sábado, 27 de janeiro de 2024

Racismo ambiental existe

Se a expressão usada por Anielle Franco existe, qual é o motivo dos ataques deferidos contra a ministra? A falta de conhecimento do racismo ambiental é uma evidência óbvia de que os políticos opositores não possuem conhecimento básico acerca da questão racial brasileira.

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A ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, enfrentou críticas de parlamentares da oposição ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) após afirmar que os danos causados pelas chuvas que atingem o Rio desde a noite de sábado, 13, são “efeitos do racismo ambiental e climático”. Com a repercussão da afirmação de Anielle, os ministros Silvio Almeida (Direitos Humanos), Marina Silva (Meio Ambiente) e Sonia Guajajara (Povos Indígenas) saíram em defesa da chefe da pasta da Igualdade Racial. 

Precisamos voltar um pouco. Nos anos oitenta, o movimento negro unificado desempenhou um papel crucial na formulação de teses que moldaram a luta antirracista no contexto brasileiro. Duas perspectivas destacaram-se nesse cenário: a amplamente aceita “raça e classe” e a menos difundida, mas não menos significativa, “raça e território“. Enquanto a primeira, fortemente influenciada pelas experiências antirracistas estadunidenses, propôs uma abordagem anticapitalista para enfrentar o racismo, a segunda enfatizou a importância das especificidades locais e ambientais na luta contra a discriminação racial, dando origem a um conceito vital que perdura até os dias atuais: o racismo ambiental

A perspectiva “raça e classe” emergiu da análise das experiências antirracistas estadunidenses, sugerindo que o racismo desempenha um papel fundamental no sustento do capital e da exploração. Para os defensores dessa tese, a luta contra o racismo e a luta de classes deveriam ser entrelaçadas, uma vez que o racismo seria considerado um pilar estrutural do sistema econômico. Essa abordagem dominante no movimento negro unificado defendia que, ao combater o racismo, também se estaria desafiando as estruturas profundamente enraizadas no imperialismo mundial, leia-se: países que construíram riquezas através da exploração dos povos “colonizados”. 

Em contraste, a tese “raça e território” destacou a existência de uma dimensão estruturante na luta antirracista que relacionava as questões territoriais e culturais, defendendo a necessidade de combater o racismo considerando as especificidades locais antes de expandir para questões globais. Apesar de não ter alcançado a mesma hegemonia que a abordagem “raça e classe”, essa perspectiva foi fundamental para a construção do conceito posteriormente reconhecido como racismo ambiental. 

O Brasil abriga 11.403 comunidades informais, onde aproximadamente 16 milhões de indivíduos residem em cerca de 6,6 milhões de residências, conforme dados preliminares do Censo Demográfico 2022, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Este resultado representa um aumento de cerca de 40% na quantidade de brasileiros vivendo nessas condições na última década. “O Censo Demográfico de 2010 registrou 11,426 milhões de habitantes em comunidades informais naquele ano. Atualmente, a Sol Nascente, localizada em Brasília, é a comunidade mais populosa do país, com 87.184 residentes, enquanto a Rocinha, no Rio de Janeiro, que liderava o ranking em 2010, agora ocupa o segundo lugar em 2022, com 67.199 moradores. Em terceiro lugar, temos Cidade de Deus/Alfredo Nascimento, em Manaus, com 55.361 habitantes, seguida por Rio das Pedras, no Rio de Janeiro, com uma população estimada de 54.793.” 

Os dados mostram o quanto podemos ver da forma sistêmica, mesmo em diferentes lugares do Brasil, que a organização da pobreza se dá sob o mesmo ambiente urbano: as favelas. O conceito de racismo ambiental, forjado a partir da tese “raça e território”, trouxe à tona a interseção entre discriminação racial, questões territoriais e ambientais. O racismo ambiental refere-se à prática de deslocar comunidades racialmente marginalizadas para áreas contaminadas, sujeitas a poluição e impactos ambientais prejudiciais. Essa prática perpetua disparidades sociais, econômicas e ambientais, evidenciando como as comunidades negras são desproporcionalmente afetadas pelos problemas ambientais, e que direta ou indiretamente, fortalecem o racismo porque oferece uma miserável condição de vida.  

Mas se a expressão alcunhada por Anielle Franco existe, qual é o motivo dos ataques deferidos contra a ministra? O linchamento político de pessoas negras é um padrão que muitas vezes resulta em julgamentos severos por ações que, embora possam ser equivocadas, são frequentemente de menor relevância. Essas ações são infladas de maneira a amplificar suas repercussões e influenciar a opinião pública a desqualificar líderes por motivos alheios às suas habilidades técnicas e suas realizações. 

Nessa jornada, nomes de lideranças negras são enfraquecidos na política, a ponto de, com poucas exceções, não serem considerados para cargos relevantes. 

Recordemos o caso da ministra Matilde Ribeiro, que, influenciada por um funcionário, fez uso equivocado do cartão corporativo e, como resultado, perdeu o cargo. Da mesma forma, o então ministro Orlando Silva foi destituído por consumir uma tapioca com o cartão corporativo, e a então ministra Benedita da Silva foi demitida por ter comparecido a uma igreja durante uma viagem internacional.  

Todas essas punições revelam mais sobre o racismo do que sobre a capacidade intelectual da ministra. Anielle possui um currículo excepcional na defesa dos direitos humanos e uma longa trajetória de contribuições ao antirracismo. Uma crise política gerada por um incidente como esse é, em essência, um reflexo do racismo. Enquanto gestores incompetentes muitas vezes são protegidos e defendidos, gestores negros e negras podem enfrentar consequências severas por infrações menores. 

É fundamental que, nesse contexto de luta política, nossos aliados e a esquerda como um todo combatam o racismo em suas formas menos evidentes, compreendendo as complexidades e subjetividades envolvidas. O racismo estrutural não só resulta na demissão, mas também mina a trajetória e a imagem das pessoas negras. 

As teses do movimento negro unificado nos anos oitenta não apenas desempenharam um papel fundamental na configuração da luta antirracista no Brasil, mas também legaram um legado duradouro. A dicotomia entre “raça e classe” e “raça e território” não deve ser vista como uma contradição, mas como complementar. O conceito de racismo ambiental continua a desempenhar um papel central nas discussões contemporâneas sobre justiça social e em defesa do meio ambiente, lembrando-nos de que a luta contra o racismo não pode ser dissociada das dimensões territoriais e ambientais que permeiam as desigualdades estruturais como acesso à água, ao esgoto, à saúde e impactos dos fenômenos naturais como os desastres gerados pelas chuvas. 

Na realidade, a falta de conhecimento da expressão “racismo ambiental” é uma evidência óbvia de que os políticos racistas do Brasil não possuem conhecimento básico acerca da questão racial brasileira, questão que é a principal construtora de violência, desigualdades, fome e pobreza.

 

Ø  Como o racismo ambiental afeta as comunidades marginalizadas

 

São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e outros estados brasileiros foram afetados por inundações e deslizamentos causados pelas fortes chuvas no final de 2023 e início de 2024. Infelizmente, centenas de famílias foram afetadas. Esse tipo de desastre tende a prejudicar ainda mais as comunidades que já estão em desvantagem social e econômica, como os moradores de áreas marginalizadas, pessoas negras e os povos originários. Isso é conhecido como racismo ambiental.

·        Mas afinal, o que é racismo ambiental? 

O termo foi criado para descrever a forma como as populações mais pobres e marginalizadas são afetadas de forma desproporcional pelos impactos ambientais negativos, como a poluição do ar, a contaminação da água, as enchentes e o desmatamento. Isso acontece porque essas populações muitas vezes têm menos poder político e econômico para evitar ou remediar esses impactos.

Populações que precisam viver em favelas e áreas construídas em encostas íngremes, sujeitas a deslizamentos de terra e enchentes são as mais afetadas, como ocorreu no Litoral Norte de São Paulo. O racismo ambiental é, portanto, uma forma de discriminação ambiental. Ele acontece quando as políticas ambientais e os projetos de desenvolvimento são implementados de forma a prejudicar deliberadamente as populações mais vulneráveis. 

Por exemplo, quando uma usina é construída perto de uma comunidade de baixa renda, sem o seu consentimento ou participação, isso pode levar a um aumento da poluição do ar e da água na área. Essa poluição pode causar doenças respiratórias e outros problemas de saúde para os moradores locais.

·        Quem é atingido pelo racismo ambiental?

O racismo ambiental tem um impacto significativo na população que vive em favelas. Essas comunidades muitas vezes são construídas em áreas que não são seguras para a habitação, como encostas de morros ou margens de rios. Isso significa que os moradores das favelas estão expostos a um maior risco de sofrerem com as inundações e deslizamentos de terra. 

Além disso, a falta de acesso a serviços básicos, como água potável e saneamento, agrava ainda mais os impactos negativos do racismo ambiental nas favelas. O resultado é uma qualidade de vida muito inferior à das pessoas que vivem em áreas mais ricas e protegidas, afetando a saúde e bem-estar dos moradores das favelas.

As comunidades indígenas e quilombolas também são afetadas pelo racismo ambiental. Muitas vezes, elas vivem em áreas de grande valor ecológico, como florestas e reservas naturais, e têm um conhecimento profundo desses ecossistemas. No entanto, essas comunidades têm pouca influência sobre as políticas que afetam seus territórios e geralmente são excluídas do processo de tomada de decisão.

A luta contra o racismo ambiental envolve a defesa dos direitos humanos e ambientais. Isso inclui o direito à participação na tomada de decisão, o direito à informação e o direito à justiça ambiental. É importante que as comunidades afetadas sejam ouvidas e que seus conhecimentos e experiências sejam valorizados na elaboração de políticas e projetos de desenvolvimento.

Infelizmente, existem muitos exemplos de racismo ambiental no Brasil:

  • A construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, que deslocou comunidades indígenas e ribeirinhas e teve um impacto significativo na biodiversidade da região.
  • A contaminação da água e do solo em comunidades indígenas e quilombolas no Nordeste do Brasil, devido ao uso excessivo de agrotóxicos nas plantações próximas.
  • A construção da rodovia BR-163, no Mato Grosso, que causou desmatamento e expulsou comunidades indígenas da região.
  • A contaminação por metais pesados em comunidades próximas às minas de ouro em Paracatu, Minas Gerais, que tem afetado a saúde dos moradores locais.
  • A precarização da assistência à saúde indígena e a ausência de programas governamentais voltados à retirada de garimpeiros nas Terras Indígenas. Recentemente, vivenciamos a crise sanitária no Território Yanomami, no qual centenas de yanomamis apresentavam sintomas graves de malária sem terem acesso a remédios e dezenas de crianças com desnutrição em estado avançado.

Esses são apenas alguns exemplos de racismo ambiental no Brasil. É importante que a sociedade como um todo reconheça e combata essa forma de injustiça ambiental e social.

·        O que podemos fazer para combater o racismo ambiental

A luta contra o racismo ambiental envolve a defesa dos direitos humanos e ambientais e a valorização do conhecimento e da experiência das comunidades afetadas. Para combater essa forma de injustiça ambiental, é necessário que a sociedade como um todo reconheça o problema e tome medidas para combatê-lo.

Algumas medidas que podem ser tomadas para diminuir o racismo ambiental incluem a criação de políticas públicas que levem em conta as desigualdades sociais e econômicas, a garantia do direito à participação das comunidades afetadas na tomada de decisão, a promoção da educação ambiental e a valorização do conhecimento tradicional das comunidades.

 

Ø  O que é Racismo Ambiental

 

Cada dia 20 de Novembro, Dia da Consciência Negra, traz consigo uma nova oportunidade para reforçarmos o combate e a reflexão sobre o racismo em nosso país. Nos últimos anos, o termo racismo estrutural ganhou destaque sendo definido como a discriminação racial que está enraizada em nossa sociedade, e a discussão ajudou para que este tema ganhasse recortes em diversos segmentos onde antes a questão racial era pouco vista ou até mesmo ignorada. 

Este é o caso do racismo ambiental, termo que pode ser definido como a distribuição injusta dos recursos e riscos ambientais entre diferentes grupos étnico-raciais, é o que explica Lays Helena Paes e Silva, doutora em Ciências Sociais pela Universidade de Coimbra:  “Se formos considerar a variante racial, onde é que nós encontramos a maioria da população negra? Qual é a composição racial dos bairros que são mais afetados pela poluição, pela contaminação, pelo lixo e pela falta de acesso à energia? Isso está distribuído de forma injusta e tem um componente racial fortíssimo que vem historicamente sendo negado”

Durante a COP26 em Glasgow, representantes de movimentos negros brasileiro realizaram o evento “Terra, territórios e o enfrentamento ao racismo nas lutas contra a crise climática” para discutir sobre o racismo ambiental no Brasil, o que despertou interesse nesse tema de extrema importância para entendermos a profundidade da questão racial, mas que ainda é pouco discutido no país. Para se ter uma noção, no início de Outubro durante o Conselho de Direitos Humanos da ONU, o representante do Brasil no colegiado contestou o termo e seu uso pela ONU, “notamos que o chamado racismo ambiental não é uma terminologia internacionalmente reconhecida”

Para Ivy de Souza, doutora em Direitos e Garantias Fundamentais Faculdade de Direito de Vitória- ES (FDV), o desconhecimento sobre o racismo ambiental ainda é muito grande, o que impede um debate mais aprofundado sobre a questão, “Ano passado mesmo participei do Congresso Brasileiro de Bioética, e a primeira pergunta que todos os mediadores das mesas me fizeram era ‘o que é racismo ambiental?’, então não é uma questão de desconhecimento apenas do grande público, mas inclusive do meio acadêmico”.

O termo racismo ambiental surgiu nos Estados Unidos no final da década de 1970 a partir dos movimentos de luta por justiça ambiental, e ganhou destaque em 1982 quando a população de Warren County, na Carolina do Norte, iniciou um levante contra a instalação de um aterro de resíduos tóxicos, graças a esses protestos veio à tona a denúncia que 75% dos aterros de resíduos tóxicos do sudeste americano estavam em bairros habitados majoritariamente por populações negras, provando que aquele não era um caso isolado. 

No Brasil, os primeiros casos de justiça e de racismo ambiental começaram a ser denunciados ao final da década de 1980, graças a estudos de casos isolados, sobretudo no Rio de Janeiro. Em 2001, foi fundada a Rede Brasileira de Justiça Ambiental, durante o Colóquio Internacional sobre Justiça Ambiental, Trabalho e Cidadania, realizado no campus da UFF (Universidade Federal Fluminense). 

Apesar do conceito do racismo ambiental não ter surgido no Brasil, para Ivy de Souza Abreu, o caso brasileiro tem algumas diferenças em comparação ao norte americano, “Por mais que seja a mesma ideia, o nosso racismo ambiental possui uma estruturação social diferente, se lá nos EUA o racismo ambiental está vinculado apenas as etnias, aqui está vinculado também desigualdade social. Se lá 100% das pessoas que vivem próximas aos lixões são negras, aqui 100% das pessoas são de baixa renda, então a pobreza também é um fator determinante na estruturação das pessoas que vão sofrer com o racismo ambiental no Brasil. É muito nítido essa diferença quando você compara um bairro de classe média e um bairro de periferia”.

Outro ponto importante para entender este problema é a exclusão de minorias e populações mais pobres na formulação de políticas ambientais, tanto nas zonas rurais como urbanas, “quando você pensa em políticas públicas para melhoria da qualidade de vida muitas vezes essas populações sequer são consideradas, tratadas como invisíveis ou até mesmo descartáveis, como se pensar na qualidade de vidas delas fosse algo desnecessário. No caso das populações indígenas e quilombolas, essa descartabilidade é mais evidente porque são comunidades de resistência e são vistas como pessoas que estão fora do modelo de desenvolvimento, mas quando pensamos nas populações urbanas, talvez esse problema seja menos evidente no imaginário das pessoas”, completa Lays Helena.

 

Fonte: Por Herlon Miguel, no Le Monde/Fundo Brasil/Revolusolar.org

 

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