Discussão do VLT pode viabilizar trem regional, na Bahia
Desativado há quase 30 anos, o transporte
intermunicipal de passageiros por trem vive a expectativa de renascimento. Com
a discussão em torno do VLT do subúrbio, da retomada do projeto da Ferrovia de
Integração Oeste-Leste (Fiol) e os investimentos previstos no novo Programa de
Aceleração do Crescimento (PAC), a recuperação da malha ferroviária voltou à
pauta.
No início desse mês, o Tribunal de Contas da
União prorrogou, mais uma vez, a negociação entre os governos da
Bahia e de Mato Grosso para a aquisição de 280 vagões comprados para o projeto
de mobilidade da Copa 2014 e que estão sem uso. Esses vagões poderiam
viabilizar a retomada do transporte ferroviário no subúrbio e abrir espaço para
planos mais ambiciosos.
Estudos recentes, somados a uma grande pesquisa
realizada há quase 10 anos, são a base da mobilização pelo Trem Regional,
encabeçada pelo movimento “Ver de Trem”, que conta com apoio de diversas
entidades e, no início desse mês, conseguiu sensibilizar o secretário da Casa
Civil, Afonso Florence, que demonstrou interesse em avançar no diálogo.
Fundador do movimento Ver de Trem, ou Trem de
Ferro, Gílson Vieira encaminhou uma carta ao secretário com as principais
demandas e as possibilidades de integração de outros projetos já em pauta com a
retomada do transporte de carga e de passageiros.
A proposta inclui, além do resgate da linha
Salvador x Alagoinhas, passando por Simôes Filho (Mapele), Camaçari, São
Sebastião do Passé e Dias d´Ávila, uma ligação com Feira de Santana. Outro
trecho ligaria Conceição da Feira e Candeias a Salvador, se integrando com o
transporte urbano a partir do subúrbio, desde Paripe até o Comércio e não mais
somente até estação da Calçada. O secretário recebeu as sugestões de forma
positiva.
“É importante ressaltar que este é um movimento que
possui uma longa e exitosa trajetória. O Governo do Estado está desenvolvendo
estudos sobre a origem, destino, demanda do transporte ferroviário numa
perspectiva metropolitana com o metrô, que já avançou muito, com a
possibilidade de integração com o VLT, também metropolitano, e com os estudos
de viabilidade de um trem regional de conexão do sistema metroferroviário
metropolitano. Mas não só metropolitano, porque além do trajeto que eles
propõem, nós cogitamos de Alagoinhas eventualmente até Feira de Santana. Então
seria um sistema ferroviário macro metropolitano”, disse Florence.
O projeto do trem regional conta ainda com apoio do
deputado estadual Hilton Coelho (PSOL), que criou a campanha “Devolva nossos
trilhos” e fez uma indicação ao governador Jerônimo Rodrigues (PT), para que
garanta a implantação do Trem Regional de Passageiros nos trechos entre
Salvador x Feira de Santana x Alagoinhas.
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História
Criada no século 19, a linha férrea baiana passou a
ser controlada pela União em 1957, com a criação da RFFSA (Rede Ferroviária Federal
Sociedade Anônima) e se manteve ativa até 1996, quando foi privatizada no
governo de Fernando Henrique Cardoso.
A concessão da Viação Centro Atlântica (VCA) durou
10 anos e foi repassada à VLI (Valor da Logística Integrada), cuja concessão
vai até 2026. Desde a privatização, já são 27 anos sem transporte por trem
entre Salvador e outros municípios. Mas é justamente a renovação dessa
concessão que pode gerar os recursos necessários à recuperação do transporte de
passageiros.
Recentemente, a VLI ofereceu ao governo baiano R$ 5
bilhões pela antecipação da renovação e mais R$ 1,2 bilhão para indenizar o
estado pelo sucateamento de mais de 2 mil km de trilhos. Dessa multa pode sair
o investimento necessário para reativar o trem de passageiros.
·
Ver de Trem
Fundador do movimento Trem de Ferro, ou Ver de
Trem, Gílson Vieira desde 1986 luta pelo transporte ferroviário intermunicipal.
Uma trajetória ricamente documentada nas páginas do jornal A TARDE. Foi
dele a iniciativa de elaborar a carta para o governo, com apoio de entidades
representativas e amparado em estudos de viabilidade.
A TARDE acompanha a luta do "Ver de TRem"
há mais de 30 anos| Foto: Reprodução
Para Gílson, R$ 600 milhões seriam suficientes para
revitalizar todo o trecho de Salvador a Alagoinhas, incluindo sinalização e
veículos, que pode ser tanto o VLT ou um trem convencional, a exemplo do que é
operado pela companhia Vale, no trecho que liga Minas Gerais ao Espírito Santo.
Os planos de Gílson, baseados em estudos realizados
pela Escola Politécnica da UFBA, projetam a extensão do VLT do trecho
Calçada-Paripe, passando pela Ilha de São João (S. Filho), Águas Claras e
chegando a Piatã na via urbana.
As diferenças entre os trilhos do VLT e do trem
regional seriam facilmente contornáveis a partir do compartilhamento das vias.
O trem circularia mantendo a bitola métrica, já instalada até Alagoinhas. “A
bitola métrica ainda vai durar décadas”, projeta Gílson, que acredita na
adaptação para bitola mista à medida que o plano ferroviário nacional for
implantado.
Com relação ao VLT, Gílson propõe a criação de um
terceiro trilho, criando uma via central, que seria compartilhada entre os
trens de carga e passageiros nos horários ociosos do transporte urbano, “O
transporte de cargas sempre foi feito assim, na madrugada”.
Além da ligação entre os municípios, o Ver de Trem
propõe a exploração do potencial turístico da Baia de Todos os Santos e a
criação de programações especiais nas viagens de trem, que passariam a ser um
produto cultural, gerando oportunidades nos setores gastronômico, musical e
artístico.
Estudos feitos pelo SEBRAE Nacional em parceria com
a ABOTTC – Associação dos Operadores dos Trens Turísticos Culturais, em 2010,
viabilizaram o projeto “Trem é turismo”, incluindo o projeto Ver de Trem, em
prática bem sucedida no trecho entre Calçada e Paripe.
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Logística
O professor Juan Pedro Moreno, coordenador do
Cetrama (Centro de Estudos de Transporte e Meio Ambiente) da escola Politécnica
da UFBA foi um dos responsáveis pela pesquisa realizada em 2014 para avaliar a
viabilidade do trem regional.
Para ele, a estruturação de um complexo de
transporte metropolitano sobre trilhos é urgente. “Necessitamos de um plano
macrometropolitano de transporte de carga e passageiros, interligando Salvador,
Feira de Santana, Alagoinhas e Santo Antônio de Jesus”, defende.
Segundo Moreno, esse plano é estratégico para
promover o desenvolvimento regional. O professor elege três demandas
prioritárias para a consolidação desse sistema integrado sobre trilhos.
Transporte de cargas com acesso ao porto de Salvador com bitolas compatíveis,
trem de passageiros regional e linha urbana Paripe x Salvador, com extensão
além da Calçada. “Não tem sentido VLT sem acesso ao centro de Salvador, no
Mercado Modelo”, pondera, ressaltando a saturação do trânsito na região e as
oportunidades de negócios que seriam geradas nas estações de embarque.
Em fevereiro desse ano, a Fundação Dom Cabral
apresentou resultado de estudo contratado pela Companhia Baiana de Pesquisa
Mineral (CBPM) confirmando o potencial de demanda por ferrovias no Estado da
Bahia e a demanda de carga para justificar o investimento no transporte
ferroviário.
Paulo Villa, diretor-executivo da Usuport, entidade
que reúne os usuários de portos na Bahia, reforça a importância da malha
ferroviária para o setor. “É o momento correto de discutir o planejamento geral
de uma ferrovia estado da Bahia. Talvez estejamos um pouco atrasados”, diz
Villa.
O dirigente vê o transporte de passageiros como
elemento adicional no pleito pela retomada da linha férrea. “Se leva carga,
leva passageiro”, sentencia. E adverte: “É necessário que a Bahia pense grande,
se não pode ficar isolada logisticamente. O porto de Salvador é muito
importante, não pode prescindir de uma ferrovia”.
Fonte: A Tarde

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