CALIXCOCA: Como funciona a vacina
brasileira contra a cocaína
Pesquisadores
brasileiros desenvolveram, no ano passado, uma vacina contra o uso de
cocaína, droga usada por cerca de 22 milhões de pessoas em 2021, segundo
estimativa da Organização das Nações Unidas (ONU).
A vacina foi
desenvolvida por cientistas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)
e chegou a ganhar o Prêmio Euro Inovação na Saúde em
outubro do ano passado, que resultou em 500
mil euros (cerca de R$ 2,6 milhões), investidos nos estudos sobre a vacina.
O medicamento
já passou pela fase de testes pré-clínicos, com ratos e primatas. Agora,
espera pelo teste em humanos e, se aprovada, a vacina brasileira pode ser
a primeira anticocaína e antidrogas no mundo.
·
Como funciona a vacina?
Chamada
de Calixcoca, a vacina é uma alternativa terapêutica contra a
dependência química da cocaína. Ela funciona bloqueando a passagem da
substância até o cérebro através da produção de anticorpos.
Desse modo, os
usuários não iriam sentir a sensação gratificante que a cocaína provoca quando
ativa a “área de recompensa” do cérebro. Isso poderia impedir o vício e a
dependência de drogas.
Para o professor
Frederico Duarte Garcia, que liderou os estudos, a vacina possibilita a
reinserção do dependente químico na sociedade. "Os nossos estudos
pré-clínicos comprovam a segurança e eficácia do
imunizante nessa aplicação. Ela aporta uma solução que propicia
aos pacientes com dependência voltar a realizar seus sonhos”, afirmou.
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Há risco de overdose?
De acordo com o
terapeuta Hanspeter Eckert, ouvido pelo site DW News, a vacina
poderia vir a causar uma overdose caso sua primeira aplicação não fizesse
efeito, e o usuário precisasse tomar uma dose mais alta, o que
sobrecarregaria seu sistema.
Já Marica Ferri,
do Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência, defende que a cocaína
em si não é um problema, mas sim seus efeitos físicos e mentais. Ela
acredita que a vacina deve ser aplicada somente em usuários que já estão em terapias,
pois não teria benefício em pessoas que não têm nenhum tipo de acolhimento.
·
Público-alvo
Garcia advertiu que a
vacina não seria como uma "panaceia, sendo aplicada em um público-alvo
específico, que deve ser definido após conclusão dos estudos.
"Ela não seria indicada indiscriminadamente para todas as
pessoas com transtorno por uso de cocaína", afirmou, em entrevista ao
Portal UFMG. "É preciso fazer uma avaliação científica para
identificar com precisão como ela funcionaria e para quem, de fato, ela seria
eficaz”, alertou.
O pesquisador também
reforçou a importância do acompanhamento terapêutico junto com a aplicação da
substância. “Usada em conjunto com a psicoterapia e medicamentos,
essa nova vacina seria uma estratégia importante", declarou à Veja.
·
Como surgiu a vacina contra a cocaína?
Em entrevista ao Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico, do
governo federal, Garcia contou que a ideia para desenvolver uma vacina
contra a dependência química de cocaíba surgiu em 2014, quando o
Ministério Público Estadual exigiu que os médicos deveriam declarar as
grávidas dependentes para que seus filhos fossem a adoção. "Nosso
ambulatório, de uma hora para outra, inundou-se
de mulheres que, infelizmente, eram dependentes
e estavam grávidas. Elas queriam, de alguma forma, manter a gravidez
e a maternidade, inclusive como forma de superar a
dependência", disse.
A partir dali, os
pesquisadores resolveram testar a nova estratégia. "Procuramos o
professor Ângelo de Fátima , do departamento de
Química da UFMG, que sintetizou uma molécula nova que se
mostrou eficaz nas ratas grávidas". Os testes mostraram que
os animais, recebendo cocaína de forma regular, tinham ganho de peso
maior se comparado aos não vacinadas, menos abortos
espontâneos e uma prole maior. Além disso, os ratinhos
nasciam com os anticorpos para a cocaína e
sentiam menos o efeito da droga, o que mostra que o efeito,
provavelmente, é transmitido de uma geração para
outra por via placentária e pelo leite materno.
Ø
Por que ainda não existe um antiviral para
o tratamento da dengue?
A dengue ainda
não tem um tratamento específico, ou seja, não existe um medicamento que atue
combatendo a ação do vírus no organismo, como um antiviral. Atualmente, o
tratamento é baseado no uso de remédios que aliviam os sintomas, no repouso e
na hidratação. Mas por que ainda não existe um medicamento específico para uma
doença tão comum no Brasil e em outros países sul-americanos?
De acordo com José
Cerbino Neto, médico pesquisador do IDOR (Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino)
e membro da câmara técnica de assessoramento em Emergências em Saúde Pública no
Ministério da Saúde, existem diversos desafios para o desenvolvimento de
um antiviral para a dengue.
“Os primeiros desafios
estão relacionados a todas as infecções virais agudas, porque, nelas, o período
de replicação viral é muito curto”, afirma o pesquisador. Ele explica que, no
caso da dengue, o vírus se multiplica no organismo antes de surgirem os primeiros
sintomas e, depois que os sinais físicos se manifestam (como a dor atrás dos
olhos, febre e outros sintomas típicos), ele se multiplica por pouco tempo a
mais.
“As consequências mais
graves da dengue ocorrem quando o vírus não está mais se replicando no
organismo”, afirma. “Então, nesse momento, o antiviral já não vai mais fazer
efeito na prevenção da doença grave. Ou seja, a janela de tempo para fazermos o
tratamento antiviral é muito curto, o que faz com que seja muito difícil
desenvolver boas alternativas para o tratamento desse tipo de infecção”,
completa.
No caso da dengue, há
ainda outros desafios a serem enfrentados para o desenvolvimento de um
antiviral. Um deles é o fato de existirem quatro sorotipos diferentes do vírus da dengue, com genótipos divergentes entre si. “Isso dificulta ainda mais
a busca de um tratamento que seja universal, que possa tratar bem todos os
casos de dengue dentro dessa pequena janela de tempo para que o tratamento seja
útil”, afirma Cerbino Neto.
Como está o
desenvolvimento de antivirais para a dengue atualmente?
Atualmente, existem
medicamentos em desenvolvimento e em fase de testes clínicos para o
tratamento da dengue. Porém, nenhum deles foi aprovado para uso até o
momento.
Recentemente, um
antiviral desenvolvido pela Janssen, farmacêutica da Johnson e Johnson,
demostrou um efeito contra o vírus da dengue em testes clínicos com humanos.
Os resultados iniciais foram apresentados em outubro do ano passado no Encontro
Anual da Sociedade Americana de Medicina Tropical e Higiene, em Chicago, nos
Estados Unidos.
O trabalho mostrou que
o medicamento JNJ-1802 induziu uma atividade inédita contra o vírus
no organismo, além de ter se mostrado seguro e bem tolerado pelos participantes
do estudo. Com isso, o medicamento avançou para a próxima fase de estudos,
que pretende estabelecer a eficácia em voluntários de 10 países, incluindo o
Brasil.
Um outro fármaco
também está sendo desenvolvido por pesquisadores da Universidade Stanford, nos
Estados Unidos, e será testado em camundongos ainda neste ano. Quem está à
frente deste projeto é o cientista americano Jeffrey Glenn, um dos criadores do
conjunto de drogas contra a hepatite C. Inclusive, o projeto inclui
pesquisadores do programa Ciência Pioneira, ligado ao Instituto D’Or.
“De uma maneira geral,
esses medicamentos que estão sendo estudados buscam impedir a replicação do
vírus. Ou seja, eles podem atuar inibindo a síntese de proteínas do vírus ou
podem atuar impedindo que o vírus faça a entrada na célula humana”, esclarece Cerbino
Neto.
O pesquisador explica
que existem antivirais já em fase final de desenvolvimento clínico, mas
ainda são necessários os resultados dessas últimas etapas de testes — que são
realizados em humanos — para assegurar a segurança e a eficácia dos fármacos.
·
Quais são as etapas de desenvolvimento de
um antiviral?
Para o desenvolvimento
de um antiviral, são necessárias várias etapas. A primeira delas é
o desenvolvimento in vitro, em que moléculas são testadas em
ambiente laboratorial para analisar sua capacidade de inibir a replicação do
vírus.
Em seguida,
os estudos são feitos em modelos animais, como os camundongos. Nessa
etapa, o objetivo é analisar se a ação da molécula na inibição a replicação do
vírus, vista em laboratório, também acontece em um modelo vivo. Logo após, são
iniciados os testes clínicos em seres humanos. Esses testes são divididos
em três fases principais:
- Fase 1: Avalia a segurança do medicamento. Para isso, é
utilizado um número pequeno de voluntários saudáveis;
- Fase 2: Avalia a eficácia do medicamento. Para isso, um
número maior de voluntários é submetido aos testes. Geralmente, o estudo
inclui pessoas infectadas com o vírus (como, por exemplo, o da dengue)
para observar se o remédio funciona no combate à infecção;
- Fase 3: Testes clínicos feitos em uma amostra maior de
voluntários, envolvendo participantes de vários países. O objetivo é
avaliar a eficácia e segurança do medicamento em diferentes populações. É
nessa fase que eficácia precisa do fármaco é calculada.
“Atualmente, existem
medicamentos que estão na fase 2 e outros que estão na fase 3. Se eles
demonstrarem que funcionam bem para tratar a dengue, eles são submetidos para
as agências reguladoras [no caso do Brasil, a Anvisa (Agência Nacional de
Vigilância Sanitária)] para receber a aprovação e poderem ser oferecidos para
toda a população”, afirma Cerbino Neto.
De acordo com o
especialista, o tempo de desenvolvimento de um antiviral pode variar de acordo
com cada etapa do processo. Desde o teste em laboratório até a
aprovação, pode levar, em geral, cerca de 10 anos. Na visão do
pesquisador, por terem já medicamentos contra a dengue em fase final de estudo,
“pode ser que tenhamos uma opção disponível em um horizonte curto de tempo”.
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O antiviral para a dengue soluciona uma
epidemia?
Somente em 2024, o
Brasil já somou mais de 2,5 milhões de casos de dengue e mais de 900 mortes confirmadas
pela doença, segundo dados do Ministério da Saúde. Uma
das principais formas de prevenir a doença é a vacina contra a dengue, que já
está disponível no SUS (Sistema Único de Saúde) e está sendo aplicada em
crianças e adolescentes entre 10 e 14 anos, no momento.
Na visão de Cerbino
Neto, o antiviral servirá para impedir o desenvolvimento de doenças graves
e óbitos em decorrência da dengue. “O antiviral não vai impedir que as pessoas
se infectem, o que faz isso é a vacina. Mas ele poderá impedir que elas fiquem
muito doentes, tenham formas graves da doença ou que, eventualmente, morram”,
afirma.
Fonte: Fórum/CNN
Brasil

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