Essequibo: Maduro promulga lei que cria
província da Venezuela em território da Guiana
O presidente Nicolás
Maduro promulgou uma lei que cria uma
província da Venezuela em
Essequibo, que é um território internacionalmente reconhecido como sendo da
Guiana. Uma cerimônia para a assinatura do
texto foi realizada na noite desta quarta-feira (3).
A Guiana respondeu quase imediatamente: disse que não permitirá a anexação de Essequibo.
A lei começou a ser discutida pela Assembleia Nacional da Venezuela no fim de 2023. À época, o país realizou um referendo no
qual 95% dos eleitores votaram a favor de que o país incorpore Essequibo ao
mapa venezuelano.
O texto, chamado de
"Lei Orgânica para a Defesa de Essequibo", tem 39 artigos e
regulamenta a fundação do estado da "Guiana Essequiba".
Um dos artigos da lei
também impede que apoiadores da posição do governo da Guiana ocupem cargos
públicos ou concorram a cargos eletivos. Em tese, esse dispositivo cria uma
barreira para qualquer pessoa que adotar medidas contrárias à anexação do
território de Essequibo pela Venezuela.
Além disso, a lei
também proíbe a divulgação do mapa político da Venezuela sem
a inclusão do território de Essequibo.
A região é disputada
pelos dois países há mais de cem anos. No entanto, o conflito escalou no ano
passado após a Venezuela realizar um referendo para questionar se os
venezuelanos são favoráveis à anexação do território. O governo brasileiro
chegou a tentar intermediar a crise.
Em dezembro, em meio a
ameaças de guerra, os presidentes dos dois países se reuniram em São Vicente e Granadinas, país do Caribe, com a
presença do assessor da Presidência para Assuntos Internacionais do Brasil,
Celso Amorim. O encontro não chegou a uma definição clara sobre a disputa, mas proibiu uso da força no
conflito.
No final de fevereiro,
o presidente Lula foi a Georgetown, capital da Guiana, para participar como
convidado da reunião da cúpula de líderes da Comunidade do Caribe (Caricom).
Após se reunir com o presidente guianês, Irfaan Ali, Lula disse que é necessário trabalhar para manter
"zona de paz" na América do
Sul e que "não precisamos de guerra".
·
Maduro fala em defender território
venezuelano
Durante a cerimônia de
promulgação da lei, Maduro afirmou que o texto aprovado pela Assembleia
Nacional foi ratificado pela Corte Suprema da Venezuela e que será cumprido ao
"pé da letra" para defender o território venezuelano no cenário
internacional.
"O tempo da
dominação colonial, o tempo da subordinação na Venezuela acabou para
sempre", disse o presidente.
Maduro também afirmou
que bases militares secretas do Comando Sul e da Agência de
Inteligência dos Estados Unidos foram instaladas em Essequibo, com o objetivo de atacar a Venezuela.
Até a última
atualização desta reportagem o governo da Guiana não havia se pronunciado sobre
o assunto.
·
Acordo
Em dezembro de
2023, Guiana e Venezuela assinaram um acordo proibindo ameaças e o uso da força no conflito envolvendo
Essequibo. Entre os pontos acordados pelos dois países estão:
- A resolução de controvérsias de acordo com o que rege o
direito internacional.
- O comprometimento em buscar coexistência pacífica e unidade
da América Latina e Caribe.
- A ciência sobre a controvérsia envolvendo a fronteira e a
decisão do Tribunal Internacional de Justiça sobre o tema.
- A continuidade do diálogo sobre questões pendentes.
- A obrigação em se abster de palavras ou ações que resultem
em escalada do conflito.
- Criação de uma comissão conjunta com ministros das Relações
Exteriores para tratar questões mutuamente acordadas.
O acordo também
estabeleceu um novo encontro para discutir o assunto no Brasil.
·
Disputa
O território de
Essequibo é disputado por Venezuela e Guiana há mais de 100 anos. Desde o
século 19, a região estava sob controle do Reino Unido, que adquiriu o controle
da Guiana em um acordo com a Holanda. A área representa 70% do atual território
da Guiana, e lá moram 125 mil pessoas.
Na Venezuela, a área é
chamada de Guiana Essequiba. É um local de mata densa e, em 2015, foi
descoberto petróleo na região.
Estima-se que na
Guiana existam reservas de 11 bilhões de barris, sendo que a parte mais
significativa é "offshore", ou seja, no mar, perto de Essequibo. Por
causa do petróleo, a Guiana é o país sul-americano que mais cresce nos últimos
anos.
Tanto a Guiana quanto
a Venezuela afirmam ter direito sobre o território com base em documentos
internacionais:
- A Guiana afirma que é a proprietária do
território porque existe um laudo de 1899, feito em Paris, no qual foram
estabelecidas as fronteiras atuais. Na época, a Guiana era um território
do Reino Unido.
- Já a Venezuela afirma que o território é dela
porque assim consta em um acordo firmado em 1966 com o próprio Reino
Unido, antes da independência de Guiana, no qual o laudo arbitral foi
anulado e se estabeleceram bases para uma solução negociada.
¨ Maduro diz que EUA instalaram “bases militares secretas” em
Essequibo na Guiana
O presidente
venezuelano Nicolás Maduro afirmou, na quarta-feira (3), ter informações de que
os Estados Unidos instalaram “bases militares secretas” em Essequibo, na
Guiana.
A declaração de Maduro
foi feita durante a cerimônia no Palácio Federal Legislativo, em Caracas, na
qual o presidente promulgou uma lei que anexa o território guianense à
Venezuela – o estado da “Guiana Essequiba”.
“Temos informações
comprovadas de que no território da Guiana Essequiba, administrado
temporariamente pela Guiana, foram instaladas bases militares secretas”,
afirmou, sem apresentar provas.
“Núcleos militares do
Comando Sul e núcleos da [agência de inteligência americana] CIA para preparar
ataques à população de [a cidade venezuelana de] Tumeremo, do sul e do leste da
Venezuela, e para preparar uma escalada contra a Venezuela”, completou.
O presidente da
Venezuela, Nicolás Maduro, promulgou a chamada Lei Orgânica para a Defesa de Essequibo, que cria uma região venezuelana dentro do território
internacionalmente reconhecido como parte da Guiana.
O texto conta com 39 artigos que regulamentam a fundação da “Guiana Essequiba”, como é
chamado o território pelos venezuelanos.
O artigo 25 da lei
promulgada impede que apoiadores do governo da Guiana ocupem cargos públicos ou
eletivos, o que cria uma camada de proteção à Venezuela contra críticos do
projeto de anexação.
A criação da lei
começou a ser discutida oficialmente em dezembro de 2023, na Assembleia Nacional, que propôs a criação de uma província
venezuelana em Essequibo.
Também em dezembro, o
governo venezuelano realizou um referendo no qual 95% dos eleitores presentes
teriam votado a favor da incorporação do território guianense à Venezuela.
O aval do referendo
daria à Venezuela a permissão para exploração petrolífera no local. As
autoridades eleitorais da Venezuela disseram que mais de 10 milhões de
venezuelanos votaram no referendo.
“Depois que o povo se
manifestou constitucionalmente em 3 de dezembro, a Assembleia Nacional fez o
que tinha que fazer, ampliou o apelo à consulta sobre a Lei Orgânica de Defesa
da Guiana Esequiba”, disse Maduro em publicação na plataforma X nesta quarta-feira.
“Com o poder que a
constituição me confere, a decisão tomada pelos venezuelanos no referendo
consultivo será cumprida em todas as suas partes e, com esta Lei,
continuaremos a defesa da Venezuela nos palcos internacionais.”
A Guiana diz que suas fronteiras não
estão sujeitas a discussão e que defenderá sua soberania.
Os Estados Unidos, por
sua vez, manifestaram o seu apoio à posição da Guiana. Em dezembro, o
Secretário de Estado Antony Blinken disse que Washington mantém o seu apelo às
partes para uma “resolução pacífica”.
O Itamaraty observa com “cautela” a decisão do presidente Nicolas Maduro de promulgar uma
lei para anexar o território de Essequibo à Venezuela.
A área de Essequibo
corresponde a dois terços do território guianense.
¨ Guiana diz que lei promulgada por Maduro é ato ilegal e não
permitirá anexação de Essequibo
A Guiana considerou
“ato ilegal” a lei promulgada pelo presidente venezuelano
Nicolás Maduro e afirmou que não permitirá a anexação do território de Essequibo pelo país vizinho.
O presidente Irfaan
Ali divulgou nas redes sociais um comunicado do governo guianense assinado pelo
Ministério das Relações Exteriores.
“A tentativa da
Venezuela de anexar mais de dois terços do território soberano da Guiana e
torná-los parte da Venezuela é uma violação flagrante dos princípios mais
fundamentais do direito internacional”, escreve o comunicado, citando as Cartas
da Organização das Nações Unidas (ONU) e da Organização dos Estados Americanos
(OEA).
“[A lei promulgada]
também contradiz o espírito da Declaração Conjunta de Argyle para o Diálogo e a
Paz entre Guiana e Venezuela, acordada em 14 de dezembro de 2023 em São Vicente
e Granadinas. Este ato ilegal põe em dúvida o dever da Venezuela de respeitar
os princípios dessa Declaração”, acrescenta.
A declaração citada no
comunicado faz referência ao encontro entre Ali e Maduro em São Vicente e Granadinas, em dezembro do ano passado, quando os dois líderes concordaram que não usariam a força
na disputa por Essequibo.
O governo da Guiana,
no comunicado de quarta (3), ainda alertou a Venezuela – bem como os países da
Comunidade do Caribe (Caricom) e da Comunidade de Estados Latino-Americanos e
Caribenhos (Celac) e os secretários-gerais da ONU e OEA – que “não permitirá a
anexação, apreensão ou ocupação de qualquer parte do seu território soberano”.
“É lamentável que o
compromisso assumido em Argyle com “a busca da boa vizinhança, da coexistência
pacífica e da unidade da América Latina e do Caribe” esteja agora novamente
seriamente ameaçado pelas palavras e ações do presidente Maduro”, conclui o texto.
Ø
Entenda o que há em Essequibo e como
começou a disputa
Localizado na parte
mais a oeste do território da Guiana, a região de Essequibo ocupa 159 mil km² e
representa cerca de 70% do território do país. Trata-se de uma área maior que o
estado do Ceará e a Inglaterra (veja no mapa abaixo).
Em 2015, foram
encontradas grandes reservas de petróleo na região. Estima-se que na Guiana
haja o equivalente a 11 bilhões de barris, parte significativa deles
"offshore", ou seja, no mar, perto de Essequibo. Em consequência do
boom do petróleo, a Guiana é o país sul-americano cuja economia mais cresce nos
últimos anos.
No entanto, a região
passou a ser cobiçada pelo governo da Venezuela que afirma ter direito sobre o
território. Em 3 de dezembro, um plebiscito para a anexação do estado chamado
pelos venezuelanos de "Guiana Essequiba" foi aprovado por 95% dos eleitores
presentes. O comparecimento equivale a metade dos eleitores venezuelanos.
Em estado de alerta,
as Forças Armadas ampliaram a presença de militares brasileiros nas duas
fronteiras com a Venezuela e com a Guiana. Isto porque seria necessário que
tropas venezuelanas passassem pelo norte de Roraima em caso de confronto. O
território brasileiro faz fronteira tanto com a Guiana quanto com a Venezuela.
As tensões continuaram
escalando. Em 7 de dezembro, os Estados Unidos anunciaram exercícios militares
na Guiana, inclusive em Essequibo. No dia seguinte, o presidente venezuelano Nicolás Maduro assinou decretos
para incorporar o território.
·
Quem mora lá?
A vasta região de
Essequibo não é habitada pelos principais grupos étnicos guianenses mais
representativos do país. Cerca de 80% dos habitantes que residem nesta área são
indígenas originários desse território, segundo o censo do país.
·
Por que a região é
importante?
Em 1885, foram
descobertas jazidas de ouro na região de Essequibo, que se localiza dentro da
Floresta Amazônica e também nos "Escudos das Guianas", uma área
exposta da crosta terrestre com muitos minerais cristalinos e rochas antigas.
O local é rico em
recursos minerais, destacando-se ouro, bauxita e urânio, e outros recursos
naturais, como os produtos da floresta e a própria água, seja para consumo,
seja como potencial hidrelétrico. O mar territorial, por sua vez, é rico em
petróleo, em especial no seu extremo ocidental, nas proximidades do delta do
rio Orinoco na Venezuela.
·
Por que a Venezuela
entende ter direito sobre a região?
O território de
Essequibo é disputado pela Venezuela e Guiana há mais de um século. Desde o fim
do século 19, está sob controle da Guiana. A região representa 70% do atual
território da Guiana e lá moram 125 mil pessoas.
A Guiana afirma que é
a proprietária do território porque existe um laudo de 1899, feito em Paris, no
qual foram estabelecidas as fronteiras atuais. Na época, a Guiana era um
território do Reino Unido.
Tanto a Guiana quanto
a Venezuela afirmam ter direito sobre o território com base em documentos
internacionais.
Já a Venezuela afirma
que o território é dela porque assim consta em um acordo firmado em 1966 com o
próprio Reino Unido, antes da independência de Guiana, no qual o laudo arbitral
foi anulado e se estabeleceram bases para uma solução negociada.
Em 2015, a disputa
ficou mais acirrada, pois a companhia americana ExxonMobil descobriu de campos
de petróleo na região.
A Guiana levou a
questão à Corte Internacional de Justiça e ao Conselho de Segurança da ONU.
·
O que acontece agora?
O referendo tinha
apenas caráter consultivo e, por isso, não é automaticamente vinculante — ou
seja, o resultado não significa que o Estado da Venezuela está autorizado a
anexar a região. Mas foi visto por Caracas como um passo a mais para tomar o
controle do território.
Tanto o resultado
quanto a realização do referendo em si desafiam a determinação da Corte Internacional de Justiça, a instância mais alta da Organização das Nações Unidas (ONU)
para julgar casos de soberania entre países. Em 1º de dezembro, os juízes do
tribunal decidiram, de forma unânime, que a Venezuela não pode fazer nenhum
movimento para tentar anexar Essequibo.
A Venezuela, no
entanto, pretende enviar representantes do governo para a região para gerenciar
recursos, principalmente minerais. O governo venezuelano concedeu autorização,
sem consulta internacional, para a estatal petrolífera PDVSA disponibilizar licenças
para a exploração de petróleo e gás na região.
·
Qual a posição do Brasil sobre isso?
Embora o Brasil
considere o conflito pouco provável, as Forças Armadas já prepararam um cenário
para essa possibilidade e aumentaram o nível de alerta na região, segundo relatou ao g1 uma fonte da Casa Civil do governo Lula.
A presença de
militares brasileiros nas duas fronteiras com a Venezuela e com a Guiana foi,
inclusive, ampliada, com veículos blindados.
O ministro da Defesa
do governo Lula, José Múcio, afirmou nesta sexta-feira (8) que o governo monitora a crise entre Venezuela e Guiana para evitar
que o Brasil seja usado como "instrumento" de um "incidente
diplomático" entre os vizinhos. O
Brasil faz fronteira com os dois países.
Fonte g1/CNN Brasil

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