segunda-feira, 8 de abril de 2024

Os números da guerra em Gaza que completa 6 meses

Apesar de uma resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas exigindo "um cessar-fogo imediato e a libertação imediata e incondicional de todos os reféns" em Gaza no mês passado, o bombardeio do território, que persiste nos últimos seis meses, não mostra sinais de diminuir, e não houve queda no número de mortos e feridos.

A guerra danificou gravemente a infraestrutura da Faixa de Gaza, com edifícios reduzidos a escombros, e forçou os residentes a evacuarem para a cidade de Rafah, no sul, aumentando as preocupações sobre uma possível fome, como alertou um relatório apoiado pela ONU no mês passado.

guerra eclodiu após um ataque inédito do Hamas em 7 de outubro de 2023, que, segundo dados israelenses, matou cerca de 1,2 mil pessoas, predominantemente civis.

O Reino Unido, os EUA e a União Europeia classificam o Hamas como uma organização terrorista.

Durante o ataque, 253 pessoas foram tomadas como reféns. Acredita-se que cerca de 130 reféns ainda estejam detidos em Gaza — pelo menos 34 dos quais são considerados mortos, dizem autoridades de Israel.

Cerca de 600 soldados israelenses morreram desde os ataques de 7 de outubro, segundo o exército de Israel, com pelo menos 256 mortos desde o início das operações terrestres em Gaza, no final de outubro.

Até ao 175º dia de guerra, pelo menos 32.623 pessoas tinham morrido e mais de 75.092 tinham ficado feridas, de acordo com o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA, na sigla em inglês).

E até ao 178º dia de conflito, pelo menos 32.916 pessoas – a maioria delas mulheres e crianças – tinham sido mortas, segundo o Ministério da Saúde da Faixa de Gaza, que é gerido pelo Hamas.

De acordo com um relatório da ONU publicado em 1 de março, cerca de 9 mil mulheres terão sido mortas pelas forças israelenses em Gaza. De acordo com o relatório, esse número provavelmente está subestimado, já que se acredita que há muitos mais mortos sob os escombros.

De acordo com a agência da ONU para as crianças, a Unicef, mais de 13 mil crianças também terão sido mortas em Gaza desde o início da guerra.

Alguns políticos, como o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, já questionaram a precisão dos números fornecidos pelo Ministério da Saúde palestino, mas a Organização Mundial da Saúde afirma acreditar que os números são reais.

·        Situação alimentar 'catastrófica'

Segundo a ONU, 85% da população no setor sitiado — onde vivem mais de 2,3 milhões de pessoas — foi forçada a evacuar as suas casas devido à atual situação na Faixa de Gaza, que inclui a destruição de infraestrutura e a falta de alimentos, água, combustível e eletricidade.

No mês passado, o relatório da Integrated Food Security Phase Classification (IPC) – uma respeitada rede internacional que fornece aos governos, à ONU e às agências de ajuda humanitária dados apolíticos para medir a escala da fome – alertou para uma fome iminente em Gaza.

"Prevê-se que metade da população da Faixa de Gaza (1,11 milhões de pessoas) enfrente condições catastróficas" no que diz respeito à segurança alimentar, afirmou.

Israel afirma que a avaliação da ONU contém informações imprecisas e diz que as agências da ONU não conseguiram distribuir a ajuda que chega diariamente.

"Em qualquer momento, há centenas de caminhões retidos no lado de Gaza da passagem de Kerem Shalom, depois de terem sido completamente processados pelas autoridades de Israel", afirma a Unidade de Coordenação de Assuntos Civis do Ministério da Defesa israelense (Cogat), o órgão de Israel responsável pela política civil na Cisjordânia e em Gaza.

O governo também diz que "Israel está ciente das infelizes repercussões da guerra sobre a população civil em Gaza” e nega as acusações de que Israel está matando de fome os civis em Gaza de propósito.

Aumentaram os apelos para abertura de caminhos para Gaza para acelerar o fluxo de ajuda humanitária para o território, que, segundo a ONU, recebia diariamente pelo menos 500 caminhões antes da guerra.

Durante o mês de março, uma média de 161 caminhões entraram diariamente no território, de acordo com a agência da ONU para os refugiados palestinos (UNRWA), que coordena a maior operação de ajuda humanitária em Gaza.

Israel diz que não há restrições quanto à quantidade de ajuda humanitária que pode chegar à Faixa de Gaza.

·        Mortes de jornalistas e agentes humanitários

De acordo com a Federação Internacional de Jornalistas (IFJ), 99 jornalistas e profissionais de mídia palestinos, quatro israelenses e três libaneses foram mortos. Houve também relatos de 16 jornalistas feridos, quatro desaparecidos e 25 detidos enquanto cobriam a guerra em Gaza, com base num relatório do Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ).

Os jornalistas que tentam trabalhar a partir de Gaza só podem entrar no território se estiverem integrados ao exército israelenses e concordarem com as condições impostas pelos militares, o que inclui permanecer com as tropas israelenses e submeter reportagens para aprovação antes da publicação.

Mais de 196 trabalhadores humanitários foram mortos em Gaza desde outubro, de acordo com a Aid Worker Security Database, entidade financiada pelos EUA que registra incidentes de violência contra agentes humanitários.

A maioria dos mortos desde que a guerra eclodiu há seis meses trabalhava para a UNRWA, que coordena a maior operação de ajuda em Gaza.

·        Ameaça de operação terrestre

Há semanas que Israel ameaça lançar uma operação terrestre em Rafah, no sul da Faixa de Gaza, na fronteira com o Egito, que está atualmente fechada. A área tornou-se um refúgio para mais de 1,5 milhões de palestinos, a maioria dos quais foram deslocados de outras áreas da faixa.

Funcionários da ONU expressaram o temores de uma catástrofe humanitária "além da imaginação" se houvesse uma incursão em grande escala do exército israelense em Rafah.

Em Israel, aumenta a pressão sobre o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu para que ele chegue a um acordo de cessar-fogo para libertar dezenas de reféns detidos em Gaza e para realizar eleições antecipadas.

Na maior manifestação antigoverno desde o início da guerra em outubro, dezenas de milhares de israelenses inundaram o centro de Jerusalém. Os manifestantes expressaram o seu descontentamento com a forma como a guerra foi conduzida e criticaram o fracasso do governo em resgatar ou libertar todos os reféns.

 

Ø  As “justificativas” de Israel para os ataques a civis que estremeceram relação com os EUA

 

Israel anunciou na sexta-feira (5/4) que demitiu dois oficiais de alto escalão depois que sete agentes humanitários da entidade de assistência World Central Kitchen (WCK) foram mortos em um ataque em Gaza na segunda-feira.

A investigação das Forças de Defesa de Israel (IDF) sobre o incidente diz que alguns agentes sobreviveram aos ataques aéreos iniciais, mas foram mortos quando um terceiro carro foi atingido.

Israel disse no início desta semana que o incidente foi um "grave erro" e prometeu tomar "medidas imediatas" para garantir maior proteção aos trabalhadores humanitários em Gaza.

O incidente abalou as relações de Israel com aliados tradicionais como os Estados Unidos — e também com outros países da comunidade internacional. O Conselho de Segurança da ONU aprovou esta semana um pedido de cessar-fogo imediato em Gaza.

As IDF divulgaram nesta sexta-feira uma declaração sobre as conclusões de sua investigação inicial.

Israel afirma que o incidente "não deveria ter ocorrido" e foi um "erro grave decorrente de uma falha grave devido a uma identificação equivocada, erros na tomada de decisão e um ataque contrário aos Procedimentos Operacionais Padrão".

"As conclusões da investigação indicam que o incidente não deveria ter ocorrido", diz o comunicado das IDF.

"Aqueles que aprovaram o ataque estavam convencidos de que o alvo era agentes armados do Hamas e não funcionários da WCK."

O comunicado dá mais detalhes sobre os dois oficiais superiores que foram demitidos e outros três que foram repreendidos.

Segundo a note, o comandante da brigada de apoio e o chefe do Estado-Maior da brigada serão ambos demitidos de seus cargos.

Israel diz que outro comandante da brigada e o comandante da 162ª divisão serão "formalmente repreendidos". O comandante do comando sul será "formalmente repreendido pela sua responsabilidade geral pelo incidente", acrescenta o comunicado.

Israel afirmou que seus operadores de drones confundiram um trabalhador humanitário carregando uma sacola com um atirador e, em seguida, atacaram um dos veículos da WCK com um míssil.

O governo afirma que duas pessoas escaparam do veículo e entraram em um segundo carro, que foi atingido por outro míssil disparado por um drone.

Os militares israelenses afirmam que os sobreviventes da segunda explosão conseguiram entrar em um terceiro veículo que também foi atingido por um míssil. No final da operação, todos os trabalhadores humanitários foram mortos.

·        As explicações

O inquérito inicial, realizado por um major-general reformado, Yoav Har-Even, descobriu que a unidade militar envolvida acreditava que os veículos que eles rastreavam com drones tinham sido tomados por homens armados do Hamas.

As IDF também disseram que a unidade não sabia que os carros pertenciam à instituição de caridade e que os três ataques aéreos violaram os próprios procedimentos do exército.

Segundo o relatório do governo de Israel, os trabalhadores humanitários supervisionavam a distribuição de ajuda alimentar que havia chegado em um navio vindo de Chipre e descarregada em um cais recentemente construído no norte da Faixa de Gaza.

Em coordenação com as IDF, a equipe da WCK estava transferindo a ajuda humanitária para um armazém alguns quilómetros mais ao sul, dizem os militares.

Durante este processo, as IDF afirmam que os seus operadores de drones avistaram um homem armado no topo de um grande caminhão de ajuda humanitária, que estava sendo escoltado pela equipe do WCK.

Um vídeo exibido a jornalistas mostra o atirador disparando um tiro. Os militares disseram ter tentado falar com a WCK, mas não conseguiram contato porque as agências humanitárias são proibidas pelas IDF de usar rádios.

As FDI disseram que acompanharam os movimentos do comboio, que entrou em um depósito.

Neste ponto, o comboio se dividiu. O caminhão de ajuda humanitária ficou no depósito, e dali surgiram quatro carros do tipo SUV. Um desses veículos dirigiu-se para o norte. Imagens mostram que esse veículo tinha homens armados.

As IDF afirmam que estes homens armados não foram alvos, devido à sua proximidade de um centro de ajuda humanitária.

Enquanto isso, os três veículos restantes, que pertencem à World Central Kitchen, seguiram para o sul.

A equipe de drones supôs que se tratavam de militantes do Hamas, e não de um comboio de ajuda humanitária.

Nenhuma filmagem deste momento foi fornecida, mas a investigação militar concluiu que ocorreu um “erro de classificação” — operadores confundiram uma bolsa com uma espingarda.

Com a ideia equivocada de que o veículo continha um atirador, foi pedida autorização para disparar um míssil. O pedido foi concedido por oficiais superiores. Às 23h09, o primeiro veículo é atingido. Dois minutos depois, o segundo. E às 23h13 é lançado o terceiro e último ataque que matou os agentes humanitários, dizem as IDF.

A WCK e outras agências humanitárias interromperam as suas operações em Gaza, onde a ONU estima que 1,1 milhões de pessoas – metade da população – enfrentam uma fome catastrófica.

A WCK reagiu à demissão dos oficiais israelenses nesta sexta-feira.

Em uma nota, a executiva-chefe da WCK, Erin Gore, disse que as desculpas das IDF pelo "assassinato ultrajante de nossos colegas representam pouco conforto" para as famílias e instituições de caridade das vítimas.

"Israel precisa tomar medidas concretas para garantir a segurança dos trabalhadores humanitários. As nossas operações continuam suspensas", disse ela.

Segundo a ONU, quase 200 trabalhadores em missões humanitárias foram mortos em Gaza até o momento.

Israel afirmou que aprovou a abertura de duas rotas para Gaza para entregas de ajuda humanitária – incluindo a passagem de Erez e o porto de Ashdod. Mais ajuda da Jordânia também poderá entrar através da passagem Kerem Shalom.

·        Relações com EUA abaladas

O ataque provocou fortes reações na comunidade internacional. Na primeira conversa por telefone desde o ataque aos agentes humanitários, o presidente americano Joe Biden disse ao premiê israelense Benjamin Netanyahu que o apoio dos EUA a Israel dependerá de medidas tomadas para "resolver os danos civis" em Gaza.

Na segunda-feira, o Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU) aprovou uma resolução inédita pedindo "cessar-fogo imediato" em Gaza. A resolução foi aprovada em um momento em que os Estados Unidos mudaram de posição sobre o tema e se abstiveram de votar.

O texto também exige a libertação imediata e incondicional de todos os reféns mantidos pelo Hamas. O órgão estava em um impasse desde o início da guerra, em outubro, fracassando repetidamente em chegar a acordo sobre um pedido de cessar-fogo. A ação dos EUA sinaliza uma divergência crescente entre eles e seu aliado Israel sobre a ofensiva do país em Gaza.

O Conselho de Direitos Humanos da ONU aprovou uma resolução exigindo a suspensão da venda de armamentos a Israel, na primeira iniciativa do tipo durante o conflito em Gaza que já custou mais de 30 mil vidas.

Analistas dizem que o assassinato de trabalhadores humanitários estrangeiros em Gaza poderá finalmente esgotar a paciência considerável dos aliados de Israel, liderados pelos Estados Unidos. Israel e o Egito proibiram jornalistas estrangeiros de entrar em Gaza, exceto em visitas ocasionais a militares israelenses, em situações altamente controladas e breves.

Em comunicado, o primeiro-ministro do Reino Unido, Rishi Sunak exigiu uma investigação transparente do ocorrido e disse que a situação em Gaza está ficando intolerável. Dentre os sete trabalhadores humanitários mortos no ataque há três cidadãos britânicos.

Na quinta-feira, o governo brasileiro também repudiou a ação de Israel.

“O governo brasileiro tomou conhecimento, com profunda consternação, de ataque aéreo israelense, ocorrido em 1º de abril, na região de Deir el-Balah, na Faixa de Gaza, no qual sete trabalhadores da ONG humanitária World Central Kitchen (WCK) foram mortos”, diz a nota do Itamaraty.

“Deplora também as mortes de civis e trabalhadores de saúde palestinos e os danos causados por ação militar das últimas semanas, que resultou na destruição do hospital Al-Shifa, em contexto no qual a assistência médica à população de Gaza é fundamental.”

“O Brasil lamenta que mais de 200 agentes humanitários tenham sido mortos na Faixa de Gaza desde outubro de 2023. Esse número é o maior da história da ONU e representa, em menos de seis meses de conflito, quase três vezes mais vítimas entre trabalhadores humanitários do que jamais registrado em um único conflito, no período de um ano”, acrescentou o comunicado.

 

Fonte: BBC News Arabic

 

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