CONVITE À
UTOPIA DO COMUM
No
tempo tecnofúnebre das “cidades inteligentes”, flerte com a frugalidade
criativa. Imagine, num mesmo território, trabalho digno, consumo local, ruas
vivas e democracia real. Estas possibilidades já existem. Que políticas poderão
reuni-las num outro projeto de país?
##
Isso
é sobre o imperativo de se imaginar um Novo.
Uma
escuta do chamado ao retorno da produção de utopias.
Uma
alternativa ao nosso atual modelo civilizatório.
Algo
que faça a junção entre aprendizados milenares e as novas tecnologias.
Uma
proposta que recupera a nossa sagrada dimensão de seres gregários, na contramão
de um tempo de imposição do individualismo.
A
dor que mobiliza esse exercício de imaginação vem do inchaço das periferias dos
grandes centros urbanos e dos deslocamentos acelerados pelas mudanças
climáticas e guerras. É uma tentativa de criar novos territórios que possam
acolher os que não encontram condições de permanecer onde estão. Nem de longe
uma imposição, mas uma alternativa.
É
uma construção com escala de política pública, uma aproximação inédita entre os
campos do desenvolvimento regional e urbano e da economia popular e solidária.
Finalmente, é um projeto que quer trazer os benefícios da revolução digital
para todas, todos e todes.
Aí
vai, então, esse conto-utopia. Nada de tão original em sua essência, já que a
maioria das tecnologias sociais apresentadas existem de fato e já foram
validadas. Novo, talvez, seja ousar juntá-las no território. É, na verdade, um
desafio de gestão pública.
• Por
um projeto popular e solidário de cidade inteligente
Imagine
um vilarejo com 5 mil habitantes situado em uma região com belos cenários
naturais, água abundante e terra fértil. Imagine que há uma rodovia – com
asfalto de boa qualidade – ligando esse lugar a uma cidade de médio porte
localizada a 120 km de distância, onde você encontra serviços especializados e
comércio diversificado, ambos de boa qualidade.
Nesse
vilarejo, o desenho das casas prima por conforto térmico, ventilação e
iluminação naturais, o que é assegurado pelo aproveitamento da luz solar e das
correntes de ar, além do uso de materiais de construção adequados ao clima
local. Prioriza-se o uso daquilo que é abundante por ali como terra, pedra,
madeira e bambu. Entre as casas não há muros, apenas lindos arranjos de plantas
e delicados caminhos, garantindo privacidade e mantendo a sensação de
coletividade. Há por volta de 1.500 casas no total, espalhadas por uma área de
250 alqueires mineiros de terra. O vilarejo tem núcleos de casas por perfis de
moradores, os mais silenciosos, os mais festeiros, os que precisam de
acompanhamento, o que facilita a prestação de serviços e diminui os atritos da
convivência.
Conviver
é entendido como algo sagrado, aquilo que sustenta toda a vida do lugar.
Convivência no seu sentido plural, entre humanos, outros animais e plantas.
Todos ali se dedicam à arte da boa convivência, praticando solidariedade e
gentileza nas pequenas coisas do dia a dia. Há vários espaços de convivência
espalhados pelo local, de praças arborizadas a pequenos comércios, como
restaurantes, bares, padarias e cafés. Também há muitas áreas voltadas à
prática de esportes e às brincadeiras das crianças. Isso faz com que as pessoas
passem muito mais tempo ao ar livre e se encontrem.
No
vilarejo, os conflitos são compreendidos como parte do processo de crescimento
pessoal e comunitário. Há várias ações de mediação que buscam facilitar a
construção de consensos entre os envolvidos, e a prática de uma comunicação
não-violenta é ativamente estimulada.
Come-se,
em grande parte, aquilo que é plantado lá. Tudo orgânico e fresco, sendo que
muitos alimentos produzidos localmente são beneficiados ali. O vilarejo tem uma
imensa área cultivada, além de criações que se preocupam com o bem-estar
animal. Possui laticínio, vinícola e apiário. Todas as residências e todo o
comércio local do ramo de alimentação utilizam o que é produzido ali.
A
água é coletada da chuva e armazenada em cisternas, sendo reaproveitada através
de bacias de evapotranspiração e círculos de bananeiras. Jardins de chuva e as
bacias de retenção, por sua vez, asseguram uma drenagem sustentável. O vilarejo
também faz a compostagem e a biodigestão dos resíduos sólidos orgânicos,
transformando-os em fonte de energia e em recursos para a produção de
alimentos.
A
energia do vilarejo é, em grande medida, assegurada por placas solares e
biodigestão. Todas as residências têm seu sistema de energia solar, também
presente nos espaços comunitários e nos empreendimentos econômicos. Há vários
pequenos negócios ali. Além do que já foi citado no campo da alimentação há
marcenarias, tapeçarias, oficinas de artesanato, salões de beleza, academias,
confecções de roupas, calçados, bolsas e um sem número de empreendimentos de
outros segmentos. Todos priorizam o atendimento dos moradores do vilarejo, onde
toda demanda gera uma nova oportunidade de trabalho, sendo as trocas econômicas
facilitadas pelo uso de uma moeda local digital.
Há
um banco municipal que atende ao conjunto dos moradores e é responsável pelas
finanças do território, incluindo as operações de crédito. O crédito ofertado
pelo banco tem como lastro uma poupança formada com o dinheiro dos moradores, e
é disponibilizado tanto para pessoas físicas quanto jurídicas. Destaca-se aqui
a reduzida taxa de juros, garantida pelas relações de solidariedade da
comunidade, o que vem assegurando uma inadimplência quase nula.
A
saúde tem lugar de destaque para os moradores. O vilarejo conhece as condições
de vida de cada um de seus habitantes, atuando fortemente em ações de promoção
da saúde e na prevenção e controle de doenças. Ações de educação em saúde são
permanentes, voltadas principalmente para a prática de atividade física,
alimentação adequada, equilíbrio emocional e sono de qualidade. Uma unidade
local de saúde realiza consultas e exames de baixa e média complexidades, sendo
também responsável pelo encaminhamento e acompanhamento dos pacientes graves.
Casos urgentes são imediatamente transportados para um hospital de alta
complexidade localizado a 100 km de distância, havendo um helicóptero de
propriedade do vilarejo para o translado. Muitos moradores trabalham com práticas
integrativas de saúde e a grande maioria dos habitantes já as incorporou em
suas rotinas de autocuidado. A fitoterapia tem predominância como medicação, e
há um projeto em curso para a criação de um laboratório local.
A
educação também mobiliza a todos. Há uma preocupação em conciliar os conteúdos
estabelecidos pelos parâmetros curriculares nacionais com o aprendizado da
democracia e da solidariedade. Os estudantes são estimulados desde cedo a
participar da vida coletiva, e é na escola que os moradores aprendem a
participar dos processos de tomada de decisão sobre o vilarejo. Também é
estimulado o aprendizado dos afazeres locais, o que é bem recebido pelos
estudantes, uma vez que todo trabalho desenvolvido no vilarejo é visto como
digno de respeito, e essa percepção de valor se reflete em remunerações justas
para todos.
O
vilarejo oferece educação local até o ensino médio. Uma parte dos estudantes dá
sequência aos estudos de nível superior através do ensino à distância, outros
vão cursar presencialmente uma faculdade fora de lá, custeados pelo poder
público local. Como contrapartida, todos retornam por um período para devolver
à comunidade o conhecimento adquirido, contribuindo para a continuidade do
desenvolvimento do território. A escola também trabalha com a educação de
jovens e adultos, incluindo alfabetização digital e ações voltadas ao estímulo
da participação social. Também é lá que são ofertados cursos técnicos
direcionados aos trabalhos de interesse do vilarejo.
Há
peculiaridades interessantes na dimensão da mobilidade. Há beleza e segurança
nos caminhos para a circulação dos pedestres, além de ciclovias por todo o
território, sendo que a maioria dos moradores faz uso de bicicleta. As pessoas
com alguma dificuldade de caminhar ou com peso para carregar são transportadas
por motoristas em pequenos veículos, algo parecidos com os tuc-tucs indianos,
ali movidos à energia elétrica. Os carros têm circulação reduzida e
praticamente não há veículos particulares. Eles são de propriedade do
território e garantem o translado dos moradores, direcionado principalmente à
cidade da região que conta com serviços e comércio especializados, além de
rodoviária interestadual e aeroporto, tudo a 120 km de distância.
Vale
destacar também o serviço de entrega de mercadorias que atende a todo tipo de
pedidos, do pão produzido ali a uma geladeira comprada pela internet. Todos os
dias o vilarejo recebe encomendas que chegam de caminhão, sendo separadas e
entregues na casa dos moradores por um serviço local.
Cultura
e arte também são dimensões consideradas centrais pela comunidade. O vilarejo
tem seu ponto de cultura. O lugar funciona como escola de teatro e dança, além
de abrigar um cineclube, uma rádio e um jornal eletrônico comunitários. A
criação de expressões culturais que aprofundem a identidade local é muito
valorizada, assim como processos de mudança cultural envolvendo questões
consideradas vitais pelos moradores. Provavelmente, a mais importante delas é
que os moradores acreditam que um território próspero é mais importante do que
indivíduos prósperos. Quem enriquece é o conjunto dos moradores, reforçando um
sentimento de pertença e proteção social. Isso, por sua vez, reforça as
relações de compromisso entre todos, num círculo virtuoso que impulsiona o
desenvolvimento socioeconômico local.
Outra
genial mudança cultural realizada pela comunidade foi a monetização do trabalho
reprodutivo, o que significa dizer que pessoas que cuidam de outras pessoas
passam a receber uma justa remuneração pelo seu trabalho. Cuidar da casa e da
família, das crianças, adolescentes, idosos e pessoas com deficiência, tudo
isso é entendido como um trabalho de fundamental relevância para o território,
participando das trocas econômicas locais. E isso é feito de forma comunitária,
o que diminui a sobrecarga dos cuidadores, mulheres e homens.
Importante
citar que o vilarejo oferece uma renda básica para todos, calculada de acordo
com os custos de vida do vilarejo, o que inclui acesso à moradia, alimentação,
água, energia, saneamento, saúde, educação, proteção social, comunicação,
transporte e lazer. Como contrapartida, todos os moradores oferecem algum
trabalho à comunidade.
Todo
trabalho que seja considerado pela comunidade como de interesse do território
entra no jogo das trocas econômicas locais. A maioria dos bens e serviços
consumidos localmente são produzidos pelos próprios moradores, o que gera um
grande número de postos de trabalho e assegura o equilíbrio do ciclo de
produção e consumo. Nesta dimensão da gestão do território também há forte
incorporação de tecnologia digital, um tipo de cooperativismo de plataforma
elevado à escala territorial.
Ao
final do ano o vilarejo faz a contabilidade geral de todo o território, define
o que será reservado para investimentos na continuidade do desenvolvimento
local e, ao final, faz uma repartição das sobras entre todos os moradores, o
que garante a possibilidade de realização dos projetos individuais.
A
gestão do território é outro elemento chave nessa experiência. Há um claro
compromisso com uma gestão participativa, baseada em dados abertos e de
propriedade do conjunto dos moradores. Há uma equipe técnica altamente
qualificada, formada por moradores locais, que apoia a comunidade no processo
de gestão do território. E a cerejinha do bolo, a tecnologia digital. O
vilarejo fez uma ousada aposta na importância de se apropriar dos recursos
trazidos pela era digital, priorizando ações voltadas à inclusão do conjunto de
seus habitantes nesse novo universo.
Com
um smartphone em mãos os moradores têm acesso a toda informação sobre o que
acontece no território, o que assegura um acompanhamento permanente das
decisões e fluxos financeiros. Temas importantes para a comunidade local são
discutidos em assembleias e depois votados digitalmente através de plebiscitos
online.
Outro
aspecto muito relevante diz respeito à comercialização dos imóveis, operada
pelo poder público local. Isso garante que novos moradores estejam cientes e de
acordo com os propósitos da comunidade, expressos em seu estatuto e regimento
interno. Esse mecanismo também assegura à comunidade o controle sobre os preços
locais, evitando processos de gentrificação.
Enfim,
a pergunta que não quer calar: seria possível encontrar um vilarejo como esse
aqui no Brasil? Do ponto de vista técnico podemos dizer que sim. Há uma série
de tecnologias sociais já consolidadas que, juntas, poderiam ajudar a construir
esse lugar. Economia popular e solidária, bioconstrução, agroecologia, manejo
sustentável da água, energias renováveis, saneamento ecológico, práticas
integrativas de saúde, proteção social comunitária, pontos de cultura e tantas
outras, que se caracterizam por serem soluções simples, de fácil
replicabilidade e baratas.
E o
que poderia ajudar a juntar tanta coisa? Juntar tudo isso fica fácil se, como
ponto de partida, os moradores do território escolherem o associativismo e o
cooperativismo solidários como bases de toda a organização socioeconômica do
território. Uma série de cooperativas atuando de forma articulada, com foco na
resposta às necessidades de vida dos moradores. Sai a ideia do lucro privado e
entra a do bem-estar coletivo. Onde todos são sócios muda o modelo de gestão,
em associações e cooperativas as decisões são tomadas em assembleias, onde cada
cabeça tem direito a um voto.
Esse
exercício de imaginação busca dar contornos ao desenho de um território capaz
de assegurar justiça social e sustentabilidade ambiental ao conjunto dos seus
moradores, pensando especialmente naqueles que vivem da sua força de trabalho e
que não encontram lugar no mercado formal ou informal. É também um lugar
pensado para aqueles que, podendo escolher como viver, gostariam de
experimentar uma vida mais simples, solidária e saudável, felizes por
participar da construção desse outro mundo possível.
É
uma tentativa de dar materialidade às nossas escolhas políticas, buscando um
caminho para assegurar a todos o direito à cidade. É pensar numa versão à
esquerda da cidade inteligente. É apostar em soluções disruptivas, capazes de
responder às múltiplas crises do nosso tempo.
Fonte:
Por Adriana Brandão, em Outras Palavras

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