segunda-feira, 8 de abril de 2024

Dislexia, TEA, TDAH, Tourette: neurodiversidade impulsiona resultados, diz estudo

A lei brasileira garante às pessoas no Transtorno do Espectro Autista (TEA) a participação no mercado de trabalho. No entanto, mesmo com o aumento das informações sobre o tema, esta inclusão ainda é um desafio. O Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo, celebrado em 2 de abril, foi criado pela ONU para difundir informações sobre o transtorno e reduzir a discriminação. Estudos já mostraram as diversas vantagens de se ter uma equipe profissional diversa.

No Brasil, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 85% dos profissionais com algum grau de autismo estão fora do mercado. Além do preconceito, há dificuldade dos gestores em identificar talentos, adaptar o ambiente e treinar equipes para acolher esses profissionais. As pessoas com TEA exibem condições caracterizadas por algum grau de dificuldade na interação social, padrões atípicos de atividades e comportamentos repetitivos, podendo apresentar um repertório restrito de interesses e atividades.

Apesar das dificuldades, o relatório ‘A diversidade vence: como a inclusão é importante’, produzido pela consultoria empresarial McKinsey, demonstrou que equipes neurodivergentes superam as homogêneas em 36% em termos de rentabilidade. “Integrar profissionais neurodivergentes é uma forma de trazer novas visões, inovações e alavancar o negócio”, afirmou o CEO da Otimiza Benefícios, Anderson Belem.

“A inclusão dos neurodivergentes não deve ser vista como um favor ou ação social, mas como estratégia para aumentar os ganhos.”

•                                             Anderson Belem, CEO da Otimiza Benefícios

Diagnosticado com TDAH apenas aos 40 anos, Belem sentiu na pele o que é ser diferente. “Trilhei um caminho repleto de mal-entendidos e oportunidades perdidas até a fundação da minha empresa, que nasceu justamente dessa visão diferenciada das coisas e levou à reengenharia no modelo de benefício do vale-transporte, poupando milhões de recursos que eram desperdiçados anualmente”, afirmou.

Atualmente, cerca de 15% da população mundial é classificada como neurodivergente. São pessoas que, em situações específicas, respondem de forma diferente ao que seria o padrão esperado, o que pode provocar até mesmo dificuldades de adaptação. Dislexia, TEA, TDAH e síndrome de Tourette são alguns exemplos. “É preciso desmistificar a neurodivergência no mercado de trabalho e apresentar os benefícios da pluralidade e diversidade acima de tudo. A verdadeira superação está em aceitar as singularidades e entender que a inovação nasce da diversidade”, disse Belem.

Para Valmir Santos, CEO da Biomob, startup especializada em consultoria e soluções de acessibilidade, as empresas precisam priorizar a pluralidade, no entanto, a realidade ainda está muito longe de alcançar a inclusão de pessoas neurodivergentes. “Seja no ambiente corporativo ou escolar, é necessário desenvolver estruturas e ferramentas, além de contar com uma cultura de acolhimento social adequada para que isso ocorra”, afirmou.

Santos apontou ser comum no ambiente de trabalho que a equipe subestime a capacidade e aptidão de pessoas com deficiência, o que é traduzido pelo capacitismo. “O debate sobre o descumprimento da legislação que garante o direito e participação plena da pessoa com deficiência na sociedade ainda é pobre e isso se dá muito por conta do capacitismo, que acontece quando a deficiência é posta acima da pessoa. Ele é traduzido por situações como um olhar de pena, uma pergunta invasiva, ou uma tentativa de elogio e manifesta preconceito no dia a dia”, disse Santos.

GANHOS

Para o especialista em governança corporativa Roberto Gonzalez. os traços neurodivergentes se manifestam de diferentes maneiras, em diferentes graus e podem representar ganhos às organizações quando bem direcionados.

Uma das características dos profissionais com TEA é o hiperfoco, que faz com que sejam mais detalhistas e analíticos, habilidades que são de extremo valor para áreas como TI, por exemplo.

Além disso, são mais produtivos quando contam com rotina e um bom planejamento. “É preciso desmistificar uma série de estereótipos quando falamos de contratar uma pessoa autista. O alto escalão da empresa deve se envolver na questão para entender o perfil do profissional e atribuir funções que estejam relacionadas às suas habilidades pessoais e ao seu foco de interesse. Dentro desta visão, todos tendem a ganhar”, disse.

DADOS CONSERVADORES

• De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), existem cerca de 70 milhões de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) no mundo. As estimativas oficiais apontam que o transtorno está presente em 2 milhões de brasileiros. Esses números, no entanto, podem ser conservadores, pois muitos não recebem o diagnóstico correto na infância e atingem a vida adulta sem saber que tem TEA.

• O relatório do CDC (Centers for Disease Control and Prevention) de 2023 sobre Autismo, retrata que uma em cada 36 crianças aos 8 anos de idade é diagnosticada com TEA nos EUA. Se a estatística for extrapolada para a população brasileira, o número pode chegar a quase 6 milhões de pessoas. No Censo de 2022 o tema foi incluído pela primeira vez, mas os resultados ainda não foram divulgados pelo IBGE.

PROTEÇÃO

A lei 2.764 de 27 de dezembro de 2012 (conhecida como Lei Berenice Piana) instituiu a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa TEA. Sua inserção no trabalho também é garantida pela lei de Cotas para Pessoas com Deficiência (8.213/91). A legislação determina as proporções para empregar pessoas com deficiência, que variam de acordo com a quantidade de funcionários (de 100 a 200 empregados, a reserva legal é de 2%; de 201 a 500, de 3%; de 501 a 1.000, de 4% e acima de 1.001, 5%).

 

                                            Benefícios das atividades físicas para o TDAH

 

É fato que manter o corpo em movimento faz bem para a saúde de centenas de formas diferentes. Mas você sabia que também existem diversos benefícios das atividades físicas para o TDAH?

Psicóloga especialista em TDAH e em neuropsicologia pela FMUSP, Rosângela Batista explica que o TDAH (transtorno de déficit de atenção e hiperatividade) é causado por um desequilíbrio de neurotransmissores, como a dopamina e a noradrenalina.

“Os fatores que ocasionam este desequilíbrio neuroquímico podem ser hereditários ou até mesmo por parto prematuro, lesões cerebrais e uso de álcool ou tabagismo na gestação”, ela aponta.

E continua: “Ele é caracterizado pela falta de atenção, dificuldade no controle de emoções e na conclusão de tarefas, e hiperatividade contínua – características que são essenciais na prática de esporte”. Mas como a prática de esportes pode ajudar a controlar a hiperatividade? Ela explica a seguir.

•                                             Benefícios das atividades físicas para o TDAH

De acordo com Rosângela, a prática de exercícios físicos ajuda a equilibrar a química do cérebro através da liberação de neurotransmissores, como a dopamina, que é um déficit do TDAH. Sendo assim, manter um bom condicionamento físico pode melhorar os sintomas do quadro.

“A maioria dos estudos de adultos com TDAH utiliza protocolos de exercícios aeróbicos. Mas é ainda mais benéfico incluir uma combinação de treinamento aeróbico e de resistência para maximizar os benefícios gerais à saúde”, aponta a psicóloga.

Ela explica que, para jovens com TDAH, o exercício intencional é menos importante do que a quantidade total de atividade física que realiza todos os dias.

“Isso acontece pois, após a liberação de dopamina, há a liberação de prazer e recompensa, garantindo uma melhor performance. Além disso, a realização de esportes traz uma melhora na função cognitiva do corpo humano, ajudando no controle de tempo, na organização de tarefas e na concentração através da liberação de energia retida no corpo essencial para o controle da hiperatividade.”

Segundo a profissional, o exercício físico também está diretamente ligado ao meio comportamental, estimulando convívio social, melhoria na ansiedade e na depressão e também no controle da agressividade. “Outra área do corpo que é altamente beneficiada com a prática dos exercícios físicos é o sistema circulatório, aumentando o fluxo de sangue no cérebro, que colabora com a habilidade de pensar”, ressalta.

Assim, com tais benefícios, o esporte aparece como uma ótima opção para o controle do TDAH.

“É recomendado que a prática de exercícios seja feita a partir da avaliação médica, buscando o melhor plano de treinamento de acordo com a necessidade do diagnóstico. Consultas com psicólogo ou psiquiatra também são recomendadas durante a prática”, ela finaliza.

 

Fonte: IstoÉ/Boa Forma

 

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