segunda-feira, 8 de abril de 2024

Governo Lula escala ministros para receber líderes evangélicos em meio a crise de popularidade

O governo Lula (PT) vai mobilizar a Esplanada dos Ministérios na missão de reagir contra a crise de popularidade entre os religiosos. Ministros de diferentes áreas serão escalados para reuniões com líderes evangélicos.

Esses encontros fazem parte da tentativa de diminuir a resistência desse setor da sociedade com o governo. A expectativa, segundo interlocutores de Lula, é a de que as agendas sirvam também como uma antessala para eventuais encontros do próprio presidente com lideranças de grandes igrejas.

Uma primeira reunião já está encaminhada, segundo integrantes do governo. A ministra da Saúde, Nísia Trindade, deve encontrar lideranças religiosas ainda neste mês.

Em fevereiro, a pasta comandada por Nísia esteve no centro de desgaste com grupos religiosos devido a uma nota técnica sobre procedimentos de aborto legal. O ato acabou tendo seus efeitos suspensos após pressão de bolsonaristas.

Além de Nísia, devem receber evangélicos os ministros Camilo Santana (Educação), Alexandre Padilha (Secretaria de Relações Institucionais), Wellington Dias (Desenvolvimento Social), Silvio Almeida (Direitos Humanos) e Márcio Macêdo (Secretaria-Geral da Presidência).

Os nomes desses religiosos, contudo, são mantidos sob estrito sigilo. Há um temor de que bolsonaristas, hoje preponderantes no mundo evangélico, possam promover uma fritura antes mesmo de que a iniciativa se concretize.

Também não há pauta específica. A escolha dos ministérios visitados vem sendo feita em conjunto entre os aliados do presidente e representantes evangélicos.

A avaliação de lideranças evangélicas aliadas do governo é a de que ainda faltam gestos. Mesmo o apoio de governistas na Câmara à PEC (proposta de emenda à Constituição) que amplia a imunidade tributária a igrejas é considerado insuficiente para angariar apoio nas cúpulas das igrejas, que mantêm conexão diária com importante parcela da população.

A realidade apareceu na última pesquisa do Datafolha: 33% consideram a gestão ruim ou péssima, contra 30% na pesquisa anterior, demonstrando oscilação negativa. Um recorte específico junto ao público evangélico mostra que a reprovação, antes de 38% em dezembro, subiu no terceiro mês de 2024 para 43%.

Uma liderança religiosa, reservadamente, traduziu o levantamento: a maioria dos evangélicos não se importa se a economia está indo bem, mas quer saber de princípios e valores cristãos.

O diagnóstico de interlocutores de Lula é o de que o chefe do Executivo é, sim, "um homem de fé". Precisaria deixar mais claro, no entanto, a influência cristã na sua vida.

Esse movimento, segundo relatos, não passaria por instrumentalizar a religião, tampouco misturá-la com política --o que o presidente buscaria ao evitar falar do tema publicamente.

A iniciativa das reuniões com integrantes do primeiro escalão do governo Lula é uma das consequências de um alerta feito por aliados do segmento evangélico há cerca de 15 dias.

Eles levaram o recado de que, na toada em que está o governo, a tendência é de piora nas pesquisas e poderá ficar tarde demais para uma aproximação. Em ano eleitoral, o cenário é visto com mais cautela.

A conversa levou a uma inflexão no núcleo do governo. Lula até aqui tinha demonstrado resistência em fazer uma comunicação mais segmentada, até que, na última quinta-feira (4), fez um discurso em que repetiu as palavras "Deus" ou "milagre" uma vez por minuto em discurso em Pernambuco.

A fala foi feita de improviso, mas ocorreu após conversas com aliados.

Há no entorno de Lula preocupações sobre como as orientações chegam ao presidente. Interlocutores querem passar a mensagem, de forma sutil, de que ele só precisa tornar público algo de religioso já existente nele, sem perder a espontaneidade e a naturalidade.

Também no âmbito desse esforço foi lançada a campanha de comunicação "Fé no Brasil", para reforçar o sentimento de esperança com um termo religioso.

Na avaliação de um parlamentar evangélico, esse movimento ajuda na aproximação do segmento com o governo, mas não resolve. O que vai aproximá-lo é não tratar das chamadas pautas de costume, conta o congressista.

Dentre os tabus, aliados evangélicos citaram ainda que o assunto Israel deve ser evitado a todo custo pelo chefe do Executivo. Lula subiu o tom contra o governo israelense no tema da guerra em Gaza, o que causou desgaste entre evangélicos, afeitos a Israel.

A modulação do discurso de Lula e a campanha de comunicação geraram críticas entre bolsonaristas. O deputado federal Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), ex-presidente da bancada evangélica, classificou esse movimento do petista como eleitoreiro.

"Ele vai mudar os seus conceitos? Lógico que não. Acabou a era de enganar com os discursos, os evangélicos já estão vacinados", disse.

O pastor Silas Malafaia, aliado de primeira hora do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), também critica esse movimento. "Ele se tornou mais impopular no mundo evangélico. Então não vai adiantar nada, tá ferrado. A gente vai jantar ele cada vez, porque tá gravado o que ele falou e aquilo que ele fez."

Mais do que uma aversão pessoal a Lula, as posições de Sóstenes e Malafaia expressam um discurso de associar a esquerda e suas pautas como afronta a valores cristãos.

Segundo relatos, os principais interlocutores de Lula com líderes evangélicos hoje são os ministros Paulo Pimenta (Secretaria de Comunicação) e Jorge Messias (Advocacia-Geral da União). Messias é evangélico e, para o governo, uma das principais pontes do governo com o segmento.

Além desses, o coordenador do grupo de advogados Prerrogativas, Marco Aurélio Carvalho, também participa dessas conversas.

"É uma falsa polêmica. O presidente Lula nunca foi adversário, sempre trabalhou pela tolerância religiosa, ampla, geral e irrestrita. Foi o melhor presidente para a comunidade evangélica e tem um respeito profundo pela fé das pessoas", disse o advogado.

Já Messias, questionado se Lula deve se encontrar com lideranças evangélicas, respondeu: "A Bíblia fala que há tempo para tudo debaixo do sol. Vamos aguardar o tempo de Deus. Eu estou em oração por isso".

 

                                            Messias diz que ‘Fé no Brasil’ é fruto de aproximação do governo Lula com evangélicos

 

O ministro da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias, minimizou a rejeição dos evangélicos ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que foi registrada pelos principais institutos de pesquisa do País em levantamentos realizados no mês de março. “Eu não acho que o segmento evangélico tenha resistência como se coloca ao presidente”, afirmou Messias durante a Brazil Conference, em Universidade Harvard.

Pesquisas encomendadas pelo Palácio do Planalto reforçaram os indicativos de queda na popularidade de Lula, especialmente no segmento evangélico, que representa 30% do eleitorado. A portas fechadas, como mostrou o Estadão, o diagnóstico é a de que o governo tem perdido a batalha da comunicação para aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Em resposta, o Planalto organizou a campanha publicitária intitulada “Fé no Brasil”. A ação está baseada na exibição de peças com indicadores positivos do governo durante as visitas de Lula e dos ministros aos Estados. Questionado se participou da concepção do projeto, Messias disse que o slogan é fruto do “trabalho que vem desde a campanha e da nossa (governo) aproximação com o segmento”.

“Eu acho que estamos cumprindo aquilo que o governo se comprometeu em campanha e, da nossa parte, eu acho o movimento tende a ser muito positivo”, disse Messias. “Nosso trabalho com o segmento evangélico é uma relação respeitosa, mas com o foco na construção de políticas para toda a população, que é o papel do Estado. Precisamos lembrar que o Estado é laico”, prosseguiu.

Ainda de acordo com o ministro, Lula “tem cumprido absolutamente tudo aquilo que ele se comprometeu com o povo evangélico” durante a campanha ao apresentar uma carta de intenções. Porém, os dados da pesquisa Atlas/Intel divulgada no dia 10 de março mostram que 41% dos evangélicos consideram a gestão petista ruim ou péssima. Entre a população geral, a avaliação negativa é de 32%.

Messias diz que todos os ministros têm a obrigação de dialogar com os diferentes setores sociais, mas que ele assume papel de destaque na aproximação com os evangélicos por ser seguidor da religião. “Como eu tenho 40 anos de evangélico na igreja Batista, eu tenho uma interlocução mais próxima com o segmento evangélico, mas dialogo com todos os segmentos religiosos”, disse.

A campanha “Fé no Brasil” pretende transmitir a ideia de que, após um ano definido por Lula como sendo de “plantar”, chegou a hora “da colheita” e as promessas saíram do papel. A propaganda aparecerá em rádio, TV, jornais e mídias digitais. Nas redes sociais, os anúncios serão emoldurados pela inscrição “Bote fé no Brasil”, com letras coloridas, ao lado de “Estamos no rumo certo”.

Messias assume a dianteira da interlocução com os evangélicos ao lado dos ministros Alexandre Padilha, da Secretaria de Relações Institucionais, e Wellington Dias, do Desenvolvimento Social. Há duas semanas, Padilha e Messias se reuniram com integrantes da Frente Parlamentar Evangélica no gabinete da liderança do PSD, na Câmara, e ouviram muitas queixas.

O Estadão mostrou que as principais queixas dos deputados estão relacionadas ao fato de que, quando votam a favor de alguma medida do governo, são sempre associados à defesa do aborto e das drogas. Os ministros disseram que Lula não defende essas pautas.

 

                                            Campanha de Lula mirando evangélicos é insuficiente para reaproximação, aponta especialista

 

Diante de uma queda na popularidade, em especial entre a comunidade evangélica, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva colocou em curso uma estratégia para melhorar a sua imagem perante a opinião pública. Visitas de Lula aos Estados, divulgação dos programas federais, como Bolsa Família e Pé-de-Meia, e a campanha publicitária “Fé no Brasil” compõem o plano do Palácio do Planalto para reverter a tendência de queda nos índices de aprovação da gestão petista.

Concebida pelo marqueteiro Sidônio Palmeira, que atuou na campanha de Lula em 2022, a nova campanha mira o eleitorado evangélico em particular, incorporando à comunicação governamental referências religiosas. Ao discursar nesta semana em Arcoverde (PE), o próprio presidente lançou mão do léxico cristão, citando “Deus” 11 vezes e a palavra “milagre” outras 16. Ele ainda fez menção ao termo “fé” em cinco ocasiões.

Doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP), Vinicius do Valle pesquisa a relação entre cristãos e política há mais de dez anos. Ele é autor, entre outros trabalhos, de “Entre a Religião e o Lulismo”, da Editora Recriar. O especialista considera que uma parte do governo compreende a importância dos evangélicos, mas que as ações de petistas para se aproximar desse grupo são insuficientes ou desastrosas.

Valle observa que Lula passou a citar Deus em suas redes sociais com frequência. Segundo ele, não há nenhum erro de comunicação na estratégia. “Pelo contrário, existe um acerto”, conta. “Os evangélicos gostam de ouvir declarações públicas que relacionam Deus, que relacionam fé. O problema é que isso é muito insuficiente. Esse problema (entre governo e evangélicos), que envolve questões estruturais e históricas, não vai ser resolvido com um slogan”, avalia.

Dentro do governo Lula, existe uma avaliação de que a queda de popularidade do presidente entre evangélicos é consequência, sobretudo, de um problema na comunicação. Indagado sobre o assunto, Valle é categórico ao dizer que a questão não é somente comunicacional. “Se fosse, bastava mudar poucas coisas para resolver o problema. Existe uma ala do governo que é negacionista em relação a necessidade de se aproximar desse segmento”, conta.

Segundo o especialista, existem questões estruturais, como o apoio histórico da esquerda à descriminalização do aborto, que geram ruído entre PT e evangélicos. Além disso, Valle lembra que, frequentemente, figuras ligadas ao governo acabam dando declarações que elevam as tesões com lideranças religiosas.

Em entrevista à TV Brasil no mês passado, a presidente nacional do PT, deputada Gleisi Hoffmann, atribuiu o problema de comunicação entre o governo e os evangélicos à atuação de pastores “mentirosos”. No meio religioso, a declaração da dirigente petista repercutiu mal, reforçando a ideia propagada por alguns líderes religiosos de que o PT é contra os valores cristãos, como honra, respeito e obediência à família.

Valle argumenta que dois eventos recentes exacerbaram as tensões na relação entre o governo e os evangélicos. Estes eventos incluem a declaração de Lula comparando a operação militar de Israel em Gaza ao Holocausto e a controvérsia gerada pelas acusações, posteriormente comprovadas como falsas, sobre a existência de uma rede de prostituição infantil e tráfico de órgãos e pessoas na Ilha de Marajó (PA).

Segundo o professor, lideranças evangélicas usaram a repercussão negativa desses eventos para resgatar uma posição já existente no seio do evangelismo popular e que ganhou força nas eleições de 2022: a concepção de que “o PT persegue os evangélicos”. “Essa ideia voltou com muita força. Depois desses episódios, as pesquisas mostraram uma queda na aprovação do governo, em especial entre evangélicos”, disse.

Uma pesquisa da Quaest, publicada em 6 de março, revelou a pior avaliação do governo Lula desde o início da série histórica em fevereiro de 2023. Segundo o estudo, 34% dos brasileiros consideram a gestão petista como negativa, enquanto 35% a avaliam como positiva. Entretanto, entre os evangélicos, 48% veem o governo Lula de forma negativa, uma queda de 12 pontos percentuais em comparação com a pesquisa anterior.

Outras pesquisas de opinião confirmaram a tendência de queda observada pela Quaest. O atrito entre o governo Lula e a comunidade evangélica é catalisado pela polarização que divide o País. “A polarização trouxe um grande desafio para a comunicação, tornando mais difícil acessar quem está do outro lado. Hoje, as pessoas carregam um viés que é muito difícil de transpor”, relata o doutor em ciências políticas.

Valle ressalta, porém, a necessidade de aproximação com o segmento evangélico apesar das dificuldades. “Se o campo da esquerda quiser dialogar melhor com os evangélicos é preciso se aproximar de sua base. Uma aproximação que seja de baixo para cima. Enquanto marqueteiros ficarem procurando o coelho na cartola da comunicação, achando que isso vai resolver esse afastamento, só vamos ver tiro na água”.

 

Fonte: FolhaPress/Agencia Estado

 

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