa expansão
significativa, financiada pela Petrobras, o Santos Dumont estará ainda mais
preparado para apoiar iniciativas de pesquisa de ponta, especialmente no setor
de energia", diz a nota.
Localizada
na cidade de Petrópolis, na Região Serrana do estado do Rio de Janeiro, a
máquina terá a capacidade computacional estendida de 17 Petaflops, baseada na
arquitetura BullSequana XH3000 da Eviden.
Com
isso, o supercomputador se tornará o mais poderoso da América Latina para
pesquisa acadêmica e deverá estar disponibilizado para estudos a partir de
janeiro de 2025.
·
Santos Dumont
Qualquer
pesquisador que precise desse tipo de equipamento para a execução de um projeto
pode entrar em contato com o LNCC e apresentar a sua demanda.
Estudos
sobre a COVID-19, sobre uso de fármacos no tratamento da doença, pesquisa de
bases moleculares das comorbidades associadas ao desenvolvimento da COVID-19 e
sobre câncer já utilizaram o equipamento.
Fonte:
Outras Palavras/Sputnik Brasil

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