5 fatos sobre os fugitivos de Mossoró agora
recapturados
Foram recapturados
nesta quinta-feira (4/4) dois detentos que fugiram da Penitenciária Federal de
Mossoró, no Rio Grande do Norte, informou o Ministério da Justiça e Segurança
Pública (MJSP).
Rogério da Silva
Mendonça e Deibson Cabral Nascimento fugiram em 14 de fevereiro, na
Quarta-feira de Cinzas, e foram recapturados 50 dias depois em Marabá, no Pará,
a cerca de 1.600 km de Mossoró.
Segundo o ministro da
Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, em pronunciamento na tarde
desta quinta-feira, a distância percorrida pelos fugitivos "demonstra que
eles foram coadjuvados [ajudados] por criminosos externos e tiveram auxílio de
comparsas e das organizações criminosas aos
quais pertenciam".
Ainda conforme o
ministro, os fugitivos se dirigiam ao exterior no momento da recaptura.
Conforme Lewandowski,
os prisioneiros foram encontrados "num verdadeiro comboio do crime"
e, no momento da prisão, foram apreendidos três carros, com diversos celulares
e um fuzil. Ele disse ainda que, junto aos três fugitivos, foram presos quatro
comparsas que estavam nos demais veículos.
Desde o começo da
operação de recaptura, 14 pessoas envolvidas na fuga já foram presas, lembrou
ainda o titular da Justiça e Segurança Pública.
Ainda de acordo com
Lewandowski, os prisioneiros serão levados de volta ao presídio de Mossoró, que
teria sido "totalmente reformulado" com relação a equipamentos de
segurança. A direção da unidade também foi trocada e os protocolos de segurança
aperfeiçoados, disse o ministro.
Lewandowski
classificou a recaptura como "uma vitória do Estado e das forças de
segurança" e uma demonstração de que "o crime organizado em nosso
país não será bem sucedido" – ele lembrou ainda da resolução recente do
crime de assassinato da vereadora Marielle Franco, do
Psol-RJ.
Esta foi a primeira
fuga da história do sistema penitenciário federal desde que ele foi criado, em
2006.
Os criminosos abriram
passagem por um buraco atrás de uma luminária e cortaram duas cercas de arame
usando ferramentas de uma obra que ocorria no local para escapar.
Quatro dias após a
fuga inédita, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) cogitou que os dois detentos poderiam ter recebido ajuda
para deixar a unidade, considerada de segurança máxima.
Na terça-feira (2/4),
após um mês e meio apurando as circunstâncias da fuga, a corregedoria-geral da
Secretaria Nacional de Políticas Penais, do MJSP, informou que foram
encontrados "indícios de falhas" nos procedimentos carcerários de
segurança do presídio, mas nenhuma evidência de que servidores tenham,
intencionalmente, facilitado a fuga.
Ainda de acordo com o
ministério, três Processos Administrativos Disciplinares (PADs) foram
instaurados para aprofundar as investigações sobre as falhas identificadas.
<<< Conheça
cinco fatos sobre os fugitivos de Mossoró agora recapturados.
·
1. Membros do Comando
Vermelho no Acre
Os acreanos Deibson
Cabral, 33 anos, e Rogério Mendonça, 36 anos, eram membros da facção
carioca Comando Vermelho (CV) no
Acre, segundo investigação do Ministério Público (MP) no Estado.
Conforme o portal
Metrópoles, um relatório do Núcleo de Apoio Técnico da Coordenação de
Inteligência do MP do Acre, de agosto de 2020, Deibson teria sido a terceira
pessoa a ser "batizada" pelo CV no Acre, em novembro de 2013.
O "batismo"
é uma cerimônia, feita às vezes em conferência telefônica, na qual o criminoso
aceita as regras da facção.
"O fato de ser o
cadastro número 03 da facção demonstra que o indiciado é um dos fundadores da
organização criminosa no Acre e portanto, goza de grande prestígio no interior
do sistema prisional para com os demais presos", escreveu o juiz Robson
Ribeiro Aleixo em sentença de 25 de fevereiro de 2022, conforme a reportagem do
Metrópoles.
Criado no sistema
prisional do Rio de Janeiro em 1979, o Comando Vermelho é uma das maiores
facções criminosas do Brasil e está presente em diversos estados.
Segundo relatório do
Ministério Público, o CV chegou no Acre em 2013.
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2. Participação em
rebelião sangrenta
Deibson e Rogério
estão entre os 13 denunciados pelo Ministério Público do Acre (MP-AC) à Justiça
por uma rebelião no Presídio de Segurança Máxima Antônio Amaro, em Rio Branco,
que terminou com cinco presos mortos, três deles decapitados.
A rebelião em Rio
Branco durou mais de 24 horas e teve fim no dia 27 de julho de 2023.
Segundo o MP-AC, a
revolta foi planejada depois de alguns presos serem transferidos de pavilhão na
unidade prisional acreana semanas antes.
A chacina começou
depois que presos do Comando Vermelho invadiram a ala ocupada por integrantes
das facções rivais Bonde dos 13 (B13) e do Primeiro Comando da Capital (PCC).
Em setembro de 2023,
14 detentos envolvidos na rebelião foram transferidos para Mossoró num avião da
Polícia Federal. Entre eles, estavam os dois fugitivos agora recapturados.
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3. Oitenta processos e
155 anos de prisão somados
Rogério da Silva
Mendonça responde a mais de 50 processos, entre os quais constam os crimes de
homicídio e roubo.
Ele é condenado a 74
anos de prisão, somadas as penas, segundo o Instituto de Administração
Penitenciária do Acre, conforme informações do portal G1.
Já Deibson Cabral
Nascimento tem o nome ligado a mais de 30 processos e responde por crimes de
organização criminosa, tráfico de drogas e roubo. Ele tem 81 anos de prisão em
condenações.
Ainda segundo o portal
Metrópoles, entre os crimes conhecidos de Deibson, estão um latrocínio (roubo
seguido de morte) ocorrido em 2009, pelo qual ele foi condenado em 2011 a 28
anos e 9 meses de prisão.
Deibson também foi
preso em 2015 acusado de fazer parte da quadrilha que sequestrou um político e
empresários da Bolívia.
Segundo a polícia
boliviana, o brasileiro participou do sequestro de Juan Carlos Zabala, prefeito
da cidade de Filadélfia, no interior da Bolívia.
Já um dos crimes
cometido por Rogério é o homicídio do adolescente Taylon Silva dos Santos, de
16 anos, em abril de 2021, em Sena Madureira, no interior do Acre.
O adolescente foi
morto com um tiro na cabeça. Ela seria da mesma facção dos suspeitos e teria
ofendido um dos envolvidos na execução, segundo o portal G1.
Pela morte do
adolescente, Rogério foi condenado a 32 anos, 7 meses e 20 dias em setembro de
2022 por homicídio qualificado com motivo torpe e recurso que dificultou a
defesa da vítima, além de corrupção de menores e organização criminosa.
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4. Cinquenta dias de
fuga
Após a fuga do
presídio de Mossoró, as autoridades de segurança pública levaram 50 dias para
recapturar os criminosos.
Apesar da morosidade,
o ministro Lewandowski classificou a operação de recaptura como
"extremamente bem sucedida", por não ter sido disparado nenhum tiro e
a operação não ter resultado em feridos ou mortos.
"Foi um trabalho
puramente de inteligência", disse o ministro, em coletiva de imprensa
nesta quinta-feira.
As buscas envolveram
helicópteros, drones, cães farejadores e outros equipamentos tecnológicos
sofisticados, além de mais de 600 homens, incluindo a Força Nacional e equipes
de elite da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária Federal.
A princípio, elas se
concentraram nas áreas rurais das cidades de Mossoró e Baraúna, próximas à
divisa com o Ceará.
Durante a fuga, os
criminosos invadiram três casas e fizeram uma família refém.
Segundo informações da
investigação da Polícia Federal (PF), citadas pelo portal G1, uma facção
criminosa teria ajudado os fugitivos a pagar R$ 5 mil ao dono de uma fazenda
que auxiliou na fuga, permitindo que se escondessem em sua propriedade.
Ainda segundo o G1, a
investigação da Força Integrada de Combate ao Crime Organizado no Ceará
(Ficco/CE) revela que os fugitivos teriam saído de barco pesqueiro do Estado,
antes de serem recapturados no Pará.
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5. Primeira fuga em
presídios federais
O sistema federal de
segurança máxima foi criado a partir do primeiro governo de Luiz Inácio Lula da
Silva (PT), motivado por ataques do crime organizado.
Os presídios federais
tinham por objetiva isolar criminosos e cortar a linha de comando das facções,
uma vez que, nas penitenciárias estaduais, líderes seguiam dando ordens de
dentro da cadeia.
Em março de 2006, foi
inaugurado o primeiro presídio federal de segurança máxima em Catanduvas (PR),
a 476 quilômetros de Curitiba. Naquele mesmo ano, seria inaugurada ainda a
unidade de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul.
Em 2009, foram
inauguradas as unidades de Mossoró e de Porto Velho. Apenas em 2018, foi
concluída a quinta e última penitenciária, localizada em Brasília.
Atualmente, existem no
país cinco presídios federais de segurança máxima. Cada um tem 208 vagas,
totalizando 1.040, segundo informações da Agência Brasil.
Conforme os dados
públicos mais recentes do sistema penitenciário brasileiro, referentes ao ciclo
entre janeiro e junho de 2023, atualmente há 489 detentos nesses presídios, o
que indica uma ocupação abaixo da metade da capacidade.
Entre os criminosos já
encaminhados para estas penitenciárias, estão Fernandinho Beira-Mar, Marcola,
Marcinho VP e Nem da Rocinha.
A fuga dos dois
presidiários de Mossoró fez ressoar críticas de especialistas e pesquisadores,
que questionam se esses presídios têm de fato contribuído para desestruturar o
crime organizado.
Uma das preocupações
gira em torno do agrupamento dos líderes de facções criminosas nestas unidades,
o que possibilita a ocorrência de novas articulações.
Fonte: BBC News Brasil

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