sexta-feira, 5 de abril de 2024

CALIXCOCA: Como funciona a vacina brasileira contra a cocaína

Pesquisadores brasileiros desenvolveram, no ano passado, uma vacina contra o uso de cocaína, droga usada por cerca de 22 milhões de pessoas em 2021, segundo estimativa da Organização das Nações Unidas (ONU).

A vacina foi desenvolvida por cientistas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e chegou a ganhar o Prêmio Euro Inovação na Saúde em outubro do ano passado, que resultou em 500 mil euros (cerca de R$ 2,6 milhões), investidos nos estudos sobre a vacina.

O medicamento já passou pela fase de testes pré-clínicos, com ratos e primatas. Agora, espera pelo teste em humanos e, se aprovada, a vacina brasileira pode ser a primeira anticocaína e antidrogas no mundo.

·        Como funciona a vacina?

Chamada de Calixcoca, a vacina é uma alternativa terapêutica contra a dependência química da cocaína. Ela funciona bloqueando a passagem da substância até o cérebro através da produção de anticorpos. 

Desse modo, os usuários não iriam sentir a sensação gratificante que a cocaína provoca quando ativa a  “área de recompensa” do cérebro. Isso poderia impedir o vício e a dependência de drogas. 

Para o professor Frederico Duarte Garcia, que liderou os estudos, a vacina possibilita a reinserção do dependente químico na sociedade. "Os nossos estudos pré-clínicos comprovam a segurança e eficácia do imunizante nessa aplicação. Ela aporta uma solução que propicia aos pacientes com dependência voltar a realizar seus sonhos”, afirmou.

·        Há risco de overdose?

De acordo com o terapeuta Hanspeter Eckert, ouvido pelo site DW News, a vacina poderia vir a causar uma overdose caso sua primeira aplicação não fizesse efeito, e o usuário precisasse tomar uma dose mais alta, o que sobrecarregaria seu sistema. 

Já Marica Ferri, do Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência, defende que a cocaína em si não é um problema, mas sim seus efeitos físicos e mentais. Ela acredita que a vacina deve ser aplicada somente em usuários que já estão em terapias, pois não teria benefício em pessoas que não têm nenhum tipo de acolhimento.

·        Público-alvo

Garcia advertiu que a vacina não seria como uma "panaceia, sendo aplicada em um público-alvo específico, que deve ser definido após conclusão dos estudos. "Ela não seria indicada indiscriminadamente para todas as pessoas com transtorno por uso de cocaína", afirmou, em entrevista ao Portal UFMG. "É preciso fazer uma avaliação científica para identificar com precisão como ela funcionaria e para quem, de fato, ela seria eficaz”, alertou.

O pesquisador também reforçou a importância do acompanhamento terapêutico junto com a aplicação da substância. “Usada em conjunto com a psicoterapia e medicamentos, essa nova vacina seria uma estratégia importante", declarou à Veja.

·        Como surgiu a vacina contra a cocaína?

Em entrevista ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, do governo federal, Garcia contou que a ideia para desenvolver uma vacina contra a dependência química de cocaíba surgiu em 2014, quando o Ministério Público Estadual exigiu que os médicos deveriam declarar as grávidas dependentes para que seus filhos fossem a adoção. "Nosso ambulatório, de uma hora para outra, inundou-se de mulheres que, infelizmente, eram dependentes e estavam grávidas. Elas queriam, de alguma forma, manter a gravidez e a maternidade, inclusive como forma de superar a dependência", disse.

A partir dali, os pesquisadores resolveram testar a nova estratégia. "Procuramos o professor Ângelo de Fátima , do departamento de Química da UFMG, que sintetizou uma molécula nova que se mostrou eficaz nas ratas grávidas". Os testes mostraram que os animais, recebendo cocaína de forma regular, tinham ganho de peso maior se comparado aos não vacinadas, menos abortos espontâneos e uma prole maior. Além disso, os ratinhos nasciam com os anticorpos para a cocaína e sentiam menos o efeito da droga, o que mostra que o efeito, provavelmente, é transmitido de uma geração para outra por via placentária e pelo leite materno.

 

Ø  Por que ainda não existe um antiviral para o tratamento da dengue?

 

A dengue ainda não tem um tratamento específico, ou seja, não existe um medicamento que atue combatendo a ação do vírus no organismo, como um antiviral. Atualmente, o tratamento é baseado no uso de remédios que aliviam os sintomas, no repouso e na hidratação. Mas por que ainda não existe um medicamento específico para uma doença tão comum no Brasil e em outros países sul-americanos?

De acordo com José Cerbino Neto, médico pesquisador do IDOR (Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino) e membro da câmara técnica de assessoramento em Emergências em Saúde Pública no Ministério da Saúde, existem diversos desafios para o desenvolvimento de um antiviral para a dengue.

“Os primeiros desafios estão relacionados a todas as infecções virais agudas, porque, nelas, o período de replicação viral é muito curto”, afirma o pesquisador. Ele explica que, no caso da dengue, o vírus se multiplica no organismo antes de surgirem os primeiros sintomas e, depois que os sinais físicos se manifestam (como a dor atrás dos olhos, febre e outros sintomas típicos), ele se multiplica por pouco tempo a mais.

“As consequências mais graves da dengue ocorrem quando o vírus não está mais se replicando no organismo”, afirma. “Então, nesse momento, o antiviral já não vai mais fazer efeito na prevenção da doença grave. Ou seja, a janela de tempo para fazermos o tratamento antiviral é muito curto, o que faz com que seja muito difícil desenvolver boas alternativas para o tratamento desse tipo de infecção”, completa.

No caso da dengue, há ainda outros desafios a serem enfrentados para o desenvolvimento de um antiviral. Um deles é o fato de existirem quatro sorotipos diferentes do vírus da dengue, com genótipos divergentes entre si. “Isso dificulta ainda mais a busca de um tratamento que seja universal, que possa tratar bem todos os casos de dengue dentro dessa pequena janela de tempo para que o tratamento seja útil”, afirma Cerbino Neto.

Como está o desenvolvimento de antivirais para a dengue atualmente?

Atualmente, existem medicamentos em desenvolvimento e em fase de testes clínicos para o tratamento da dengue. Porém, nenhum deles foi aprovado para uso até o momento.

Recentemente, um antiviral desenvolvido pela Janssen, farmacêutica da Johnson e Johnson, demostrou um efeito contra o vírus da dengue em testes clínicos com humanos. Os resultados iniciais foram apresentados em outubro do ano passado no Encontro Anual da Sociedade Americana de Medicina Tropical e Higiene, em Chicago, nos Estados Unidos.

O trabalho mostrou que o medicamento JNJ-1802 induziu uma atividade inédita contra o vírus no organismo, além de ter se mostrado seguro e bem tolerado pelos participantes do estudo. Com isso, o medicamento avançou para a próxima fase de estudos, que pretende estabelecer a eficácia em voluntários de 10 países, incluindo o Brasil.

Um outro fármaco também está sendo desenvolvido por pesquisadores da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, e será testado em camundongos ainda neste ano. Quem está à frente deste projeto é o cientista americano Jeffrey Glenn, um dos criadores do conjunto de drogas contra a hepatite C. Inclusive, o projeto inclui pesquisadores do programa Ciência Pioneira, ligado ao Instituto D’Or.

“De uma maneira geral, esses medicamentos que estão sendo estudados buscam impedir a replicação do vírus. Ou seja, eles podem atuar inibindo a síntese de proteínas do vírus ou podem atuar impedindo que o vírus faça a entrada na célula humana”, esclarece Cerbino Neto.

O pesquisador explica que existem antivirais já em fase final de desenvolvimento clínico, mas ainda são necessários os resultados dessas últimas etapas de testes — que são realizados em humanos — para assegurar a segurança e a eficácia dos fármacos.

·        Quais são as etapas de desenvolvimento de um antiviral?

Para o desenvolvimento de um antiviral, são necessárias várias etapas. A primeira delas é o desenvolvimento in vitro, em que moléculas são testadas em ambiente laboratorial para analisar sua capacidade de inibir a replicação do vírus.

Em seguida, os estudos são feitos em modelos animais, como os camundongos. Nessa etapa, o objetivo é analisar se a ação da molécula na inibição a replicação do vírus, vista em laboratório, também acontece em um modelo vivo. Logo após, são iniciados os testes clínicos em seres humanos. Esses testes são divididos em três fases principais:

  • Fase 1: Avalia a segurança do medicamento. Para isso, é utilizado um número pequeno de voluntários saudáveis;
  • Fase 2: Avalia a eficácia do medicamento. Para isso, um número maior de voluntários é submetido aos testes. Geralmente, o estudo inclui pessoas infectadas com o vírus (como, por exemplo, o da dengue) para observar se o remédio funciona no combate à infecção;
  • Fase 3: Testes clínicos feitos em uma amostra maior de voluntários, envolvendo participantes de vários países. O objetivo é avaliar a eficácia e segurança do medicamento em diferentes populações. É nessa fase que eficácia precisa do fármaco é calculada.

“Atualmente, existem medicamentos que estão na fase 2 e outros que estão na fase 3. Se eles demonstrarem que funcionam bem para tratar a dengue, eles são submetidos para as agências reguladoras [no caso do Brasil, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária)] para receber a aprovação e poderem ser oferecidos para toda a população”, afirma Cerbino Neto.

De acordo com o especialista, o tempo de desenvolvimento de um antiviral pode variar de acordo com cada etapa do processo. Desde o teste em laboratório até a aprovação, pode levar, em geral, cerca de 10 anos. Na visão do pesquisador, por terem já medicamentos contra a dengue em fase final de estudo, “pode ser que tenhamos uma opção disponível em um horizonte curto de tempo”.

·        O antiviral para a dengue soluciona uma epidemia?

Somente em 2024, o Brasil já somou mais de 2,5 milhões de casos de dengue e mais de 900 mortes confirmadas pela doença, segundo dados do Ministério da Saúde. Uma das principais formas de prevenir a doença é a vacina contra a dengue, que já está disponível no SUS (Sistema Único de Saúde) e está sendo aplicada em crianças e adolescentes entre 10 e 14 anos, no momento.

Na visão de Cerbino Neto, o antiviral servirá para impedir o desenvolvimento de doenças graves e óbitos em decorrência da dengue. “O antiviral não vai impedir que as pessoas se infectem, o que faz isso é a vacina. Mas ele poderá impedir que elas fiquem muito doentes, tenham formas graves da doença ou que, eventualmente, morram”, afirma.

 

Fonte: Fórum/CNN Brasil

 

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