Vladimir Safatle: Construindo polêmicas
A vantagem de entrar em uma polêmica quando ela
parece estar acabando é poder avaliar seu saldo. E no mais das vezes, quando
ela é uma polêmica intelectual feita a partir do ritmo, das frases de impacto e
das imagens próprias à mídia, seu saldo é muito próximo do zero. Talvez seja
esse o caso da última versão nacional do já centenário debate sobre a
cientificidade da psicanálise, impulsionada por uma pesquisadora da área de
biológicas, a sra. Natalia Pasternak, e seu marido jornalista, o sr. Carlos
Orsi.
E é bom lembrar do caráter centenário desse debate,
porque teríamos o direito de esperar que sua versão nacional pudesse trazer
alguma novidade, algum argumento astuto, alguma pesquisa nova a uma discussão
sobre o destino de uma prática clínica que, para o bem ou para o mal, moldou a
sensibilidade ocidental a respeito de questões tão centrais como: família,
sexualidade, corporeidade, memória, desejos e seus conflitos. Pois é
materialmente impossível descrever o século XX, suas aspirações, tensões e
transformações, sem entendermos como nossa cultura é, em larga medida, uma
“cultura psicanalítica”. Isso significa: uma cultura forjada pela circulação da
psicanálise em consultórios, hospitais, escolas, filmes, literatura, mas também
em periferias, lutas sociais, entre outros.
Entender tal força de influência de uma prática
clínica exige um trabalho de sociologia das ideias que muito poderia
acrescentar ao debate. Trabalho que poderia trazer elementos para responder, de
forma mais objetiva, a questões como: por que a psicanálise se inseriu de forma
tão orgânica na história das sociedades ocidentais? Foi porque Freud era um
“ótimo publicitário”, um “astuto prestidigitador”? Ou foi porque a psicanálise
efetivamente diz algo de relevante a respeito da estrutura de nossa subjetividade
e cultura?
·
Olavo tinha razão
Antes de abordar esse ponto, seria o caso de fazer
uma contextualização histórica. Livros contra a psicanálise contam-se aos
montes há décadas. Em 2011, por exemplo, o Brasil recebeu a tradução de um
deles, o então famoso Livro negro da psicanálise. Quem o reler
encontrará praticamente todos os argumentos e críticas que animam o Que
bobagem! Pseudociências e outros absurdos que não merecem ser levados a sério.
O primeiro deve, inclusive, ser mais barato, pois o seu destino foram
principalmente os sebos de ocasião. Pois quando o Livro negro foi
traduzido, sua recepção foi morna, como quem ouve a mesma piada contada várias
vezes.
O que aconteceu então com o Brasil para que a mesma
discussão aparecesse agora de forma mais explosiva, sem que nenhum elemento
novo ou dado relevante fosse acrescentado ao debate? É possível creditar parte
do fenômeno à desorientação produzida pela pandemia. Diante de um governo que
praticou uma sequência sistemática de crimes contra a saúde pública, não
faltaram aqueles que se viram no meio de uma verdadeira reedição da guerra das
luzes contra a superstição, da ciência contra o obscurantismo, da civilização
contra a barbárie. Pesquisadores em ciências biológicas e exatas foram elevados
à condição de guardiães da razão aos quais a política deveria se submeter, se
não quisesse abraçar as vias do populismo ou de algum “irracionalismo” em
política.
Só que agora talvez seja o momento de dizer que,
nesse caso, o medo fez o pensamento crítico regredir duas casas. Primeiro,
porque nunca estivemos em um combate da ciência, das luzes, da civilização, da
razão, da bondade etc. contra as forças da regressão e do atraso. Seria bom
começar por lembrar o quanto há de sombra nas luzes, o quanto há de barbárie na
civilização, o quanto há de obscurantismo no positivismo científico. Um pouco
de dialética do esclarecimento faz bem nesses momentos.
A luta contra o fascismo nacional não foi nem é uma
luta contra forças obscurantistas, um termo mais apropriado aos debates teológicos
do que às análises políticas. Analiticamente “obscurantismo” não diz nada, até
porque, se me permitem, sempre se é o “obscurantista” de alguém. O que não
poderia ser diferente, já que o conceito de racionalidade é um conceito
histórico e em disputa, a ciência não é um espelho da natureza, e não há nada
de “relativista” nessa posição. Não sendo uma luta contra o “obscurantismo”,
nossa guerra contra o fascismo é uma luta política (sublinho, uma luta
política) contra uma junção devastadora de ultraliberalismo econômico,
indiferença social, violência estatal e organização da sociedade a partir da
generalização da lógica de milícias.
Dito isto, sugiro que aqueles que gostariam de
fazer debates de divulgação científica para o grande público não esquecessem de
outro biólogo, o sr. George-Louis Leclerc, mais conhecido como conde de Buffon,
quem nos lembrava que “o estilo é o próprio homem”. Maneira de dizer que a
rudeza do estilo é expressão da simplicidade do conteúdo do pensamento. Ninguém
faz discussão séria sobre nada com o tom bonachão do monopolista do bom senso
que olha para as ditas “verborragia pseudocientíficas” e exclama, como se
estivesse fazendo uma repreensão às impertinências de um adolescente: “Que
bobagem!”. Isso deveria ser deixado com o finado Olavo de Carvalho e seus
seguidores.
Tanto é assim que falta simplesmente tudo, do ponto
de vista de uma reflexão epistemológica séria, nessa versão mais recente do
debate nacional sobre a cientificidade da psicanálise. Há uma longa
bibliografia recente, tanto nacional quanto internacional, de reflexões
epistemológicas sobre a psicanálise e seus regimes de objetividade. Seria
necessário levá-la em conta e se posicionar a respeito. Há uma história de
respostas aos argumentos clássicos contra a psicanálise. Seria necessário
levá-la em conta e se posicionar a respeito.
Não vou fazer aqui o papel do professor de teoria
das ciências humanas e passar a lista exaustiva e ausente, mas o mínimo que se
pode dizer é que um debate sério sobre a objetividade da psicanálise levaria em
conta, por exemplo, as discussões daqueles que pensaram nos últimos anos
psicanálise e neurociências (como Mark Solms e as reflexões do Nobel de
medicina Erick Kandel).
Ele poderia, ainda, fazer pesquisas com pacientes
que passaram pela psicanálise e sentiram mudanças importantes em suas vidas,
fazer a mesma pesquisa com pacientes que não perceberam tais mudanças e avaliar
os resultados. Seria interessante fazer tais pesquisas no Brasil dos últimos
anos. Tudo isso seriam contribuições significativas para o debate, mas nada foi
feito, o que nos leva àquela sensação tão bem descrita por Shakespeare: Muito
barulho por nada… mais uma vez.
·
Sofrimento e autorreflexão
Digo “mais uma vez” porque o debate sobre a
psicanálise como pseudociência sempre foi muito pobre intelectualmente, já que
foi feito em larga medida por quem se via mais na posição de esconjurar um
embuste primário do que de efetivamente analisar uma prática clínica e uma
crítica da cultura complexa que merece, ao menos, paciência nas análises. Por
exemplo, uma dessas figuras, cuja crítica retorna pela enésima vez nas páginas
do livro que analisamos, é, não poderia deixar de ser, Karl Popper.
Afinal, Popper foi responsável pela ideia de que a
psicanálise não poderia ser ciência, já que as interpretações de um analista
não são enunciados que podem ser verificados. Se o paciente aceita tais
interpretações, o psicanalista se sente confirmado; se ele recusa, o analista
pode sempre alegar resistência do analisando e continuar sentindo-se confirmado.
No entanto, não é difícil imaginar que a crítica é
pedestre. Interpretações psicanalíticas podem, sim, ser incorretas. O critério
de correção em uma análise está ligado à produção de novas associações. Se o
analisando ou analisanda simplesmente nada faz com a interpretação, ela é
incorreta; se ele ou ela se abre a novas associações, ela é correta. Claro que
o critério não está em uma versão correspondencialista de verdade, ou seja, na
ideia de que um enunciado verdadeiro corresponderia a algo em um estado de
coisas dotado de acessibilidade epistêmica e autonomia metafísica. O critério
de verdade é pragmático e consequencialista.
Isto não é estranho para uma prática clínica
desmedicalizada, ou seja, que não compreende o sofrimento psíquico como expressão
causal de marcadores biológicos, como se fôssemos obrigados a assumir uma
relação estritamente biunívoca entre estado cerebral e estado mental, ou como
se estados mentais fossem apenas maneiras “metafóricas” de falarmos sobre
estados cerebrais. Por ser desmedicalizada, a psicanálise opera por uma forma
muito específica e singular de reconhecimento. Isso não poderia ser diferente
porque, quando estamos a falar em sofrimento psíquico, a maneira com que um
paciente se autocompreende interfere em seu quadro clínico.
Levar um depressivo a compreender-se de outra forma
tem, sim, efeitos em seu quadro clínico. Mas, é claro que isso não se dá por
simples “redescrição simbólica”. Nossas formas de autocompreensão estão
enraizadas em experiências sociais e históricas, em violências reiteradas, na
forma de circulação de discursos e práticas, em nomeações que têm o peso do
aparentemente intransponível. Tais autocompreensões se organizam através de
nossos usos de linguagem, de nossas disposições de ação, da história de nosso
desejo, que é sempre uma história social composta de mortos e vivos, de
disposições conscientes e inconsciente.
A modificação desse quadro não se dá com incitações
empresariais à “vontade de mudar”. Ela se dá através do aprofundamento dos
conflitos e da crítica, ela se depara com várias formas de angústias e de suas
defesas, ela faz queimar narrativas que tínhamos de nós mesmos, não teme a
desorientação que tal combustão produz, ela deve lidar com repetições que irão
modificar-se a despeito de nossa vontade. É disso que uma análise é composta.
·
O lugar das ciências humanas
Aqui vale uma consideração de ordem geral a
respeito do que chamamos de “ciências humanas”. Podemos dizer que a diferença
ontológica fundamental entre as ciências humanas e as ditas ciências exatas é a
autorreflexividade de seus objetos. Você pode pegar uma pedra e explicar a ela,
em várias línguas, a lei da gravidade. Ela vai se comportar da mesma forma. O
mesmo não acontece com seres humanas e suas produções sociais. Eles integram as
explicações que fazemos sobre seus comportamentos, seus sofrimentos, seus
afetos. Tais explicações produzem novos efeitos. Ou seja, a explicação não é
apenas uma descrição. Ela tem força performativa.
Isso explica porque toda e qualquer ciência humana
é indissociável de modalidades de intervenção. Um sociólogo que descreve a
sociedade como uma totalidade antagônica marcada por lutas de classe
necessariamente intervém no seu objeto, porque se a sociedade se
autocompreender dessa maneira, ela produzirá efeitos que não produzia
anteriormente. Ter essa consciência é algo muito mais honesto do que se
esconder sob o manto de qualquer neutralidade axiológica que seja.
As ciências humanas não são neutras em relação a
valores, pois suas explicações e descrições serão reflexivamente integradas
pelos próprios objetos, redimensionando seus horizontes de ação no presente, no
passado e no futuro. Mais honesto é, então, entender o vínculo indissolúvel
entre descrição e valor no campo das ciências humanas, perguntando-se continuamente
sobre a partir de que valores pesquisadoras e pesquisadores das ciências
humanas intervêm no corpo social e em seus sujeitos.
Nesse sentido, a psicanálise é efetivamente uma
ciência humana modelo, e por isso ela é tão atacada. Pois ela tem consciência
plena do caráter performativo de suas explicações e intervenções. Isso explica
porque o eixo de sua racionalidade clínica encontra-se no que chamamos de
“manejo da transferência”. Uma maneira de explicá-lo consiste em lembrar que as
relações de autoridade nos fazem sofrer.
Elas determinam obrigações, normas, leis, modos de
ser, disposições de conduta, valores e sentimentos morais. Eu me constituo
socialmente internalizando princípios e figuras de autoridade. O médico, o
discurso médico, o psiquiatra são também autoridades que têm força constituinte
de sujeitos e subjetividades. Nossa vida psíquica é uma relação intersubjetiva
constante com as marcas dessas figuras, com suas internalizações, suas
idealizações. Por isso, há sempre muitos outros em um Eu.
Um psicanalista é alguém que entende que
modificações na autocompreensão de uma paciente ou um paciente são
indissociáveis da capacidade de modificar tais relações de autoridade
constituintes e sempre reiteradas. E a principal delas acaba se tornando a
relação com o próprio analista, ou seja, com alguém que procurei por supor um
saber sobre meu desejo, alguém que por uma série de razões entrou em uma cadeia
de figuras e representações constituintes de saber.
Por isso, a experiência que a psicanálise procura
pôr em prática é uma experiência sobre o caráter constituinte de relações de
saber e poder que estão presentes em várias estruturas sociais, até porque a
transferência não é um fenômeno exclusivamente clínico. Ela está presente em
todo lugar no qual há relação constituinte de autoridade. O psicanalista age
sobre essas relações, procura dar corpo a elas em situação clínica a fim de
permitir que elas caiam e desamparem. Ele irá então lidar com tal desamparo, na
crença de que ele será um caminho capaz de produzir emancipação e fazer dos
sintomas um campo de produção de singularidades.
·
O que não se diz em uma
polêmica
Por fim, seria o caso de lembrar que uma polêmica é
sempre composta daquilo que ela diz e daquilo que ela não diz. Nesse sentido, é
sintomático que em um debate sobre práticas clínicas de sofrimento psíquico
nada seja dito sobre as verdadeiras aberrações epistêmicas que encontramos no
quadro psiquiátrico atual. Digo “aberrações” porque vemos uma ciência que
demonstrou um desenvolvimento absolutamente anômalo nos últimos 60 anos. Por
exemplo, quando foi publicado em sua primeira versão, em 1952, o DSM (Manual
Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) continha 128 categorias
para a descrição de modalidades de sofrimento psíquico. Em 2013, em sua última
versão, ele apresentava 541 categorias. Ou seja, em cerca de 60 anos, 413 novas
categorias foram “descobertas”. Não há nenhum setor das ciências que tenha
conhecido um desenvolvimento tão anômalo e impressionante desde o fim do degelo
glacial.
Bem, seria interessante se perguntar por que isso
está a ocorrer agora. Estaríamos a passar, neste exato momento, por uma
verdadeira revolução científica que teria nos permitido enxergar aquilo que não
conseguíamos enxergar antes? Como se, durante décadas, não tivéssemos percebido
que havia entre nós pessoas sofrendo de “transtorno de acumulação”
(comportamento caracterizado por excesso de aquisição de itens e incapacidade
de descartá-los) e “transtorno desafiador opositivo” (comportamento excessivo
de quem está geralmente raivoso, irritado ou questionando figuras de
autoridade)? Ou há algum outro a ocorrer e que diz respeito à extensão das
tecnologias de intervenção nos corpos e desejos através da extensão dos
procedimentos de patologização?
Alguns querem nos fazer acreditar que estamos em
direção à clarificação inconteste de marcadores biológicos para as estruturas
do sofrimento psíquico. Mas poderíamos nos perguntar, apenas para ficar em um
exemplo pedagógico, quais são então os marcadores biológicos para o transtorno
de personalidade histriônica? Seus critérios diagnósticos são, entre outros,
“desconforto em situações em que ele ou ela não é o centro das atenções”, “uso
constante da aparência física para chamar a atenção para si”, “demonstração de
autodramatização, teatralidade e expressão exagerada de emoções”.
Tais critérios devem ser avaliados como expressão
de marcadores biológicos específicos ou como comportamentos de recusa,
inconsciente ou não, a padrões de socialização que, por sinal, são bastante
imprecisos? Pois se estamos a falar em “expressão exagerada de emoções”,
havemos de perguntar onde estaria a definição de um “padrão adequado” de
emoções, a não ser na subjetividade do médico ou no manual de boas maneiras de
nossa avó.
Na verdade, isso demonstra a profunda insegurança
epistêmica que atravessa aquilo que a gritaria sobre “pseudociências” faz
questão de esquecer de discutir. Seria o caso de refletir com vagar sobre as
razões que levaram nossas sociedades a modificar de forma tão dramática sua
maneira de intervir através da distinção entre saúde e doença, por que ela
estendeu tanto suas patologias e quais consequências podemos esperar disto.
Seria o caso, ainda, de lembrar dos problemas
profundos que a guinada farmacológica da psiquiatria contemporânea produziu.
Por exemplo, estudos desenvolvidos por Michael Hengartner e Martin Plöderl
publicados na revista Psychotherapy and Psychosomatics defendem
que adultos começando tratamento com antidepressivos para tratar a depressão
têm 2,5 chances a mais de cometer suicídio do que aqueles que se servem de
placebos. Sim, você leu corretamente, é isso mesmo. Se os resultados de estudos
dessa natureza forem reiterados, bem, temos um problema sério a resolver. Uma
boa discussão epistemológica não seria indiferente a tais questões e dinâmicas.
Mas, mais uma vez, ela nos falta.
Fonte: Revista Cult

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