Grileiros, madeireiros, empresários e
desembargadores na guerra final do mogno
Os presidentes dos
Estados Unidos têm utilizado, há várias décadas, móveis de mogno na Casa Branca,
em Washington. A marinha inglesa, uma das mais eficientes de todos os tempos,
também se beneficiou das qualidades físicas e químicas da madeira. Qualquer
autor de thriller sabe que, se descrever como sendo de mogno
aquela escrivaninha sobre a qual o personagem se debruça, lhe dará uma
aparência de nobreza.
O mogno é uma árvore
bonita de se ver na mata, destacando-se por seu porte esbelto, sua altura (de
30 a 40 metros) e sua cor. Impressiona tanto ou mais ainda quando se transforma
num móvel ou num painel: é leve e ao mesmo tempo resistente, sólida e maleável,
pode durar séculos, indiferentemente aos insetos e aos maus tratos do homem, e
cativar por sua cor natural, melhor do que qualquer outra cor que o computador
imaginar como sucedâneo.
Em algumas décadas
mais, entretanto, o mogno poderá se confinar ao terreno da ficção. Mesmo agora,
já é difícil localizar árvores de mogno na floresta nativa. O mogno, a mais
bela e mais valiosa madeira da Amazônia, região que concentra 56% das florestas
tropicais do planeta, está acabando. Já acabou no sul do Pará, onde sua
presença era de 5 a 10 vezes maior do que nas áreas onde a madeira está sendo
agora caçada, cortada e vendida como se fosse ouro (na verdade, o ouro verde
vale mais do que o ouro amarelo).
É no Acre que se ainda
se encontram os remanescentes. Na área de influência de Rio Maria, no sul do
Pará, a densidade podia chegar a 11 árvores por hectare. Hoje, mogno é conversa
para boi dormir ou para choro nessa região. No princípio da sua ocupação, muito
mogno deve ter sido destruído nas queimadas. O que os pioneiros queriam mesmo
era formar pastagens para seu gado, incumbido de, ao menor custo
(monetariamente falando), “amansar a terra”, na tal filosofia ditada pela pata
bovina (em sentido literal e figurado).
Depois, quando a
madeira foi usada como reforço de capital para a execução do empreendimento
ainda prioritário, o “projeto agropecuário” subsidiado pelo governo federal,
muito mogno foi extraído, mas à custa da destruição de muitas outras árvores de
menor valor. Por um ou outro caminho, dos anos 1960 aos 80, o vale do
Araguaia-Tocantins, na busca de um “modelo de ocupação”, destruiu uma fabulosa
mina de madeira.
Ainda há alguma
iniciativa de plantio da árvore, mas quem a conhece intimamente descrê dos
resultados, exceto os associados ao mogno africano, um estranho na hileia
amazônica, agora intensamente plantado. Como aconteceu na longa farra da Sudam,
extinta numa lama de corrupção, com criminosos desvios de recursos públicos
para enriquecimento ilícito de empresários, políticos e burocratas, é mais uma
placa para agradar inglês.
Segundo o Instituto do
Homem e Meio Ambiente Amazônico, em 2001 (a estatística que tenho à mão), o
Brasil produziu aproximadamente 5,7 milhões de metros cúbicos serrados de
mogno. Pelo menos quatro milhões foram exportados, uns 75% do total para os
Estados Unidos e a Inglaterra. Essa exploração representou algo bem perto de 4
bilhões de dólares em faturamento, considerando-se o preço médio histórico, de
US$ 700 o metro cúbico. Pouco depois, os valores variavam entre US$ 1,6 mil o m3,
no mercado interno, e US$ 2,5 mil, no exterior, segundo a tabela do Ibama.
Beneficiado, porém, cada m3 podia ir parar em US$ 8 mil, mais
rentá vel do que o ouro.
·
A garimpagem de mogno
A febre do mogno foi
uma variedade vegetal da obsessão que provocou as incríveis ondas de
garimpagem. Por serem mais convencionais, epopeias como a de Serra Pelada
atraíram mais atenção – e espanto – da opinião pública. O que aconteceu em tão
pouco tempo com o mogno, uma das mais valiosas madeiras da história da
humanidade, tem significado ainda mais profundo do que a maioria dos booms auríferos.
Só não teve o mesmo impacto.
Ao seu modo, a
televisão desempenhou mais satisfatoriamente uma função que milhares de artigos
escritos não realizaram: provocar o interesse da nação para um drama muito
grave. Teve impacto, na primeira década deste século, reportagem da TV Globo
exibindo para todo país as imagens e as informações sobre o que foi
classificado como “a maior apreensão de madeira da história do Brasil”.
Provavelmente por ser
então neófita no assunto, a Globo não sustentou a reportagem em informações
checadas ou corretas, mas as imagens supriram essa deficiência. Foram exibidas
imagens patéticas, como as enormes jangadas, formadas por milhares de toras de
madeira, que se tornaram rotineiras na área mais rica depois (e já bem abaixo)
do Araguaia, a da Terra do Meio, entre os rios Xingu e Iriri, no Pará. Somos
contemporâneos da extinção do mogno, impotentes para reverter o mal que temos
causado, a partir de uma presumível dádiva divina, na forma das sementes dessa
árvore excepcional.
·
Os índios, vítimas dos
exploradores – e do Estado
Em escala menor de
utilização, os parentes do mesmo gênero da árvore brasileira na América Central
e Caribe já não existem mais. A pressão sobre as últimas concentrações, na
Amazônia latino-americana, mas sobretudo na área predominante do Brasil, se
tornou um autêntico caso de polícia. A esmagadora maioria das árvores exibidas
foi extraída dentro de reservas indígenas, principalmente na dos famosos
kayapós.
Dessa vez, não através
de invasão das reservas, mas com a ajuda dos próprios índios. O que eles
provavelmente ganharam com sua colaboração representava 150 vezes menos do que
faturava o agente na ponta da linha de comercialização, nos Estados Unidos principalmente.
Os índios alegavam, em
sua defesa, que não tinham outra fonte de renda com a ruína da Funai e a
evaporação da política indigenista pública, que se desmanchou no ar. Seriam os
restos de uma categoria primitiva a ser colocada sob a lápide da história, no entendimento
de um sociólogo da modernização (e com poder de transformar em fatos suas
ideias, como presidente Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, antecessor de Luiz
Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, do PT). E que precisam se vestir, comer
e beber, por seus próprios meios, os que eram possíveis diante do descalabro
estatal diante da “questão indígena”, passando ainda por Michel T emer, Jair
Bolsonaro e, de novo, Lula da Silva (cujas iniciativas e discursos
progressistas são contraditados pela continuidade da tragédia yanomami).
Com muitas boas razões
pode-se construir uma tragédia, como a do mogno. Ninguém vai para o inferno,
mas nem assim o mal deixa de se consumar. Gênio, Dante colocou mais gente no
purgatório do que no inferno e no paraíso da sua Divina Comédia.
Contra a posição do
Brasil, o mogno foi incluído, em um encontro de amplitude mundial realizado em
Santiago do Chile, no anexo II da convenção da Cites. Significava que a
exploração e a comercialização da espécie estariam sujeitas ao controle não
apenas do governo nacional, mas também dos outros países que integram o
colegiado, de exportadores e importadores, com a aplicação das normas
existentes a respeito.
O governo brasileiro,
o mais interessado no assunto, por ser então o maior produtor e vendedor de
mogno no mundo, considerou dispensável apertar o controle sobre a espécie, que
podia passar para o Anexo I, das espécies em extinção. Garantia o governo do sociólogo
FHC, que estava fazendo tudo que era possível para acabar com a exploração
ilegal e predatória da madeira.
Não era exatamente a
verdade, ainda que pudesse ser reconhecido o decidido esforço oficial a
respeito. Ou a intenção, dantescamente falando.
Enquanto o Ibama e a
Polícia Federal aprendiam alguns milhares de toras de mogno transportadas em
jangadas pelo rio Xingu (a grande avenida aquática para a qual essas lúgubres
embarcações convergiam de todos os pontos de drenagem da bacia que possuíam a espécie
às suas margens), acreditava-se que no sul do país, com destaque para São
Paulo, houvesse 35 mil metros cúbicos estocados.
Era madeira em ponto
de bala para seguir para o exterior, se possível (com ganhos melhores), ou ter
comercialização interna, se os mecanismos de controle de embarque internacional
estivessem realmente azeitados e o contrabando fosse inviável.
O esforço endógeno,
portanto, já não era mais suficiente. Ou não era o bastante a tempo de poder
dar conta da selvageria da predação da espécie, em função do preço e da
exaustão de outras fontes de abastecimento do ouro verde. Um controle
internacional efetivo seria a última chance de sobrevivência para o mogno?
·
Quem pode ajudar a
salvar a floresta?
Muitos nem queriam
fazer então essa pergunta, mas ela precisava ser formulada e, acima de tudo,
necessitava de uma resposta eficaz e urgente. No primeiro governo Lula, essa
aliança teve um resultado inegavelmente positivo: projetou mundialmente o
seringueiro Chico Mendes, acreano como a duplamente ministra do Meio Ambiente,
Marina Silva.
Ecoou
internacionalmente a sua pregação em defesa do uso preferencial da floresta na
Amazônia, e de um uso múltiplo, não apenas pelas formas convencionais, como a
produção de madeira sólida. Esse entendimento estava subjacente à
“Florestania”, uma concepção de desenvolvimento distinta da que se encontra em
vigor ou predomina.
Mas essa aliança
também superestimou o significado de experiências localizadas e de difícil
disseminação, ignorando as especificidades do Acre. No Estado da ministra o uso
dos recursos naturais era considerado mais “sustentável” do que nas demais
unidades federativas da região, mas o Estado continuava a ser também o mais
pobre da Amazônia.
A agenda ambiental dos
próximos anos vai estar carregada: de temas, de impasses, de personagens, de
conflitos, com a COP 30. Espera-se que, tendo o mérito de espantar a calmaria
conveniente, o debate não se torne um desperdício de vitalidade ao se desviar
pelas rotas rígidas dos dogmatismos e das verdades eternas, ou dos cavalos de
Troia e dos cantos de sereias subitamente defensoras da natureza, mas de olho
mesmo nos cifrões de plataformas verdes de todo tipo até momentos bem recentes.
Hoje, quando se fala de mogno é considerado o mogno africano, não o amazônico.
A Amazônia, um
presente da natureza para os brasileiros, precisa da inteligência, do bom
senso, da coragem e da criatividade de todos que querem escrevê-la como a
página do Gênesis delegada por Deus ao homem, na feliz imagem criada por
Euclides da Cunha, um século atrás, quando a Amazônia ainda era um projeto de
Éden. Isso, contudo, ela já não é mais. O que ainda poderá ser?
Fonte: Amazônia Real

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