Byung-Chul
Han e a “crise da narração”
Um
dos grandes esforços da filosofia de Byung-Chul Han é esmiuçar as engrenagens
que constituem a existência humana sob o capitalismo neoliberal. Em A crise da
narração, o aspecto da vida contemporânea examinado diz respeito ao seguinte
diagnóstico: o excesso de referências, em vários tipos de discurso, à noção de
“narrativa”, assim como a moda do “storytelling”, são exatamente o sintoma de
uma crise narrativa. A época que tanto fala em narrativas é, na verdade, uma
época pós-narrativa.
Han
parte de uma constatação que é de ordem fundamentalmente antropológica, mas que
é explicitada apenas ao fim de seu ensaio: o ser humano é um “animal narrans”,
para quem “viver é narrar” (p. 132). Mas o que se entende por “narração”?
A
narração transforma o ser-no-mundo em um estar-em-casa, ancorando-nos
solidamente no ser, com isso dando à vida “significação, apoio e orientação”:
trata-se de uma “técnica simbólica de abrigo” (p.11), uma “forma de desfecho”
que “constrói uma ordem fechada que cria significado e identidade” (p.12).
Narrações criam comunidades e conectam pessoas “na medida em que fomentam a
capacidade de empatia” (p. 13); elas produzem um contínuo temporal e
“transformam o acaso em necessidade” (p. 14).
Por
meio de uma argumentação que opera no interior de antinomias bem estabelecidas,
Han — tendo, ao longo de todo o ensaio, Benjamim como seu interlocutor
privilegiado e já de saída retomando suas famosas reflexões sobre o narrador —
mostrará como, já desde a modernidade, a narração entra em uma crise que atinge
seu paroxismo na modernidade tardia, encarnada no regime neoliberal
contemporâneo.
Possuímos
hoje uma “consciência narrativa” que só se torna possível justamente em uma
época pós-narrativa: é assim que, quando se percebe o caráter de construção
presente em uma narrativa, ela perde “sua gravitação, seu mistério, sua magia”,
“seu momento interno de verdade”, e passa a ser entendida como “contingente,
substituível e mutável”, deixando, assim, de ser “vinculante e unificadora” (p.
10). Além disso, a dissolução de fronteiras, típica da modernidade tardia,
manifesta-se também no âmbito da narração por meio de aberturas que implodem o
elemento de conclusão e de encerramento que lhe são próprios, a que nos
referimos acima.
Se
nos tempos pré-modernos a própria vida “estava ancorada em narrações” (p. 62),
se na modernidade a pura facticidade da vida desnuda, que deixa então de ser
narrável, podia ser contrabalanceada pela narração (é essa a conclusão a que,
lembra-nos Han, chega o protagonista de A náusea), na modernidade tardia essa
vida “sem rima nem razão” carece de “qualquer fantasia narrativa” (p. 66).
Hoje, “as informações não se deixam vincular em uma narração. Com isso, as
coisas se desfazem. O contexto significativo cede seu lugar à justaposição e à
sucessão sem sentido dos acontecimentos” (p. 66). O que então passa a ser
utilizado para o encobrimento do vazio de sentido da vida é, em vez do narrar,
o postar, como examinaremos mais adiante.
Vemos
assim como o grande antípoda da narração é a informação. Sempre acompanhando
Benjamin, Han mostra como “ser e informação são mutuamente excludentes”, daí a
“carência de ser” (p. 14) da sociedade da informação. Se a narração oferece um
sentido — inclusive na acepção de “direção” —, em uma sociedade dominada pela
informação encontramo-nos bem informados, mas desorientados. A informação,
portanto, intensifica a experiência da contingência. Aditiva e cumulativa, ela
se reduz à curiosidade e ao interesse pelo que está próximo, tornando tudo
disponível e, com isso, dispensando o olhar longo, lento e contemplativo que só
pode operar nas distâncias. Mas isso não significa dizer que a ausência de
afastamento própria da informação crie proximidade, pois, se não há distância,
não pode haver proximidade, na medida em que distância e proximidade se
condicionam mutuamente.
A
lógica da informação convida a uma hiperatividade de ordem comunicacional que
impede que o tédio — “o pássaro de sonhos que choca os ovos da experiência” (p.
25), segundo Benjamin — possa aparecer. Com essa sobrecarga de nossos órgãos de
percepção, não podemos atingir a “profunda distensão psíquica” que apenas o
ócio nos oferece e que é a condição necessária para que a narração possa
emergir.
À
informação contrapõe-se a figura narrativa da “notícia” (aqui, claro, não no
sentido midiático do termo) ¬– essa, sim, inserida em uma história e com uma
estrutura espaço-temporal marcada pela distância, à qual estamos entregues
“como a um poder do destino” (p. 18). A notícia tem uma amplitude temporal e
narrativa que a relaciona ao porvir. Nesse sentido, o narrador se contrapõe ao
repórter. Enquanto o último se move no âmbito da explicação e da explicitação,
que torna tudo disponível, o primeiro retém explicações de modo a aumentar a
tensão narrativa e o mistério. Pois “narrar é um jogo de luz e sombra, do
visível e do invisível, da proximidade e distância” (p. 86). Já a informação
tem como marca fundamental a transparência. Han fala, nesse ponto, do “inferno
da transparência” — uma nova figura do inferno em sua obra, que nos remete ao
“inferno do igual”, conceito utilizado em obras anteriores para se referir à
pseudodiversidade — à diversidade sem alteridade — promovida pelos regimes
neoliberais.
Ao
ser transparente, a informação se torna desprovida de aura. O desencantamento
do mundo em que hoje vivemos se situa para além do desencantamento weberiano,
ligado à racionalização do mundo operada pela ciência: trata-se do
desencantamento digital, em que crianças “caçam informações como ovos de Páscoa
digitais” (p. 80). Assistimos a uma “desauritização” da vida marcada pela “pura
facticidade do mero ser-disponível-aí” que impossibilita a narração:
“facticidade e narratividade são mutuamente excludentes”. Em um mundo
desencantado, as relações são reduzidas à causalidade, sempre “mecânica e
externa”; afastamo-nos da “profunda simpatia que conecta seres humanos e
coisas” e de um mundo “no qual as coisas se relacionam entre si fora do
contexto causal e trocam confidências” (p. 78). Trata-se, agora, de um mundo de
objetos que deixam de ser um “Tu”, tornando-se um “Isso silente”: “não há mais
nenhuma troca de olhares com o mundo” (p. 83, grifo do autor). Um mundo, em
suma, dissolvido em dados e informações.
E é
exatamente a digitalização que marca um limite importante das reflexões
benjaminianas, que Han sempre acompanha de perto. Benjamin pôde testemunhar
apenas o advento da imprensa. Ocorre que, com a digitalização, “a informação
alcança um status completamente diferente: a própria realidade passa a ser
moldada por informações e dados” (p. 27, grifo do autor), o que conduz a uma
“atrofia da experiência da presença imediata” (p. 27). Em nossa época, a
informação se desenvolve como “nova forma de ser” e, em aliança com o
neoliberalismo, cria uma forma de dominação que não é repressiva, que não opera
com mandamentos e proibições, mas que é sedutora e smart e que, em vez de
tentar nos calar, exige que “comuniquemos nossas opiniões, nossas necessidades
e preferências, que narremos nossa vida, que postemos, compartilhemos e
curtamos” (p. 28). Trata-se aqui, portanto, de uma liberdade que “não é
suprimida, mas explorada” (p. 28).
Nesse
cenário, o smartphone surge como “panóptico digital” que, governado pela lógica
da coleta de dados a serviço do monitoramento, controle e exploração econômica
do “Phono Sapiens”, cria um paradoxo em que “a crescente conectividade nos
isola”: “estar conectado não significa estar vinculado” (p. 119). Até porque
somente narrações possuem poder de vinculação, e o que o smartphone permite é
apenas a troca acelerada de informações. Os stories do Instagram são mais uma
figura da pseudonarração: “meras representações de si mesmo” desprovidas de
“duração narrativa”, eles não passam de “autopromoções pornográficas ou
anúncios”. Han retoma aqui suas reflexões sobre a dualidade
erotismo/pornografia, presente em obras como A agonia do Eros: a informação, na
medida em que não envolve o velamento com sua eloquência de natureza narrativa,
é obscena e pornográfica, no sentido de ir direto ao ponto e tornar tudo
disponível sobre uma superfície gélida.
Falamos
acima dos stories do Instagram, mas a grande figura de pseudonarração evocada
por Han ao longo do ensaio é o storytelling, a técnica de comunicação utilizada
sobretudo pelo marketing para “transformar as coisas desprovidas de valor em
bens valiosos” (p. 127) e criar narrativas que prometem vivências especiais
para o consumidor. Consumimos mais narrativas do que coisas — inclusive
narrativas morais, como as referentes ao fair trade, cuja única função é
aumentar a autoestima do consumidor. Essa instrumentalização e comercialização
de narrativas (“storytelling é storyselling”) mostram como o capitalismo atual
se apropria da vida em nível pré-reflexivo, pois histórias são usadas para
provocar emoções, levando-nos a operar em um campo que escapa de nosso controle
consciente e de nossa crítica. Aliás, dados e informações também não são
filtrados pela reflexão, não são interpretados ao adentrar nosso campo de
visão. Tudo isso gera “uma psicopolítica […] que estaria em condições de se
apoderar do nosso comportamento no nível pré-consciente” (p. 54).
A
tela plana do smartphone também tem como consequência o advento de uma
alteridade que deixa de ser percebida como “contraparte em forma de rosto”,
como um outro em que transparece um olhar, resultando assim em um outro
consumível e desprovido de alteridade. Mas “o rosto exige distância. Ele é um
Tu, e não um Isso disponível” (p. 96). Esse desaparecimento do outro se alia à
“crescente narcisização da percepção” (p. 98), em que a alteridade é eliminada
“em favor da imagem imaginária do espelho”, fazendo do smartphone “um espelho
digital que provoca uma reedição pós-infantil do estado do espelho” (p. 98). O
diálogo aqui, como se vê, é com Lacan: “o digital submete a tríade lacaniana no
Real, Simbólico e Imaginário a uma reconstrução radical. Ele desconstrói o
Real, em favor do Imaginário, faz desaparecer o Simbólico que incorporava os
valores e as normas da comunidade. Em última análise, isso resulta na erosão da
comunidade” (p. 98). E, quando falamos em narração, é também e sobretudo de
comunidade que se trata.
Narrativas
criam coesão social e produzem comunidades. Han retoma as reflexões de Peter
Nadas (p. 121), que descreve a comunidade narrativa como uma “comunidade sem
comunicação”, em que a vida “não é feita de vivências pessoais, […] mas de
silêncios profundos” — um silêncio que apenas a cumplicidade que advém de uma
genuína abertura ao outro pode oferecer (e aqui poderíamos nos lembrar das
belas passagens, em obras como Favor fechar os olhos e A expulsão do outro, em
que Han reabilita Hegel para descrever a dinâmica dessa abertura, ligada ao que
ele chama “existência afável” em obras anteriores). Na tagarela e barulhenta
sociedade da informação contemporânea, formada por consumidores solitários, a
“contemplação ritual que ratifica o conteúdo coletivo da consciência” dá lugar
a uma comunicação excessiva, regida por narrativas neoliberais (como a do
desempenho) que impossibilitam a criação de um “Nós” e que desarticulam a
solidariedade: “quando todos reverenciam religiosamente a si mesmos e são
sacerdotes de si mesmos, quando todos se produzem, se performam, nenhuma
comunidade estável pode ser formada”. É assim que uma “comunidade sem
comunicação” dá lugar a uma “comunicação sem comunidade”. Sem narrativa
comunitária, a própria política se torna inviável, pois a política versa sobre
a ação comum. E mais: ao se ver reduzida à solução de problemas e à
administração, a política prescinde de seu caráter narrativo capaz de abrir o
futuro, oferecer sentido e orientação e desenhar mundos possíveis, pois “toda
ação que transforma o mundo pressupõe uma narração” (p. 132). Embora a
modernidade tenha dado início ao ocaso da narração, ela também soube produzir
narrativas plenas de aura, que acenavam com um porvir a partir da crença no
valor da ruptura com a tradição e prometiam uma forma de vida diferente. Isso
se perde na “exausta modernidade tardia”, que deixou de lado “toda a sua
coragem narrativa, toda a coragem para uma narrativa transformadora do mundo”:
trata-se agora de um “continuar assim, sem alternativas” (p. 40).
Como
não poderia deixar de ser, a crise também atravessa o campo artístico. Aqui, a
interlocução com Benjamin se dá a partir dos escritos do filósofo alemão sobre
Baudelaire. Baudelaire soube incluir em seu próprio fazer artístico a
experiência moderna do “choque”, ou seja, o fato de que a consciência do homem
moderno está constantemente em estado de alerta, à espreita diante de estímulos
excessivos, que então tenta atenuar, o que produz a “vivência” (definida,
portanto, como choque atenuado) e se diferencia da “experiência” (em que um
olhar contemplativo poderia se demorar). Ora, ocorre que, em tempos de tela
digital — por meio da qual passamos a perceber a realidade — as impressões
oriundas da realidade, de tão reduzidas, sequer contêm esse elemento de “choque”:
“o choque dá lugar ao like” (p. 95). Segundo Han, “na era da Netflix, ninguém
falará da experiência de choque em relação ao filme. Em tempos de
binge-watching, o espectador é engordado como gado consumidor” (p. 98). É nesse
cenário que Han, como em obras anteriores, evoca sua bête noire, o artista Jeff
Koons, cujas obras se situam em posição “diametralmente oposta ao choque”,
refletindo o mundo do consumo, exigindo “apenas um simples ‘uau’ do espectador”
e visando simplesmente agradar (“ele poderia ter dito: o lema da minha arte é o
like” — p. 100).
Outra
consequência da época em que a informação formata e determina nosso modo de ser
é que tendemos a nos tornar desprovidos de destino e de uma autêntica
historicidade. Se já na modernidade podemos falar em uma atrofia temporal que
conduz a uma desintegração do tempo e a uma fragmentação da vida, a
digitalização, momento em que “a realidade se desintegra em informações com uma
margem estreita de atualidade” (p. 48), apenas intensifica esse processo. A
temporalidade passa a ser regida por uma simples sequência do presente. Para
esmiuçar esse processo, Han nos remete ao Heidegger de Ser e tempo – obra que,
segundo o autor, “ao contrário do que afirma Heidegger, não é uma análise
atemporal da existência humana, mas um reflexo da crise temporal da modernidade”
(p. 46). Vemos como, em um momento em que o ser humano perde a ancoragem
narrativa no ser e é forçado a viver de um instante para o outro, restaria
apenas ao eu o esforço — a “força muscular” — “para contrair o intervalo de
tempo entre o nascimento e a morte, transformando-o em uma unidade viva que
permeia e engloba todos os eventos e acontecimentos” (p. 46). Só por meio do eu
o ser-aí não se desintegrará em “uma soma das realidades momentâneas de
vivências que vêm e desaparecem uma após a outra” (p. 48) e será ancorado “na
simplicidade de seu destino” (p. 48). Também caberá ao eu criar as próprias
condições para que haja uma historicidade autêntica e uma estruturação temporal
da existência. São exatamente essas funções do eu, que permitem ao ser-aí assegurar-se
de si mesmo, que se tornam ameaçadas em uma época em que nos rendemos às
realidades momentâneas e experimentamos a “sensação de impermanência que cria
uma sutil compulsão para se comunicar mais”. Aliás, a própria felicidade tem,
como condição necessária de sua existência, uma estrutura narrativa, pois ela
“não é um acontecimento pontual”, possuindo “uma longa causa que se estende até
o passado” (p. 43). Mas “quando tudo nos lança em um frenesi de atualidade,
quando estamos no meio da tempestade de contingências, somos infelizes” (p.
44).
Isso
remete à temática da memória. Enquanto a memória e a recordação se movem no
âmbito de uma interioridade que é de ordem narrativa, na medida em que criam
relações, vinculam acontecimentos e apresentam uma seletividade, fazendo
escolhas e recortes, “a época pós-narrativa é uma época sem interioridade. A
informação vira tudo do avesso. Em vez da interioridade de um narrador, temos a
vigilância de um caçador de informações” (p. 71). A contrapartida da recordação
é a figura do banco de dados, em que o armazenamento é cumulativo e exaustivo,
e também a fotografia, que “retrata o dado sem internalizá-lo”, assim se
situando no campo da “facticidade cronológica” (p. 81) (aliás, as selfies, diz
o autor, são usadas menos para a recordação do que para a comunicação — e devem
ser entendidas não tanto como um caso de narcisismo, mas a partir da
necessidade de produção contínua de si diante do vazio interior). A grande
referência de Han aqui é a mémoire involontaire de Proust (mas também reflexões
de Paul Virilio e Susan Sontag), que permite que a contingência do tempo seja
superada e que tenhamos uma experiência da ordem do verdadeiro, pois, nessa
memória, “dois momentos separados de tempo se vinculam e se condensam em um
aromático cristal de tempo” (p. 72), de maneira tal que “o rosto rememorado da
avó é experienciado como sua imagem verdadeira. A verdade é tomada por
verdadeira somente depois. Ela tem seu lugar na recordação enquanto narração”
(p. 72). Na época da informação, a memória degenera e se torna mero amontado de
caráter aditivo, desprovido de história.
O
tempo narrativamente carregado e o senso intensificado de ser presente, por
exemplo, nas festividades religiosas (“no tempo como narração, não há apenas
segunda, terça, quarta… mas Páscoa, Pentecostes, Natal, como estações
narrativas” — p. 63), dão lugar à lógica do espetáculo comercializado e ao
lazer destinado ao consumo.
Além
do tempo, também nossa atenção passa a ser fragmentada, o que impede a formação
de uma escuta que se demore de modo contemplativo no que é narrado. De fato,
qualquer narração pressupõe uma “comunidade de ouvintes atentos”, pois “narrar
e escutar histórias se condicionam mutuamente” (p. 25). Hoje, estamos “perdendo
a paciência para estar à escuta e a paciência para narrar.” A escuta, na
verdade, “se concentra principalmente não no conteúdo que está sendo
partilhado, mas na pessoa, no quem do outro”; ela “não é um estado passivo, mas
um fazer ativo” que “inspira o outro a narrar e abre um espaço de ressonância
no qual quem narra se sente visado, sente que lhe escutam, e até mesmo se sente
amado” (p. 117). Os médicos de hoje já não dispõem de tempo para uma escuta
genuína da história do paciente. É que também no campo da saúde a crise da
narração dá as caras.
Sempre
de braço dado com Benjamin, Han se pergunta até que ponto não poderíamos pensar
em “toda doença” como um “bloqueio interno que pode ser removido por meio do
ritmo da narração” (p. 112). A psicanálise, as narrativas religiosas que
oferecem conforto e esperança, a mãe que narra histórias para a criança doente
e mesmo as teorias da conspiração são exemplos do poder terapêutico da
narração; as narrativas de crise servem exatamente para a superação de crises e
“as preocupações são despojadas de sua facticidade opressiva ao serem colocadas
em uma aparência narrativa” (p. 115). Hoje, apenas a psicoterapia e a
psicanálise “mostram reminiscências do poder curativo da narração”.
A
presença massiva da lógica dos dados, correlata à crise da narração, também se
faz notar no âmbito da teoria. Em uma época que parece acreditar que os números
falam por si (quando na verdade eles nada narram), os dados diretos substituem
a teoria: como diz o editor-chefe da revista Wired, citado por Han, “quem sabe
por que as pessoas fazem aquilo que fazem? A questão é que fazem, e podemos
rastrear e medir isso com uma facilidade sem precedentes” (p. 102). Nesse modo
de conhecimento orientado pelos dados, nada é de fato explicado, pois não se
trata de estabelecer nexos causais ou conceituais; apenas são apontadas
correlações entre as coisas, “e correlações são a forma mais primitiva de
conhecimento” (p. 102). Assim, “o porquê é completamente substituído pelo
isso-é-assim incompreensível”; afastamo-nos da “forma mais elevada de
conhecimento, qual seja, a compreensão”. Se a inteligência calcula e computa,
apenas o espírito narra. E a inteligência artificial “não pode pensar porque
não pode se apaixonar, porque não é capaz de uma narração apaixonada” (p. 109).
Também
uma filosofia “que reivindica ser uma ciência exata” é uma filosofia em
declínio, o mesmo valendo para a filosofia acadêmica, que “se esgota na
administração da história da filosofia” (p. 109, grifo do autor) — isso porque
a filosofia possui um “caráter narrativo originário”. Dos diálogos de Platão,
com seu recurso ao mito, ao cogito cartesiano, passando pela teoria moral de
Kant e pela transvaloração de todos os valores de Nietzsche, o que vemos é uma
“narrativa enquanto risco e celebração, até mesmo enquanto aventura” (p. 108),
que abre uma nova visão de mundo. A filosofia “emudece”, “priva-se de sua
própria linguagem”, quando perdemos coragem para a narração inerente ao fazer
filosófico digno desse nome e fazemos dela não um risco, mas uma burocracia. É
que o próprio pensamento é, “em última análise, ele próprio uma narrativa, que
procede em etapas narrativas” (p. 110).
Fonte:
Por Luís Guilherme Vieira Allegro, na Revista Rosa

Nenhum comentário:
Postar um comentário