Como o
Congresso brasileiro distorce o orçamento da Saúde
A grita pela “livre”
alocação das emendas parlamentares na saúde é um dos pontos centrais do ataque
do Centrão à ministra Nísia Trindade. Desde que assumiu, ela estabeleceu
critérios técnicos mínimos para destinação dos recursos provenientes dessas
emendas. A banda fisiológica do Congresso chiou, pois defende o “direito” dos
deputados e senadores a distribuir recursos sem regras ministeriais.
O tema é relevante: o
Legislativo tem mordido uma parcela cada vez maior do Orçamento da União, e
segundo a Emenda Constitucional 86/2015, deste total metade é destinada às
ações e serviços públicos de Saúde. Como o subfinanciamento do SUS não acabou,
a parcela do orçamento que fica nas mãos dos parlamentares não para de crescer.
Mas qual o resultado real desta pulverização de recursos, segundo os interesses
dos próprios legisladores?
Uma primeira resposta
acaba de chegar. Foi obtida pelo estudo Efeitos das emendas parlamentares no financiamento municipal de
atenção primária à saúde do Sistema Único de Saúde, feito por pesquisadores ligados à Universidade Estadual de
Londrina, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e a Escola Nacional de
Saúde Pública Sergio Arouca da Fiocruz.
Como os autores
demonstram, as disparidades no acesso à saúde pública cresceram. Surgiu uma
enorme distorção de distribuição de recursos per capita,
prejudicando em especial municípios médios e grandes – onde vive a maior parte
da população do país. Além disso, as emendas serviram como substituição ao
gasto municipal com Atenção Primária à Saúde (APS), mas não alteraram os gastos
das prefeituras com os serviços de saúde em geral.
A pesquisa retoma as
principais mudanças na Constituição Federal, que fizeram com que as emendas
parlamentares atingissem o peso orçamentário que têm em 2024. Pode-se
estabelecer como fator importante as políticas neoliberais de “austeridade”,
presentes desde a criação do SUS mas intensificadas a partir de 2015 e, em
especial, após o golpe parlamentar de 2016. A restrição do orçamento deixou o
Congresso insatisfeito. Mas em vez de enfrentá-la, o Parlamento contentou-se em
defender o seu quinhão, aprovando uma série de leis que estabelecem o orçamento
impositivo – ou seja obrigam o Executivo a atender aos
caprichos dos parlamentares.
A principal foi a
Emenda Constitucional 86/2015. Segundo ela, uma parcela específica do orçamento
deve ser obrigatoriamente executada conforme as emendas individuais e coletivas
dos parlamentares, garantindo assim que os projetos e alocações de recursos indicados
por eles devem ser efetivamente realizados. Se nesse momento, a quantia mínima
da receita corrente líquida destinada à saúde via emendas parlamentares era de
0,6%, as leis que vieram a seguir – a saber, em especial a EC 126/22 –
aumentaram o percentual para 1%. E vale lembrar: há poucos dias, o
Congresso garantiu mais R$ 4,6
bilhões do orçamento para si.
Como já é bastante
debatido, uma fatia tão grande na mão de deputados e senadores não tem
garantido melhorias nos serviços públicos dos brasileiros. Pelo contrário, as
emendas muitas vezes funcionam como garantidoras de votos em “redutos
eleitorais”, em especial em pequenas cidades, como demonstra a pesquisa. E
tampouco têm servido como amparo para a Atenção Primária à Saúde de maneira
igualitária pelo Brasil, como veremos a seguir.
Para fins de
metodologia, o estudo segmentou as cidades brasileiras em sete grupos, de
acordo com o seu número de habitantes: até 5 mil; de 5 a 10 mil; de 10 a 20
mil; de 20 a 50 mil; de 50 a 100 mil; de 100 a 500 mil; e mais de 500 mil.
Essas faixas são importantes para verificar as disparidades, mas também para
compreender a complexidade da municipalização brasileira: 68,3% das cidades
brasileiras têm população inferior a 20 mil habitantes.
As primeiras
constatações do estudo são as seguintes: (1) há enorme disparidade nos recursos
repassados via emendas parlamentares per capita entre municípios de pequeno e
de grande portes; (2) as despesas municipais em ações e serviços públicos
totais de saúde pouco se alteraram com o aumento de recursos via emendas; (3)
isso muda quando se fala em APS, pois especialmente em cidades pequenas o gasto
da prefeitura nessa área diminuiu com o aumento de transferências de deputados
e senadores. A seguir, avaliaremos cada um dos achados.
“Foram identificadas
diferenças de até 16 vezes no valor per capita em emendas parlamentares para
APS entre os municípios com até 5 mil habitantes e aqueles com mais de 500 mil,
evidenciando as distorções causadas por essa forma de transferência de recursos
no período avaliado [entre 2015 e 2020]”, escreve o estudo. Os pesquisadores
vão além: afirmam que o dispositivo não corrigiu as iniquidades na distribuição
de recursos – pelo contrário, as aumentou. Essa discrepância não é tão grande
quando observamos os gastos próprios dos municípios com APS: nesse aspecto, o
valor per capita de cidades pequenas é, no máximo, 2,3 vezes maior que nas
grandes.
Outro grande problema
é que os municípios pequenos não são beneficiados igualitariamente, “dada a
discricionariedade do parlamentar na indicação desses recursos”. E quando o
orçamento é direcionado pelo poder executivo, via Piso de Atenção Básica, essas
distorções não acontecem, pois estabelece-se uma margem mínima – que respeita
“critérios como perfil demográfico e socioeconômico de cada ente municipal para
a distribuição de recursos financeiros”.
A segunda constatação
do estudo foi o fato de que não há relação direta entre a destinação de
recursos via emendas do relator para municípios e a alocação de recursos
próprios das prefeituras em ações e serviços gerais de saúde. “Esses achados
apresentam evidências que refutam a hipótese da substituição de fontes pelos
municípios […], ou seja, que eles substituiriam recursos próprios por emendas
na aplicação em ações e serviços públicos de saúde”, afirmam os autores.
Haveria, portanto, um
aumento no orçamento da saúde em tais municípios, pela lógica. Embora isso seja
verdade, demonstra que o SUS ainda carece de muito financiamento nessas
cidades: “A pressão sobre os municípios é um dos fatores que explicam esse
resultado”, explicam. Nesse ponto, o estudo chama a atenção para a crescente
“omissão estrutural da União quanto ao seu papel coordenador e organizativo”.
Trata-se de um problema muito debatido na economia da saúde: a participação do
governo federal nos gastos em saúde tem diminuído crescentemente. Enquanto
isso, municípios têm que arcar com uma fatia cada vez maior do financiamento do
SUS.
A terceira conclusão
do estudo é ainda mais grave. “Municípios diminuíram a parcela de recursos
próprios no financiamento da APS” com o aumento de emendas parlamentares
direcionadas a elas, diz o texto. Ou seja, mesmo nos municípios mais
favorecidos pelas emendas, a população não se beneficiou. Os prefeitos
simplesmente abocanharam os recursos federais e reduziram a contribuição das
prefeituras à atenção básica – mantendo, na essência, o mesmo padrão de
serviços.
Fonte: Por Gabriela Leite, em Outra Saúde

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