sábado, 6 de abril de 2024

Ex-secretário de Bolsonaro, relator de norma contra o aborto do CFM já defendeu abstinência sexual na adolescência

O relator da norma do Conselho Federal de Medicina (CFM) que inviabiliza a realização do aborto em casos legais, o médico ginecologista Raphael Câmara Medeiros Parente, também é a favor da abstinência sexual como método de prevenção de gravidez na adolescência

Em um artigo publicado no jornal Gazeta do Povo, em janeiro de 2020, Parente escreve sobre o assunto ao sair em defesa da então ministra Damares Alves, da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. O médico também disse que há uma “má vontade de grande parte da mídia com as propostas conservadoras”. 

“A iniciação sexual precoce, com idade aproximada aos 15 anos, está associada ao menor uso de preservativo, ao aumento de relações sexuais e de parceiros e à maior chance de DSTs e gestações indesejadas. Então, como não incluir a abstinência sexual em uma política dirigida para este público de adolescentes?”, escreveu. 

“É um modelo que ainda carece de estudos, principalmente em nosso país, já que nos últimos anos o modelo predominante de educação sexual foi o que preconiza o sexo sem freios”, disse o médico ao concluir o artigo. 

Cinco meses após a publicação do texto, Parente foi nomeado secretário de Atenção à Saúde Primária no Ministério da Saúde durante o governo de Jair Bolsonaro (PL). Foi durante a gestão anterior que foi aprovada uma portaria permitindo às equipes médicas a exibirem uma ultrassonografia dos fetos às grávidas. 

Após a repercussão negativa da portaria, tal trecho foi retirado, mas outros foram mantidos. Um deles é que os médicos precisam informar a polícia em casos de interrupção da gestação em casos de estupro. 

O histórico de atuação e defesa de Raphael Parente faz jus à relatoria feita para a norma do Conselho Federal de Medicina (CFM). No documento, o médico afirma que “a opção pela interrupção da vida humana viável não pode ser compreendida de forma simplista como liberdade ou autonomia. De forma dialética e muito clara, a liberdade para encerrar uma vida humana potencialmente viável coloca-se também como tirania da vontade, gerando o extermínio forçado de uma outra vida”. 

O documento serviu como base para a regulamentação da assistolia fetal em gestações com mais de 22 semanas. A prática consiste em paralisar a atividade elétrica e mecânica cardíaca para que o feto não seja expelido do útero com vida. O procedimento é uma recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS) para a realização do aborto em gestações acima de 20 semanas, a fim de evitar que o feto seja expelido com sinais vitais. 

Agora, a Resolução nº 2.378, divulgada em 21 de março, proíbe que médicos de todo o Brasil façam a assistolia fetal. No entanto, a legislação não determina nenhum limite de semanas de gestação para que o aborto seja solicitado nos casos previstos: resultante de violência sexual, anencefalia fetal e de risco à vida da mulher. Nesse cenário, o MPF quer saber quais foram as fundamentações técnicas e legais que levaram o CFM a publicar a resolução. As explicações devem ser dadas em cinco dias.  

 

Ø  Cresce o número de abortos fora do sistema de saúde nos EUA

 

Mais mulheres nos Estados Unidos estão fazendo abortos por fora do sistema de saúde. Isso é o que revelou um estudo publicado no dia 25 de março na revista JAMA, da Associação Médica dos EUA

Os pesquisadores analisaram o período de seis meses após a decisão da Suprema Corte que reverteu a legalização do aborto no país em 2022. Desde 1973, a prática era legal em nível federal.

“Tristemente, esse era um impacto que nós tínhamos previsto. É uma coisa que a experiência, tanto nos Estados Unidos quanto em outros países, nós conhecemos”, explicou Cristina Rosero ao Brasil de Fato. Ela é consultora jurídica do Centro por Direitos Reprodutivos.

“Sabemos que cada vez que temos uma lei restritiva dos direitos reprodutivos, muito mais mulheres não vão ter possibilidade de usar o sistema de saúde”, comenta Rosero, “[elas] vão procurar um procedimento fora. Nem todos os procedimentos fora do sistema de saúde são inseguros, mas muitos deles vão ter um risco na saúde e na vida dessas mulheres que procuram esses procedimentos”.

·        Métodos

O procedimento considerado mais seguro é o uso das pílulas abortivas, que utilizam das substâncias mifepristona e misoprostol. Nos Estados Unidos, elas são legais e vendidas em farmácias pelo país.

De acordo com a pesquisa publicada na revista JAMA, o número de abortos utilizando essas pílulas aumentou 322% no período analisado. Em 2023, os abortos feitos com uso de pílulas representara, 63% dos procedimentos totais.

“Segundo a OMS, o uso das pílulas é totalmente seguro. E tem a possibilidade de fazer um aborto nas primeiras semanas de gravidez com muita segurança, e pode ter um acompanhamento médico. Mas a mulher não precisa ir à uma clínica ou hospital, para ser atendida”, conta Rosero.

As pílulas ainda estão disponíveis nos EUA, mas não se sabe ao certo por quanto tempo. A Suprema Corte analisa um caso para suspender a aprovação dessas pílulas pelo FDA, a Anvisa dos EUA.

Caso os juízes decidam pela proibição desses medicamentos, mulheres de todo o país poderão ficar sem uma das últimas alternativas seguras para interromper a gestação.

Mas durante a argumentação na Suprema Corte, juízes que votaram pelo fim do direito ao aborto há dois anos atrás, se mostraram pouco convencidos sobre os argumentos de proibir a venda das pílulas.

“É possível argumentar que a caixa de Pandora já foi aberta”, explica a historiadora de direitos reprodutivos Karissa Haugeberg, “a pílula já é tão amplamente disponível em tantas partes do mundo que fazê-la ilegal nos EUA não significa que ela não chegará aos EUA. Mais uma vez, nós poderíamos ter um sistema onde ela é tecnicamente ilegal, no entanto disponível para aqueles que podem pagar”.

·        O aborto farmacológico não é uma novidade

A história mostra que, sendo legal ou não, medicamentos ou pseudo-medicamentos abortivos sempre circularam nos Estados Unidos - mesmo séculos antes da legalização nos anos 1970.

“Nos Estados Unidos colônia até o século 19, existiam propagandas em jornais e revistas que prometiam diferentes poções ou medicamentos herbais para se livrar de gravidez”, conta Karissa, “mulheres enviavam 5 ou 20 centavos e recebiam uma substância, geralmente poejo, que é uma erva que as vezes induz abortos, e outras vezes recebiam apenas talco que não fazia nada”.

O fim da legalização do aborto em nível nacional, diga-se de passagem, não diminuiu o número de procedimentos. Muito pelo contrário.

Entre 1981 e 2017, o número de abortos para cada mil mulheres caiu de 29,3 para 13,5. Entre 2020 e 2023, período que inclui a decisão que reverteu a legalização federal, o índice subiu de 14,4 para 15,7.

Os números podem ser ainda maiores, visto procedimentos ilegais não contabilizados que ocorrem em estados onde a interrupção da gestação se tornou crime.

“A verdade é que nenhuma legislação que seja restritiva sobre o aborto vai evitar que o aborto aconteça”, afirma Cristina Rosero, “todos os casos de leis que são desse estilo, que tem esses tipos de restrições, somente fazem com que as mulheres tenham que recorrer a métodos fora do sistema de saúde e que elas procurem o aborto de outras maneiras, que podem criar muitos riscos para a sua saúde e sua vida”.

A professora Karissa Haugeberg, da Tulane University, porém, ainda é otimista sobre o futuro.

“Como historiadora, eu fui treinada para olhar a longo prazo. Eu acho que se a gente olhar para cada decisão individual da Justiça no curto prazo, vai ser muito deprimente e vamos querer desistir. E nós sabemos, como historiadoras, que foram aquelas ativistas que continuaram lutando quando era difícil, quando não era popular, quando era arriscado… foram essas ativistas que permitiram que cruzássemos a linha de chegada com Roe”, conclui a historiadora.

 

Fonte: Brasil de Fato

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