quinta-feira, 4 de abril de 2024

'A ditadura estragou esse país': como o golpe interrompeu as ideias de Paulo Freire para a educação

"Eu acho que a ditadura estragou esse país da gente durante muito tempo, e continua estragando hoje". A frase é de Paulo Freire, um dos maiores pensadores brasileiros sobre a educação, dita durante uma entrevista ao programa Matéria Prima, da TV Cultura, no final dos anos 1980. O país havia superado fazia pouco tempo as mais de duas décadas de ditadura militar.

Freire foi um dos principais intelectuais atacados pelo golpe de 1964. Ele respondeu a inquéritos, foi preso e, em seguida, exilado no Chile. Foi classificado como inimigo do povo brasileiro e subversivo. O motivo? O próprio Paulo Freire relembra, na mesma entrevista, no final dos anos 1980.

"Acho que muitos de vocês devem ficar curiosos com relação, por exemplo, ao que aconteceu com 1964 com um cara que, porque estava preocupadíssimo em desenvolver um plano, um programa de alfabetização de adultos para o país, foi preso por causo disso."

No segundo episódio da série Futuro interrompido – as consequências da ditadura militar para o Nordeste, a reportagem do Brasil de Fato detalha a experiência de Paulo Freire na elaboração de um método popular de alfabetização de adultos, que prometia erradicar o analfabetismo no país e oferecer uma nova perspectiva para a região. Além disso, vamos relembrar o projeto que os militares colocaram no lugar dos planos de Freire e os impactos do golpe para educação brasileira.

As 40 horas de Angicos

Para conferir de perto os impactos do golpe nas ideias de Paulo Freire, a reportagem foi até Angicos, cidade de pouco mais de 11 mil habitantes que fica no semiárido do Rio Grande do Norte. Apesar de pequeno, o lugar ficou gigante, em 1963, e ganhou destaque nacional. Foi lá que Freire colocou em prática a chamada experiência de "40 horas de Angicos", uma iniciativa que orientava a alfabetização de jovens e adultos por uma perspectiva popular.

"Ele diz assim: 'minha vó, eu acho a senhora tão famosa'. Eu digo, por que, meu filho? Ele responde: porque a senhora estudou com o Paulo Freire e eu queria tanto ver ele, conhecer. Eu digo: tem a foto. Todo dia ele chega e diz: minha vó só porque a senhora estudou nas aulas de Paulo Freire eu acho tão interessante as coisas da senhora".

Essa lembrança é de Maria do Ferreiro, ex-aluna de Paulo Freire. Hoje ela tem 76 anos e recorda com alguma dificuldade daqueles dias, quando ela apenas tinha 17 anos. Mas o essencial vem à tona. Ela e a irmã, Valdice Ivonete da Costa Santos, de 75 anos, fizeram parte do grupo de 300 alunos que passaram pelo método inovador de Freire. Em apenas 40 horas, jovens e adultos foram alfabetizados.

Paulo Freire foi convidado pelo governador do Rio Grande do Norte à época, Aluízio Alves, para desenvolver um método de alfabetização de adultos. Ele tinha o plano de elaborar, em escala estadual, uma iniciativa que ajudasse a superar o analfabetismo na região. Inicialmente, Freire iria testar as novas ideias em Angicos. Caso a experiência fosse bem-sucedida, o governo adotaria o método como política pública estadual.

As ideias que se consagrariam em Angicos já haviam sido experimentadas em Pernambuco. Nos anos 1950, Freire fez parte do Movimento de Cultura Popular (MCP), uma ação que reunia, no Recife, intelectuais diversos com um único objetivo: ampliar a conscientização do povo por meio da cultura e da educação, intensificando um programa de alfabetização popular.

O MCP ganhou fôlego após a eleição de Miguel Arraes para prefeito do Recife, em 1959, que conduziu o governo com um olhar sensível para as demandas populares.

"No âmbito do Movimento de Cultura Popular, ele começa a desenvolver um método de alfabetização que depois eles vão chamar de um sistema de alfabetização, com experiências aqui nos mocambos do Recife, que nós chamamos hoje das favelas, as palafitas, aquelas moradias nas margens do rio, nas áreas alagadas", explica o professor Dimas Brasileiro.

"Ele foge daquelas aulas expositivas e cria um círculo de debate com esses trabalhadores da indústria que estão fazendo a experiência da educação popular. E ele percebe que esse círculo é muito mais efetivo, tanto no processo do ensino aprendizado dos conteúdos específicos, trabalhos específicos pelas disciplinas, mas também como um processo de formação, de conscientização para as questões sociais", resume Dimas.

•        Um método popular e crítico

Paulo Freire desembarcou em Angicos em 1963, um ano antes do golpe militar. Levou consigo um grupo de voluntários, que reunia estudantes universitários, profissionais de diversas áreas e pessoas engajadas na ideia de alfabetização popular.

As aulas tinham uma característica inovadora. Elas respeitavam o ambiente e a cultura local dos trabalhadores. Inicialmente, o grupo realizava uma espécie de pesquisa sobre o universo vocabular. O objetivo era identificar os principais assuntos vividos no cotidiano dos trabalhadores. Com isso, o grupo escolhe as chamadas "palavras geradoras", as primeiras que os alunos aprendem a ler e a escrever no projeto.

Além de combinar os fonemas, os alunos também interpretavam a realidade em que viviam. Os encontros duravam uma hora por dia, com temas que faziam parte da realidade daquelas pessoas que eram historicamente excluídas.

As aulas aconteciam simultaneamente em diversos lugares da cidade, muitos deles inusitados, como recorda o pesquisador Victor Souza, da Universidade Federal Rural do Semiárido (Ufersa).

"Os círculos de cultura aconteciam em diversos lugares. Havia um grupo, um círculo de cultura na delegacia, havia um outro na [Escola] José Rufino e havia um outro no Alto da Esperança. É possível que existissem outros".

"Aqui em Angicos foi uma experiência que deu certo. Por isso que ela acabou aí sendo projetada para uma expansão em todo o Brasil, que depois foi quebrada pela implantação da ditadura militar no Brasil", conclui a pesquisadora Ana Aires, também da Ufersa.

•        Uma ideia interrompida pelo golpe

O sucesso das 40 horas fez com que Jango, o presidente deposto, tentasse replicar a fórmula em escala nacional. O presidente visitou Angicos para conferir de perto o sucesso do projeto, durante a cerimônia da conclusão das aulas, e se animou com ideia de implementá-la em outros estados. 

O governo pretendia iniciar, em maio de 1964, o Plano Nacional de Alfabetização, inspirado no pensamento de Freire. A expectativa era de alfabetizar mais de um milhão de pessoas naquele ano, por meio de mais de 60 mil círculos de cultura.

Tudo foi cancelado pela ditadura militar. A pesquisadora Mariana Parise Brandalise, da Universidade de Caxias do Sul, revelou um diálogo entre o general Humberto Castelo Branco e o jornalista Calazans Fernandes, à época secretário de Educação do Rio Grande do Norte, sobre a experiência de Paulo Freire em Angicos. Castelo Branco teria afirmado: "Meu jovem, você está engordando cascavéis nesses sertões." O secretário rebateu, de imediato: "Depende do calcanhar onde elas mordam, general."

A preocupação do militar era de que, após alfabetizados, os trabalhadores passassem a usufruir de uma cidadania que não tinham antes. Uma das principais conquistas seria o direito ao voto – que só foi garantido às pessoas que não sabem ler em 1985. Além disso, as aulas de Freire guiavam as turmas para a consciência sobre os direitos trabalhistas. As 40 horas de Angicos confrontam os privilégios de muitos latifundiários no Nordeste.

Poucos meses depois da experiência em Angicos, veio o golpe militar de 1964. Paulo Freire se transformou em um dos principais inimigos do regime. O clima de conspiração espalhou o medo entre os alunos na cidade potiguar. Circulava a versão de que as aulas eram um experimento do comunismo.

"Disseram que iam mandar pessoas, autoridades, para mandar queimar os cadernos. E até mesmo prender ele. Foi uma revolução muito grande na cidade", relembra a ex-aluna Valdice, sobre o clima que prevaleceu entre os participantes com a notícia de que Freire poderia ser preso pela ditadura.

"Quando se mete coisa do mal nas coisas do bem, a pessoa fica assombrada. Não sei por que inventaram esse negócio de ditadura. Não sei pra que inventaram isso'", lamenta a também ex-aluna Maria do Ferreiro.

Uma educação tecnicista

O método de Paulo Freire, em tese, representaria um importante avanço para o Nordeste, porque aceleraria a alfabetização jovens e adultos, os tornando aptos para novos empregos. Além disso, o método trazia consigo uma visão popular e crítica de sociedade, resumida na seguinte percepção: era uma " alfabetização para a conscientização e para a participação política. Alfabetizar para que o povo emergisse da situação de dominado e explorado", como resumiu Ana Maria Araújo Freire. A interrupção pelos militares acabou brecando um plano considerado eficaz para o período.

"Nós fomos impactados com essa quebra nessa educação libertadora, que emancipa as pessoas. E o que foi implementado pelos militares foi um tipo de educação tecnicista, uma educação que Paulo Freire chama de bancária", conta a pesquisadora Ana Aires, da Ufersa.

"O que eles – os militares –  pensam de Paulo Freire? É que Paulo Freire era uma pessoa subversiva. a sua subversão era tanto para o Brasil, que prejudicava a educação, como também era a subversão a Deus, [já] que ele não seguia as normas padrões dentro das questões exigidas, dentro dos padrões militares da época", aponta Erivalda Torres, do Centro Paulo Freire, no Recife.

O ataque ao método Paulo Freire permaneceria por muito anos. Instalados no poder, os militares começaram a esvaziar o Plano Nacional de Alfabetização, que mal saiu do papel.

Em seu lugar foi implementado o chamado Mobral – Movimento Brasileiro de Alfabetização. Apesar de ser inspirado nas "palavras geradoras" de Freire, os termos eram escolhidos por técnicos, longe da realidade dos jovens com 15 anos ou mais que seriam alfabetizados. Foi um dos programas de educação mais caros do Brasil, que só foi efetivado em 1971, quase 7 anos depois de sua criação.

"Os militares vão criar o Mobral, que teria uma lógica de atuação sobre um segmento que não tinha essa educação formal, para tentar contribuir no sentido de alfabetização  desse segmento. Só que era algo que não colocava o indivíduo como sujeito histórico, como sujeito social", relembra Túlio Velho Barreto, cientista político.

A desconstrução da filosofia freireana deixou feridas abertas na educação brasileira e de difícil solução até os dias atuais. Ao longo do regime, a educação permaneceu sendo um direito para poucos. Segundo estudo do Ministério da Educação, na década de 1970 quatro em cada dez brasileiros eram analfabetos. O tempo médio de permanência na escola era de, aproximadamente, dois anos. O regime tirou o entusiasmo do estudo e criou novas barreiras para a alfabetização.

O próprio Paulo Freire vai chegar a esta conclusão, em entrevista no final dos anos 1980, mencionada no início dessa reportagem.

"Eu acho que a ditadura estragou esse país da gente durante muito tempo, e continua estragando hoje. Quer dizer, evidentemente que a ditadura militar não inaugurou no Brasil o autoritarismo. O autoritarismo está entranhado na natureza mesma da nossa sociedade. O Brasil foi inventado autoritariamente. Mas os militares deram uma indiscutível contribuição ao autoritarismo."

No terceiro e último episódio da série Futuro interrompido - as consequências da ditadura militar para o Nordeste, vamos relembrar como os militares silenciaram Josué de Castro, o teórico que descobriu as causas humanas e políticas da fome.

 

       Celso Lungaretti: Um general sem prestígio deflagrou o golpe de 64

 

Eu vou! Eu vou! Eu vou derrubar o governo, agora eu vou! Pararatimbum, pararatimbum!

O esquema dos golpistas de 1964 vinha sendo montado desde a década anterior, mas ainda não estava pronto quando da renúncia do presidente Jânio Quadros em agosto de 1961.

Os conspiradores nela viram, contudo, uma oportunidade de queimar etapas e resolveram precipitar as coisas: convenceram os comandantes das três Armas a tentarem impedir a posse do vice-presidente legal (João Goulart), que estava ausente, visitando a China em missão oficial.

Como o afobado come cru, eles foram derrotados:

— pela resistência do governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, que passou a conclamar o Brasil inteiro a não permitir a usurpação de poder, utilizando para tanto uma rede de emissoras de rádio que se formou espontaneamente (a Rede da Legalidade);

— pela decisão do comandante do III Exército (RS), o general legalista Machado Lopes, de colocar-se ao lado de Brizola, passando, portanto, a existir a ameaça de militares combaterem uns aos outros, hipótese que sempre horrorizou nossas Forças Armadas; e

— pela firme oposição de cabos e sargentos do Exército e Marinha ao golpe, criando outra divisão entre os fardados.

A crise acabou com a solução conciliatória de se dar posse a Goulart, mas instituir-se o parlamentarismo, de forma que os poderes presidenciais foram momentaneamente reduzidos (o plebiscito de janeiro de 1963, contudo, restabeleceu o status quo ante).

Os conspiradores, face ao fracasso inicial, tiveram de repensar todo seu planejamento. Desfecharam perseguições nos quartéis, isolando e transferindo para unidades distantes os líderes dos subalternos que haviam se colocado contra o golpe, enquanto o pusilânime Goulart nada fazia para proteger quem lhe havia sido leal.

E, percebendo que careciam de algum respaldo na coletividade, partiram para a conquista do apoio da classe média conservadora, contando para tanto com o apoio do clero reacionário e de entidades anticomunistas como a TFP e a TFM [afora a mãozinha estadunidense, com a enxurrada de investimentos em Bolsa de Valores, suficiente para forjar o boom econômico de curta duração conhecido como milagre brasileiro].

Os viradores de mesa só se considerariam prontos para nova tentativa 20 meses depois.

O passo final foi a conquista da caserna, empreitada facilitada pelo apoio crescente que passaram a ter da classe média (afinal, os oficiais eram majoritariamente dela oriundos) e pelos préstimos de provocadores como o marinheiro de 1ª classe Anselmo (erroneamente apelidado de cabo), que radicalizaram ao máximo a insubordinação dos cabos e sargentos das Forças Armadas contra o oficialato.

[Meu saudoso companheiro na VPR, o José Raimundo da Costa, dito Moisés, era um dos líderes dos marujos e nunca quis acreditar que Anselmo fosse um infiltrado, embora já existissem suspeitas. Pagou com a vida por seu apreço pelo colega de antigas jornadas.]

O que os oficiais mais prezam é sua autoridade. E, dias antes do golpe, a viram estridentemente ultrapassada por Jango. É que, com o mandato cada vez mais ameaçado, Goulart havia finalmente descido do muro, daí ter ousado proibir a prisão de marinheiros e fuzileiros navais responsáveis por uma comemoração levada a efeito depois de vetada pelos escalões superiores. Foi a gota d'água: o oficialato alinhou-se em massa com o golpe.

A ruptura da ordem legal àquela altura já estava sendo amplamente requerida pelos capitalistas e latifundiários, além de endossada pelo presidente dos EUA Lyndon Johnson.

A CIA favorecia e financiava os conspiradores havia muito tempo, mas John Kennedy, caso tivesse sobrevivido ao atentado de Dallas, dificilmente lhes daria sinal verde, assim como não autorizou a disponibilização de cobertura aérea para a invasão da Baía dos Porcos, crucial para o sucesso da empreitada, mas que deixaria as digitais dos EUA impressas numa flagrante interferência na política interna de um país soberano (Cuba).

A posse em 22 de novembro de 1963 de Johnson, um texano anticomunista que obviamente comeria na mão da CIA, significou a remoção de um importante obstáculo para o golpe, tanto que, a partir daí, só transcorreriam quatro meses e uma semana até Olímpio Mourão Filho começar a descer a BR-3 (hoje rodovia BR-040) com suas tropas e iniciar a quartelada.

Anticomunista com carteirinha assinada e falsário desmascarado em vida (forjou o chamado Plano Cohen para alavancar a instalação do Estado Novo em 1937), Mourão antecipou-se por alguns dias ao cronograma dos conspiradores históricos, mas nada lucrou com isto: o poder não ficou com o ejaculador precoce, mas sim com o esquema golpista que vinha sendo laboriosamente montado desde a década anterior.

Tão vergonhosa foi a facilidade com que um aventureiro desprestigiado na própria caserna e seus recrutas imberbes derrubaram Goulart que a esquerda entrou num longo processo de crítica e autocrítica, do qual decorreram o colapso da hegemonia do PCB e a ascensão da luta armada como principal forma de resistência à ditadura após a assinatura do AI-5.

 

Fonte: Correio da Cidadania/Brasil de Fato

 

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