'A
ditadura estragou esse país': como o golpe interrompeu as ideias de Paulo
Freire para a educação
"Eu acho que a ditadura estragou esse país da gente durante
muito tempo, e continua estragando hoje". A frase é de Paulo Freire, um
dos maiores pensadores brasileiros sobre a educação, dita durante uma
entrevista ao programa Matéria Prima, da TV Cultura, no final dos anos 1980. O
país havia superado fazia pouco tempo as mais de duas décadas de ditadura
militar.
Freire foi um dos principais intelectuais atacados pelo golpe de
1964. Ele respondeu a inquéritos, foi preso e, em seguida, exilado no Chile.
Foi classificado como inimigo do povo brasileiro e subversivo. O motivo? O
próprio Paulo Freire relembra, na mesma entrevista, no final dos anos 1980.
"Acho que muitos de vocês devem ficar curiosos com relação,
por exemplo, ao que aconteceu com 1964 com um cara que, porque estava
preocupadíssimo em desenvolver um plano, um programa de alfabetização de
adultos para o país, foi preso por causo disso."
No segundo episódio da série Futuro interrompido – as
consequências da ditadura militar para o Nordeste, a reportagem do Brasil de
Fato detalha a experiência de Paulo Freire na elaboração de um método popular
de alfabetização de adultos, que prometia erradicar o analfabetismo no país e
oferecer uma nova perspectiva para a região. Além disso, vamos relembrar o
projeto que os militares colocaram no lugar dos planos de Freire e os impactos
do golpe para educação brasileira.
As 40 horas de Angicos
Para conferir de perto os impactos do golpe nas ideias de Paulo
Freire, a reportagem foi até Angicos, cidade de pouco mais de 11 mil habitantes
que fica no semiárido do Rio Grande do Norte. Apesar de pequeno, o lugar ficou
gigante, em 1963, e ganhou destaque nacional. Foi lá que Freire colocou em
prática a chamada experiência de "40 horas de Angicos", uma
iniciativa que orientava a alfabetização de jovens e adultos por uma
perspectiva popular.
"Ele diz assim: 'minha vó, eu acho a senhora tão famosa'.
Eu digo, por que, meu filho? Ele responde: porque a senhora estudou com o Paulo
Freire e eu queria tanto ver ele, conhecer. Eu digo: tem a foto. Todo dia ele
chega e diz: minha vó só porque a senhora estudou nas aulas de Paulo Freire eu
acho tão interessante as coisas da senhora".
Essa lembrança é de Maria do Ferreiro, ex-aluna de Paulo Freire.
Hoje ela tem 76 anos e recorda com alguma dificuldade daqueles dias, quando ela
apenas tinha 17 anos. Mas o essencial vem à tona. Ela e a irmã, Valdice Ivonete
da Costa Santos, de 75 anos, fizeram parte do grupo de 300 alunos que passaram
pelo método inovador de Freire. Em apenas 40 horas, jovens e adultos foram
alfabetizados.
Paulo Freire foi convidado pelo governador do Rio Grande do
Norte à época, Aluízio Alves, para desenvolver um método de alfabetização de
adultos. Ele tinha o plano de elaborar, em escala estadual, uma iniciativa que
ajudasse a superar o analfabetismo na região. Inicialmente, Freire iria testar
as novas ideias em Angicos. Caso a experiência fosse bem-sucedida, o governo
adotaria o método como política pública estadual.
As ideias que se consagrariam em Angicos já haviam sido
experimentadas em Pernambuco. Nos anos 1950, Freire fez parte do Movimento de
Cultura Popular (MCP), uma ação que reunia, no Recife, intelectuais diversos
com um único objetivo: ampliar a conscientização do povo por meio da cultura e
da educação, intensificando um programa de alfabetização popular.
O MCP ganhou fôlego após a eleição de Miguel Arraes para
prefeito do Recife, em 1959, que conduziu o governo com um olhar sensível para
as demandas populares.
"No âmbito do Movimento de Cultura Popular, ele começa a
desenvolver um método de alfabetização que depois eles vão chamar de um sistema
de alfabetização, com experiências aqui nos mocambos do Recife, que nós
chamamos hoje das favelas, as palafitas, aquelas moradias nas margens do rio,
nas áreas alagadas", explica o professor Dimas Brasileiro.
"Ele foge daquelas aulas expositivas e cria um círculo de
debate com esses trabalhadores da indústria que estão fazendo a experiência da
educação popular. E ele percebe que esse círculo é muito mais efetivo, tanto no
processo do ensino aprendizado dos conteúdos específicos, trabalhos específicos
pelas disciplinas, mas também como um processo de formação, de conscientização
para as questões sociais", resume Dimas.
• Um método popular
e crítico
Paulo Freire desembarcou em Angicos em 1963, um ano antes do
golpe militar. Levou consigo um grupo de voluntários, que reunia estudantes
universitários, profissionais de diversas áreas e pessoas engajadas na ideia de
alfabetização popular.
As aulas tinham uma característica inovadora. Elas respeitavam o
ambiente e a cultura local dos trabalhadores. Inicialmente, o grupo realizava
uma espécie de pesquisa sobre o universo vocabular. O objetivo era identificar
os principais assuntos vividos no cotidiano dos trabalhadores. Com isso, o
grupo escolhe as chamadas "palavras geradoras", as primeiras que os
alunos aprendem a ler e a escrever no projeto.
Além de combinar os fonemas, os alunos também interpretavam a
realidade em que viviam. Os encontros duravam uma hora por dia, com temas que
faziam parte da realidade daquelas pessoas que eram historicamente excluídas.
As aulas aconteciam simultaneamente em diversos lugares da
cidade, muitos deles inusitados, como recorda o pesquisador Victor Souza, da
Universidade Federal Rural do Semiárido (Ufersa).
"Os círculos de cultura aconteciam em diversos lugares.
Havia um grupo, um círculo de cultura na delegacia, havia um outro na [Escola]
José Rufino e havia um outro no Alto da Esperança. É possível que existissem
outros".
"Aqui em Angicos foi uma experiência que deu certo. Por
isso que ela acabou aí sendo projetada para uma expansão em todo o Brasil, que
depois foi quebrada pela implantação da ditadura militar no Brasil",
conclui a pesquisadora Ana Aires, também da Ufersa.
• Uma ideia
interrompida pelo golpe
O sucesso das 40 horas fez com que Jango, o presidente deposto,
tentasse replicar a fórmula em escala nacional. O presidente visitou Angicos
para conferir de perto o sucesso do projeto, durante a cerimônia da conclusão
das aulas, e se animou com ideia de implementá-la em outros estados.
O governo pretendia iniciar, em maio de 1964, o Plano Nacional
de Alfabetização, inspirado no pensamento de Freire. A expectativa era de
alfabetizar mais de um milhão de pessoas naquele ano, por meio de mais de 60
mil círculos de cultura.
Tudo foi cancelado pela ditadura militar. A pesquisadora Mariana
Parise Brandalise, da Universidade de Caxias do Sul, revelou um diálogo entre o
general Humberto Castelo Branco e o jornalista Calazans Fernandes, à época
secretário de Educação do Rio Grande do Norte, sobre a experiência de Paulo
Freire em Angicos. Castelo Branco teria afirmado: "Meu jovem, você está
engordando cascavéis nesses sertões." O secretário rebateu, de imediato:
"Depende do calcanhar onde elas mordam, general."
A preocupação do militar era de que, após alfabetizados, os
trabalhadores passassem a usufruir de uma cidadania que não tinham antes. Uma
das principais conquistas seria o direito ao voto – que só foi garantido às
pessoas que não sabem ler em 1985. Além disso, as aulas de Freire guiavam as
turmas para a consciência sobre os direitos trabalhistas. As 40 horas de
Angicos confrontam os privilégios de muitos latifundiários no Nordeste.
Poucos meses depois da experiência em Angicos, veio o golpe
militar de 1964. Paulo Freire se transformou em um dos principais inimigos do
regime. O clima de conspiração espalhou o medo entre os alunos na cidade
potiguar. Circulava a versão de que as aulas eram um experimento do comunismo.
"Disseram que iam mandar pessoas, autoridades, para mandar
queimar os cadernos. E até mesmo prender ele. Foi uma revolução muito grande na
cidade", relembra a ex-aluna Valdice, sobre o clima que prevaleceu entre
os participantes com a notícia de que Freire poderia ser preso pela ditadura.
"Quando se mete coisa do mal nas coisas do bem, a pessoa
fica assombrada. Não sei por que inventaram esse negócio de ditadura. Não sei
pra que inventaram isso'", lamenta a também ex-aluna Maria do Ferreiro.
Uma educação tecnicista
O método de Paulo Freire, em tese, representaria um importante
avanço para o Nordeste, porque aceleraria a alfabetização jovens e adultos, os
tornando aptos para novos empregos. Além disso, o método trazia consigo uma
visão popular e crítica de sociedade, resumida na seguinte percepção: era uma
" alfabetização para a conscientização e para a participação política.
Alfabetizar para que o povo emergisse da situação de dominado e
explorado", como resumiu Ana Maria Araújo Freire. A interrupção pelos
militares acabou brecando um plano considerado eficaz para o período.
"Nós fomos impactados com essa quebra nessa educação
libertadora, que emancipa as pessoas. E o que foi implementado pelos militares
foi um tipo de educação tecnicista, uma educação que Paulo Freire chama de
bancária", conta a pesquisadora Ana Aires, da Ufersa.
"O que eles – os militares – pensam de Paulo Freire? É que Paulo Freire
era uma pessoa subversiva. a sua subversão era tanto para o Brasil, que
prejudicava a educação, como também era a subversão a Deus, [já] que ele não
seguia as normas padrões dentro das questões exigidas, dentro dos padrões
militares da época", aponta Erivalda Torres, do Centro Paulo Freire, no
Recife.
O ataque ao método Paulo Freire permaneceria por muito anos.
Instalados no poder, os militares começaram a esvaziar o Plano Nacional de
Alfabetização, que mal saiu do papel.
Em seu lugar foi implementado o chamado Mobral – Movimento
Brasileiro de Alfabetização. Apesar de ser inspirado nas "palavras
geradoras" de Freire, os termos eram escolhidos por técnicos, longe da
realidade dos jovens com 15 anos ou mais que seriam alfabetizados. Foi um dos
programas de educação mais caros do Brasil, que só foi efetivado em 1971, quase
7 anos depois de sua criação.
"Os militares vão criar o Mobral, que teria uma lógica de
atuação sobre um segmento que não tinha essa educação formal, para tentar
contribuir no sentido de alfabetização
desse segmento. Só que era algo que não colocava o indivíduo como
sujeito histórico, como sujeito social", relembra Túlio Velho Barreto,
cientista político.
A desconstrução da filosofia freireana deixou feridas abertas na
educação brasileira e de difícil solução até os dias atuais. Ao longo do
regime, a educação permaneceu sendo um direito para poucos. Segundo estudo do
Ministério da Educação, na década de 1970 quatro em cada dez brasileiros eram
analfabetos. O tempo médio de permanência na escola era de, aproximadamente,
dois anos. O regime tirou o entusiasmo do estudo e criou novas barreiras para a
alfabetização.
O próprio Paulo Freire vai chegar a esta conclusão, em
entrevista no final dos anos 1980, mencionada no início dessa reportagem.
"Eu acho que a ditadura estragou esse país da gente durante
muito tempo, e continua estragando hoje. Quer dizer, evidentemente que a
ditadura militar não inaugurou no Brasil o autoritarismo. O autoritarismo está
entranhado na natureza mesma da nossa sociedade. O Brasil foi inventado
autoritariamente. Mas os militares deram uma indiscutível contribuição ao
autoritarismo."
No terceiro e último episódio da série Futuro interrompido - as
consequências da ditadura militar para o Nordeste, vamos relembrar como os
militares silenciaram Josué de Castro, o teórico que descobriu as causas
humanas e políticas da fome.
Celso Lungaretti:
Um general sem prestígio deflagrou o golpe de 64
Eu vou! Eu vou! Eu vou derrubar o governo, agora eu vou!
Pararatimbum, pararatimbum!
O esquema dos golpistas de 1964 vinha sendo montado desde a
década anterior, mas ainda não estava pronto quando da renúncia do presidente
Jânio Quadros em agosto de 1961.
Os conspiradores nela viram, contudo, uma oportunidade de
queimar etapas e resolveram precipitar as coisas: convenceram os comandantes
das três Armas a tentarem impedir a posse do vice-presidente legal (João
Goulart), que estava ausente, visitando a China em missão oficial.
Como o afobado come cru, eles foram derrotados:
— pela resistência do governador do Rio Grande do Sul, Leonel
Brizola, que passou a conclamar o Brasil inteiro a não permitir a usurpação de
poder, utilizando para tanto uma rede de emissoras de rádio que se formou
espontaneamente (a Rede da Legalidade);
— pela decisão do comandante do III Exército (RS), o general
legalista Machado Lopes, de colocar-se ao lado de Brizola, passando, portanto,
a existir a ameaça de militares combaterem uns aos outros, hipótese que sempre
horrorizou nossas Forças Armadas; e
— pela firme oposição de cabos e sargentos do Exército e Marinha
ao golpe, criando outra divisão entre os fardados.
A crise acabou com a solução conciliatória de se dar posse a
Goulart, mas instituir-se o parlamentarismo, de forma que os poderes
presidenciais foram momentaneamente reduzidos (o plebiscito de janeiro de 1963,
contudo, restabeleceu o status quo ante).
Os conspiradores, face ao fracasso inicial, tiveram de repensar
todo seu planejamento. Desfecharam perseguições nos quartéis, isolando e
transferindo para unidades distantes os líderes dos subalternos que haviam se
colocado contra o golpe, enquanto o pusilânime Goulart nada fazia para proteger
quem lhe havia sido leal.
E, percebendo que careciam de algum respaldo na coletividade,
partiram para a conquista do apoio da classe média conservadora, contando para
tanto com o apoio do clero reacionário e de entidades anticomunistas como a TFP
e a TFM [afora a mãozinha estadunidense, com a enxurrada de investimentos em
Bolsa de Valores, suficiente para forjar o boom econômico de curta duração
conhecido como milagre brasileiro].
Os viradores de mesa só se considerariam prontos para nova
tentativa 20 meses depois.
O passo final foi a conquista da caserna, empreitada facilitada
pelo apoio crescente que passaram a ter da classe média (afinal, os oficiais
eram majoritariamente dela oriundos) e pelos préstimos de provocadores como o
marinheiro de 1ª classe Anselmo (erroneamente apelidado de cabo), que
radicalizaram ao máximo a insubordinação dos cabos e sargentos das Forças
Armadas contra o oficialato.
[Meu saudoso companheiro na VPR, o José Raimundo da Costa, dito
Moisés, era um dos líderes dos marujos e nunca quis acreditar que Anselmo fosse
um infiltrado, embora já existissem suspeitas. Pagou com a vida por seu apreço
pelo colega de antigas jornadas.]
O que os oficiais mais prezam é sua autoridade. E, dias antes do
golpe, a viram estridentemente ultrapassada por Jango. É que, com o mandato
cada vez mais ameaçado, Goulart havia finalmente descido do muro, daí ter
ousado proibir a prisão de marinheiros e fuzileiros navais responsáveis por uma
comemoração levada a efeito depois de vetada pelos escalões superiores. Foi a
gota d'água: o oficialato alinhou-se em massa com o golpe.
A ruptura da ordem legal àquela altura já estava sendo
amplamente requerida pelos capitalistas e latifundiários, além de endossada
pelo presidente dos EUA Lyndon Johnson.
A CIA favorecia e financiava os conspiradores havia muito tempo,
mas John Kennedy, caso tivesse sobrevivido ao atentado de Dallas, dificilmente
lhes daria sinal verde, assim como não autorizou a disponibilização de
cobertura aérea para a invasão da Baía dos Porcos, crucial para o sucesso da
empreitada, mas que deixaria as digitais dos EUA impressas numa flagrante
interferência na política interna de um país soberano (Cuba).
A posse em 22 de novembro de 1963 de Johnson, um texano
anticomunista que obviamente comeria na mão da CIA, significou a remoção de um
importante obstáculo para o golpe, tanto que, a partir daí, só transcorreriam
quatro meses e uma semana até Olímpio Mourão Filho começar a descer a BR-3
(hoje rodovia BR-040) com suas tropas e iniciar a quartelada.
Anticomunista com carteirinha assinada e falsário desmascarado
em vida (forjou o chamado Plano Cohen para alavancar a instalação do Estado
Novo em 1937), Mourão antecipou-se por alguns dias ao cronograma dos
conspiradores históricos, mas nada lucrou com isto: o poder não ficou com o
ejaculador precoce, mas sim com o esquema golpista que vinha sendo
laboriosamente montado desde a década anterior.
Tão vergonhosa foi a facilidade com que um aventureiro
desprestigiado na própria caserna e seus recrutas imberbes derrubaram Goulart
que a esquerda entrou num longo processo de crítica e autocrítica, do qual
decorreram o colapso da hegemonia do PCB e a ascensão da luta armada como
principal forma de resistência à ditadura após a assinatura do AI-5.
Fonte: Correio da Cidadania/Brasil de Fato

Nenhum comentário:
Postar um comentário