segunda-feira, 8 de abril de 2024

Documentos recém-divulgados revelam promessa da OTAN de não se intrometer em antigo bloco soviético

Um novo conjunto de documentos do Arquivo de Segurança Nacional dos Estados Unidos, liberados para consulta pública nesta semana, revela que a OTAN prometeu não se intrometer nos assuntos das ex-repúblicas soviéticas – um compromisso quebrado nas décadas subsequentes através de revoluções coloridas.

Em registros de conversas entre autoridades russas, estadunidenses e da OTAN no período entre 1992 e 1995, as perspectivas de cooperação eram otimistas e apresentavam um compromisso fundamental relacionado aos assuntos internos das novas repúblicas pós-soviéticas.

Em uma delas, entre o então presidente do parlamento russo, Ruslan Khasbulatov, e o secretário-geral da OTAN, Manfred Woerner, de 25 de fevereiro de 1992 – exatamente um ano e dois meses depois de Mikhail Gorbachev declarar a extinta URSS e renunciar ao cargo –, apresenta um compromisso de Woerner de que a aliança não se intrometeria nos assuntos políticos internos da Rússia e de outros membros da Comunidade de Estados Independentes (CEI).

"Pelo que ouvi, e você mesmo falou sobre isso, algumas pessoas ainda duvidam de nossas intenções. Gostaria de afirmar aqui muito claramente que precisamos de estabilidade, ou de algum tipo de elemento estabilizador para a paz", disse Woerner na ocasião.

"Não vamos interferir nos assuntos internos da Rússia, bem como nos assuntos internos de outros Estados membros soberanos da CEI. Gostaríamos de estabelecer relações mais amistosas com todas as ex-repúblicas soviéticas. Isto servirá os nossos interesses comuns e [...] como resultado, todos ficaremos melhor."

Um segundo documento, de 8 de março de 1994, registra uma conversa entre os líderes da Duma e William Perry, secretário de Defesa do então presidente norte-americano Bill Clinton. Nela, há pistas sobre as preocupações sentidas até mesmo por membros do governo pró-americano de Boris Yeltsin em relação aos EUA e à política da OTAN para a Rússia.

"Como presidente do Comitê de Defesa da Duma de Estado, estou interessado em uma série de questões", disse o legislador Sergei Yushenkov.

"Como a doutrina militar dos EUA, as perspectivas da OTAN em relação ao fim da Guerra Fria, questões da nossa colaboração em ações de manutenção da paz, abordagens concretas para a implementação do programa Parceria para a Paz (que considero um véu tênue para a expansão da OTAN), afirmou Yushenkov.

Perry procurou acalmar os legisladores russos da melhor maneira que pôde, garantindo que a iniciativa da Parceria para a Paz "visava a cooperação de todos os países no interesse da manutenção da paz" e que, especialmente para a Rússia, facilitaria "aumentar a abertura e fortalecer os contatos entre as forças armadas dos dois países".

Expressando preocupações sobre a decisão dos EUA e dos seus aliados de informar o lado russo sobre as suas decisões na então violenta crise da Bósnia, na Iugoslávia, "um pouco tarde demais", o então embaixador de Yeltsin nos EUA, Vladimir Lukin, sugeriu que seria "mais natural que os parceiros se consultem e [tentem] persuadir-se mutuamente sobre as soluções propostas, e só então avançar para a implementação conjunta."

O secretário Perry ignorou as apreensões de Lukin, assegurando que "queria informar o lado russo sobre a solução proposta antes mesmo de discuti-la com a OTAN" e que "o presidente Bill Clinton tentou contactar Boris Yeltsin por telefone".

"No entanto, por motivos que desconheço, não houve comunicação durante dois dias. Planejei ligar para Pavel Grachev, do Ministério da Defesa da Rússia, sobre esse assunto, mas decidi não fazer isso antes da conversa entre os dois presidentes. A perda de dois dias criou mal-entendidos", disse Perry.

·        Promessas quebradas

Os detalhes dos documentos, e particularmente o compromisso do chefe da OTAN, Woerner, de não interferir nos "assuntos internos" da Rússia e de outros membros da CEI, contrastam fortemente com o que o bloco ocidental realmente acabou por fazer.

A partir do início da década de 2000, as revoluções coloridas patrocinadas pelos Estados ocidentais e pelas ONG abalariam meia dúzia de países no espaço pós-soviético.

Fracassando em alguns países (Belarus e Rússia), os golpes de Estado seriam bem-sucedidos em outros (Geórgia, Quirguizistão, Ucrânia), culminando em crises de segurança regional, mais notavelmente o conflito envolvendo a OTAN e a Rússia que ocorre neste momento na Ucrânia.

Os documentos do Arquivo de Segurança Nacional não são casos isolados em que a OTAN enganou Moscou em questões de segurança nacional e internacional, com James Baker, secretário de Estado dos EUA, dando o pontapé inicial em 1990, ao prometer a Gorbachev que a aliança não moveria "uma polegada a leste" depois de uma Alemanha reunificada.

Uma segunda promessa, feita em 1991, incluía um compromisso conjunto dos EUA, do Reino Unido, da França e da Alemanha para com Moscou de que a OTAN "não se expandiria para além do Elba" nem incorporaria antigos membros do Pacto de Varsóvia, como a Polônia.

Após o início da expansão em 1999 e a Rússia ter sido confrontada com um fato consumado, os aliados da OTAN continuaram a enganar Moscou.

Quando o golpe de Estado na Ucrânia, em fevereiro de 2014, desencadeou um conflito civil em Donbass, a Rússia, a Alemanha, a França e a Ucrânia negociaram os Acordos de Minsk – um acordo de paz de 2015 que visava pôr fim à crise em Donbass – prometendo aos territórios de Donetsk e Lugansk uma ampla autonomia em troca da reintegração com a Ucrânia.

Durante sete anos, a crise ficou congelada, com Kiev não implementando o acordo de paz.

Depois que a Rússia iniciou a sua operação militar em 2022, todos os signatários dos Acordos de Minsk, além da Rússia, admitiram que a Ucrânia nunca planejou implementar o acordo de paz e que foi apenas uma manobra para dar a Kiev tempo para rearmar as suas forças e preparar-se para tentar resolver a questão de Donbass pela força.

 

Ø  Nova missão da OTAN mostra que 'não tem plano real para a Ucrânia', diz especialista

 

Paolo Raffone, diretor da Fundação CIPI em Bruxelas, avaliou as ações da Aliança Atlântica, que vê como incapazes de resolver todos os problemas da Ucrânia, devido às limitações do mandato do bloco militar.

As ideias do ministro das Relações Exteriores da Polônia sobre uma nova missão conjunta da OTAN na Ucrânia são "mais um desejo do que realidade", disse um especialista estratégico à Sputnik.

"Até o momento, ninguém na OTAN está disposto a se envolver com uma presença militar aliada estável na Ucrânia", disse Paolo Raffone, diretor da Fundação CIPI em Bruxelas, Bélgica, sobre Radoslaw Sikorski.

"Os pensamentos de Sikorski não combinam com as declarações de David Cameron na cúpula da OTAN em Bruxelas. O ministro das Relações Exteriores do Reino Unido reconheceu que a 'guerra será perdida se os aliados não se mobilizarem', mas após ser questionado se as nações ocidentais deveriam enviar tropas para a Ucrânia, Cameron respondeu 'não'", sublinhou Raffone.

Anteriormente, Sikorski anunciou a criação pela OTAN de uma missão conjunta na Ucrânia e o treinamento de mais tropas ucranianas na Polônia, enquanto Jens Stoltenberg, secretário-geral da aliança, disse que não há planos para o envio de tropas da OTAN para o território da Ucrânia, mas reiterou a continuação do envio de equipamentos, munição e armas.

A "missão conjunta da OTAN na Ucrânia", anunciada por Sikorski, caso seja estabelecida, "vai no sentido de não envolver a OTAN diretamente na Ucrânia", prevê o especialista.

"A OTAN não tem um plano real para a Ucrânia, mas gostaria de ver a situação 'estabilizada' para ser mais administrável. O escopo não declarado é reduzir o deslizamento [ou colapso] das forças ucranianas para que, em um momento, sem um vencedor e um derrotado em campo, algumas negociações possam ocorrer."

Ao mesmo tempo, o último acrescentou que o Comandante Supremo Aliado da OTAN na Europa (SACEUR, na sigla em inglês) está trabalhando em uma proposta para melhorar o papel de coordenação de segurança da aliança na Ucrânia, o que poderia pressupor a colocação do Grupo de Contato de Defesa da Ucrânia, que coordena a entrega de armas a Kiev, atualmente liderado pelos EUA, sob o controle da OTAN.

·        OTAN tem limites

O analista ressaltou que o atual apoio da aliança à Ucrânia é "limitado a certas funções de logística, consultoria e treinamento" e, de acordo com as atuais regras da OTAN, "não seria possível fazer mais".

"A postura da OTAN é evitar o colapso da Ucrânia sob a constante pressão russa com o objetivo estratégico de criar as condições para um acordo negociado, seja ele qual for", disse.

Stoltenberg também apresentou planos para um pacote de ajuda militar de € 100 bilhões (R$ 549,35 bilhões) por cinco anos para a Ucrânia, na esperança de finalizar o acordo a tempo da próxima cúpula do bloco em Washington, EUA, em julho, mas esse é um "plano no papel, sem nenhuma cobertura fiscal concreta dos países membros da OTAN", notou Raffone. Para ele, trata-se do "último prego no caixão de Ursula von der Leyen [presidente da Comissão Europeia], que sugeriu um acordo semelhante no âmbito do sistema de defesa da UE".

"Todas essas declarações devem ser interpretadas tendo em vista o possível retorno de [Donald] Trump à Casa Branca no final de 2024. Elas parecem tentativas de criar condições 'à prova de Trump', compromissos declaratórios preventivos para equilibrar o candidato Donald Trump, sugerindo que os EUA poderiam cortar o apoio [à Ucrânia] e alegando que alguns membros da OTAN não estavam pagando o que deviam."

"A realidade é que os EUA, que têm fornecido 80% dos suprimentos militares à Ucrânia, não conseguiram aprovar o novo pacote de ajuda militar. Sem os EUA, os aliados europeus podem fazer muito pouco em apoio à Ucrânia", observou Raffone. Ao mesmo tempo, diz ele, o complexo militar-industrial está agindo para que a guerra continue.

¨      Zelensky admite que Ucrânia 'pode ficar sem mísseis de defesa aérea em breve'

O presidente Vladimir Zelensky alertou em comentários transmitidos neste sábado (6) que a Ucrânia poderá ficar sem mísseis de defesa aérea se a Rússia continuar a fazer bombardeios de longo alcance.

Em entrevista a um canal ucraniano, Zelensky afirmou que "se eles [os russos] continuarem atacando todos os dias como fizeram no mês passado, poderemos ficar sem mísseis, e os aliados sabem disso", afirmou o presidente, citado pela Reuters.

Na análise da mídia, esse foi o alerta mais severo do líder ucraniano desde o começo do conflito sobre a deterioração enfrentada pelas defesas aéreas ucranianas.

Zelensky também afirmou que ainda tinha estoques de defesa para o momento, mas que já estava tendo "que fazer escolhas difíceis sobre o que proteger". Em particular, destacou a necessidade de sistemas de defesa aérea Patriot. Alguns já foram destruídos pelas forças russas.

Kiev tem enfrentado várias dificuldades, tanto por falta de equipamento quanto por falta de contingente.

Nesta semana, o presidente ucraniano assinou uma lei que altera a idade de recrutamento na Ucrânia de 27 para 25 anos, abole a classificação de "aptidão limitada" para recrutas e obriga aqueles que foram considerados pouco aptos para o serviço militar a se submeterem novamente a um exame médico no prazo de nove meses.

A Rússia continua a sua operação obtendo avanços em diversos pontos, principalmente nas regiões de Artyomovsk e Zaporozhie.

 

Ø  'Frágil solidariedade transatlântica' pode não sobreviver a nova presidência de Trump, diz mídia

 

Segundo o jornal Politico, as iniciativas que estão sendo tomadas entre os EUA e a União Europeia em relação à China são uma realidade agora, mas isso pode mudar.

A mais recente reunião do Conselho de Tecnologia e Comércio UE-EUA (TTC, na sigla em inglês), que foi marcada pela ansiedade do possível retorno de Donald Trump à Casa Branca e pela busca de maneiras de enfrentar o domínio da China no mercado de tecnologia, terminou nesta sexta-feira (5).

Como escreveu na sexta-feira (5) o jornal norte-americano Politico, o assunto que mais causou divergências dentro do grupo é a forma como tanto Bruxelas quanto Washington querem lidar com a China, pois enquanto os EUA buscam ser mais agressivos com o país asiático, os europeus pedem palavras mais suaves para manter o relacionamento com Pequim.

"O diálogo sobre comércio e tecnologia [entre europeus e americanos] provavelmente não sobreviveria ao retorno de Trump, e isso ameaçaria a frágil solidariedade transatlântica sobre como lidar com a China", diz o Politico, acrescentando que tal cenário também foi objeto de discussão.

Apesar das tentativas do lado europeu, Washington conseguiu fazer com que os dois lados se comprometessem a trabalhar em equipe para abordar "as políticas e práticas não comerciais da China no setor de dispositivos médicos, e transmitiu essas preocupações diretamente à China", diz a declaração final da reunião.

"Juntos, somos responsáveis por quase metade do PIB mundial, e isso significa que há um certo peso que vem com o fato de termos uma posição compartilhada sobre algo, seja lidando com a China ou com qualquer outro desafio", disse Antony Blinken, secretário de Estado dos EUA.

Bruxelas também passou a aceitar a postura rígida dos EUA em relação à China em determinadas áreas, como a de microchips, na qual tanto a UE quanto Washington estão injetando bilhões em subsídios públicos para impulsionar sua própria produção de semicondutores.

¨      Ex-assessor de Trump chama de 'tola' sua sugestão de reunir Putin e Zelensky na mesa de negociações

Donald Trump "não tem ideia de como resolver a situação na Ucrânia em 24 horas ou 24 anos", na opinião de John Bolton, que foi seu assessor de segurança nacional entre 2018 e 2019.

O ex-assessor de segurança nacional de Donald Trump, ex-presidente dos EUA (2017-2021), acredita que Trump não tem ideia de como resolver o conflito na Ucrânia.

Em uma entrevista divulgada na sexta-feira (5) no jornal britânico i, John Bolton chamou de "ridícula" a sugestão de Trump de que ele poderia resolver a guerra na Ucrânia em um dia.

"Ele não tem ideia de como resolver a situação na Ucrânia em 24 horas ou 24 anos", opinou ele.

Bolton disse que a ideia de reunir na mesma sala os presidentes russo e ucraniano, Vladimir Putin e Vladimir Zelensky, respectivamente, para discutir um acordo de paz é "bastante tola".

O ex-membro da Casa Branca (2018-2019) também afirmou que Trump vê tudo como um negócio, e acredita que ele ainda pode resolver a situação na Ucrânia e no Oriente Médio, bem como chegar a um acordo com os líderes da China e da Coreia do Norte.

"Quais são os termos – isso é quase irrelevante, porque ele quer o crédito por ter feito o acordo [...]. O acordo é mais importante do que a substância", disse.

 

Fonte: Sputnik Brasil

 

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