Setembro de 2023: a reconstrução?
Sair ileso de agostos no Brasil, já é em si uma
bênção. Minha geração entrava na adolescência quando o 24 de agosto de 1954
amanheceu no Palácio do Catete no Rio de Janeiro e nos fez conhecer as amargas
realidades do jogo político brasileiro. Depois, vieram os idos de março e, mais
recentemente, os 7 de setembro conspiratórios a nos fazer temer o calendário
inteiro, desde o 8 de janeiro.
Mas, este setembro de 2023 parece inaugurar um novo
Brasil. Os índices econômicos são mais do que alentadores e, aos poucos,
retomamos nossa confiança de que podemos ainda fazer deste país uma referência
positiva neste desafiador século 21.
Poucos dentre nós sabem que tradicionalmente
setembro é uma espécie de terça-feira gorda da Diplomacia brasileira, quando o
presidente do Brasil inaugura o debate-geral das Nações-Unidas.
Não é pouca coisa. Após o discurso inaugural do
Brasil, sempre discursa o presidente dos Estados Unidos da América. Por razões
de segurança, o presidente dos Estados Unidos permanece numa pequena sala atrás
da Tribuna de onde fala o presidente brasileiro. O protocolo e a segurança,
rígidos e eficientes, garantem uma assistência privilegiada para o discurso
brasileiro, acompanhado pela imprensa internacional e, no plenário da ONU, por
chefes de Estado e de governo.
Esta tradição de o Brasil abrir o debate-geral na
ONU além de ser altamente invejada, tem origem numa suposta compensação
oferecida pelos países vencedores da Segunda-Guerra Mundial por o Brasil não
ter sido um dos países membro-permanente do Conselho de Segurança. De qualquer
forma, é uma tradição que a diplomacia brasileira, sempre com discrição e
habilidade soube conservar até hoje.
É forte expressão do "soft-power"
brasileiro, pois permite ao presidente do Brasil destacar os pontos principais
da agenda, analisar o clima internacional e sugerir propostas e medidas que
serão pelo menos ouvidas e anotadas.
Há discursos que ficaram famosos e marcaram época
na história da Diplomacia brasileira que foram inicialmente pronunciados na
abertura da Assembléia-Geral das Nações Unidas. Alguns deles, lidos por
Chanceleres, primeiros chefes de minha geração a entrar no Itamaraty. Não cito
nomes para não ferir a modéstia de muitos de meus colegas, hoje a cuidar de
seus jardins.
Vejo neste ano de 2023, algumas semelhanças com
1963, ano que marcou uma franca aceleração das relações internacionais dando
início ao término do colonialismo de um lado, das reivindicações de mudança do
relacionamento Norte-Sul - na esteira dos estudos seminais do argentino Raul
Prebisch e do brasileiro Celso Furtado - e na aceleração do desarmamento
nuclear e mais recentemente, com a queda do muro de Berlim, o prematuro anúncio
do "fim da história".
Em 2023, nos vemos diante de um panorama
desafiador. O neoliberalismo e a globalização assimétrica trouxeram de volta
nos Estados Unidos da América o recrudescimento de um protecionismo que mal
esconde o renascimento de nostalgia mítica de um passado idealizado em que se
superpõem ameaças à própria Democracia.
O presidente do Brasil que ocupará a Tribuna das
Nações Unidas na segunda semana de Setembro não é um “esquenta auditório” para
Biden de não poucos problemas na sociedade americana. Longe disto.
Nosso presidente, como presidente do G-20, trará a
reunião de novembro das 20 maiores economias do Mundo para a cidade do Rio de
Janeiro, sempre um bom augúrio. Cidade, apesar de tudo que lhe fazemos,
absurdamente linda e acolhedora. Além de presidente do G-20, Lula ocupará em
breve a liderança dos BRICS, entidade que parece entrar nas negociações
internacionais com o peso de seu PIB coletivo. Aliás, o presidente já deixou
bem claro em reuniões internacionais que a proteção ao meio ambiente e as
reformas climáticas não devem ser a nova forma de colonialismo ou de
protecionismo. E foi o primeiro a tocar o dedo na ferida da tecnologia como
resgate humanitário. Sua sugestão de que a Fiocruz entre em cooperação técnica
com os países africanos deveria ser um exemplo a ser expandido entre países
desenvolvidos e em desenvolvimento. As Pandemias passadas, presentes e futuras
impõem uma revisão inteligente dos mecanismos de acesso a medicamentos e insumos
de vacinas num jogo de “ganha-ganha”, difícil, mas não impossível.
Diante de tantos temas e de tantas oportunidades
para reconstruir um mundo melhor chego a sentir inveja de meus colegas no
Itamaraty que se vão dedicar a este desafio.
Esta geração que hoje responde pelos destinos da
Política Externa Brasileira me tranquiliza. Muitos deles conheci de perto em
Genebra ou na ONU, tive o prazer de participar da Banca que examinou muitas de
suas defesas de trabalhos no Curso de Altos Estudos do Itamaraty. Alguns deles,
participarão dos múltiplos rascunhos do discurso que chegará às mãos do
presidente para as opções políticas finais.
Não os cito nominalmente, porque não quero ferir-lhes a modéstia e correr o
risco de que um ou outro se distraia e acabe sangrando o dedo nos espinhos das
rosas de seus jardins.
Ø O Brasil do futuro. Por
Sacha Calmon
Há dias, um articulista ocasional disse que em 2070
o Brasil terá o seu produto interno bruto (PIB) superado pela Nigéria, Egito e
Paquistão. Em 2022, o PIB do Brasil era de US$ 1,9 trilhão, a grosso
modo. Segundo o articulista — neste ponto absolutamente certo — os 10
maiores PIBs hoje são, pela ordem: Estados Unidos (EUA), China e Rússia (pela
imensa capacidade de sua economia bélica (foguetes armas, tecnologia espacial e
ogivas nucleares), Japão, Alemanha, França, Reino Unido (UK), índia, Brasil e
Itália. O Canadá nos segue, mas é igualitário, de pouca população e estável,
além do clima implacável (gélido). É já um país de alta renda.
Vejamos agora os supostos ultrapassadores do Brasil
em 2070, uma data aleatória, supondo-se que as condições atuais continuem a
existir. Primeiro a Nigéria, na zona norte da faixa equatorial da África, à
altura de Aruba e das Antilhas. Possui florestamento semelhante ao amazônico e
está no terço final do imenso Rio Níger, via de navegação por excelência do
país e piscoso (indústria de pesca fluvial). Agricultura forte mais limitada
pelo pouco solo arável. População negra de 200 milhões de habitantes. Economia
extrativista e exportadora de petróleo, gás, carvão e madeira gerando
indústrias ligadas ao setor extrativista e de bens de consumo. O norte é
islâmico radical. O movimento Boko Haram promove massacres contra os seguidores
das religiões animistas e das cristãs trazidas pelo colonizador inglês, língua
oficial junto com as falas étnicas do grupo Banto (lado Atlântico do continente
africano e PIB de 480 USD).
O Egito é um imenso deserto irrigado pelo Rio Nilo.
A represa de Assuam, do tempo de Nasser, permite a agricultura nas margens do
Nilo até 3 km adentro, mas com sistemas de irrigação nem sempre presentes. O
delta do Nilo equivalente, se tanto a Ilha de Marajó suporta muito maior
produtividade, mais é extremamente populacionada. Seu PIB é de 452,75 bilhões
de dólares. Não se mostra tecnologicamente capaz de aumentar a produtividade do
seu parque industrial variado.
O Paquistão é o país, dentre os apontados, com
maior capacidade de crescimento. No ano passado produziu 21 bilhões de litros
de leite de vaca, 940 milhões de carne de frango 1.300 toneladas de carne
bovina. É o nono maior produtor de lã. Sua população, em minoria persa, é
majoritariamente a mesma da Índia. Ao todo são 240 milhões de paquistaneses,
estando entre os 23 países mais populosos do mundo. A religião majoritariamente
é islâmica, possuindo grandes forças armadas pelo antagonismo mantido com a
índia, da qual fazia parte, mas foi apartado pelo colonizador predatório, o
Reino Unido, ou seja, a Inglaterra.
No plano industrial o Paquistão é forte na
indústria leve e de bens intermediários e de consumo. Sua força econômica vem
de ser o país um grande exportador de gás natural, petróleo e carvão (insumos
sujos e poluentes). Os têxteis de algodão (junto com o Egito) o faz fábrica de
vestuário (formam os maiores parques industriais do país) representando 65% de
suas exportações e 40% do emprego no local de trabalho. A fabricação de bens
eletrônicos vem crescendo no país pois a sua situação é dramática diante da
transformação energética em curso, ou seja, a troca dos combustíveis fósseis
pela energia eólica e solar, na qual o Brasil é o maior beneficiário por ter
território, sol e ventos, além de um sistema de transmissão integrado embora
imenso. Finalmente o PIB do Paquistão é de 437,58 bilhões de dólares (41% lugar
entre as economias do mundo).
Em que pese as dificuldades do FMI e Banco Mundial
para calcular o PIB e as projeções econômicas dos países, vê-se que os
aventados para superar o Brasil, cujo PIB beira os 2 trilhões de US, se mostram
delirantes e economicamente inviáveis. O provável é que voltemos a ser a oitava
economia a curto prazo, não sendo impossível nos fixarmos como a sexta economia
no globo, nosso problema continua a ser a distribuição da renda e melhor PIB
per capita tendo por referência o dólar e o Euro, já que no Brasil os bens e
serviços são mais baratos que nos EUA, na União Europeia, na China e no Japão
(onde tudo é caro a começar pela água de beber).
Assim sendo, é mais fácil um camelo passar pelo
buraco de uma agulha do que o Paquistão, Egito e Nigéria ultrapassarem a
economia do Brasil, como mencionado pelo articulista cujas assertivas ora repelimos.
Nem mesmo juntas chegam ao tamanho do PIB brasileiro em 2022. O que precisamos
é de gerir o país com o devido conhecimento do que se passa mundo afora, sem
assombrações.
Houve um tempo em que até os argentinos, nossos
irmãos, se julgavam mais e melhores do que nós. Vinham de um passado exuberante
ao fim de 1ª Guerra Mundial. Hoje, o estado de São Paulo (40% da economia do
país) tem um PIB maior do que a Argentina, um país de solo fértil com 40
milhões de habitantes, com condições reais de crescimento, nosso terceiro
parceiro comercial. O primeiro é a China e o segundo os Estados Unidos. Vamos é
para frente sempre. Quando foi proclamada a República. 81% dos brasileiros eram
analfabetos e 80% paupérrimos (pobreza absoluta) o Brasil começa em 1930, com Vargas.
Ø A resiliência da economia
O governo tem uma grande responsabilidade pela
frente: o de garantir a continuidade do crescimento da economia, que
surpreendeu no segundo trimestre do ano. O avanço do Produto Interno Bruto
(PIB) foi de 0,9% ante os três meses imediatamente anteriores, o triplo da
estimativa do mercado, de 0,3%. A atividade está respondendo a vários fatores
positivos, entre eles, a maior estabilidade política e o pragmatismo na
condução das ações na economia. O país deixou de conviver com o confronto entre
os Poderes, o que é um alívio para os agentes financeiros, e passou a ter um
horizonte que permite o planejamento. Há uma palavra fundamental para que
empresários e investidores se sintam confortáveis para ampliar a produção:
previsibilidade. E ela está de volta e é vital que seja preservada.
O foco das políticas públicas também funcionou como
importante impulsionador da economia, segundo o Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE). Com o reforço dos programas sociais, como o
Bolsa Família, e o aumento real do salário mínimo, as camadas mais pobres da
população foram às compras. Não por acaso, o consumo das famílias saltou 0,9%
entre abril e junho. Todo o dinheiro que entra no orçamento desse grupo vai
imediatamente para satisfazer necessidades básicas. Essas políticas foram
potencializadas pela inflação mais amena e pela resiliência do mercado de
trabalho — a taxa de desemprego, em julho, de 7,9%, retornou aos níveis de
2014, quando o Brasil mergulhou em um quadro de recessão.
A perspectiva é de que o emprego continue em
expansão nos próximos meses, mesmo que a atividade perca um pouco de força,
como sinalizam alguns indicadores. Há, porém, condições para que, novamente, os
resultados do PIB surpreendam nos próximos trimestres. O Banco Central começou
a reduzir a taxa básica de juros (Selic), que baixou de 13,75% para 13,25% ao
ano, movimento que continuará ao longo deste ano e do próximo. Para que o BC
tenha tranquilidade para manter o afrouxo monetário, será preciso que o governo
cumpra as metas fiscais a que se propôs, de zerar o rombo fiscal em 2024 e de
garantir superavits nos anos seguintes. Contas públicas nos eixos reduzem a
perpecpção de riscos na economia, ajudam a manter a inflação nos eixos e
estimulam os investimentos produtivos.
Esse, por sinal, foi o ponto negativo dos dados
divulgados pelo IBGE. Os investimentos, que ampliam a capacidade de se atender
o consumo sem pressionar os preços, cresceram apenas 0,1% no trimestre. Tal
desempenho tem muito a ver com a confiança. À medida que os bons resultados da
atividade forem se consolidando, as empresas tenderão a retirar projetos da
gaveta para ampliar as fábricas. As companhias só investem quando têm a certeza
de que terão para quem vender mais à frente. Dinheiro, sabe-se, não aceita
desaforo. Economistas acreditam que o consumo das famílias pode ter um novo
incremento com a queda dos juros e os programas de renegociação de dívidas,
como o Desenrola, que abrem espaço para mais demanda.
Enfim, neste momento, há, sim, motivos para
respirar mais aliviado e rever, para cima, as projeções de crescimento da
economia. Os analistas acreditam, agora, que o PIB poderá crescer entre 2,8% e
3% neste ano, mesmo que a atividade fique estagnada no segundo semestre, o que
poucos esperam. Nesse contexto, não há espaços para aventuras, como gastos
públicos desenfreados ou aumentos de impostos. A economia mostrou, nos
primeiros seis meses do ano, que um ambiente menos tensionado, com
responsabilidade fiscal e diálogo entre os Poderes e entre governo e iniciativa
privada, traz resultados positivos para todos.
O Brasil ainda tem a vantagem de estar em uma
posição privilegiada em relação a várias nações emergentes, como Turquia e
Argentina, que não vivem bons momentos. Se mantiver a serenidade, políticas
econômicas consistentes e avanços institucionais, o país tem tudo para
despontar na preferência do capital externo. Na sexta-feira, depois do
surpreendente resultado do PIB, a Bolsa de Valores de São Paulo, que vinha em
queda, subiu quase 2% e o dólar caiu. São sinais importantes e que devem ser
levados em conta.
Fonte: Por Adhemar Bahadian, no JB/Correio
Braziliense

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