quarta-feira, 17 de junho de 2026

Precisamos de jogadores com o espírito radical de Sócrates

Sócrates pode nunca ter passado das quartas de final da Copa do Mundo, mas continua sendo um dos jogadores mais icônicos da história do torneio. Instantaneamente reconhecível por seu cabelo preto encaracolado, barba no estilo Che Guevara, e a maneira como ele pairava sobre seus oponentes com 1,82 de altura, cada centímetro parecia revolucionário.

Na Copa do México em 1986, onde perdeu um pênalti fatídico quando o Brasil enfrentou a França em uma disputa nas quartas de final, ele usou a faixa na cabeça – improvisada com a meia de um companheiro – que passou a defini-lo na mente de milhões. Embora mais tarde ele tenha acrescentado diferentes slogans – “O povo precisa de justiça”, “Sim ao amor, não ao terror”, “Sem violência” – o primeiro foi talvez o mais poderoso. Após o terremoto na Cidade do México no ano anterior, um desastre que matou milhares e expôs a amarga injustiça dentro da sociedade mexicana, a nação anfitriã ficou profundamente ferida. Sócrates veio com uma mensagem simples: “México Sigue En Pie” — “México Segue Em Pé”.

Explicando o raciocínio por trás da mensagem mais tarde, Sócrates disse: “Quando chegamos ao México, o desastre causado por um terrível terremoto que atingiu o país antes do início da Copa do Mundo foi o estopim que me fez decidir aproveitar a oportunidade, num momento em que o mundo inteiro assistia ao evento, e destacar alguns pontos críticos da realidade social.” Ele teve a inspiração para sua bandana depois de ver uma jovem usando uma faixa na televisão, decidindo protestar contra “os absurdos que existem na humanidade”.

Ele ficou furioso quando, depois de colocar aquela primeira bandana antes de enfrentar a Espanha na fase de grupos, houve um erro no hino que saiu pelos alto-falantes do estádio. “Quaisquer reações contra a pobreza, guerras, imperialismo, injustiça social, analfabetismo endêmico e muitos outros tópicos foram superados quando balancei a cabeça ao ouvir o primeiro acorde e ouvi o erro”, admitiu mais tarde. “Mas valeu a tentativa. É muito melhor tentar, creio eu, do que se conformar.”

Sócrates não era um jogador de futebol comum, mesmo numa época em que o jogo estava muito mais próximo de suas raízes comunitárias. Um líder carismático e um gênio criativo dentro do campo, ele se tornou um herói romântico no imaginário popular por suas façanhas fora de campo. Ele fumava e bebia, vivendo com a mesma indiferença que caracterizava sua juventude. Ele se autodenominava “um antiatleta”. Ele também era um médico qualificado — daí o apelido de Doutor Sócrates —, uma contradição que só reforçava suas credenciais de inconformista.

“Sócrates usou sua voz para defender a política radical e se manifestar contra a injustiça no Brasil e no exterior”.

No entanto, ele entendeu que seu talento com a bola nos pés lhe dava uma plataforma para falar para um número incontável de pessoas. Foi algum talento, também. Ele era um meio-campista inteligente, que fazia boas assistências, mas também um artilheiro extravagante que era tão bom com o calcanhar quanto Pelé, tricampeão mundial do Brasil. O time brasileiro do qual ele foi capitão, na Espanha em 1982, é frequentemente citado como o melhor time a não vencer a Copa, saindo após uma derrota por 3×2 para a eventual vencedora Itália, na segunda fase de grupos – uma peculiaridade da época – em que seu companheiro internacional de equipe, Falcão, descreveu como “um dos maiores jogos da história do futebol.”

Com o fim da carreira — a derrota para a França no México em 1986 foi seu último jogo pelo Brasil —, Sócrates disse: “Enquanto eu era jogador de futebol, minhas pernas amplificavam minha voz”. Ele usou essa voz para defender uma política radical e se manifestar contra a injustiça no Brasil e no exterior. Embora seu tempo com a seleção o tenha tornado mundialmente famoso, sua intervenção política mais importante ocorreu durante os seis anos que passou jogando futebol pelo Corinthians, em São Paulo. Lá ele se tornou uma figura central no movimento “Democracia Corinthiana”, posicionando-se em oposição direta à brutal ditadura militar que governava o Brasil desde 1964.

Inicialmente, Sócrates foi um dissidente relutante. Tendo crescido em uma família de classe média com um pai, Raimundo, que era obcecado por educação – daí o nome de um antigo filósofo grego -, Sócrates teve uma experiência de infância formativa quando testemunhou Raimundo destruindo livros sobre política de esquerda após os militares tomarem o poder. No entanto, em uma de suas primeiras grandes entrevistas em 1976, quando tinha vinte e poucos anos, assumiu uma postura apolítica, chegando a dizer que a censura era necessária porque senão “as coisas complicariam para o governo”. Ele era um leitor voraz, no entanto, e continuou a se educar com o incentivo do pai, tornando-se cada vez mais atento aos problemas sociais do Brasil e à intensa repressão do regime militar.

“Além de desafiar a ditadura adotando métodos democráticos, Sócrates e seus companheiros mostraram que rejeitar o individualismo em favor da política coletiva pode ser extremamente eficaz.”

Depois que Sócrates chegou ao Corinthians, em 1978, ele começou a gravitar em torno da esquerda. Em pouco tempo, ele e seu companheiro de equipe Wladimir – mais tarde acompanhado com entusiasmo por Casagrande, outro futuro jogador de fama internacional do Brasil – eram os líderes de um movimento que, com o apoio do diretor de futebol Adilson Monteiro Alves e do presidente do clube, Waldemar Pires, introduziriam uma forma de democracia no clube. Todos no clube votavam e os jogadores decidiam tudo, desde os horários dos treinos, até quando parar o técnico do time para ir ao banheiro com uma mão levantada. Eles também afrouxaram as restrições da concentração, uma tradição no futebol brasileiro em que os jogadores ficavam efetivamente confinados em um hotel ou campo de treinamento antes de um jogo.

A resistência à concentração autoritária foi especialmente simbólica, transformando o Corinthians em uma metáfora para a sociedade brasileira. Além de desafiar abertamente a ditadura adotando métodos democráticos em uma instituição esportiva de grande porte, Sócrates e seus companheiros mostraram que rejeitar a apatia e o individualismo em favor da política coletiva pode ser extremamente eficaz. O clube teve grande sucesso sob a gestão democrática, conquistando o Campeonato Paulista duas vezes, em 1982 e 1983, durante a era da Democracia Corinthiana. “Nosso movimento foi bem sucedido por causa de muitos pontos, mas o mais fundamental foi Sócrates”, disse Casagrande ao The Guardian no ano passado. “Precisávamos de um gênio como ele, alguém politizado, inteligente e admirado. Ele foi um escudo para nós. Sem ele, não poderíamos ter a Democracia Corinthiana.”

O movimento logo transcendeu o clube, com Sócrates e seus companheiros fazendo um desafio direto ao regime. Em 1982, antes das primeiras eleições multipartidárias sob o regime militar e em meio ao gradual processo de “abertura”, Sócrates e seus companheiros entraram em campo vestindo camisetas com os dizeres: “Dia 15 Vote”.  Antes de conquistar o Campeonato Paulista em 1983, o time comandado por Sócrates entrou em campo segurando uma faixa gigante onde se lia: “Ganhar ou perder, mas sempre com democracia”. Ele marcou duas vezes contra o São Paulo e comemorou erguendo o punho cerrado – fazendo uma saudação ao povo brasileiro – nas duas ocasiões.

Sócrates passou a participar do movimento Diretas Já, que — apoiado por sindicalistas, trabalhadores, artistas, estudantes e uma ampla parcela da sociedade brasileira — levou milhões às ruas e impulsionou a transição para a democracia em 1985. Em um momento que se tornou parte folclore, em meio ao interesse de clubes italianos para contratá-lo, ele subiu ao palco diante de uma multidão de manifestantes em São Paulo e prometeu não deixar o Brasil se uma emenda constitucional que pavimentasse o caminho para eleições livres passasse. A emenda foi derrotada em um revés temporário, mas Sócrates, em ato de contestação, partiu para a Fiorentina. Reza a lenda que, quando chegou na Itália, perguntaram-lhe qual era o craque da Serie A que mais admirava, Sandro Mazzola ou Gianni Rivera. “Eu não os conheço”, disse ele. “Estou aqui para ler Gramsci na língua original e estudar a história do movimento trabalhista.”

Sócrates ainda é um ídolo para muitos brasileiros, incluindo Rosie Siqueira, do Fiel Londres, um fã clube londrino do Corinthians. “Ele era um cara além do seu tempo, suas visões e ideais em termos de causas sociais e políticas iluminaram tantos torcedores, não só corintianos, mas todos os torcedores brasileiros”, diz ela. “Ele também era um líder de causa social, influenciando jogadores e funcionários do clube. Sócrates era um militante de esquerda, se posicionando contra a ditadura militar que tivemos no Brasil e defendendo a liberdade e o direito de expressão… não vemos isso acontecendo com muita frequência no futebol, seja sul-americano ou global”.

Embora as formas pelas quais Sócrates transformou o clube estejam bem documentadas, o significado da identidade do clube – e de seus torcedores – para ele é frequentemente esquecido. “Temos muito orgulho de ser um dos únicos clubes com um capítulo tão bonito em nossa história”, afirma Siqueira. “A mensagem dele viverá sempre com o Corinthians, e continua nos lembrando da nossa história, da nossa origem, do nosso propósito. O Corinthians vem de origem pobre, imigrante e trabalhadora. Nunca devemos esquecer isso. Ter a Democracia Corinthiana nas páginas do nosso livro de história vai nos ajudar a manter esse ideal vivo.”

Sócrates morreu em 2011, aos 57 anos, após lutar contra o alcoolismo, no mesmo dia em que o Corinthians conquistou o título do Campeonato Brasileiro. Ele continuou a defender a política radical à medida que envelhecia, praticando medicina após sua aposentadoria do futebol, além de se tornar um comentarista, escritor e palestrante. Ele foi um apoiador do Lula – também uma figura vital no Diretas Já e, coincidentemente, um torcedor do Corinthians – durante sua primeira passagem como presidente do Brasil, dizendo: “Seu governo foi o melhor da história do Brasil.” Entretanto Sócrates nunca foi acrítico. Questionado sobre a nota da presidência de Lula, ele disse: “10 não, teria que mudar tudo de uma vez para isso. Eu diria um 7 ou um 8. E isso já é muito bom”.

Hoje, enquanto competem em uma Copa do Mundo com graves problemas sociais, a seleção brasileira se tornou um símbolo de divisão política, dilacerada por fraturas ideológicas. Antes das eleições de outubro, a extrema direita incentivou seus eleitores a usar a famosa camisa amarela canário da seleção, com seus apoiadores há muito tempo cooptando-a para comícios e protestos alinhados a Bolsonaro. Consequentemente, muitos brasileiros que se opõem a Bolsonaro – cujos fanáticos defenderam a repetição do golpe militar de 1964 após a vitória de Lula – pararam de usar a camisa. Não ajudou que vários jogadores de fama internacional proeminentes, principalmente Neymar, endossassem abertamente apoia ao Bolsonaro, com Lula alegando que o atacante do Paris Saint-Germain apoiou seu rival por razões fiscais.

“Sócrates é um lembrete de que a extrema direita nunca terá o monopólio do patrimônio da seleção”.

“Com o que está acontecendo no momento, Sócrates ainda é uma figura extremamente importante”, diz Andrew Downie, jornalista e autor do livro Doutor Sócrates. “Você ouve muitas pessoas no Brasil – especialmente durante a campanha eleitoral, quando você tinha caras como Neymar dizendo que apoiavam Bolsonaro – dizer coisas como: ‘Que saudades de um cara como Sócrates, que lutou por causas sociais, que lutou por direitos humanos, que defendiam a democracia e posições progressistas’…  ele era um cara que defendia o que achava certo.”

Vários ex-jogadores de futebol deram seu endosso a Lula, principalmente o velho amigo de Sócrates, Casagrande, e seu irmão mais novo, Raí. Um jogador fantástico por mérito próprio – e, ao contrário de seu irmão, um vencedor da Copa do Mundo – Raí ergueu a mão direita para fazer um “L” ao apresentar o Prêmio Sócrates na cerimônia da Bola de Ouro antes do segundo turno presidencial. “Todos nós sabemos de que lado Sócrates estaria”, disse ele com um sorriso.

Dada a intervenção agressiva da FIFA contra até mesmo os gestos pró-igualdade mais inofensivos no Qatar, esta Copa do Mundo está clamando por um jogador que evoque o espírito da Copa do México em 1986. Para os brasileiros que procuram recuperar a camisa da seleção nacional – e seus emblemas nacionais de forma mais ampla – dos apoiadores de Bolsonaro, a figura imponente de Sócrates é um lembrete de que a extrema direita nunca terá o monopólio da herança da seleção nacional. “Vencemos o Bolsonaro nesta eleição, mas isso não significa que o bolsonarismo acabou e as ideias sobre preconceito, sexismo e totalitarismo ainda circulam no país”, diz Siqueira. “Na minha opinião, o futebol, como sempre, tem um papel importante na sociedade e vamos precisar do espírito de Sócrates vivo conosco”.

 

Fonte: Por Will Magee - Tradução Laira Vieira em Jacobin Brasil

 

Educação pública contaminada pelo autoritarismo

Ando pensando muito em algo impossível de aceitar em nosso meio: as escolas “cívico-militares” como proposta de política pública de educação infanto-juvenil por parte de alguns governos estaduais. Isto deve ser combatido como aberração e um mal destruidor de sonhos e desejos. Estamos diante de uma agressão ao direito à educação para novas gerações e para que tenham acesso e usufruto de um grande bem comum da coletividade: cuidado mútuo, convivência, compartilhamento de bens territoriais, materiais e culturais, indispensáveis ao viver e gozar direitos iguais para as novas gerações. Sim, somos diversos e isto é também um direito, pois somos diferentes  em muita coisa. Aliás, o direito à diversidade é parte de ser iguais apesar de tudo. As escolas cívico-militares são uma aberração política e uma forma de negar o que propõe: atender ao direito individual e coletivo de todas as crianças de ter acesso à educação de qualidade para praticar e usufruir direitos iguais numa  democracia que vale a pena ser vivida como forma de vida em coletividade. Educação cívico-militar é uma aberração autoritária, tanto na concepção  como na prática em relação às novas gerações.

Essas escolas cívico-militares são uma monstruosidade de política pública visando moldar crianças e adolescentes para integração passiva em sociedade autoritária. Aliás, esta é uma das formas em que a nova onda autoritária contamina as sociedades no mundo inteiro, com governos que impõe políticas reacionárias. Para onde a gente olha, sob formas matizadas, estamos numa fase que autoritarismo reacionário, produto da própria globalização capitalista em crise sistêmica. Ou seja, o velho mundo está produzindo monstros para se salvar. No mundo inteiro, estamos diante de versões de intolerância, seja contra migrantes vistos e tratados como um mal destrutivo da identidade nacional, assim como contaminando os movimentos e agenda feminista com uma suposta “ideologia de gênero”. Há uma total intolerância contra qualquer afirmação de igualdade e de direitos. Prega-se a islamofobia e praticam-se genocídios em grande escala em nome de “Deus, Pátria, Família”. Nega-se a mudança climática e ignora-se a monstruosidade da riqueza acumulada pelos 1% de super-ricos, como se fosse por mérito deles. O pior de tudo que contaminam todo o debate sobre “outro mundo possível”.

Como ativista, sempre me inspirei em ideários libertadores, baseados em princípios de cuidado, convivência e compartilhamento entre todas e todos e em relação ao bem comum natural, que nos dá a vida. Todos os autoritarismos reacionários negam a mudança climática.

Precisamos recuperar nossa capacidade de cidadanias ativas para criar, desde os territórios em que levamos a vida, imaginários de que seja possível ter “muitos e diversos mundos” que cabem no mesmo mundo. Temos ao nosso alcance muitas experiências que são virtuosas e podem ser nossa base para se contrapor ao mundo imaginado pelos diversos autoritarismos reacionários. Paulo Freire nos deixou um legado fundamental, que muita gente nem conhece, mas que nossas crianças e gerações futuras podem usufruir. Trata-se de se emancipar e praticar a liberdade de pensamento e ação, condições indispensáveis para outro futuro que valha a pena ser vivido.

Tomando o caso da educação e todo o esforço necessário para combater fundamentalismo autoritários e negadores de direitos, como brasileiras e brasileiros temos um dos mais criativos e ousados intelectuais que nos podem ajudar. É o nosso Paulo Freire e sua proposta de educação como prática da liberdade, de emancipação e de empoderamento, que parece um tanto esquecido. Vamos nos inspirar em seu legado para libertar nossas crianças e eles poderem sonhar com um mundo melhor. Não podemos esperar! Vamos disputar o sentido de uma educação libertadora,   para que as novas gerações façam um mundo melhor do que nós estamos fazendo!

 

Fonte: Por Cândido Grzybowsk, em Sentidos e Rumos

 

Creatina não reduz inflamação de forma significativa, conclui revisão científica

A creatina, um dos suplementos mais consumidos por atletas e praticantes de atividade física, pode não oferecer o benefício anti-inflamatório frequentemente atribuído a ela. Uma revisão sistemática com meta-análise conduzida por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) concluiu que não existem evidências consistentes de que a suplementação reduza marcadores inflamatórios em humanos.

Embora alguns estudos tenham observado reduções em mediadores inflamatórios específicos após exercícios de resistência extremamente intensos, como corridas de longa distância e provas de meio Ironman, esses benefícios não foram reproduzidos em idosos ou pacientes com doenças crônicas.

O trabalho reuniu os resultados de oito ensaios clínicos randomizados (em que os participantes são distribuídos aleatoriamente) e duplo-cegos (quando os participantes e os pesquisadores não sabem quem está recebendo o tratamento e o placebo), considerados o padrão mais rigoroso para avaliação de intervenções em saúde. A análise mostrou que a creatina não promoveu reduções significativas nos principais biomarcadores associados à inflamação crônica de baixo grau, como a proteína C-reativa (PCR) e a interleucina-6 (IL-6).

Isso não significa que a creatina não tenha nenhum efeito relacionado à inflamação, informou o coordenador do grupo responsável pela revisão, Vitor Valenti, ao g1.

“Os dados sugerem que seus possíveis benefícios são dependentes do contexto e podem ocorrer principalmente quando existe um estresse físico agudo e muito intenso. Portanto, é importante diferenciar uma possível proteção contra a inflamação provocada por exercício extenuante de uma redução sustentada da inflamação sistêmica”, diz Valenti.

Os resultados foram publicados na revista científica Frontiers in Immunology e contaram com apoio da Fapesp.

<><> De onde surgiu a ideia de que a creatina seria anti-inflamatória?

Segundo os pesquisadores, parte da reputação anti-inflamatória da creatina surgiu a partir de estudos experimentais realizados em animais e em células isoladas em laboratório.

Embora algumas dessas pesquisas tenham identificado mecanismos biológicos capazes de reduzir respostas inflamatórias, os resultados não se repetiram de forma consistente quando avaliados em seres humanos.

“Muita gente fala que a creatina é anti-inflamatória com base em resultados de estudos feitos em animais ou em células isoladas em laboratório. O problema é que esses resultados da pesquisa básica nem sempre se traduzem em efeitos clínicos em humanos”, afirma Valenti.

A própria literatura científica analisada pelos autores apresentou resultados contraditórios, o que motivou a realização da revisão sistemática para reunir e avaliar o conjunto das evidências disponíveis.

<><> Benefícios apareceram apenas em situações muito específicas

Apesar do resultado geral negativo, a revisão identificou alguns estudos que apontaram efeitos anti-inflamatórios em atletas submetidos a exercícios de resistência extremamente intensos.

Entre os exemplos citados estão pesquisas com corredores e triatletas que utilizaram cerca de 20 gramas de creatina por dia durante cinco dias antes de provas extenuantes.

Nesses casos, foram observadas reduções em marcadores como TNF-α, IL-1β e PGE2 após corridas de longa distância e competições de meio Ironman - provas de triatlo de longa distância que correspondem à metade da distância de um Ironman tradicional.

“Nessas situações, há grande demanda energética, estresse metabólico e possível dano às células musculares. A creatina pode melhorar a disponibilidade de energia celular e contribuir para a estabilidade das células musculares, reduzindo secundariamente a liberação de alguns mediadores inflamatórios”, destacou Valenti.

Em um dos estudos analisados, corredores apresentaram redução de 33,7% nos níveis de TNF-α e de 60,9% na PGE2 após uma corrida de 30 quilômetros. Em outro, triatletas registraram diminuição de TNF-α, IL-1β e PGE2 após a competição.

<><> Por que os resultados são diferentes?

Segundo os autores, a explicação mais provável é que a creatina não funcione como um anti-inflamatório sistêmico amplo.

A hipótese levantada pela revisão é que seus possíveis efeitos ocorram principalmente em contextos de:

•        elevado estresse metabólico;

•        grande dano muscular;

•        exercícios prolongados de resistência.

Nessas situações, a suplementação poderia atuar como um agente capaz de proteger células, ajudando a preservar as fibras musculares e reduzindo a intensidade da resposta inflamatória desencadeada pelo esforço extremo.

Já nos quadros de inflamação crônica de baixo grau — frequentemente associados ao envelhecimento e a doenças crônicas — os mecanismos biológicos envolvidos são mais complexos e parecem não responder da mesma forma à suplementação.

<><> Idosos e pacientes com doenças crônicas não tiveram benefício

Os resultados positivos observados em atletas não foram reproduzidos em outras populações.

Estudos realizados com pacientes com osteoartrite não encontraram alterações significativas em marcadores como PCR, IL-1β, IL-6 e TNF-α após semanas de suplementação.

Situação semelhante foi observada entre idosos submetidos ao treinamento de força. Nesses participantes, a creatina não promoveu diferenças relevantes em marcadores inflamatórios, incluindo PCR e IL-6, quando comparada ao placebo.

Também não foram observadas melhorias relacionadas à recuperação muscular ou à redução de danos musculares em alguns protocolos de exercícios resistidos.

Valenti explica que a inflamação presente no envelhecimento, na osteoartrite e em outras doenças crônicas é mais complexa e persistente. “Ela envolve tecido adiposo, alterações metabólicas, estresse oxidativo, sistema imunológico e outros mecanismos que não dependem apenas do dano muscular. Assim, a ação da creatina pode ser insuficiente para modificar significativamente alguns marcadores nessas condições”, afirmou.

<><> Inflamação nem sempre é um problema

Os pesquisadores destacam que a inflamação não deve ser encarada apenas como um processo prejudicial.

Durante a prática de exercícios físicos, por exemplo, ocorre uma resposta inflamatória aguda que participa dos mecanismos de reparo, remodelamento e adaptação muscular.

Por isso, reduzir indiscriminadamente essa resposta nem sempre seria desejável do ponto de vista fisiológico.

A própria IL-6, frequentemente considerada um marcador inflamatório, pode exercer funções benéficas após o exercício, auxiliando na mobilização de energia e na melhora da sensibilidade à insulina.

<><> Creatina continua sendo considerada segura

Embora a revisão tenha questionado o suposto efeito anti-inflamatório, os autores reforçam que os dados analisados confirmam o bom perfil de segurança da creatina.

Nos estudos incluídos, não foram observados eventos adversos clínicos relevantes relacionados à suplementação.

Mesmo em protocolos de alta dose, com cerca de 20 gramas por dia durante cinco dias, atletas não apresentaram aumento de problemas como:

•        cãibras;

•        desidratação;

•        desconforto gastrointestinal;

•        diarreia.

O mesmo padrão foi observado em idosos e em populações clínicas, nas quais a substância foi considerada bem tolerada e sem efeitos metabólicos ou funcionais desfavoráveis.

<><> Limitações do estudo

A principal limitação foi o pequeno número de estudos. Embora oito ensaios tenham sido incluídos na revisão sistemática, somente dois estudos puderam ser combinados em cada uma das principais meta-análises de PCR e IL-6.

Valenti acrescenta que as amostras também eram pequenas. Um estudo com triatletas, por exemplo, contou com apenas 11 participantes, e o estudo com pacientes com osteoartrite incluiu 18 pessoas. Amostras reduzidas diminuem o poder estatístico e aumentam a possibilidade de um benefício verdadeiro não ser detectado, segundo ele.

Também existiram diferenças importantes entre os estudos quanto à idade, ao estado de saúde, à modalidade de exercício, à dose de creatina, à duração da suplementação e ao momento da coleta de sangue. Além disso, nem todos avaliaram os mesmos marcadores inflamatórios.

O pesquisador afirma ainda que foram identificadas preocupações relacionadas à perda de participantes, dados ausentes e possível seleção dos resultados apresentados. Por essas razões, a certeza das evidências foi considerada baixa ou muito baixa, e as conclusões devem ser interpretadas com cautela.

<><> O que muda para quem usa creatina?

Na prática, os pesquisadores afirmam que os resultados não alteram as recomendações atuais para o uso do suplemento.

A creatina continua sendo reconhecida por seus efeitos ergogênicos, especialmente relacionados ao aumento da força muscular, da capacidade de realizar exercícios de alta intensidade e da massa livre de gordura.

A principal conclusão da revisão é que, com base nas evidências disponíveis atualmente, ela não deve ser considerada um anti-inflamatório sistêmico.

Para os autores, ainda são necessários estudos maiores, com mais participantes e protocolos padronizados, para esclarecer se existem efeitos anti-inflamatórios relevantes em contextos específicos.

Valenti acrescenta que pessoas com doenças inflamatórias ou alterações persistentes nos exames devem procurar avaliação profissional e não substituir tratamentos, alimentação adequada, prática de atividade física ou acompanhamento médico pela suplementação.

Em idosos e pacientes com doenças crônicas, a creatina pode continuar sendo útil para força, massa muscular e funcionalidade, especialmente quando associada ao treinamento de força. Mas não há evidência suficiente para afirmar que essas pessoas terão redução relevante da inflamação sistêmica, segundo Valenti.

“A grande importância dessa revisão é mostrar que ainda há poucos ensaios clínicos sobre o tema e provocar a comunidade científica a avançar nessa área”, conclui Valenti.

 

Fonte: g1

 


 

Gustavo Tapioca: A bomba do fim do mundo explode no colo do Brasil

Quando uma comentarista da GloboNews chama uma proposta de "pauta do fim do mundo", um editorial de O Globo fala em irresponsabilidade fiscal e um ministro do Supremo alerta para despesas sem fonte de custeio, vale a pena prestar atenção.

Foi exatamente isso que aconteceu após a aprovação, no Senado, de um conjunto de medidas lideradas por Davi Alcolumbre e que, segundo estimativas amplamente divulgadas, podem produzir impacto superior a R$ 200 bilhões nas contas públicas.

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A controvérsia já ultrapassou os limites da disputa entre governo e oposição e transformou-se numa discussão sobre poder, responsabilidade fiscal e governabilidade.

<><> A conta não é de Alcolumbre

O principal projeto aprovado pelo Senado permite utilizar receitas do pré-sal para financiar descontos e renegociações de dívidas do setor rural. Seu impacto pode alcançar R$ 140 bilhões ao longo da próxima década.

Outras propostas ampliam pisos salariais e criam despesas permanentes sem fontes claras de financiamento. Somadas, podem representar mais de R$ 200 bilhões em novos compromissos para os cofres públicos.

O problema é simples.

Quem aprova essas medidas não paga a conta.

Quem paga é o país.

Lula encurralado

A força política da manobra está justamente aí.

Alcolumbre coloca Lula diante de uma escolha difícil.

Se sanciona as medidas, assume o risco de ampliar o desequilíbrio fiscal.

Se veta, compra uma guerra política com setores influentes do agronegócio, corporações organizadas e a maioria parlamentar que aprovou os projetos.

O Senado aprova.

O governo assume o desgaste.

É por isso que a chamada pauta do fim do mundo não ameaça apenas as contas públicas.

Ela afeta diretamente a governabilidade.

O homem que virou dono da bola

Uma análise publicada pela revista Veja descreveu Alcolumbre como um verdadeiro "dono da bola" do sistema político brasileiro.

A metáfora ajuda a entender o momento.

No futebol de rua, o dono da bola não precisa ser o melhor jogador. Basta ter o poder de interromper a partida, impor condições ou decidir quem continua jogando.

Em Brasília, a lógica parece semelhante.

Alcolumbre controla a pauta do Senado, influencia a agenda do Congresso e tornou-se peça central das negociações mais importantes da República.

A pauta-bomba, nesse contexto, deixa de ser apenas uma decisão econômica.

Transforma-se numa demonstração de poder.

<><. A outra bomba

Enquanto conduzia a ofensiva das pautas-bomba no Senado, Davi Alcolumbre passou a enfrentar uma crise própria.

Reportagem da revista Veja revelou que Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, teria afirmado em proposta de delação que repassou milhões de dólares ao presidente do Senado por meio de uma conta no exterior.

Alcolumbre negou integralmente a acusação, anunciou medidas judiciais e exigiu a apresentação de provas.

Até o momento, não existem provas públicas conhecidas que confirmem a denúncia.

Mas o episódio produziu um efeito político imediato.

Pela primeira vez em muito tempo, o homem apontado por analistas como o "dono da bola" passou a atuar também na defensiva.

Coincidência ou não, a denúncia surgiu exatamente quando Alcolumbre acumulava vitórias no Congresso e impunha derrotas sucessivas ao governo.

A pergunta que começou a circular em Brasília não é jurídica.

É política.

O presidente do Senado está demonstrando força ou reagindo à percepção de que seu poder começou a ser desafiado?

<><> O país como refém

A crítica mais contundente veio do jurista Roberto Tardelli.

Ao comentar a ofensiva legislativa liderada por Alcolumbre, Tardelli afirmou que o presidente do Senado estaria tentando colocar "o país inteiro como refém".

A frase é dura.

Mas ajuda a explicar por que a controvérsia ultrapassou os limites do debate fiscal.

A questão já não é apenas quanto custarão as propostas aprovadas pelo Senado.

A questão é saber se instrumentos legítimos do processo legislativo estão sendo utilizados para enfrentar problemas nacionais ou para ampliar o poder de pressão de grupos políticos em disputa com o governo.

<><> A reação do governo

Diante do avanço das pautas-bomba, integrantes da equipe econômica passaram a defender uma reação institucional baseada nas próprias regras de responsabilidade fiscal.

Segundo declarações reproduzidas pela Agência Brasil, o governo considera recorrer ao Supremo Tribunal Federal caso o Congresso aprove despesas sem indicar fontes compatíveis de financiamento.

Na mesma direção, Gilmar Mendes lembrou que o Legislativo não pode criar gastos sem apontar como serão financiados.

Caso a disputa chegue ao STF, a chamada pauta do fim do mundo ganhará uma nova dimensão.

Deixará de ser apenas uma crise fiscal.

Passará a ser também uma crise entre Poderes.

<><> A sombra de 2026

Seria ingenuidade imaginar que a disputa em torno das pautas-bomba ocorre num vazio político.

O Brasil já vive o ambiente da campanha presidencial de 2026. As pesquisas mais recentes continuam apontando Lula na liderança, enquanto Flávio Bolsonaro tenta consolidar sua posição como principal herdeiro eleitoral do bolsonarismo após a condenação e prisão de Jair Bolsonaro.

Nesse cenário, cada derrota imposta ao governo ganha dimensão eleitoral. Cada crise fiscal, cada conflito institucional e cada dificuldade de governabilidade passa a ser interpretada também à luz da sucessão presidencial.

Isso significa que a pauta do fim do mundo foi concebida para interferir na eleição?

Não há elementos para afirmar isso.

Mas também é difícil ignorar que medidas capazes de atingir a economia, as contas públicas e a capacidade de governar acabam produzindo consequências políticas.

Talvez seja cedo para saber quem vencerá a disputa de 2026.

Mas já é possível identificar quem pagará a conta se a lógica da destruição prevalecer sobre a lógica da responsabilidade.

Não será Lula.

Não será Alcolumbre.

Não será Flávio Bolsonaro.

Será o Brasil.

        Compromisso é não deixar que pautas-bomba prejudiquem o país, diz Durigan

O governo federal intensificou o alerta sobre os impactos fiscais de propostas em tramitação no Congresso Nacional que podem ampliar gastos públicos ou reduzir receitas da União. Em entrevista concedida Alô Alô Brasil, da Rádio Nacional, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que a prioridade do Executivo é impedir que pressões eleitorais e demandas setoriais comprometam a estabilidade econômica do país.

Na entrevista segundo a Agência Brasil, Durigan destacou que o debate envolve as chamadas "pautas-bomba", expressão usada para classificar projetos legislativos capazes de gerar forte pressão sobre o orçamento público por meio da criação de despesas elevadas ou da redução da arrecadação sem compensação financeira adequada.

"O compromisso do governo federal atualmente é não deixar que o espírito eleitoral e as demandas que aparecem dos diversos setores tomem conta da agenda econômica nacional e prejudiquem o país", afirmou o ministro.

<><> Governo calcula impacto bilionário

Na quinta-feira (11), o governo divulgou um levantamento técnico que estima em R$ 111 bilhões por ano o impacto fiscal de nove propostas atualmente em análise no Congresso Nacional.

Entre elas está o projeto de renegociação de dívidas com equalização de taxas de juros pela União, cujo custo pode alcançar R$ 140 bilhões ao longo de 13 anos. Também figuram na lista a ampliação do teto do Simples Nacional, com renúncia fiscal estimada em R$ 50 bilhões anuais, e a PEC que amplia o Fundo de Participação dos Municípios (FPM), reduzindo as receitas líquidas da União em cerca de R$ 10 bilhões por ano.

O levantamento inclui ainda propostas que ampliam a imunidade tributária de templos religiosos, criam benefícios para entidades sem fins lucrativos, vinculam mais recursos ao Sistema Único de Assistência Social (SUAS), instituem um novo Programa Especial de Regularização Tributária (Pert) e concedem benefícios previdenciários a categorias específicas.

<><> Durigan cobra responsabilidade fiscal

Durante a entrevista, o ministro defendeu que os Poderes atuem de forma coordenada para preservar o equilíbrio das contas públicas.

"É claro que entendemos que senadores e deputados querem dar resposta às suas bases nesse momento tão importante da democracia, mas as coisas têm que caber nas forças do país, dentro do orçamento. Nós todos no país, seja governo, Congresso Nacional, Judiciário, temos que ter responsabilidade fiscal com as futuras gerações e o futuro do país", declarou.

Ao comentar o impacto potencial das medidas, Durigan ressaltou que os valores superam amplamente os investimentos realizados pelo governo federal.

"É um impacto de R$ 111 bilhões em um ano. Se somar todo o investimento que o governo federal faz, nós demoramos mais de dois anos para conseguir investir R$ 11 bilhões. Então não dá para contratarmos, sem fonte de recursos compatível com as leis fiscais, um volume desse de despesa ou renúncia de receita nesse momento", afirmou.

<><> Diálogo com o Congresso

O ministro disse que o governo mantém diálogo constante com as lideranças do Legislativo para tentar evitar o avanço das propostas. Segundo ele, conversas vêm sendo realizadas com os presidentes das duas Casas, incluindo o presidente do Senado, Davi Alcolumbre.

"Nós não estamos fazendo nenhuma manobra, botando fricção onde não precisa. Não tenho nenhum interesse em proteger nenhum setor específico. Meu interesse é que o país cresça como um todo. E é por isso que sempre levo os argumentos que pego com a equipe e com o mercado, para apontar os riscos e convencer o Congresso Nacional", disse.

<><> Cenário internacional amplia preocupações

Durigan também associou a necessidade de cautela fiscal ao ambiente de instabilidade internacional. Segundo ele, fatores como a alta dos preços do petróleo, a volatilidade dos mercados financeiros e as preocupações dos bancos centrais com a inflação exigem atenção redobrada do Brasil.

"E nós, no Brasil, temos que focar nossa energia no que importa para o país. Vamos escolher as agendas, votar temas importantes para o país de maneira unificada. Quando começamos a apresentar outros projetos para atender bandeiras setoriais em prejuízo da população como um todo, perdemos força como país e nossa economia pode ficar enfraquecida", afirmou.

        Após Senado aprovar pautas-bomba, Marcelo Uchôa diz que 'Alcolumbre quer minar a reeleição de Lula'

O jurista Marcelo Uchôa afirmou que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), atua para prejudicar a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) após a aprovação de pautas-bomba com forte impacto fiscal. O estudioso fez o alerta na rede social X após o Senado aprovar, na quarta-feira (10), três propostas que podem gerar custo de até R$ 263,7 bilhões aos cofres públicos nos próximos anos.

As medidas aprovadas envolvem o refinanciamento de dívidas rurais, a criação de um novo piso salarial para médicos e cirurgiões-dentistas e a aposentadoria especial para agentes comunitários de saúde e agentes de combate às endemias.

“Eis a novela: Alcolumbre faturou 30 milhões de dólares (R$ 155 milhões) do Vorcaro numa conta secreta no exterior, a PF tá investigando e, por isso, ele tá irado, aprovando pautas-bomba pra minar a reeleição do presidente Lula. E dane-se o Brasil! Ninguém viveu feliz para sempre”, escreveu Uchôa.

<><> Impacto fiscal das propostas

Na quinta-feira (11), o Ministério da Fazenda divulgou uma nota técnica apresentando estimativas sobre o impacto fiscal de nove propostas que tramitam atualmente no Congresso Nacional. De acordo com os cálculos dos órgãos técnicos do Executivo, o custo potencial das medidas pode alcançar R$ 111 bilhões por ano.

Entre os projetos apontados pelo governo estão iniciativas que ampliam gastos públicos ou reduzem receitas federais. Um dos casos envolve a renegociação de dívidas com equalização de taxas de juros pela União, cujo impacto pode chegar a R$ 140 bilhões ao longo de 13 anos.

Outras propostas destacadas incluem a ampliação do teto do Simples Nacional, com renúncia estimada de R$ 50 bilhões anuais; uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que aumenta os repasses do Fundo de Participação dos Municípios, reduzindo as receitas líquidas da União em cerca de R$ 10 bilhões por ano; e a ampliação da imunidade tributária para templos religiosos, com custo mínimo projetado em R$ 10 bilhões anuais.

Também constam da lista projetos voltados para entidades sem fins lucrativos, com renúncia estimada de R$ 1 bilhão ao ano; a vinculação de recursos ao Sistema Único de Assistência Social (SUAS), que pode gerar despesas adicionais médias de R$ 9 bilhões anuais; e um novo Programa Especial de Regularização Tributária (Pert), cujo custo médio foi calculado em R$ 8,8 bilhões por ano.

O governo ainda aponta impacto de R$ 8,4 bilhões anuais em proposta relacionada a médicos e cirurgiões-dentistas, sem considerar despesas de estados, municípios e da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh). Já a criação de aposentadoria diferenciada para agentes comunitários de saúde e agentes de combate às endemias poderia ampliar em aproximadamente R$ 3 bilhões por ano a insuficiência financeira dos regimes previdenciários.

 

Fonte: Brasil 247


A esquerda precisa de um pensamento utópico

Em nenhum sistema de arranjos sociais fundado na competição individual pela riqueza individual as mulheres podem desfrutar da mesma felicidade que os homens.” Assim, os socialistas irlandeses William Thompson e Anna Wheeler vincularam a opressão de gênero à opressão econômica em sua extensa réplica feminista a James Mill, publicada em 1825. Tais argumentos posteriormente se tornariam fundamentais, até mesmo óbvios, para os marxistas.

No entanto, o próprio Karl Marx criticou o movimento do qual Thompson e Wheeler emergiram. Eles eram seguidores de Robert Owen, um dos “socialistas utópicos” do século XIX que Marx e Friedrich Engels criticaram no Manifesto Comunista. De acordo com o Manifesto, figuras como Owen produziam “descrições fantásticas da sociedade futura” que careciam de fundamento na luta de classes real.

Como Barbara Taylor demonstrou em sua obra clássica Eve and the new Jerusalem [Eva e a Nova Jerusalém], a avaliação de Marx e Engels foi injusta para com os owenistas, cujas reflexões sobre questões vitais como a emancipação da mulher os colocava surpreendentemente próximos das visões feministas mais convincentes da atualidade, em comparação com os contemporâneos progressistas dos owenistas e até mesmo com movimentos socialistas posteriores. De modo mais geral, o argumento da superioridade do socialismo “científico” sobre o socialismo “utópico”, para usar a terminologia de Engels, baseia-se em premissas questionáveis ​​e, em última análise, obscurece o valor do pensamento utópico para um projeto de transformação social.

<><> O que há de errado com a utopia?

Para compreender o antiutopismo, é útil identificar dois tipos de argumentos. David Leopold, um estudioso de Marx e da utopia, oferece uma distinção útil entre objeções fundacionais e não fundacionais. As objeções fundacionais rejeitam todas as descrições detalhadas de sociedades ideais, porém inexistentes (para usar a definição de utopia de Leopold), enquanto as objeções não fundacionais se opõem a características específicas de exemplos particulares do pensamento utópico. Como Leopold demonstra, Marx e Engels criticam o socialismo utópico sob ambas as perspectivas.

“Talvez o problema mais evidente do utopismo seja a sua teoria da mudança.”

Talvez o problema mais evidente do utopismo seja a sua teoria da mudança. Como argumentaram Marx e Engels, a estratégia central do owenismo, que envolvia operar através da força do exemplo e da persuasão moral, exigia a conquista daqueles que já detinham o poder. A menos que o movimento tivesse uma teoria sobre como a maioria oprimida poderia tomar o poder, ele precisava persuadir uma massa crítica daqueles que detinham os recursos materiais sob o capitalismo para construir as instituições sociais que propunha.

Mas os colegas industriais de Owen tinham poucos incentivos para construir uma utopia, já que o sistema vigente lhes proporcionava um nível de riqueza e status que uma transformação verdadeiramente igualitária lhes negaria, enquanto os trabalhadores tinham mais a ganhar. Uma teoria que conceda um papel mais central aos interesses materiais e à luta de classes é, portanto, preferível, embora a persuasão moral ainda deva desempenhar um papel importante (tanto na formação de “traidores de classe” como Marx e Engels, quanto no convencimento dos trabalhadores).

Na terminologia de Leopold, essa objeção ao pensamento utópico é convincente, mas não fundamental. Nada no utopismo em si exige uma teoria da mudança que se concentre na persuasão moral enquanto ignora a luta de classes. Para percebermos o valor de elaborar um plano socialista detalhado, não precisamos acreditar que a mera racionalidade desse plano levará à sua ampla implementação como sistema social.

Leopold identifica três críticas fundamentais que Marx e Engels dirigem ao utopismo em si. A “afirmação normativa” é que o utopismo é antidemocrático: as pessoas na sociedade futura devem decidir coletivamente como viverão, e não devemos presumir fazer isso por elas antecipadamente. A “afirmação epistemológica” é que a utopia é incognoscível: simplesmente não podemos formar uma imagem precisa da sociedade ideal a partir de nossa perspectiva atual (e somente uma imagem totalmente precisa seria útil). A “afirmação empírica” é que a construção utópica é desnecessária: a análise materialista histórica demonstra a inevitabilidade de uma revolução que substituirá o capitalismo pelo comunismo.

Tais objeções tiveram uma longa repercussão. Embora poucos ainda acreditem que uma revolução bem-sucedida seja inevitável, tendo visto o capitalismo se adaptar para sobreviver a muitas crises, variações das objeções epistemológicas e empíricas continuam a assombrar discussões políticas e teóricas. Mesmo as defesas do pensamento utópico tendem a exaltar os méritos de visões fragmentárias e vagas da sociedade ideal. De fato, alguns autores afirmam essa fragmentação e ambiguidade como características de um utopismo distintamente feminista.

Concordo com Leopold que as objeções fundamentais falham. Contra o argumento epistemológico, Leopold defende de forma convincente que mesmo metas imperfeitas servem como princípios orientadores úteis. É através da elaboração de planos e da tentativa de executá-los que exercemos nossa capacidade de ação construtiva, tanto coletiva quanto individualmente. Embora nunca possamos conhecer todas as circunstâncias relevantes para aperfeiçoar nossos planos, os exercícios de definição de metas, mesmo que falíveis, são valiosos.

Quanto à preocupação normativa, certamente as pessoas cuja autonomia um teórico queira proteger podem decidir por si mesmas se desejam endossar as visões desse teórico sobre a sociedade ideal e podem modificá-las conforme necessário. De fato, autores que hesitam em especificar os resultados desejados por medo de inviabilizar debates ou possibilidades futuras correm o risco de incorrer em um tipo diferente de elitismo antidemocrático: exageram sua própria autoridade intelectual. Leopold aponta corretamente que a “mera existência” de planos para uma sociedade futura não limita a autonomia dos indivíduos que se propõem a transformar a sociedade.

É claro que a força antidemocrática que se esconde por trás dos projetos utópicos pode, por vezes, ser de natureza mais material. O próprio Robert Owen exerceu tal força, levando ao fracasso da comunidade que seus seguidores estabeleceram em Queenwood. Quando a comunidade, composta em grande parte por trabalhadores e governada coletivamente, enfrentava dificuldades financeiras, Owen e um grupo de reformadores burgueses — conhecido como a “Sociedade de Colonização Doméstica” — exigiram o controle de sua governança em troca de financiamento.

Como relata Barbara Taylor, Owen gastou “milhares de libras construindo passarelas rebaixadas, calçadões e a famosa cozinha, esgotando assim todos os fundos centrais do movimento”. A comunidade acabou se amotinando e recuperou o controle democrático sobre seus assuntos. No fim, Queenwood não conseguiu reerguer suas finanças e se dissolveu em 1845. O movimento owenista em geral logo seguiu o mesmo caminho.

Mas este exemplo levanta uma objeção não fundamental. A experiência de Queenwood deveria nos alertar não contra a utopia em si, mas contra a dominação das visões utópicas por fundadores individuais. Não foi nenhum fato sobre o pensamento utópico propriamente dito, mas sim a tentativa bastante banal de Owen de tomar o poder que colocou seu projeto em conflito com a democracia.

<><> Recuperando o radicalismo owenista

Embora o owenismo não fosse, portanto, um modelo de perfeição, o movimento ainda merece mais crédito do que Marx e Engels lhe atribuíram. Enquanto os fundadores do marxismo respeitavam a crítica social apresentada pela primeira geração de socialistas utópicos, concordando com sua oposição às estruturas familiares patriarcais, ao sistema salarial e à indústria voltada para o lucro privado, eles rejeitaram as propostas construtivas dos utópicos para substituir essas instituições, considerando-as fantasiosas. À medida que a história progredia e as possibilidades da luta de classes se desdobravam, Marx e Engels concluíram que o socialismo utópico perdeu seu caráter radical:

Embora os idealizadores desses sistemas fossem, em muitos aspectos, revolucionários, seus discípulos, em todos os casos, formaram meras seitas reacionárias. Eles se apegam às ideias originais de seus mestres, em oposição ao desenvolvimento histórico progressivo do proletariado.

Pode haver alguma verdade nessa observação, mas certamente não “em todos os casos”. Como Taylor demonstra, os seguidores de Owen, predominantemente da classe trabalhadora, iam além de suas próprias ideias, tanto em termos de radicalismo quanto na adoção de estratégias mais próximas daquelas defendidas por Marx, como evidenciado pela militância operária owenista nas décadas de 1820 e 1830.

Notavelmente, o feminismo owenista era distintamente radical. Owen e seus seguidores defendiam a igualdade entre os sexos (embora, às vezes, mais na teoria do que na prática). Eles condenavam as tendências antissociais fomentadas em um sistema de famílias atomizadas, cada uma buscando seu próprio benefício, e propunham a criação comunitária dos filhos como forma de educar membros altruístas da sociedade e com espírito comunitário. Embora as propostas de Owen inicialmente não tenham questionado o trabalho feminino como categoria, Thompson e Wheeler introduziram no pensamento owenista a ideia de que a divisão de trabalho por gênero impedia a igualdade das mulheres.

O owenismo forneceu uma estrutura e uma plataforma para o envolvimento político das mulheres da classe trabalhadora. Embora os homens dominassem os escalões superiores da organização owenista, as mulheres participavam amplamente. Taylor descreve como elas se engajavam em ativismo trabalhista militante, proferiam palestras populares e prenunciavam relações igualitárias ao jantar em mesas mistas, uma prática que gerou controvérsia diante das normas de gênero da era vitoriana.

Juntamente com a propriedade privada e a religião, Owen condenou o casamento, propondo, em vez disso, uniões afetivas livres. Entre seus seguidores, surgiram divergências sobre a liberdade sexual, e debates acirrados se intensificaram sobre se (na linguagem do movimento) abandonar o casamento já era apropriado no “Velho Mundo Imoral”, ou apenas no “Novo Mundo Moral”. Como observa Taylor:

Sob a pressão dessa dissidência, a “linha” owenista sobre o casamento, que originalmente era representada apenas nas palestras de Owen, começou a se dissolver em uma gama de posições, oscilando entre várias reformulações de sua filosofia libertária e um reconhecimento tardio da vulnerabilidade das mulheres, particularmente das solteiras.

Os seguidores de Owen representavam, portanto, um movimento da classe trabalhadora com consciência feminista. Através de debates acalorados e dissidência, eles adaptaram suas ideias às suas próprias realidades e descontentamentos. Embora Owen defendesse a igualdade, inclusive entre os sexos, ele não enfatizou a capacidade de ação da classe trabalhadora na luta contra a própria opressão, algo que foi colocado em prática pela atividade política das mulheres da classe trabalhadora no movimento.

Aqueles entre nós que se baseiam em ideias marxistas para a crítica social podem, ainda assim, resistir à tentação de recorrer a Marx quando se trata de utopia. Podemos seguir Marx e Engels ao rejeitar as ideias de Owen sobre mudança e liderança, e podemos condenar as próprias tendências antidemocráticas de Owen, sem deixar de reivindicar os aspectos positivos do pensamento utópico — incluindo os pontos em que os owenistas acertaram.

<><> Qual a utilidade da utopia?

Se reconhecermos que Marx e Engels foram injustos com os owenistas em particular e com os utópicos em geral, ainda assim nos deparamos com a questão de o que, afinal, o pensamento utópico pode nos oferecer hoje.

Primeiro, como Mark Fisher apontou, sucumbir a um sentimento de desgraça iminente reforça o status quo. Uma visão detalhada de um futuro promissor pode ter efeitos desnaturalizantes, inspiradores e mobilizadores, ajudando a abalar a sensação de que as coisas só podem ser como são (ou piores) e a motivar as pessoas à ação coletiva. Segundo, a direita já está fazendo um bom trabalho ao esboçar alternativas; a esquerda precisa entrar no páreo.

Uma terceira resposta é que precisamos de utopias para o feminismo. Alguns chegam a afirmar que o próprio feminismo é necessariamente utópico. Em seu artigo de 1982 sobre ficção utópica feminista, Anne Mellor, por exemplo, chamou a teoria feminista de “inerentemente utópica” porque a “igualdade entre os sexos” “nunca existiu no passado histórico”. Se o objetivo do feminismo não foi alcançado nem mesmo segundo essa definição bastante restrita da década de 1980, então os compromissos com a emancipação da opressão com base na sexualidade, na não conformidade de gênero e na transexualidade tornam o feminismo ainda mais utópico hoje.

Essa é, ao mesmo tempo, uma maneira certa e errada de encarar a questão. É certamente verdade que os objetivos legítimos do feminismo não foram alcançados em lugar nenhum — nem nas comunas owenistas que professavam igualdade, mas ainda tendiam a atribuir a limpeza, a cozinha e os cuidados com os filhos às mulheres, nem nos antigos matriarcados cujos mitos as feministas radicais da década de 1970 buscaram reescrever na história. Inquestionavelmente, o feminismo precisa de uma utopia porque precisa olhar para o futuro em busca de respostas.

Mas isso não é verdade apenas em um sentido conceitual, em que tudo o que é feminista já é utópico. Em vez disso, o feminismo precisa da utopia não como uma vaga orientação para o futuro, mas como um método reflexivo: para formular objetivos propriamente feministas, não podemos olhar apenas para o passado ou para as contradições do presente — temos que elaborar qual sociedade futura queremos e o que a tornaria plausível e desejável.

O compromisso compartilhado por marxistas e owenistas de conectar as questões feministas com uma ampla transformação social é fundamental. Qualquer feminista socialista convicta sabe que o verdadeiro feminismo é incompatível com o capitalismo. Uma das razões é que a libertação das mulheres envolve a socialização do trabalho reprodutivo de maneiras que não podem ser feitas sob o capitalismo (ou pelo menos não de uma forma em que a cura não seja pior que a doença).

Comparar o pensamento utópico com uma compreensão marxista unidimensional da revolução ajuda a esclarecer sua utilidade peculiar. Não temos bons motivos para acreditar que a transformação de um elemento da sociedade — por meio da tomada dos meios de produção pelo proletariado, por exemplo — levará inevitavelmente, e sem a necessidade de planejamento prévio, à transformação desejável de todos os outros elementos.

O pensamento utópico pode nos ajudar a imaginar uma sociedade a ser almejada, considerando quais elementos desejáveis ​​podem se reforçar mutuamente, quais instituições são pré-condições para a existência ou estabilidade de outras e como podemos tornar a coerção obsoleta na maior medida possível. É especialmente valioso, portanto, conceber em detalhes uma sociedade ideal, desde suas instituições econômicas, políticas e reprodutivas até a textura das experiências psicológicas e dos relacionamentos pessoais que ela fomenta.

A ambivalência em relação ao casamento entre as mulheres owenistas e seu público feminino, identificada por Taylor, pode parecer um argumento contrário à utopia, visto que planos rígidos impedem tal contestação. Mas existe uma maneira diferente e melhor de compreender o aspecto construtivo da utopia. O utopismo, como modo de pensamento político, permite que teóricos e movimentos políticos radicais considerem e contestem o conjunto de instituições e práticas que gostariam de construir em substituição àquelas a serem abolidas, e que considerem cada uma delas no contexto de um todo social.

Por exemplo, embora o abandono do casamento no século XIX possa ter prejudicado as mulheres ao reduzir a responsabilidade material dos homens pelos filhos, um mundo sem o contrato matrimonial seria, ainda assim, melhor, abrindo possibilidades não apenas para as mulheres, mas também para as pessoas LGBTQIA+. Uma condição essencial para esse mundo melhor é a socialização do cuidado infantil e a abolição da propriedade privada, que Owen e muitos de seus seguidores também defendiam, uma vez que essas mudanças tornariam desnecessária a atribuição de responsabilidade financeira aos pais.

Ainda assim, Marx não está certo ao afirmar que um objetivo que parece radical hoje pode se tornar reacionário em alguns anos ou décadas? E como saber qual utopia devemos seguir? Em um artigo recente, o teórico político Titus Stahl segue Leopold ao rejeitar as objeções fundamentais ao projeto utópico. Mas Stahl adota uma ressalva mais branda: como os próprios conceitos que usamos para entender o mundo e formular nossos objetivos foram formados dentro das estruturas sociais injustas em que vivemos, não podemos usá-los para conceber a sociedade ideal agora.

Contudo, as visões utópicas não precisam surgir totalmente formadas da mente de uma única pessoa. Como demonstra o movimento owenista, mesmo com um líder que tenta consolidar seus próprios projetos, a visão utópica central do movimento pode, ainda assim, gerar diversidade e divergências sem perder seu caráter utópico. A revisão coletiva dos objetivos utópicos por meio da contestação democrática pode resolver o impasse.

Stahl argumenta que a utopia não deve ser um ponto final estático, mas sim um objetivo a ser continuamente debatido e repensado à medida que os experimentos produzem resultados e as circunstâncias mudam. Ele também defende que podemos avaliar propostas utópicas com base no sucesso com que elas resolveriam os problemas que afligem a sociedade atual. Inventar e avaliar visões utópicas dessa maneira não exige um salto impossível para além de nossa perspectiva histórica. É claro que a prática é o teste final, mas podemos usar a teoria para fazer previsões e escolher entre objetivos utópicos com base nessas previsões.

<><> Futuros mais brilhantes

Olivro de Haylor oferece um epílogo um tanto melancólico para ilustrar o potencial radical perdido do feminismo owenista. Ela traça um paralelo com o cartismo, um movimento contemporâneo que buscava atender às preocupações dos trabalhadores por meio da expansão da representação parlamentar. Entre os cartistas, a visão de que o lugar apropriado da mulher era no lar era comum, e as reivindicações pelo sufrágio feminino permaneceram marginais. A base de apoio popular do cartismo se dissipou na década de 1850, pouco depois do declínio do owenismo.

A organização trabalhista britânica durante o restante do século XIX assumiu uma forma dominada por homens, com sua abordagem conservadora à “questão feminina” chegando, por vezes, ao nível de um antifeminismo convicto. Como escreve Taylor:

O apelo owenista por uma ofensiva multifacetada contra todas as formas de hierarquia social, incluindo a hierarquia sexual, desapareceu — para ser substituído por uma insistência dogmática na primazia das questões de classe, uma exigência de unidade sexual diante de um inimigo de classe comum e uma vaga promessa de melhoria do status das mulheres “após a revolução”.

Entretanto, uma perspectiva reformista ganhou terreno no cenário da organização feminina após a queda do cartismo e do owenismo, que enfraqueceu a conexão entre a transformação socialista e os direitos das mulheres, e à medida que mais mulheres da classe média, preocupadas com a respeitabilidade, aderiram ao movimento. Nas décadas de 1850 e 1860, grupos feministas emergentes abraçaram o apelo de John Stuart Mill para remover os obstáculos à entrada das mulheres na livre competição em igualdade de condições com os homens. Isso contrastava com o objetivo owenista de abolir os sistemas sociais orientados para tal competição.

Opções políticas que lembram essas alternativas decepcionantes ainda seguem vivas e atuantes hoje em dia. Persiste o perigo de marginalizar formas de opressão ao identificar uma causa fundamental para todos os males sociais, cuja superação inevitavelmente resolverá os demais, e abundam reivindicações modestas por melhorias feministas que se desvinculam de um projeto mais amplo de transformação social. O pensamento utópico, por outro lado, pode nos ajudar a revitalizar a conexão entre feminismo e anticapitalismo.

A direita percebeu isso. Os conservadores de hoje não apenas resistem à mudança. O Projeto 2025, por exemplo, é em muitos aspectos um exemplo clássico de pensamento utópico, com uma visão ética que fundamenta suas propostas políticas específicas e abrange todos os aspectos da sociedade, da família ao comércio, do gênero aos impostos. Esse mundo imaginado é um mundo que eles querem criar, não preservar, mesmo que esteja envolto em ideologia tradicionalista.

A esquerda precisa de suas próprias contrapropostas: relatos abrangentes de uma sociedade transformada que nos ajudem a decidir quais passos devemos dar agora e nos mantenham motivados a longo prazo. Não estou sugerindo que todos os esquerdistas devam se unir em torno de uma utopia, mas sim que o debate e a experimentação em torno de objetivos ambiciosos de transformação social são um projeto político urgente, e não uma mera questão acadêmica. Contrariando Marx e Engels, o potencial radical da utopia ainda não foi esgotado.

 

Fonte: Por Polina Whitehouse  Tradução Pedro Silva, em Jacobin Brasil