Até onde
vai Javier Milei?
Tudo
foi muito vertiginoso e rápido. No mais impetuoso sentido maquiaveliano das
coisas, o tempo como vetor indispensável para compreender o choque político na
Argentina. Não houve tempo nem mesmo para um impasse ou um
escalonamento sensato: escolhas políticas sem nenhum exercício prévio de
gestão, com formas organizadas de comunicação pós-intelectual, a proposta de
uma ordem social mais pretoriana como nunca se viu desde o retorno da
democracia. Desde o início de seu governo, em dezembro do ano pasado, Javier
Milei insiste num exercício claro: uma superprodução normativa — seja mediante
decretos presidenciais ou propostas legislativas — que permita instalar um
(novo) pacto institucional que, por sua vez, seja o início de um processo
constituinte: o da constituição de uma “verdadeira” sociedade de mercado.
Contudo, até o momento, é uma tarefa tênue; durante esses meses, esbarrou com o
freio de um Congresso Nacional que vem travando a pretensão do Poder Executivo,
ao deixar sem aprovar, por exemplo, seu propalado “pacote de leis
fundamentais”; todavia, para além do imediato, é difícil fazer com que essa
ansiedade institucional seja contida.
O
panorama argentino mudou em muito pouco tempo; a própria vitória de Milei foi
numa questão de meses. Nesse sentido, seu início foi tão incerto quanto o
destino a que chegou: depois de uma queda nas pesquisas, o próprio Milei havia
aceitado, no início de 2023, correr atrás do ex-presidente Maurício Macri, se
este fosse o resultado de uma primária comum. Não ocorrendo o acordo, decidiu
seguir sozinho, delineando e ampliando seu próprio espaço na competição. Assim,
mesmo que suas primeiras incursões federais pelo país tenham sido bastante
ruins, em vista inclusive da projeção portenho-cêntrica do
personagem, conforme se aproximava da eleição as oportunidades (e os
oportunistas) foram surgindo, graças a alguns locais que decidiram apoiá-lo de
forma quase aleatória, até para que, chegado o momento, pudessem negociar
melhor cotas próprias junto aos espaços políticos mais tradicionais.
Esse
primeiro passo — sua vitória nas Primárias Obrigatórias de agosto do ano
passado — foi chave para tudo o que veio depois; com efeito, um grande passo.
Daí em diante apareceram possibilidades mais previsíveis: jornalistas que
decidem apoiá-lo; empresários que doam recursos para a campanha; um dispositivo
de redes que se aperfeiçoa e certifica seu predomínio nesse terreno. Tendo
assegurado essa base, linhas adicionais da infantaria eleitoral começam a se
prontificar; as redes globais de extrema-direita, os interesses geopolíticos
hemisféricos, as corporações financeiras internacionais, assim como outras
expressões dos colonialismos internos. Foi um alinhamento muito rápido de todos
os elementos; a profunda crise econômica (inflacionária) do governo de Alberto
Fernández, e a escolha do ministro da Economia como candidato presidencial,
fizeram o resto.
·
O momento político dos
libertários argentinos
Milei
fundou seu partido — A Liberdade Avança (La Libertad Avanza: lla) — apenas
três anos atrás e se elegeu deputado federal pela Cidade de Buenos Aires. Seu
passo seguinte foi ganhar inapelavelmente a corrida presidencial em 2023:
venceu em 20 províncias (de 24); ficou mais de 11 pontos à frente de seu
adversário no segundo turno; ganhou na província onde a participação eleitoral
foi a mais alta, assim como na de menor participação; e teve uma votação
contundente ao cruzar segmentos sociais (e etários) de forma emparelhada e
homogênea. Uma “irrupção” político-eleitoral que começou nos estúdios de
televisão há pouco mais de uma década, com movimentos grotescos, vulgares,
misóginos, por trás de um disfarce (literalmente) e com muita obscenidade
verbal. Instalado como colunista econômico, Milei adaptou e estilizou suas
intervenções aos tempos pandêmicos e às formas particulares do entretenimento
nesses tempos. Milei foi, antes de tudo, um produto por excelência do consumo
comunicacional durante a pandemia: estridente e chamativo, caminhou entre as
bordas dos sets televisivos. Chegou ao puro impropério,
identificando-se com uma longínqua Escola Austríaca, como um “ultra” fã dos
animais de estimação (a ponto de prolongar a existência de seu mastin inglês
através de uma clonagem quádrupla); o goleiro de futebol frustrado e solteiro
de uma família disfuncional (ainda que nenhuma dessas confissões fossem muito
verídicas); e algo de homem comum. Este último ingrediente também lá está, e na
certa explica algumas conexões com segmentos jovens e populares que deram, e em
alguma medida continuam dando, seu apoio.
Durante
o eterno ano de 2023 argentino, da dissolução da moeda
argentina e da contínua perda de autoridade do governo de Alberto Fernández,
Milei se movimentou por dentro do espectro ideológico em todo o processo
eleitoral: e acabou plantado no mesmo ponto de onde começou (e assim continua;
desde que assumiu a Presidência, não fez nenhuma concessão ideológica). Ficou à
espreita diante da deterioração generalizada do cenário e, chegada a ocasião,
também contribuiu para torná-la ainda pior. O candidato governista, Sergio
Massa, tentou várias contorções durante a campanha, algumas quase desesperadas
(o que também arrastou o peronismo em geral para uma desorientação de sua
identidade enquanto força de governo). Uma vez excluídos do segundo turno,
algumas parcelas do pro (Propuesta Republicana) de Mauricio Macri e
setores do Juntos pela Mudança (Juntos por el Cambio) moveram-se em direção a
Milei. Sem dúvida, algumas propostas extremas, como “incendiar o Banco Central”
ou “a venda de órgãos” se dispersaram um pouco entre os apotegmas libertários;
e entraram com mais insistência os argumentos religiosos (“as forças do céu”) e
as referências à história argentina: Alberdi, Roca, Carlos Pellegrini, todos os
quais figuras do século xix. Um jogo de inclusões e exclusões que, até o
momento, não parece indicar caminho claro de como Milei irá resolver um de seus
principais obstáculos (para além da vitória eleitoral): uma marcante debilidade
na correlação de forças.
·
Um presidente sem
Congresso, sem governadores
Ao
longo das últimas quatro décadas democráticas, a disputa presidencial
circunscreveu-se aos grandes polos da competição política — um peronista, outro
antiperonista —, com algumas distorções. Por vezes, surgiram terceiros partidos
que ganharam certa força gravitacional, inclusive superando um dos dois
partidos (como foi o caso da Frepaso à ucr em 1995), ainda que
terminassem incorporados à dinâmica das duas grandes coalizões. Nessa
trajetória, o peronismo conservou sua condição de protagonista central do “apesar
de” ou “graças a” pendular, com coalizões mais à centro-esquerda ou mais à
centro-direita, segundo a ocasião. O espaço não peronista teve a União Cívica
Radical (ucr) como referência principal, mesmo que, desde 2015, tenha sido
deslocada desse lugar pelo partido pro de Mauricio Macri (em aliança,
naquele ano, justamente com o radicalismo). A imagem de 2023 revelou um novo
quadro: chega à Presidência alguém que não pertence a nenhuma dessas duas
tradições partidárias e que cresceu criticando publicamente ambos os espaços do
imperfeito bipartidarismo argentino.
É
certo que Milei logo acomodou em seu gabinete boa parte do pro e
setores antiperonistas. Mas sua “coalizão própria” não é nada robusta; sirva
como exemplo o fato de que um dos principais atritos políticos desses meses de
governo tem sido precisamente com um governador do pro. A situação de A
Liberdade Avança, o partido de Milei, é de debilidade estrutural: não tem
nenhum governador próprio e muito poucas prefeituras com ela afinadas em todo o
país; possui tão somente 7 senadores nacionais — de um total de 72 — e 38
deputados nacionais — de um total de 257. Uma fragilidade de origem que “obriga
a negociar” a partir de uma posição de suprema desvantagem, e justamente da
parte de um presidente que declara o tempo todo que “não vai negociar”. Pois
esse é o perfil do personagem em questão, o signo de toda a mutação política
que ocorre no país: para Milei, trata-se, definitivamente, de acelerar o
processo de transformação da estrutura institucional, da maneira que for. Nada
além parece lhe importar. E o faz agravando ainda mais um federalismo argentino
já deteriorado — na medida em que a maior parte do corte do gasto público
nesses meses concentrou-se nas transferências do Estado nacional às Províncias.
E alimentando um “empate catastrófico”, que já começa a se projetar sobre o
conjunto do sistema político argentino, com desenlaces institucionais
imprevisíveis.
·
As tensões de um
presidente em crise
Quanto
ao conteúdo, há algo do “pacto democrático” que está em jogo. Não é a primeira
vez que acontece na história recente: houve vários episódios durante esses anos
que foram nessa direção. Mas nunca dessa forma, como projeto.
Também suscitam preocupações o vínculo de Milei com os interesses de um tipo de
capitalismo contemporâneo cujas relações econômicas internacionais ultrapassam
os Estados: as grandes corporações, os megafundos de investimento; não é por
acaso que o principal respaldo de Milei provenha dos grandes grupos econômicos
do país e estrangeiros. Mas permanece uma incógnita como esse bloco histórico
negociará com a cidadania argentina (ou de outras latitudes); embora não lhe
pareça gerar contradição que se sucedam eventuais violações à democracia.
Por
outro lado, há uma população anestesiada e fatigada por uma crise econômica
muito corrosiva que já se arrasta por anos, a qual tem degradado vários
aspectos microssociais da dialética coletiva, sobretudo nos grandes
conglomerados urbanos entre os quais, principalmente, Milei teve sucesso. A
deterioração social é profunda em termos de sujeitos, de organização, de
infraestrutura da vida em geral, e de representação. E este último aspecto é
fundamental. Pois as perspectivas são muito pouco auspiciosas para o país no
curto prazo: segundo um estudo da Universidade Católica Argentina (uca),
durante os primeiros meses do governo Milei a taxa de pobreza estimada no país
chegou a 57,4%, perante 49,5% em dezembro de 2023 e 44,7% no período de
julho/setembro do mesmo ano. Aquí também aparece a questão da aceleração.
A representação política, sindical, social dos setores subalternos em geral
também terá de fazer uma recomposição muita rápida de seu protagonismo. Um
impulso defensivo imprescindível.
Ø Ativista sofreu abuso sexual e teve casa pichada com sigla
pró-Milei. Por Leonardo Wexell Severo, no Correio da Cidadania
Após
ter sua casa invadida na Argentina, uma ativista pelos direitos humanos foi
espancada, abusada sexualmente e ameaçada de morte, denunciou o grupo HIJOS
(Filhos e Filhas pela Identidade e Justiça contra o Esquecimento e o Silêncio),
que mantém viva a denúncia ao genocídio praticado pela ditadura militar
(1976-1983) que levou à execução e desaparecimento de 30 mil oposicionistas no
país sul-americano.
Circulando
na Justiça argentina há alguns dias, a informação sobre o crime veio à tona na
quinta-feira, 21, através de um comunicado oficial do grupo, que esclarecia que
os dois autores do ataque a esperavam regressar do trabalho e a surraram,
taparam a boca, vendaram seus olhos, e abusaram dela durante uma hora. Ao longo
da sessão de tortura deixaram claro que tudo aquilo tinha um objetivo. No
final, após lhe advertir sobre a proximidade da morte, deixaram uma pichação na
parede com a sigla “VLLC” (Viva a Liberdade, Caralho), usada costumeiramente
pelo presidente Javier Milei em suas mensagens.
Desde
então, a jovem abandonou o local onde morava e buscou refugiou na família.
Também largou o trabalho, saiu das redes sociais e não atende mais o telefone.
A verdade, diz a ativista de HIJOS, que teve a sua identidade preservada, é que
“hoje, em plena democracia, um governo eleito pelo povo permite o exercício do
terror e da crueldade através de todos os canais à sua disposição”.
“Eu
quero que a Justiça identifique os que me fizeram isso, porém também quero
encontrar o aparato por trás disso”, declarou, frisando que considera ter sido
um ataque à militância dos direitos humanos, poucos dias antes do golpe de 24
de março (o 31 de março brasileiro).
No
seu depoimento a militante diz que sua “vida mudou muito, está totalmente
suspensa no ar”. “Conseguiram isso, que é também terror e impunidade. O que
acontece se eles me escreverem me ameaçando? Não tenho outra rede além da minha
família e dos meus colegas, sou apenas uma trabalhadora. Não tenho nada a
esconder, não manipulo informações de poder, só fizeram isso comigo por ser
militante”, explicou.
·
Presidente
negacionista chama vítimas de “merdas”
Questionado
sobre o seu envolvimento, o presidente negacionista procurou distância do
atentado e sem expressar qualquer solidariedade, partiu para o ataque à vítima.
“É incrível que eles usem seus desaparecidos para operar contra o governo. Eles
são mais merdas do que se pensa. O bom é que eles têm cada vez menos
credibilidade”, vociferou Milei.
Encabeçada
pelo deputado Germán Martínez, a bancada da União pela Pátria (UP) rechaçou o
ato de violência e abuso contra a militante pelos direitos humanos. “Terrível
notícia. Fazemos nossas cada palavra do comunicado de HIJOS. Abraçamos nossa
companheira com muita força e exigimos uma ação rápida da Justiça. Há 48 anos
do golpe e algumas horas antes do 24 de março, dizemos muito alto: nunca
mais!”, enfatizou.
Deputado,
ex-ministro do Interior e integrante da HIJOS, Wado de Pedro, reiterou que “o
povo argentino já disse Nunca Mais!” e destacou que “com quatro décadas de
democracia, a violência política é inaceitável”.
O
governador da província [Estado] de Buenos Aires, Axel Kicillof, se somou às
manifestações populares condenando as atrocidades cometidas. “Repudiamos este
fato gravíssimo e exigimos o seu esclarecimento imediato. Não podemos permitir
que o ódio e a violência política se instalem em nosso país. Não vamos parar de
dizer: Nunca Mais, Memória, Verdade e Justiça, sempre”.
“Este
ataque à vida da nossa colega é um ataque político motivado pelos seus direitos
humanos e pelo seu ativismo feminista”, denunciou a HIJOS, frisando que dialoga
com a recordação do novo aniversário do golpe de Estado de 1976, o primeiro no
quadro de um governo antinacional que nega abertamente os crimes contra a
humanidade contra o qual as organizações de direitos humanos – como a que
integra a agredida -, organizações políticas, sindicais e sociais voltaram a
dizer “Nunca mais” no último 24 de março.
Fonte:
Por Amilcar Salas Oroño – Tradução de Cicero Araujo, em Revista Rosa

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