IMPACTOS DA DITADURA: A aliança entre
Nordeste e China apavorava o imperialismo antes do golpe de 1964
“Hoje, a questão
agrária é, sem dúvida, o fator de toda essa inquietação” disse o deputado
federal Francisco Julião, há 60 anos. Julião era advogado e líder das Ligas
Camponesas e fazia ali seu último discurso no Congresso Nacional como deputado.
A “inquietação” à qual ele se referia era o golpe militar que se desenrolava no
país naquele mesmo dia, ao que Julião prosseguiu:
“No fundamental, o que
se discute no Brasil é a necessidade de se passar de um regime que desconhecia
a existência desses 40 milhões de servos para um regime em que esses 40 milhões
de servos participem da vida, tenham a sua opinião… [mas há] um grupo minoritário,
que não quer que isso aconteça, mas isso acontecerá e se sucederá porque é uma
necessidade histórica!”
Julião se referia aos
40 milhões de pobres e despossuídos camponeses e trabalhadores agrícolas do
Brasil, os quais eram o centro da luta por reforma agrária no país.
Rapidamente, após essa fala, Julião foi cassado, as Ligas Camponesas foram
declaradas ilegais, e ele se escondeu na zona rural do estado de Goiás enquanto
o país entrava num período muito sombrio de 21 anos de ditadura militar.
Segundo um estudo realizado recentemente pelo pesquisador colaborador da
Universidade de Brasília (UnB) e ex-preso político Gilney Viana, no período da
ditadura, incluindo até a promulgação da Constituição de 1988, 1.654 camponeses
lutando pela terra foram mortos e desaparecidos.
No 60º aniversário do
golpe civil-militar, precisamos analisar a luta pela reforma agrária no Brasil
liderada pelas Ligas Camponesas e no período que antecedeu o golpe, e sua
história interligada com a China e a Revolução Chinesa. Este ano marca também o
quinquagésimo aniversário do estabelecimento de laços diplomáticos oficiais
entre os dois países, mas as chamadas relações povo a povo precedem em muito o
reconhecimento oficial. Foi no contexto da Guerra Fria, e da campanha
anticomunista global liderada pelos Estados Unidos, que essas duas marés
revolucionárias se encontraram, desde o interior do Nordeste brasileiro até
Pequim.
Aqui, vamos tratar da
construção da narrativa anticomunista pelos Estados Unidos e setores
conservadores do Brasil no período que antecedeu o golpe — vinculando a luta
brasileira pela reforma agrária à jovem República Popular da China (RPC); mas
em seguida da tradição da “diplomacia popular” entre os povos e organizações do
Brasil e da China, na qual a reforma agrária reaparece como fio condutor — uma
luta contínua e inacabada no Brasil.
A “ameaça comunista”
do Nordeste até a China: o temor da reforma agrária
Nas horas anteriores a
Julião fazer esse discurso, o general Olímpio Mourão Filho já tinha mobilizado
as tropas em Minas Gerais em direção ao Rio de Janeiro para derrubar o
presidente de esquerda João Goulart, o Jango. O descontentamento dos setores
conservadores e militares com o presidente havia escalado pouco antes,
culminando com o comício na Central do Brasil, no Rio de Janeiro, quando Jango
anunciou os decretos das reformas de base.
O decreto de reforma
agrária incluía a expropriação de terras improdutivas para a reforma agrária,
mas havia ainda a estatização de refinarias de petróleo e a garantia de
direitos iguais entre trabalhadores rurais e urbanos — como nos lembra o
historiador Boris Fausto, no seu História do Brasil.
Isso tudo era demais
para as elites governantes e, nos dias que se seguiram, todos os sinais de que
um golpe seria posto em marcha, a partir de convocações massivas por um
impeachment — liderado pela Igreja Católica — e, finalmente, as mobilizações
das Forças Armadas tomaram as ruas em 31 de março a 1º de abril de 1964.
Sem qualquer amparo
constitucional, o presidente do senado Auro de Moura Andrade declarou vaga a
Presidência da República, depondo Jango para, assim, empossar um novo
presidente, Ranieri Mazzilli. O presidente americano Lyndon B. Johnson enviou
“calorosos cumprimentos” a Mazzilli, apenas horas após sua posse e antes mesmo
de Jango deixar o país — para se exilar no vizinho Uruguai.
O New York Times
noticiou isso na sua primeira página do dia 03 de abril — no qual o
correspondente latino-americano, Tad Szulc, narrou os eventos como “a remoção
de uma ameaça comunista imediata”, culpando o “regime de Goulart” pelo
endividamento do Brasil, a rejeição à Aliança pelo Progresso, proposta pelos
Estados Unidos, e a suspensão da ajuda norte-americana ao país.
A resposta rápida da
Casa Branca, no entanto, não deveria surpreender, e desde então muito foi
revelado e escrito sobre o envolvimento dos Estados Unidos na desestabilização
do governo Goulart, levando à colaboração direta com os militares no golpe de
estado.
Nos anos anteriores,
os Estados Unidos prestaram muita atenção no Nordeste brasileiro, onde as Ligas
Camponesas mobilizaram multidões de camponeses em resposta à extrema
desigualdade. Maria Rita Kehl, em Camponeses e indígenas, aponta o esforço da
mídia norte-americana em equiparar o “perigo da reforma agrária” à “ameaça
comunista”, com foco para as Ligas Camponesas do Nordeste.
No artigo de outubro
1960 Northeast Brazil Poverty Breed Threat of Revolt [Pobreza no Nordeste do
Brasil gera ameaça de revolta], Tad Szulc, que então cobria a região para o New
York Times, escreveu que em algumas áreas do Nordeste, 75% dos residentes eram
analfabetos, e homens e mulheres viviam, em média, 28 e 32 anos,
respectivamente.
Naquele contexto de
desespero, afirmou Szulc, “os camponeses são cortejados” não apenas pelas Ligas
Camponesas, mas também pelos governos locais e políticos que foram apoiados ou
influenciados pelos comunistas. Esse foi apenas um artigo, entre vários publicados
na grande mídia dos Estados Unidos antes do golpe, soando o alarme sobre a
ameaça comunista no Nordeste — e eles não podiam permitir outra Cuba no seu
autoproclamado “quintal”.
As narrativas da mídia
também tiveram impactos políticos reais. Na verdade, o presidente John F.
Kennedy declarou o Nordeste do Brasil como uma prioridade máxima na Aliança
para o Progresso, um programa de “cooperação econômica” de dez anos, proposto
em 1961, para combater a influência da jovem Revolução Cubana na América
Latina.
Em 15 de julho de
1961, Kennedy declarou que nenhuma área necessitava “de atenção mais urgente do
que o vasto Nordeste brasileiro” e estabeleceu ali uma missão da Agência dos
Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) no ano seguinte.
Em 1963, essa missão
contava com mais de 133 técnicos norte-americanos empregados somente no Recife.
Por sinal, a capital de Pernambuco, estado onde também nasceu Julião — no
município de Bom Jardim, no Agreste — e onde foram fundadas as Ligas Camponesas,
recebeu visitas de alto nível dos Estados Unidos, do diretor do Peace Corps,
Sargent Shriver e, também, do então professor Henry Kissinger, do ex-candidato
presidencial Adlai Stevenson e, ainda, do diretor do Food for Peace, e futuro
candidato presidencial (1972) George McGovern.
Em 1961, a American
Broadcasting Company (ABC) enviou a cineasta Helen Jean Rogers, que tinha
ligações com a Agência Central de Inteligência (CIA), para produzir um
documentário sobre as Ligas Camponesas, Brazil: The Troubled Land [Brasil: a
terra conturbada] transmitido pela televisão pública em 1961 e lançado como
filme em 1964, no ano do golpe.
• Julião, seguidor de Fidel e Mao,
inimigos dos EUA
Ao longo dessa
cobertura midiática, a China e a Revolução Chinesa são espectros que pairavam
sobre o Nordeste. Na cena de abertura do documentário em preto e branco,
Francisco Julião faz um discurso apaixonado num comício, balançando o dedo
junto a uma tocha acesa, então começa o narrador americano:
“Este é Francisco
Julião do Brasil. Você pode não ter ouvido o nome dele, mas aprenda. Julião é o
líder camponês mais importante da América Latina, e os camponeses são a grande
maioria, mais de cem milhões. É seguidor de Fidel Castro e de Mao Zedong, inimigos
dos Estados Unidos […] Essa é a história do Nordeste do Brasil, de Francisco
Julião e dos camponeses que ele corteja na América Latina. Brasil, a terra
conturbada.”
Como narrativa
recorrente nas reportagens midiáticas, Julião é referido ao mesmo tempo que os
líderes comunistas Fidel e Mao, que não só foram retratados como predadores dos
camponeses pobres, mas também como “inimigos dos Estados Unidos”, tornando esta
região árida e empobrecida — e a luta pela reforma agrária no Brasil — num
problema de política externa dos Estados Unidos.
Szulc, em seu artigo
para o New York Times de outubro de 1960, escreveu ainda que “Fidel e Mao são
aqui representados como heróis, imitados pelos trabalhadores camponeses e
estudantes do Nordeste”, acrescentando que Julião está “atualmente visitando a
China Comunista” e que “convites para visitar a China também estão sendo
recebidos pelos líderes intelectuais, políticos e estudantes do Nordeste” —
observação que não estava longe da realidade.
• De João Goulart a Jorge Amado, passando
pelo legado de Euclides da Cunha
Desde que a RPC foi
criada em 1949, ela foi colocada sob pesados bloqueios diplomáticos e
econômicos, liderados pelos Estados Unidos — uma tática que Washington continua
a utilizar contra um quarto dos países do mundo hoje. Ao longo de uma década de
existência da RPC, ela manteve relações formais com menos de três dezenas de
países, sendo Cuba o único país nas Américas que a reconheceu, um ano após a
sua própria revolução (1960).
Naquele contexto, a
“diplomacia popular” [rénmín wàijiāo 人民外交] e a “diplomacia povo a povo” [mínjiān wàijiāo 民间外交] se
tornaram a principal estratégia não oficial de relações internacionais da RPC.
Como relata Huang
Zhiliang, em seu Zhou Enlai e a América Latina: a redescoberta do Novo Mundo
[Zhōu Enlái yǔ Lādīngměizhōu – xīndàlù de zài fāxiàn 周恩来与拉丁美洲 – 新大陆的再发现], sob a orientação do icônico primeiro-ministro Zhou Enlai, a
diplomacia popular visava construir relações com organizações amigas da China,
principalmente através de intercâmbios comerciais e culturais que contornavam
as sanções.
A construção de
associações bilaterais de amizade foi fundamental para construir relações povo
a povo. Na América Latina, a primeira associação de amizade foi fundada em 1952
no Chile, apoiada por figuras importantes como o futuro presidente Salvador Allende.
Esses movimentos organizaram eventos e facilitaram viagens em ambos os lados do
Pacífico, incluindo delegações de jornalistas, artistas, intelectuais, trupes
acrobáticas e especialistas comerciais, entre outros.
No Brasil, a
Associação de Amizade Brasil-China foi fundada no Rio de Janeiro e em São Paulo
em 1953 e 1954, respectivamente. Entre as muitas atividades, as primeiras
delegações chinesas ao Brasil incluíram uma em 1955 que visava estabelecer o
comércio direto entre a China e os países latino-americanos e outra, em 1956,
de uma trupe de performance de arte popular chinesa – como nos conta Huang
Zhiliang em seu livro. Contrariamente às tentativas do Ocidente de isolar o
recém-fundado Estado socialista, a RPC estabeleceu uma vibrante diplomacia
popular com os povos e países do Terceiro Mundo.
De acordo com relatos
dos Estados Unidos, entre 1949 e 1960, mais de 1.500 latino-americanos
visitaram a China, incluindo centenas de pessoas do Brasil. Entre os notáveis
visitantes comunistas brasileiros estavam Jorge Amado (1952, 1957), Zélia
Gattai (1952), Carlos Marighella (1953-1954), Diógenes Arruda Câmara (1956) e
Luís Carlos Prestes (1959), entre outros. No final da década, a Revolução
Cubana permitiu uma nova maré nas relações China-América Latina e Caribe.
Em Havana, a China
estabeleceu a sua primeira embaixada no hemisfério ocidental em 1960, o que
facilitou as comunicações na região. Segundo observou Cecil Johnson, no seu
Communist China & Latin America, 1959-1967, entre 1959 e 1960, a China
recebeu mais de 200 delegações de 21 países da América Latina e Caribe,
enviando mais de 24 delegações a 15 países da região. Foi no contexto do
aumento dos intercâmbios políticos, econômicos e culturais que Jango, então
vice-presidente do Brasil, bem como Francisco Julião, foram convidados a
visitar a China.
Jango chegou a Pequim
em 13 de agosto de 1961, menos de um mês depois que o presidente dos Estados
Unidos à época, John Kennedy, declarou o Nordeste do Brasil como sua principal
prioridade na América Latina. Liderando uma delegação comercial brasileira, Jango
foi recebido com as mais altas honras pelos mais altos líderes chineses do
período, Mao Zedong, Zhou Enlai e Liu Shaoqi — e visitou Pequim, Hangzhou e a
província de Guangdong (Cantão).
O vice-presidente
brasileiro foi a primeira autoridade de alto escalão da América Latina a
visitar a RPC desde a sua criação, o que atraiu a atenção não só do povo
chinês, mas também dos Estados Unidos. Ao contrário das afirmações do governo
norte-americano, da direita e dos militares brasileiros, Jango estava longe de
ser um comunista. No entanto, recebeu amplo apoio de sindicatos, partidos
políticos e movimentos sociais de massa, como as Ligas Camponesas, e estava
aberto a estabelecer laços mais fortes com os países socialistas.
Em reportagem sobre a
viagem do vice-presidente brasileiro à China, o New York Times publicou a
manchete “Goulart admira Mao da China Vermelha” e citou-o dizendo:
“Não
esperamos que as comunas do povo chinês entrem em colapso. Pelo contrário,
esperamos que prosperem, porque a prosperidade das comunas populares significa
a prosperidade da República Popular Chinesa. Esperamos que os imperialistas
fiquem desapontados, pois sua decepção é o que mais gostamos.”
O Times, como
voz-chave da burguesia norte-americana, estava preocupado com o que esta visita
assinalava, uma vez que Jango estava prestes a se tornar o próximo chefe de
Estado. Na verdade, foi durante a sua viagem de 31 dias à RPC, bem como à União
Soviética e a outras nações asiáticas, que o presidente brasileiro Jânio
Quadros renunciou após sete curtos meses no cargo.
Ao regressar da sua
viagem à Ásia, Jango assumiu a presidência, mas com poderes limitados, conforme
definidos por um novo sistema parlamentar — um compromisso imposto pelos
setores conservadores e os militares, que já estavam nervosos com as tendências
de esquerda de Jango. Como conta o documentário Jango (1984), de Silvio
Tendler, havia planos da Força Aérea para abater o avião do vice-presidente,
assim que ele entrasse no espaço aéreo brasileiro, para impedi-lo de tomar
posse como presidente.
Entre os acordos
culturais firmados na visita de Goulart à China, estava o envio de três
jornalistas chineses ao Brasil, culminando com a instalação dos escritórios
brasileiros da a0gência de notícias Xinhua no Rio de Janeiro e em São Paulo nos
próximos dois anos – como narra Celiane Ferreira da Costa, ao analisar o caso
dos nove chineses presos em 1964, após o golpe militar, dois deles,
jornalistas.
A discussão comercial
se centrou na situação agrícola do Brasil, que estava estruturada em torno da
produção de monoculturas orientada para a exportação — como forma de acesso a
divisas — e vendida a preços desfavoráveis fixados pelos mercados dos Estados
Unidos.
Estabelecer relações
comerciais mais justas com os países socialistas foi visto como uma forma de o
Brasil superar esta dependência, um problema que tem atormentado muitos países
da América Latina e do resto do Terceiro Mundo à medida que emergiram do colonialismo.
Cecil Johnson, em seu
livro sobre as relações da China e a América Latina, conta que Jango, em um
comício em Pequim no dia 17 de agosto, disse: “A China sob a liderança do
grande líder Mao Zedong é uma realidade e um exemplo que mostra como um povo,
desprezado pelos outros durante séculos passados, pode emancipar-se da jugo de
seus exploradores.”
A emancipação da
exploração colonial, feudal e capitalista foram os fios que uniram os povos
chinês e brasileiro, e talvez em nenhum lugar a ligação tenha sido mais clara
do que com as lutas camponesas do Nordeste brasileiro. O Nordeste é conhecido
pela tradição da cultura camponesa, local de passagem de artistas e músicos
folclóricos itinerantes — sanfoneiros, escritores de cordéis e cantadores.
Tal como o Partido
Comunista da China fez durante os anos que antecederam a Revolução, as Ligas
Camponesas colaboraram estreitamente com estes trabalhadores culturais para
conscientizar os camponeses e construir a organização, muitas vezes adicionando
conteúdo político às formas tradicionais locais.
Em suas investigações
na região, Tad Szulc escreveu outro artigo para o New York Times, este de
novembro de 1960, Marxists are Organizing Peasants in Brazil [Marxistas estão
organizando camponeses no Brasil], “os cantores nômades do Nordeste, que antes
cantavam os amores e os ódios do povo orgulhoso daqui, agora cantam sobre a
reforma agrária e temas políticos”.
Os cancioneiros
populares e de luta ajudaram a criar um sentimento de afinidade cultural e
política entre a revolução chinesa e a mobilização das Ligas Camponesas e a
produção agrícola do campesinato brasileiro. Da mesma forma, o intercâmbio
cultural e literário ajudou a trazer as lutas do campo brasileiro para a China.
O Nordeste brasileiro
entrou no imaginário do povo chinês logo após a criação da RPC, como parte dos
esforços para construir o entendimento e a solidariedade entre os povos da
África, da Ásia e da América Latina. Como parte da diplomacia popular da China,
a literatura e os intercâmbios literários foram vistos como fundamentais na
construção de uma luta unida contra o imperialismo, e o novo país socialista
fez enormes esforços para traduzir a literatura do Terceiro Mundo.
Nesse contexto, as
obras de Jorge Amado, o escritor comunista e baiano que ganhou o Prêmio Lênin
da Paz em 1951, começaram a ser traduzidas para o chinês, gerando um grande
efeito nas relações culturais entre os dois países, como analisou detidamente
Fan Xing.
O escritor baiano
visitou a China três vezes em 1952, 1957 e 1987. Foi o escritor
latino-americano mais publicado na China daquele período até hoje. Os romances
de Jorge Amado Terras do Sem Fim (1943) e São Jorge do Ilhéus (1944) foram
traduzidos para o mandarim em 1953 e 1954, respectivamente, trazendo a história
das lutas pela terra nas plantações de cacau da Bahia.
Jorge Amado também foi
responsável por levar, e até mesmo traduzir — indiretamente, por meio de
línguas europeias —, romances chineses ao público brasileiro, com destaque para
a publicação em 1955 de O sol brilha sobre o rio Sangkan [Tàiyáng zhào zài Sānggàn
hé shàng 太阳照在桑干河上 ] de Ding
Ling, cujo original é de 1948, pela Coleção Romances do Povo, que ele dirigia.
O sol brilha sobre o
rio Sangkan, por sinal, recebeu a maior premiação literária da União Soviética
em 1951, e foi fruto dos oito anos que a autora passou trabalhando ao lado dos
camponeses, na luta pela reforma agrária na província de Shaanxi, durante o
período que antecedeu a Revolução Chinesa.
A Coleção Romances do
Povo, como analisado por Vinícius Jubarte, foi organizada, sob a direção de
Jorge Amado pela Editora Vitória, editora filiada ao então Partido Comunista do
Brasil (PCB) — o nome e a sigla se explicam, uma vez que ainda não havia acontecido
o racha que gerou o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e o PCB. Lembrando que
Jorge Amado era militante de longa data do PCB e chegou a ser eleito deputado
federal por São Paulo em 1946, pouco antes do partido ser novamente declarado
ilegal.
Além dos romances de
Jorge Amado, outra obra literária importante na construção do imaginário do
Nordeste brasileiro foi Os Sertões de Euclides da Cunha, ele também socialista.
Em sua aclamada obra de reportagens de 1902, Euclides documentou o sangrento Massacre
de Canudos (1896-1897), no qual o Exército da jovem República Brasileira foi
enviado para destruir um assentamento e matar cerca de 25 mil sertanejos pobres
– compostos por camponeses brancos pobres, negros recentemente libertados da
escravidão e indígenas do Nordeste.
Esta história ressoou
com a própria história sangrenta, de violência no campo e imperialista, sofrida
pelas massas camponesas pobres na China. Como lembra Wang Siwei, em 1959, no
cinquentenário da morte de Cunha, o romance foi traduzido para o chinês — sob o
título de Fùdì 腹地,
isto é, “terra interior (ventre)”, uma tradução possível para “sertão” — e uma
grande conferência memorial foi realizada na China, com a presença de
escritores chineses e brasileiros.
Apesar das limitações
dos tradutores e críticos chineses na compreensão da realidade brasileira, Os
Sertões ajudou a construir um imaginário do Nordeste revolucionário do Brasil,
que foi lido ao lado da Revolução da China. Da mesma forma, romances como o de
Ding Ling ajudaram a introduzir novos entendimentos da reforma agrária e do
processo revolucionário chinês no Brasil, mas as interpretações brasileiras
também careciam de compreensão histórica ou cultural adequada.
Sem dúvida, as
traduções literárias de Jorge Amado e Ding Ling, além dos intercâmbios
políticos e culturais de Julião e Jango e foram essenciais para fortalecer as
relações povo a povo — e posicionaram as lutas pela reforma agrária e o
protagonismo do campesinato como fios centrais de ligação desses distantes
países, terras e povos.
##
* Tings Chak é
diretora de arte e pesquisadora do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social
e co-fundadora do Dongsheng News. Atualmente, ela faz doutorado na Universidade
Tsinghua e vive em Pequim.
Fonte: Por Tings Chak,
para Brasil de Fato

Nenhum comentário:
Postar um comentário