O governo Lula, a popularidade e o projeto de
Estado
É exatamente a falta
de compromisso com um projeto soberano que coloca em risco o progressismo na
política externa e nas políticas públicas do governo Lula. Suas dimensões parecem
ser insuficientes ou limitadas para uma época em que as confrontações se
aceleram, em que a extrema-direita se nutre da insatisfação de segmentos
populares com a limitação dos projetos de democracia da centro-esquerda para
propor o giro a sistemas políticos de transição ao fascismo, questionando a
natureza da democracia e as reais intenções das esquerdas.
·
As interpretações
sobre a queda da popularidade de Lula
A publicação da
pesquisa sobre a aprovação do governo Lula, pela parceria entre a Genial
Investimentos e o Instituto Quaest, acendeu o debate sobre as razões de sua
queda de popularidade. A pesquisa foi realizada entre os dias 25 e 27 de
fevereiro, coincidindo com a manifestação de Jair Bolsonaro na Avenida
Paulista, patrocinada por Silas Malafaia, e suas repercussões. Foi publicada,
simultaneamente, com dois outros levantamentos do mesmo Instituto que versam
sobre a declaração de Lula a respeito da ação de Israel em Gaza e sobre a
avaliação da Lava Jato, sugerindo possíveis cruzamentos. Outra pesquisa,
realizada pelo IPEC, antigo Ibope, ratificou a queda de popularidade com uma
metodologia diferente. Enquanto a pesquisa Genial/Quaest usou como principal variável
indicadores binários de aprovação/desaprovação, a pesquisa IPEC utilizou três
categorias, ótimo/bom e regular e ruim/péssimo, útil para medir a intensidade
do apoio ou rechaço, mas que não permite classificar o regular em aprovação ou
desaprovação. Ambas são convergentes em relatar queda de popularidade do atual
Presidente da República.
Duas foram as leituras
que ganharam divulgação para explicar a queda da popularidade de Lula. A
predominante, que dominou o noticiário da grande imprensa, mídia televisiva e
eletrônica, foi a de que a queda se explicaria em razão das declarações de Lula
sobre a ação de Israel, comparando o massacre em Gaza às ações de extermínio em
massa de Hitler. Essa visão, subliminarmente sugerida pelo Instituto, foi
acolhida pelo secretário de comunicação do governo, Paulo Pimenta, e divulgada
pela grande imprensa e por agências internacionais como a Reuters. A
segunda leitura, que não necessariamente exclui a primeira, foi a de que a
queda de popularidade se explicaria pela percepção de piora do desempenho da
economia pelos entrevistados. A pesquisa Quaest apontou que 73% dos
participantes indicaram como expressão dessa piora a elevação nos preços dos
alimentos, 63% das contas em geral e 51% dos combustíveis. Essa interpretação
baseia-se ainda nos indicadores macroeconômicos, que registram estagnação do
PIB no segundo semestre, após forte crescimento na primeira metade do ano,
puxado pelo agronegócio, pelas exportações e pela expansão do consumo das
famílias. Defendo uma terceira hipótese: a de que a queda se explica
principalmente pela estratégia política seguida pelo governo Lula que define
como eixo de gravidade da sua governabilidade a aliança com a centro-direita
neoliberal, em relação a qual se afasta com extrema cautela e minimalismo,
considerando ser esse um traço fundamental de realismo político. Um dos pilares
deste enfoque é a rígida política fiscal levada adiante pelo ministro Fernando
Haddad. Tal estratégia, que pode facilitar a governabilidade no curto prazo,
tende a deteriorá-la aceleradamente no médio e longo prazo, sendo de alto risco
para a liderança política de forças de centro-esquerda, como mais recentemente
aqui na América do Sul, a Argentina de Alberto Fernandez e Sergio Massa voltou
a revelar. Ponderar essa dimensão implica na necessidade de redefinir o
realismo político para incluir margens maiores de autonomia, iniciativa
político-ideológica e mobilização popular como ingredientes necessários de
sustentabilidade política. Ignorar esta exigência implica agravar as
dificuldades e deteriorar o principal ativo com que o Partido dos Trabalhadores
conta para infletir a agenda pública: a força simbólica e o prestígio popular
do Presidente Lula. Tal ativo deve se desdobrar e se articular com a capacidade
de organização dos movimentos populares para ganhar resiliência frente à
ofensiva conservadora para restabelecer o comando sobre o governo federal
brasileiro, que tende a se aprofundar à medida que se aproximam as eleições de
2026. Essa, todavia, não parece ser a escolha de Lula e nem das principais
forças que assessoram seu governo.
·
A hipótese da perda de
popularidade pela crítica a Israel
A hipótese da perda de
popularidade pela comparação entre as políticas de extermínio de Netanyahu na
Palestina a de genocídio de Hitler foi sugerida pelo Instituto Genial/Quest
como uma das causas da queda de popularidade. Essa alternativa foi abraçada pelo
Ministro-Chefe da SECOM e pela grande imprensa por duas razões distintas. Por
Paulo Pimenta, para atribuir a um tema da agenda externa, de relações
internacionais, efeitos internos, blindando as políticas econômicas do governo
de qualquer crítica. Em entrevista ao Roda Viva em outubro de 2023, ao ser
perguntado sobre as críticas feitas por Gleisi Hoffman ao Ministério da
Fazenda, Pimenta afirmou estar o governo unido em torno às políticas de
Fernando Haddad, que o representava em sua agenda no plano interno, dentro e
fora do Congresso, e no plano internacional, sendo essa uma decisão do
Presidente Lula. Pimenta apontou que a perda de popularidade de Lula seria
provisória, e que o Presidente estaria contribuindo para a mudança na opinião
pública brasileira e mundial sobre o tema, transformando a agenda internacional
de gestão do conflito. Os grandes conglomerados da mídia eletrônica
nacional e internacional, alinhados com o imperialismo liberal dos Estados
Unidos, viram na queda de popularidade um pretexto para atacar a política
externa do governo Lula, atribuindo-lhe esta responsabilidade. Como sabemos, o
governo Lula respaldou a ampliação do BRICS, restabeleceu os repasses
financeiros ao Novo Banco de Desenvolvimento, reforçou o tema da desdolarização,
recusou-se a estabelecer sanções contra a Rússia, defendeu a negociação entre
as partes para estabelecer o fim da guerra na Ucrânia, reinseriu o Brasil na
UNASUL e CELAC e apoia o fim das sanções à Venezuela e Governo Maduro no
restabelecimento do calendário eleitoral na Venezuela. Tal agenda provoca
profundo desconforto e contrariedade nos interesses estadunidenses e da
burguesia dependente e associada. Não é por outra razão que uma das primeiras
decisões do governo de Michel Temer, após o golpe de 2016, foi iniciar o
desmonte dos instrumentos de integração regional soberana, atuando para
suspender a Venezuela do Mercosul, e o Brasil e outros cinco países da UNASUL.
Temer afastou-se da CELAC e não compareceu à V Cúpula em Punta Cana, abrindo
espaço para que Bolsonaro suspendesse a participação do Brasil, e foi
cofundador do Grupo de Lima, que tentou articular a invasão e o golpe de Estado
na Venezuela, episódio que fracassou posteriormente em 2019. Jair Bolsonaro
extremou a direção subserviente de política externa, retirando o Brasil da
UNASUL, suspendendo a participação na CELAC, entrando em conflito com o Novo
Banco de Desenvolvimento, e principalmente com a China. A retomada de uma
política externa multilateralista que fortalece a inserção brasileira no Sul
Global incomoda o establisment liberal. Pesquisa do Instituto Genial/Quaest com
o mercado financeiro, de novembro de 2023, antes da comparação da política de Netanyahu
para a Palestina com o genocídio, indicava que 85% desaprovavam a conduta do
governo Lula sobre o conflito entre Israel e Palestina. Matérias na Veja,
Estadão, Folha de São Paulo, Valor Econômico e Reuters destacaram
a relação entre a perda de popularidade e as declarações de fevereiro de 2024,
quando Lula comparou a política de Netanyahu a de Hitler. Entretanto, essa
relação parece muito pouco provável. Não houve nenhuma manifestação de massa a
favor de Israel, o comício da Paulista fez referências mínimas ao tema, cabendo
este papel a Silas Malafaia. Na própria pesquisa Genial/Quaest, a percepção
favorável a Israel caiu de 52 a 39%, sendo ultrapassada pela desfavorável que
atingiu 41%, mantendo-se a presença dos que não sabem na margem de erro de 21%
para 20%. O tema parece ter ficado restrito ao andar superior da sociedade
brasileira, embora possa ter repercussão no grupo evangélico, mas não deve ser
entendido como varável independente relevante de mobilização deste grupo. Este
grupo vem se mobilizando pela ação de suas lideranças para proteger Bolsonaro
frente aos inquéritos do STF, em especial o referente à tentativa de golpe de 8
de janeiro de 2023, e para as eleições de 2024.
·
A hipótese da economia
A hipótese da economia
foi indicada pelo Instituto Genial/Quaest como outra explicação para a queda de
popularidade. Tendo sofrido queda de preços em 2023, os alimentos voltaram a
pressionar o índice de inflação a partir de outubro. Chama à atenção que a
supersafra de 2023 concentrou-se no primeiro trimestre e que o ano registrou
forte expansão da produção de soja (27,1%) e milho (19%), cana de açúcar
(10,9%) e café (8,2%), intensamente vinculados às exportações – inclusive o
milho nos últimos anos –, as quais responderam por mais metade do crescimento
do PIB do ano passado, 1,7% dos 2,9%. Ao mesmo tempo registrou-se expressiva
retração na produção de trigo (22,8%), laranja (7,4%) e arroz (3,5). Se entre
janeiro e setembro houve desinflação dos alimentos, de outubro de 2023 a
janeiro de 2024 os preços dessas mercadorias subiram 4,38%. A previsão para a
produção de grãos, cereais, oleaginosas e leguminosas este ano é de queda de
3,2%. A percepção de subida dos preços dos alimentos por 73% da população tem reforçado
a iniciativa do governo Lula de retomar os estoques reguladores da CONAB,
esvaziados durante o governo Bolsonaro. Entretanto, permanecem os problemas
estruturais de subfinanciamento da agricultura familiar, concentração da
estrutura fundiária e sua orientação para as exportações. Apenas 7% do crédito
destinado para a economia brasileira em 2023 foi contratado a taxas
subsidiadas, e o investido na agricultura representeou apenas 1,6% do PIB. Os
gastos do BNDES estão muito abaixo dos níveis alcançados em 2015, representando
aproximadamente 54% dos mesmos e pequeno crescimento em 2023 frente ao ano
anterior. Mesmo a Nova Política Industrial desenhada pelo governo Lula, que
contempla R$300 bilhões de investimentos entre 2023 e 2026, parte com taxas de
juros subsidiadas, apresenta um investimento financeiro bastante modesto para
suas metas e necessidades do país, e caso se realize integralmente representa
um montante de aproximadamente 2,7% do PIB no intervalo de quatro anos,
reunindo os setores público e privado. Como sabemos, a taxa de investimento em
2023 foi de 16,5% do PIB, bastante inferior aos níveis de 2021 e 2022, de 17,9%
e 17,8%, de 2011-13, quando atingiu 20,7%, e de 1971-80, quando alcançou 21,9%.
Como quer que seja, a elevação dos preços dos alimentos e das contas em geral
não atingiu a aprovação de Lula entre os segmentos mais pobres, segundo a
pesquisa Genial/Quaest. Essa oscilou na margem de erro entre 63% em outubro e
64% em dezembro, em 2023, e 61% em fevereiro de 2024. Já o segmento que percebe
renda familiar entre 2 e 5 salários-mínimos registrou queda acentuada de
aprovação. Em outubro de 2023 e fevereiro de 2024 houve uma queda expressiva de
53% a 45%. No Nordeste, a aprovação se manteve constante em 68% entre outubro
de 2023 e fevereiro de 2024, mas no Sudeste houve queda de 49% a 43% e no Sul,
de 50% a 40% no mesmo período. Como explicar a queda de popularidade já que a
elevação dos preços não afetou o apoio dos segmentos e regiões mais vulneráveis
socialmente?
·
Nossa hipótese: o
centrismo e a frente política com neoliberalismo
Em nossa opinião, a
queda de popularidade se explica pelos limites estratégicos em que passou a se
mover o governo Lula, que reproduz com maior gravidade a aliança com o capital
financeiro e o rentismo, o agronegócio, o monopólio midiático e os militares,
de gestões petistas anteriores, só superado pela virada na política monetária
do segundo mandato de Dilma, o que limita o espaço para a elaboração de
políticas públicas e articulação com os setores populares. Se o período de
2004-2013 foi definido, em sua maior parte, pela aceleração do crescimento
econômico, superávits fiscais, e enorme acumulação de reservas monetárias em
razão do boom das commodities e do forte ingresso de capitais estrangeiros,
ampliando a margem de manobra do governo, o golpe de Estado 2016 e a ascensão
do neofascismo colocaram como pedra de toque de sua economia política a
austeridade, chave para reestabelecer altas taxas de superexploração da força
de trabalho. O principal pilar deste processo foi a emenda constitucional 95
que limitou a variação das despesas primárias à inflação por 20 anos. A crise
política da aliança que sustentou o neofascismo e a sua derrota eleitoral
abriram o espaço para a aprovação da emenda constitucional 126/2022, que
possibilitou a substituição do teto de gastos por projeto de lei complementar
enviado ao Congresso para definir as diretrizes orçamentárias. Este novo quadro
jurídico-político permite ao governo aprovar suas propostas orçamentárias por
maioria simples. Entretanto, a conquista deste espaço estrutural não foi
acompanhada da iniciativa para liderar a transição política do país para um
novo ambiente político-ideológico e uma nova coalizão de forças. Ao contrário,
a estratégia adotada por Lula para as eleições de 2022 foi a de disputar com o
fascismo a aliança com o neoliberalismo para isolá-lo, aproximando-se de vários
personagens que participaram do golpe de 2016, mas posteriormente se afastaram
da extrema-direita por suas tentativas de solapar o modelo político liberal e
de articular o protagonismo de uma burguesia emergente em troca de fidelidade
política, o que ameaçava a posição hierárquica de segmentos mais tradicionais e
internacionalizados do grande capital e sua autonomia diante do Estado.
A eleição e a
governabilidade passaram a ser buscadas por Lula e os segmentos hegemônicos do
Partido dos Trabalhadores, garantindo-se ao grande capital uma margem de
segurança maior e um nível de ameaça menor na defesa de seus interesses do que
a aliança com o fascismo poderia proporcionar. Isso implicou uma agenda que
mesclou contemplar os avanços multilateralistas de proteção ao meio ambiente;
diversificar a política externa para aprofundar a parceria com os BRICS, a
América Latina e os países do Sul Global, abrindo novas oportunidades de
comércio e mecanismos de cooperação financeira e diplomática; manter sob
controle e baixo perfil de atuação os movimentos sociais organizados;
restringir o combate à desigualdade às políticas compensatórias e de erradicação
da extrema pobreza; gerenciar os avanços conquistados pela ofensiva neoliberal
nas políticas de Estado, minimizando os seus efeitos ou revertendo-os apenas
parcialmente; promover a transparência e reduzir o patrimonialismo e a
corrupção na gestão estatal; e limitar o enfrentamento com a extrema-direita
nas Forças Armadas ao círculo de estreita proximidade a Jair Bolsonaro. Tais
diretrizes foram e têm sido manejadas como uma condição indispensável para a
vitória eleitoral em 2022 e para a estabilidade política do governo. Em razão
dessa concepção tática, que afasta o espaço para formulações estratégicas do
horizonte, Lula descarta realizar uma ofensiva política ideológica de elevação
da consciência e nível organização popular e a atua cautelosamente dentro do
arcabouço neoliberal e dos limites do que Ruy Mauro Marini chamou de Estado de
4º poder, no qual as Forças Armadas atuam como guarda pretoriana do grande
capital e do imperialismo estadunidense, servindo como poder moderador e força
de dissuasão de avanços sociais e políticos mais consistentes. Todavia, o
suposto pragmatismo e a inevitabilidade dessa orientação, reivindicada pelos
segmentos centristas do Partido dos Trabalhadores para as eleições de 2022,
devem ser postos em questão, tomando-se como parâmetro a realidade. Se
descartamos a eleição de 2018 por ser atípica e compararmos a votação de Lula
em 2022 com a de Dilma em 2014, veremos que os percentuais gerais são
praticamente os mesmos e a aliança com segmentos da centro-direita e quadros
egressos do PSDB não contribuiu para aumentar o coeficiente eleitoral do bloco
de centro-esquerda. Na região Sudeste, Lula alcançou uma pequena vantagem em
relação à votação de Dilma em 2014, 45,7% versus 43,8%. Na região Sul,
Centro-Oeste e Nordeste teve votação ligeiramente inferior, respectivamente,
38,2% versus 41,1%, 39,8% versus 42,6%, e 69,3% versus 71,7%. Na região Norte,
o atual Presidente da República alcançou o seu resultado mais nitidamente
inferior, 49% versus 56,5%. Em São Paulo, a aliança com Geraldo Alckmin em nada
alterou os resultados eleitorais. A base conservadora, hegemonizada pela
centro-direita, migrou com esmagadora fidelidade para aceitar a liderança da
extrema-direita como o seu novo vértice aglutinador. Em 2010, José Serra
alcançou 54,1% no estado e Dilma 45,9%, praticamente a mesma votação de Jair
Bolsonaro e Lula 12 anos depois, que obtiveram 55,2% e 44,8%, e de Tarcísio de
Freitas e Fernando Haddad, candidatos ao governo do estado, que receberam 55,3%
e 44,7%. Em síntese, os dados mostram que a aliança com quadros de destaque do
antigo PSDB, onde despontam Geraldo Alckmin e Fernando Henrique Cardoso, foi
irrelevante para aumentar a votação de Lula em 2022, em relação a de Dilma em
2014.
Em relação às
estratégias de médio e longo prazo de disputa do Estado pelo bloco de
centro-esquerda, a defesa da frente antifascista com os neoliberais se torna
ainda mais implausível. O vínculo da centro-esquerda a um paradigma em crise
profunda, o neoliberal, abre espaço para que seus efeitos a atinjam e a
extrema-direita a acuse de ser parte do establishment, colocando-se
demagogicamente como alternativa por meio de uma agenda que prioriza a
violência contra grupos que elege preferencialmente como inimigos do Estado e
da sociedade brasileiros: a esquerda, os comunistas, a China, os movimentos
sociais organizados, o feminismo, os povos originários, as lutas antirracistas,
LGBTQIA+, ecológicas, pela descriminalização das drogas, pelo desarmamento e
contra a violência policial e o encarceramento. A ascensão da extrema-direita,
nos Estados Unidos e na União Europeia, explica-se em grande parte pela
vinculação da social-democracia ao rentismo que desvinculou o padrão de
acumulação de regulações e compromissos sociais com os trabalhadores,
priorizando a geração de capital fictício.
A escolha dos
neoliberais como os principais parceiros políticos do governo Lula leva a
opções de políticas públicas extremamente restritivas que comprometem os gastos
em saúde, educação, e serviços públicos em geral. Embora o governo Bolsonaro
tenha transferido para o novo governo dívidas de R$140 bilhões em 2023,
acumulou déficits fiscais de R$998 bilhões em 4 anos. A meta projetada por
Haddad nas LDOs de 2024, 2025 e 2026 é de déficit zero em 2024, e superávits de
0,5% em 2025 e 1% em 2026. O déficit fiscal de 2,3% do PIB, apresentado pelo
governo federal em 2023, está bem abaixo dos registrados na União Europeia ou
na Zona do Euro em 2022, que atingiram 3,3% e 3,6%. A Comissão Europeia
reiterou considerar aceitável o indicador de até 3% do PIB como déficit fiscal
para os países que tenham dívida pública acima de 60% do PIB. Com exceção de
Suécia, Chipre, Irlanda e Croácia, todos os demais 23 países apresentaram
resultados fiscais negativos. Nos Estados Unidos, o déficit alcançou 6,3% do
PIB em 2023, superior aos 5,4% de 2022. A priorização da dimensão fiscal do
ajuste das contas públicas, em detrimento da financeira, que volta a marcar os
governos petistas na atual gestão, é uma concessão dramática ao paradigma
neoliberal. A meta de déficit fiscal zero perseguida pelo ministro Haddad em
2024 está em desalinho à praticada pelos principais Estados do capitalismo
ocidental, sendo ainda mais rigorosa que as expectativas dos agentes do mercado
financeiro registradas na pesquisa Instituto Genial/Quaest, de novembro de
2023. 49% consideravam que a meta de déficit fiscal proposta pelo governo seria
de 0,5%, 18% que atingiria 0,75% e apenas 20% trabalhavam com a expectativa de
déficit zero. O governo não utilizou o prazo de que dispunha para alterar a
meta de déficit fiscal para 2024, reforçando as previsões sustentadas por
Haddad contra as pressões de setores do PT para flexibilizá-las, e agora só
poderá fazê-lo por emenda parlamentar.
Não se trata,
portanto, apenas de mover-se no paradigma neoliberal, mas de mover-se ofertando
ao grande capital, em particular ao capital financeiro parasitário, benefícios
para que a aliança com o governo Lula e o Partido dos Trabalhadores seja a sua
opção preferencial, mantendo-se a engrenagem do que Ruy Mauro Marini chamou em
seus últimos escritos de economia de transferência, em que o Estado transfere
valor às frações dominantes do capital sem qualquer contrapartida de
produtividade (Martins, 2023, p. 70) (Marini, 1989, p. 40). O efeito concreto
dessa linha de atuação é a realização de políticas para os extremamente ricos e
os extremamente pobres, negligenciando um imenso segmento no qual a
popularidade de Lula cai de maneira acentuada e compromete as estratégias de
hegemonia no médio e longo prazo da centro-esquerda no Brasil. O esforço em
considerar o Brasil, nos governos petistas, um país majoritariamente de classe
média, a partir da gestão de Marcelo Nery no IPEA, em 2012, como resultado das
políticas de distribuição de renda realizadas, em direção inversa às teses
adotadas por Marcio Pochmann, têm o objetivo de legitimar esse tipo de
política. Se tomarmos em consideração o salário-mínimo necessário do DIEESE e
cruzarmos com os dados da PNAD sobre distribuição de renda, poderemos situar
que aproximadamente 75% da população brasileira não percebe uma renda familiar
per capita suficiente para atender às condições minimamente necessárias de
consumo e depende de serviços públicos gratuitos, não podendo ser relegada ao
mercado e à sua variação de preços. Uma das principais características das
classes médias é a capacidade de atender às suas necessidades de consumo no
mercado. Entretanto, 67% das crianças brasileiras estão matriculadas em escola
pública, 77% da população não possui plano de saúde, 42% da população não está
conectada à rede geral ou pluvial de esgoto, apenas 27,7% dos lares possuem por
TV por assinatura, somente 43% acesso a serviços de streaming e apenas 40,2%
dos domicílios possuem microcomputador. O bolsa-família atualmente atende a
cerca de 30% das famílias brasileiras e lhes destina 1,5% do PIB. Representa um
montante muito menor que os 6,6% do PIB pagos de juros em 2023, sendo o governo
central responsável pela transferência de 5,6% do PIB aos rentistas. À meta
fiscalista que elude a natureza financeira do déficit e da dívida do Estado
brasileiro, soma-se a pressão dos juros e restringe significativamente os
gastos públicos com o setor real. O Estado limita a oferta e a qualidade dos
serviços e bens públicos e delega ao mercado a atenção das necessidades básicas
de nossa população. O resultado é tanto a precificação das necessidades sociais
encarecendo a atenção das necessidades básicas, quanto a exclusão relativa e
absoluta de um enorme segmento socialmente e economicamente vulnerável da
população dos serviços públicos, aproximadamente 40% da população brasileira
que tem renda familiar entre 2 e 5 salários-mínimos, segundo a pesquisa
Genial/Quaest. É exatamente neste segmento que a queda se faz mais acentuada
alcançando 11% entre agosto de 2023 e fevereiro de 2024, contra 7% no segmento
de renda familiar até 2 salários-mínimos e 5% naqueles que percebem renda
familiar superior a 5 salários-mínimos. Embora tenha havido forte expansão da
renda do trabalho em 2023, de 11,7%, impulsionada principalmente pelo aumento
do salário-mínimo e pela queda do desemprego, as pressões de demanda se chocam
com as restrições da oferta impulsionando o preço dos alimentos diante de uma
estrutura fundiária altamente concentrada, voltada para a exportação e
altíssimo custo do crédito para o investimento do qual dependem os pequenos e
médios agricultores.
A insistência do
governo em manter a meta de déficit zero, e até superá-lo por superávits em
2025 e 2026, restringe os efeitos multiplicadores do investimento sobre a
arrecadação, principalmente em situação de alto desemprego aberto, e atinge
violentamente os servidores públicos da educação e da saúde que compõem umas
das frações mais importantes da vanguarda ideológica da classe trabalhadora,
capaz de lançar uma ofensiva ideológica contra o neoliberalismo. Ao invés de
acolherem o movimento sindical destes segmentos, os governos petistas lhes
impuseram uma drástica derrota em 2012, optando pelas políticas fiscais
neoliberais, posição da qual não renunciaram no atual mandato. Tal derrota
abriu espaço para a ofensiva da direita na sociedade civil, o isolamento do
governo e o golpe de 2016. O governo Lula, portanto, não arranha a desigualdade
e a superexploração da força de trabalho que continuam a avançar no capitalismo
dependente brasileiro, apesar das políticas de combate à extrema pobreza. Em
2022, as rendas do 0,1% e do 1% mais rico eram, respectivamente, 189,2 e 37,6
vezes maior que a dos 95% mais pobres, tendo se expandido em 87% e 51% contra
33% dos últimos entre 2017 e 2022. Apenas 9% e 36% da renda auferida pelos 0,1%
e 1% mais rico vinha do trabalho, configurando segmentos fortemente rentistas,
que continuam a se beneficiar das políticas monetárias e fiscal. Apesar das
escaramuças entre o governo Lula e o PT de um lado, e o Presidente do Banco
Central, Roberto Campos Neto, de outro, sobre os níveis das taxas de juros,
nenhuma gestão para retirá-lo do comando do BC por desempenho insuficiente foi
realizada, mesmo tendo o governo maioria no Conselho Monetário Nacional.
Roberto Campos Neto sofreu abertura de processo na CGU para apurar suspeitas da
CGU sobre inconsistências contábeis de R$ 1 trilhão, sua gestão desvalorizou o
Real perante o Dólar em mais de 30%, e elevou as taxas de desemprego a 14,9%
comprometendo a meta do BC de atingir o bem-estar econômico da sociedade.
Temeroso de não alcançar maioria simples no Senado ou de desagradar o mercado
financeiro, Lula preferiu não arriscar este passo. Muito menos colocar em
discussão o fim da autonomia do Banco Central.
O governo Lula não
promove nenhuma ofensiva ideológica significativa para alterar a correlação de
forças sociais e políticas, baseando a sua popularidade na história de lutas,
na origem operária e no carisma pessoal, cujo tempo de vida útil nas disputas eleitorais
dificilmente se estenderá além do intervalo de 2026-2030. Não desafia o
monopólio dos meios de comunicação, o domínio fundiário do agronegócio, o
protagonismo do capital financeiro, a ofensiva neopentecostal e a vinculação
das Forças Armadas ao golpe de 1964 e sua concepção restrita e ambígua de
democracia, capaz de metamorfosear-se em fascismo. Tal vulnerabilidade coloca
em risco a sucessão da liderança política no governo federal para o bloco de
centro-esquerda, pois o tempo acentua a crescente perda de nitidez ideológica e
a ausência de uma individualidade que possa compensá-la. Se houve ampliação de
recursos para o Ministério da Cultura, as universidades públicas sobrevivem com
orçamentos restritos, menores que em 2023, e queda relativa de alunos,
atualmente apenas 22% das matrículas no ensino superior; a Empresa Brasileira
de Comunicações mantem-se com limitações econômicas e a TV Brasil atinge
somente 0,2% da audiência, não havendo jamais os governos petistas associado
nosso país à Telesur, ou atuado para reconstruí-la como parte de uma possível
revitalização da UNASUL. Se a reforma agrária se mantém em ritmo lento, tendo
Lula reservado a quinta parte dos recursos reivindicados pelo MST para o tema
no ano corrente, as igrejas evangélicas gozam do apoio do governo federal para
PEC que amplia as isenções tributárias para seus conglomerados empresariais.
Finalmente, nos 60 anos do golpe de 1964, Lula declara não se interessar pelo
tema, mantém sepultada a Comissão da Verdade, abandona o projeto do Museu da
Memória e dos Direitos Humanos, apesar de o Brasil ser talvez único país da
América do Sul sem justiça de transição e liderar o ranking de números de
homicídios no mundo. No âmbito da política externa, o governo assume uma
orientação contraditória, multilateralista e centrista, buscando ampliar a
margem de manobra internacional do país ao vinculá-lo a um novo eixo
geopolítico emergente que tem seus pilares mais ativos, hoje, na China e na
Rússia, mas ao mesmo tempo não desafia a dependência e o imperialismo na
América Latina, buscando o caminho cada vez mais estreito da coexistência entre
forças rivais de um mundo que aprofunda a sua bifurcação: de um lado, o
imperialismo estadunidense e a OTAN, e de outro, um novo bloco multilateralista
que se organiza através da articulação do Sul Global para reverter assimetrias
mundiais e construir um ambiente internacional cooperativo, plural, democrático
e pacífico. Se o Brasil assume protagonismo discursivo nos conflitos no Oriente
Médio, ancorado no BRICS e se torna sede das conferências do G-20, na
integração latino-americana assume um perfil baixo, não exercendo papel
estruturante.
Lula assume posição de
destaque em temas sobre os quais têm pouca capacidade de decisão institucional,
mas avança pouco em temas próprios da região onde o peso da influência
política, financeira e ideológica brasileira pode ser muito maior. Se denunciou
corretamente o genocídio palestino perpetrado pela política da grande Israel de
Netanyahu, mantém congelada a UNASUL e na VIII Conferência da CELAC não se
dedicou a temas sensíveis como a crise da democracia, a penetração do
narcotráfico nas estruturas de poder, os conflitos territoriais como o de
Essequibo e as pressões imperialistas sobre a fronteira mexicana. O Projeto de
Decreto Legislativo 548/2012, que ratifica a entrada brasileira no Banco do
Sul, jamais entrou em votação no Congresso Nacional, foi retirado da pauta de
votação em 2015 e o governo Lula não demonstrou nenhuma intenção de retomá-lo.
Limitada pelo
compromisso com a dependência que assume um perfil financeiro extremamente
parasitário e predatório na fase atual do capitalismo mundial e pela adesão a
preceitos do imperialismo liberal dos Estados Unidos, cada vez mais descolado
do desenvolvimento das forças produtivas da América do Sul, mas fiador das
políticas de austeridade, dos limites sociais da democracia brasileira, e de
uma integração regional de baixa densidade, incapaz de desafiar sua hegemonia
no Hemisfério Ocidental, a política internacional do país não é capaz de
realizar a sua vocação de liderança continental, mantendo subaproveitada as
possibilidades regionais e os projetos de desenvolvimento nacionais. Batizada
de altiva e ativa, e não de soberana, no lugar de independente, dos anos 1960,
nossa política externa parece estar mais interessada em destacar
características de interação e adaptação em um ambiente externo onde pretende
se mover, do que em promover e liderar um novo padrão internacional onde se
quer chegar. É exatamente a falta de compromisso com um projeto soberano que
coloca em risco o progressismo na política externa e nas políticas públicas do
governo Lula. Suas dimensões parecem ser insuficientes ou limitadas para uma
época em que as confrontações se aceleram, em que a extrema-direita se nutre da
insatisfação de segmentos populares com a limitação dos projetos de democracia
da centro-esquerda para propor o giro a sistemas políticos de transição ao
fascismo, questionando a natureza da democracia e as reais intenções das
esquerdas. Enfrentar o fascismo e a extrema-direita de forma consistente exige
um outro tipo de estratégia política que a aliança com as oligarquias liberais
decadentes não pode proporcionar.
Fonte: Por Carlos
Eduardo Martins, no Blog da Boitempo

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