“Esquecer não é uma alternativa”, afirma
historiador sobre invasão militar na UnB em 1968
A data de 29 de agosto
é marcada por rememorar os 54 anos da invasão mais violenta dos militares na
Universidade de Brasília (UnB) em 1968, historicamente um dos períodos mais
sangrentos da Ditadura Militar no Brasil (1964-1985).
Numa manhã ensolarada
e de tempo seco na capital do país, militares invadiram o Campus Darcy Ribeiro
com forte aparato policial. Cerca de 500 pessoas, entre estudantes, professores
e parlamentares federais, foram amontoadas e espancadas na quadra de esportes
localizada em frente à Faculdade de Educação.
O filme “Barra 68 Sem
Perder a Ternura”, do cineasta e professor emérito da UnB, Vladimir Carvalho,
lançado em 2000, narra o momento de violência que resultou na prisão de 60
estudantes, entre estes Honestino Guimarães, presidente naquele momento da Federação
dos Estudantes Universitários de Brasília (FEUB).
Por trás da violenta
invasão militar na UnB, estava o combate à organização do movimento estudantil,
que naquele período estava em efervescência em todo o país, mas o ataque
representava mais que isso. Para os militares, a UnB representava um projeto de
educação contrário aos interesses do regime.
“Em 1968 a UnB era uma
trincheira da luta contra a ditadura, em Brasília, bem ao lado do governo militar. Essa invasão,
ao mesmo tempo que era uma demonstração de
força, punha a nu a fragilidade dos militares, desafiados por jovens que
não se intimidavam”, conta Betty Almeida, professora aposentada, ex-aluna da
UnB.
Sônia Hypolito tinha
22 anos e estudava Geologia, militante do movimento estudantil, ela também foi
uma das jovens mantidas como reféns dos militares. “Foi uma invasão muito
truculenta, com muita repressão e violência dos militares, muitos tiros, um
estudante foi baleado. Era uma violência, uma truculência contra nós que
tínhamos 19, 20, 22 anos no máximo a essa altura do campeonato. Nós só
queríamos lutar contra a ditadura, não estávamos fazendo violência nenhuma, a
violência era deles”, relata.
Membro do Comitê por
Memória Verdade e Justiça do Distrito Federal, Betty escreveu o livro “Paixão
de Honestino”, biografia de Honestino Monteiro Guimarães, liderança estudantil
da UnB mais expressiva no período de 1965 a 1968. Publicado em 2016, Betty narra
no livro os momentos de agonia e a fuga dos militares dentro da universidade.
Naquele dia, além do
mandado de prisão contra Honestino, os militares também buscavam mais seis
estudantes: Lenine Bueno Monteiro, Mauro Burlamaqui, Nilson Curado, Paulo
Cassis, Paulo Speller e Samuel Babá. Líderes do movimento estudantil na UnB
eram acusados de atentar contra a segurança nacional, por fazer funcionar
clandestinamente a Feub e União Nacional dos Estudantes (UNE), naquele momento
dissolvidas legalmente.
“Para efetuar as
prisões foi montada uma operação de grande envergadura. Dias antes já se falava
na nova invasão da UnB. Pais e mães, alguns avisados por militares amigos,
tentaram impedir os filhos de ir à UnB – na maioria dos casos inutilmente”, diz
Betty em um dos trechos do livro.
Criada em 2012, a
Comissão Anísio Teixeira de Memória e Verdade da UnB, apresentou em seu
relatório final as violações de direitos humanos e liberdades individuais na
Universidade de Brasília, durante o período de 1º de abril de 1964 a 5 de
outubro de 1988. Depoimentos, trechos de documentos e publicações da época
analisam e recompõem narrativas dos fatos que ocorreram no período.
“Os tiros vinham de
todos os lados e somente cabia aos estudantes se defenderem e se municiarem de
pedras encontradas na construção. Mas não foi suficiente, os militares estavam
em grande número e naquela época ainda eram poucos os estudantes matriculados
na UnB. Atiravam com armas de fogo e disparavam gases tóxicos. Não dava para
competir. Total desproporção de forças. Fomos colocados numa fila indiana, com
as mãos nas cabeças e conduzidos a uma quadra de basquete existente no centro
da instituição. Ali os militares já se encontravam fazendo a triagem dos alunos
envolvidos politicamente, ou, como eles nos chamavam, subversivos e comunistas.
Adentrei a quadra e fui logo reconhecido por um militar, que se encontrava com
proteção no rosto para gases tóxicos. A brutalidade no trato com os estudantes
era a tônica da seleção”, relata trecho do depoimento de Cláudio Antônio de
Almeida, um dos estudantes presos na invasão de 29 de agosto de 1968, em
depoimento escrito enviado à Comissão Anísio Teixeira.
Em 1968, a maioria dos
estudantes da UnB era de outras regiões do país e com isso moravam em
alojamentos na própria universidade. A atividade no campus, conforme os
relatos, eram intensas. “O movimento estudantil cresceu muito nesse período,
tínhamos uma atividade estudantil muito grande no campus. A mobilização
estudantil e a luta contra a ditadura foi se acirrando e crescendo”, conta
Sônia Hypólito.
• UnB, símbolo da repressão militar
Criada em 1962 por
Darcy Ribeiro, Anísio Teixeira e outros entusiastas, a Universidade de Brasília
foi duramente atacada desde o golpe de 1964. Após o golpe, Darcy viveu em
exílio por 12 anos, entre vários países da América Latina. No mesmo ano, Anísio
Teixeira, que era então reitor da universidade, foi destituído do cargo, em seu
lugar aliados do governo militar assumiram a Reitoria. A partir daí, tudo
mudou.
Em 1965 cerca de 200
professores pediram demissão em massa, sob protesto contra a expulsão de 15
docentes da universidade. A repressão aumentou nesse período.
De acordo com o
presidente da Associação dos Docentes da UnB, Jacques De Novion, a universidade
foi criada com a missão de transformar a sociedade e a realidade, de
internacionalizar o conhecimento. “Esse projeto, chamado de Universidade
Necessária, com dois anos de implementação, é suprimido em 1964, pelo projeto
de Universidade Interrompida, imposta pela Ditadura Empresarial-Militar, que
cerceou sonhos e esperanças de toda uma geração, praticamente em toda a América
Latina e Caribe”.
Antes de 1968, a UnB
havia sofrido outras duas invasões, uma em 1964 e outra em 1965. Quando eclodiu
a terceira invasão militar no campus Darcy Ribeiro, no fatídico 29 de agosto,
os estudantes se organizavam para mobilizações massivas em homenagem a Edson
Luís, estudante assassinado por policiais militares em São Paulo, em março de
1968.
Honestino Guimarães e
outros líderes estudantis foram presos neste dia. Honestino ficou incomunicável
por seis dias e nesse período “teria sido interrogado diariamente sob tortura,
para dar nomes de dirigentes da UNE e o local de realização do XXX Congresso”,
conforme trecho do livro de Betty Almeida.
Dali, Honestino só
sairia em outubro de 1968. Em 13 de dezembro, o governo do general Costa e
Silva publicou o Ato Institucional nº 5 (AI-5), período mais duro do regime.
Honestino assumiu vida
clandestina em São Paulo e no Rio de Janeiro, e em outubro de 1973, já eleito
presidente da UNE, tornou-se desaparecido.
“Para nós, do
movimento estudantil, o 29 de agosto é uma data de muita luta, mas que relembra
um período em que não queremos mais viver, principalmente nesse momento de
crescimento do fascismo e aumento do autoritarismo. É muito importante
relembrar e descomemorar essas datas para que a ditadura nunca mais se instale
em nosso país”, aponta Adda Luisa de Melo Sousa, militante do Levante, diretora
da UNE e coordenação geral do DCE da UnB.
• Memória e Verdade
Membro da Comissão
Anísio Teixeira de Memória e Verdade da UnB, o historiador Paulo Parucker
aponta que a luta por memória e verdade estão em disputa política.
“Esquecer não é uma
alternativa. Uma pessoa sem memória não tem as referências da sua própria
história. Assim como uma sociedade sem memória, não tendo seu passado, não tem
como fazer perspectiva de futuro, vive num eterno presente. Então é preciso
lembrar de certas coisas. Há uma disputa de memória e essa disputa é política.
Está se tratando de uma postura em relação ao poder, em relação a uma sociedade
como um todo e em como essa sociedade se organiza. O negacionismo muito poucas
vezes é fruto de ignorância, normalmente é um trabalho voluntário de fraude das
memórias, fraude da história, que tenta confundir com novos referenciais uma
discussão que deve ser pautada em termos objetivos”, ressalta.
No relatório final,
apresentado em 2015, a Comissão Anísio Teixeira apontou 16 recomendações “que
visam à defesa da democracia e à preservação do direito à memóriae à verdade e
para que não sejam mais cometidos crimes contra a humanidade”.
Para a historiadora
Paula Franco e ex-pesquisadora da Comissão Nacional da Verdade, apesar dessas
histórias sobre o período da ditadura militar e memória figurarem no Campus
Darcy Ribeiro, essa ainda é uma memória pouco divulgada. “A nova geração tem
pouco acesso a essas histórias, a essas narrativas de repressão, de
resistência. É extremamente importante que iniciativas como a Comissão da
Verdade Anísio Teixeira, instaurada aqui na Universidade de Brasília, sigam e
fortaleçam a memória da Ditadura para que a gente não esqueça esse episódio,
para que a gente possa pensar novos futuros a partir do conhecimento sobre esse
passado”.
·
Por que não esquecer?
“A resistência dos
estudantes da UnB em 1968 nos lembra que a defesa da democracia e da liberdade
é um processo de luta. A sociedade civil organizada vem contrapondo às ameaças
de golpe do atual governo a presença em atos públicos e a manifestação por meio
de documentos assinados por grande parte da população. Como em 1968, na UnB e
em Brasília se erguerão punhos e vozes pela democracia e por uma vida melhor
para o povo brasileiro”, destaca a escritora Betty Almeida.
Fonte: Por Flávia
Quirino, em Brasil de Fato

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