sexta-feira, 5 de abril de 2024

Luiz Nassif: Lula precisa acordar enquanto é tempo

Duas coisas parecem claras no cenário político atual:

1. A única liderança capaz de barrar a volta do bolsonarismo é Lula.

2. Se seu governo continuar no ritmo atual, em breve Lula não conseguirá lotar sequer dois quarteirões da Paulista.

Falta rumo ao governo, um discurso unificador, um modelo de gestão minimamente eficaz.

Não se sabe o que ocorreu com Lula. Mas há, claramente, um receio enorme de dar qualquer passo, uma falta de fé na própria intuição. Vá se saber o que 12 anos de abusos, de conspiração – envolvendo todos os poderes -, os anos de prisão, os traumas sofridos fizeram com a psique de Lula.

Em 2008 começou o jogo da conspiração com o mensalão. Ao mesmo tempo, o país estava prestes a quebrar, devido à manutenção da política cambial. De repente, surgiu uma crise que resolveu o câmbio, removeu as reações de mercado, permitindo a Lula valer-se de sua intuição para um período mágico, que o projetou como o maior estadista do momento e passou ao país a sensação de que poderia ser um grande país.

Parecia que sua intuição permitiria superar todos os obstáculos. De repente, não mais que de repente, a conspiração foi ganhando corpo, juntando mídia, PSDB, Supremo Tribunal Federal, Ministério Público Federal, Congresso, até resultar no impeachment de Dilma, na prisão de Lula, no desmonte da economia brasileira. E Lula viu-se frente ao imprevisível, ao maremoto conspiratório que foi levando tudo de roldão.

E agora, José?

•        As oportunidades

Há uma série enorme de oportunidades abertas para o país, na transição energética e, especialmente, para a criação de um espaço de esperança para o país. Há uma enorme demanda reprimida por esperança, o momento e. as circunstâncias adequadas para um novo período de ouro. Há um presidente que sabe falar com o povo, que conhece a linguagem e os sonhos do povo. Mas não há uma ação concatenada, nem um presidente com vontade política.

Em outros momentos históricos, Getúlio Vargas e Juscelino Kubitscheck organizaram conselhos especialmente para montar as estratégias de desenvolvimento.

Estratégias não significam meramente aproveitar uma ou outra oportunidade. É um jogo complexo, que passa pela amarração de diversas pontas, pelos diversos ministérios e organizações públicas e privadas, pela junção de medidas fiscais, monetárias, pela ação conjunta de estruturas nacionais das federações empresariais, dos bancos públicos, do sistema cooperativo, das associações comerciais, da agricultura familiar.

A relação de medidas é ampla.

Para implantar a indústria automobilística, por exemplo, JK montou Grupos Executivos que permitiram que o governo federal coordenasse os esforços do setor público e privado para alcançar os objetivos do plano, as metas propostas.

Para cada meta havia um grupo executivo:

– GEIA: Grupo Executivo da Indústria Automobilística (criado em 1956)

– GEICON: Grupo Executivo da Indústria de Construção Naval (criado em 1956)

– GEIMAPE: Grupo Executivo da Indústria de Máquinas Pesadas (criado em 1956)

– GEMA: Grupo Executivo da Indústria da Máquina Agrícola (criado em 1958)

– GEA: Grupo Executivo da Alimentação (criado em 1958)

– GEHA: Grupo Executivo da Habitação Popular (criado em 1958)

– GEUC: Grupo Executivo da Usina de Cubatão (criado em 1958)

– GEP: Grupo Executivo da Petrobrás (criado em 1953)

– CEDAE: Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (criada em 1956)

•        O Lula 2

O estilo Lula 2 era imbatível. Fazia reuniões ministeriais, provocava os ministros para apresentarem boas propostas. Quando percebia o potencial de uma delas, reunia-se a sós com a pessoa e fazia três perguntas: o que esse projeto é bom para o país? o que é bom para o povo? o que é bom para meu governo? Convencido, na reunião ministerial seguinte envolvia mais ministérios na proposta.

Não é isso o que acontece agora. O Ministério da Indústria e do Comércio trabalha desconectado da Fazenda, do Planejamento, da Agricultura. E não se considere como conexão a troca ocasional de telefonemas e a dependência da boa vontade do parceiro. NEm se culpe o Ministro Geraldo Alckmin. O responsável direto pela falta de articulação é o próprio Lula.

Um plano de ação exige um conselho superior – integrado pelos ministros de todos os ministérios envolvidos – definindo as ações, a integração entre as diversas áreas, tendo a garantia de que todos os passos serão dados. E respondendo diretamente ao Presidente da República.

Hoje em dia, há um conjunto de ações soltas em cada Ministério, todas chegando a Lula através dos filtros da Casa Civil, com um Ministro, Ruy Costa, totalmente jejuno em gestão de projetos, ainda mais com a complexidade dos grandes projetos nacionais. E levando as informações para um Lula apático.

Ficou claro no anúncio da Neoindustrialização. Lula foi informado só na véspera e coube a ele constatar que não havia metas.

Se Lula acredita que poderá ganhar popularidade com grandes inaugurações do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), pode tirar o cavalinho da chuva. Primeiro, porque não haverá recursos para financiar muitas obras. Segundo, porque não serão obras que ajudam a recriar o sonho, a esperança.

Lula precisa acordar e se dar conta de sua enorme responsabilidade, de ser o último bastião contra a nova invasão bárbara do bolsonarismo.

 

Ø  Governo priorizou apadrinhamentos políticos e negociatas ao empenhar R$ 8 bilhões da Saúde

 

Um levantamento do jornal monopolista Estado de São Paulo indicou irregularidades na distribuição das verbas governamentais para a área da Saúde: segundo os dados acessados, o governo atropelou critérios técnicos e priorizou acordos políticos quando enviou mais de R$ 8 bilhões para diferentes estados e municípios sem considerar as próprias limitações dessas regiões. Enquanto algumas regiões não receberam verba suficiente, outras cidades receberam recursos correspondentes a mais de 1.000% acima da capacidade efetiva de atendimento nessas localidades. Com isso, o dinheiro pode ficar no caixa sem ter para onde ir ou, na pior das hipóteses, ser usado em esquemas ilícitos de forma mais fácil. 

Os R$ 8 bilhões saíram de recursos provindos do orçamento secreto (R$ 3,5 bilhões), do Congresso Nacional (R$ 4,3 bilhões) e emendas de bancada (R$ 241 milhões). Essas verbas foram distribuídas conforme as regras da Portaria 544. Mas, segundo o Estadão, o fator determinante para a distribuição do dinheiro foram acordos políticos.

•        Acordos políticos

Apesar da verba ser do Ministério da Saúde, a distribuição foi comandada pelo chefe da pasta de Relações Institucionais, Alexandre Padilha. O jornal monopolista informou que Padilha negociou a distribuição diretamente com o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), que mediou a divisão das verbas entre os parlamentares. No final do ano passado, Alexandre Padilha se destacou no empenho que teve em selar acordos políticos por meio da distribuição desenfreada de emendas parlamentares. Encontros com os parlamentares para debater a destinação das verbas foram registrados também na agenda da pasta da Saúde.

A distribuição sem freio das verbas contou com manobras para driblar as regras do Ministério da Saúde que tratam da execução do orçamento. Segundo as normas da pasta, cada município tem um limite de verba para receber que vai de acordo com a capacidade de cada um de atender a população. No esquema recentemente revelado, o governo carimbou os repasses como “emergenciais” e não classificou a verba como “emenda parlamentar”, o que permitiu furar o cerco dos limites impostos pelas regras.

•        Uns com muito, outros com tão pouco

Assim, mais de 651 cidades receberam verbas acima dos limites colocados pelo próprio ministério. Em 20 delas, o valor enviado superou 1.000% o teto. Em São João da Paraúna (GO), o envio foi de 4.758% acima do limite. Como resultado, o recurso precioso ficou no caixa de muitos municípios, sem ser gasto com procedimentos de alta ou média complexidade, enquanto outras 1.332 cidades que pediram recursos da portaria 544 nunca receberam o orçamento.

Dentre os beneficiados, a prefeitura de Maceió, reduto do mafioso Arthur Lira (PP-AL) está no topo da lista, com R$ 103 milhões recebidos. Os governos de Alagoas e Maranhão também foram os mais beneficiados, com R$ 166,5 milhões e R$ 132 milhões respectivamente.

•        Falcatruas

Ao que tudo indica, o apadrinhamento político foi de fato o que regeu a distribuição das valiosas verbas do Ministério da Saúde. Não seria o primeiro movimento desse tipo por parte do governo, que esse ano aprovou um aumento obsceno no valor das emendas parlamentares e, junto dele, um calendário obrigatório de pagamento dessa herança do orçamento secreto, tudo para privilegiar apadrinhados políticos dos parlamentares antes da próxima edição da nova farsa eleitoral.

O movimento coloca em xeque algumas outras atitudes do governo: no recente corte de verbas promovido por Luiz Inácio, o mandatário não bloqueou verbas da Saúde e nem da Educação, um movimento diferente do que havia feito no ano passado, quando cortou quase R$ 800 milhões de ambas as pastas. No entanto, se a verba não for cortada, mas a distribuição for indevida e regida por acordos e apadrinhamentos políticos, de pouco adianta.

 

Fonte: Jornal GGN/A Nova Democracia

 

Nenhum comentário: