terça-feira, 5 de setembro de 2023

Os influenciadores pró-Putin lucrando com a propaganda da guerra na Ucrânia

Influenciadores russos nas redes sociais estão tendo grandes receitas publicitárias com suas postagens a favor do governo de Putin e a favor da guerra na Ucrânia.

Ao lado de vídeos violentos e gráficos de ataques de drones e falsas alegações sobre o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, eles compartilham anúncios de tudo, desde criptomoedas até moda.

Conhecidos na Rússia como “Z-bloggers” devido ao seu apoio a uma guerra muitas vezes simbolizada pela letra Z, eles frequentemente são autorizados a acompanhar o exército russo e publicam imagens da linha da frente, incentivando os jovens russos a se alistar.

Desde o início da invasão em grande escala da Ucrânia, em fevereiro de 2022, os influenciadores russos pró-guerra ganharam milhões de seguidores no Telegram, a plataforma de comunicação à qual muitos russos recorreram depois que o presidente Vladimir Putin baniu o Instagram, o Facebook e o Twitter.

Essa explosão de usuários levou a um aumento no mercado publicitário do Telegram.

Os influenciadores da guerra tiraram vantagem disso. Eles vendem espaços publicitários para empresas que buscam atingir o público jovem.

Para saber quanto eles cobram, membros da Equipa Global de Desinformação da BBC fizeram-se passar por proprietários de hotéis interessados em publicar anúncios nos seus canais. Entramos em contato com alguns dos influenciadores mais proeminentes.

Um deles foi Alexander Kots, correspondente veterano de um jornal pró-governo que se tornou um influenciador, com mais de 600 mil seguidores em seu canal pessoal no Telegram. Kots disse que custaria entre 48 mil a 70 mil rublos (R$ 3.542) por postagem em seu canal, dependendo de quanto tempo o anúncio fosse mantido no topo de seu feed do Telegram.

Semyon Pegov, conhecido como WarGonzo, foi outro. Talvez o “Z blogger” mais conhecido, ele tem mais de 1,3 milhão de seguidores. WarGonzo fez um orçamento equivalente a R$ 9.657.

Os principais influenciadores de guerra publicam pelo menos um anúncio por dia, de modo que o seu rendimento potencial supera em muito o salário médio mensal da Rússia de 66.000 rublos (R$ 3.414).

·         Influenciadores do grupo Wagner

Um agente de publicidade que trabalha com canais vinculados ao grupo mercenário Wagner fez um orçamento de R$ 1.614 por anúncio na Gray Zone, um canal do Telegram com acesso exclusivo ao grupo Wagner e mais de 600 mil seguidores.

Para anunciar no canal de Alexander Simonov, correspondente do site Ria Fan, fundado pelo falecido chefe do Wagner, Yevgeny Prigozhin, o agente publicitário disse que sairia R$ 1.117 por postagem.

Outro repórter da Ria Fan, Alexander Yaremchuk, tem menos seguidores, então suas taxas são mais baixas, de R$ 533.

Embora alguns dos Z-bloggers tenham uma experiência significativa em reportagens de guerra para meios de comunicação estatais, outros, como Maryana Naumova, não têm formação profissional.

Ex-levantadora de peso, ela fez curso de reportagem em uma base mercenária do grupo Wagner e hoje apresenta seu próprio programa em rede nacional.

A BBC tentou entrevistar blogueiros de guerra proeminentes, mas Alexander Kots foi o único que concordou em conversar.

Falando da cidade ocupada de Bakhmut, na Ucrânia, ele se descreveu como um repórter em uma guerra de informação. No entanto, ele compreendia que a propaganda da Rússia dependia, em parte, de pessoas como ele.

“O Ministério da Defesa frequentemente nos ouve, temos um canal direto para passar informações de forma privada. É tudo por trás do pano; e eu faço isso”, disse ele.

O crescente mercado para o material dos Z-bloggers é sustentado por um fluxo constante de vídeos exclusivos. As imagens trazem uma audiência diversificada, desde audiências nacionais pró-guerra até analistas ocidentais e ucranianos que tentam compreender o que realmente se passa nas trincheiras russas.

·         Notícias falsas

No entanto, alguns dos vídeos postados pelos blogueiros pró-guerra são falsos.

Em março passado, influenciadores proeminentes, incluindo Alexander Kots, postaram um vídeo de câmera de painel de carro que supostamente mostrava dois soldados ucranianos parando um carro com uma mulher e uma criança pequena. Os homens armados no vídeo chamam a mulher de “porca” por falar russo e a ameaçam. Z-bloggers disseram que o vídeo era um exemplo perfeito de como a Ucrânia tratava os civis.

Mas localizamos geograficamente este vídeo em Makiivka, uma cidade perto de Donetsk. Esta área da Ucrânia tem sido ocupada por forças pró-Rússia desde 2014. É impossível que um soldado ucraniano uniformizado pudesse ter operado neste território ocupado.

Além disso, o uso de câmeras de painel é ilegal na Ucrânia. A proibição foi imposta após a invasão russa em grande escala para manter em segredo os movimentos das tropas.

E a cruz no veículo é diferente daquela usada pelas forças armadas da Ucrânia. Todos esses elementos sugerem que o vídeo foi encenado.

É uma das muitas falsificações espalhadas por Z-bloggers para encorajar os jovens russos a apoiar a guerra, e há provas de que estão tendo sucesso.

Em um vídeo, um russo que se alistou diz que foi a um centro de recrutamento depois de ver uma série de vídeos de Vladlen Tatarsky, um dos influenciadores mais importantes. Tatarsky foi morto em abril de 2023 em uma reunião com seus fãs.

Outro russo que se ofereceu para lutar na Ucrânia disse a um blogueiro que o fez depois de assistir a muitas reportagens do WarGonzo. “Acompanho todas as notícias e análises militares no Telegram”, disse ele, referindo-se aos Z-bloggers.

Questionamos o Telegram sobre o aumento de blogueiros de guerra pró-Putin na plataforma. O Telegram disse que é a "última plataforma através da qual os russos podem acessar meios de comunicação independentes, notícias internacionais sem censura como a BBC ou os discursos do [presidente] Zelensky".

Um porta-voz disse que embora todas as partes tenham sido “tratadas igualmente”, o Telegram respeitou as sanções internacionais e bloqueou a mídia estatal russa “onde as leis a proíbem”.

Ao longo da guerra, o presidente Putin demonstrou o seu apreço pelos esforços dos Z-bloggers. Nomeou Alexander Kots para o conselho presidencial de direitos humanos e nomeou Semyon Pegov e vários outros blogueiros como membros de um grupo de trabalho sobre mobilização de tropas.

Em junho, ele convidou influenciadores pró-guerra e repórteres da mídia estatal ao Kremlin para uma conversa de duas horas.

“O espaço da informação é um campo de batalha crucial”, disse Putin. "E eu realmente conto com a sua ajuda."

 

Ø  Rússia cancela grandes exercícios militares devido à guerra na Ucrânia

 

A Rússia cancelou seus grandes exercícios militares Zapad este ano por causa da guerra na Ucrânia, disse o ministro da Defesa russo, Sergei Shoigu, nesta segunda-feira.

"Não, este ano estamos realizando exercícios na Ucrânia", disse Shoigu, segundo a agência de notícias estatal RIA, em resposta a uma pergunta.

A Rússia realizou pela última vez os exercícios Zapad (Oeste) com a aliada Belarus em setembro de 2021, cinco meses antes de sua invasão da Ucrânia. Ela disse então que 200.000 soldados estavam participando.

O Ministério da Defesa do Reino Unido disse em sua atualização diária de inteligência no X, antigo Twitter, na semana passada, que acreditava que a Rússia não realizaria os exercícios este ano porque não tinha tropas e equipamentos suficientes para realizá-los enquanto luta na guerra, agora em seu 19º mês.

 

Ø  A Ucrânia vai mesmo vencendo as forças invasoras da Rússia, como se vê na mídia ocidental?

 

Alguém que esteja se informando sobre a guerra da Ucrânia por meio da imprensa inglesa pode acreditar que a vitória da Ucrânia é apenas uma questão de dias. Alguém que se informa por meio da imprensa americana, que é um pouco mais cautelosa em suas análises, também deve acreditar numa vitória da Ucrânia em alguns meses.

Tanto ingleses, quanto americanos, esperam o esfacelamento da Rússia e da China, que, ao final, seriam levados à condição de colônias americanas. Coerentemente com o que deseja as elites de seus países, a imprensa americana e inglesa se manifesta a favor de uma ofensiva contra a Rússia com todo o poderio militar dos países ocidentais.

Já a imprensa francesa é a mais realista e parece conhecer melhor os riscos de uma ofensiva aberta da OTAN contra a Rússia. As palestras que eu tenho assistido no Youtube, no canal francês Elucid, com vários especialistas em geopolítica, me convenceram de que há um sentimento crescente na França e na Alemanha de que a Europa não tem nada a ganhar com essa guerra, quer os Estados Unidos vençam, quer a Rússia vença.

Mas, de modo geral, pode-se dizer que toda a imprensa ocidental é belicista. No fundo, todos eles sonham com a destruição da Rússia e da China.

Coerentemente com as elites que representam, a imprensa ocidental esperava que as sanções econômicas contra a Rússia fossem capazes de decidir o rumo do conflito. As expectativas eram de que Putin perdesse popularidade e fosse deposto, logo que a economia russa entrasse em colapso.

No entanto, esse colapso da economia russa não aconteceu. Se vier a acontecer, ao que parece, será tarde demais, para que a Europa possa tirar algum proveito.

Eu não sei como está o debate na Alemanha, pois não tenho acesso à imprensa deste país, por limitações minhas com a língua. Mas, eu desconfio que os especialistas alemães em geopolítica já perceberam que o verdadeiro objetivo dos Estados Unidos e da Inglaterra com essa guerra por procuração na Ucrânia é barrar a expansão alemã sobre os países da antiga União Soviética, que agora estavam sob influência direta da Alemanha.

O maior medo dos americanos e ingleses é que a aliança Rússia-Alemanha, que estava sendo implementada, se fortalecesse a ponto de ficar incontrolável.

Portanto, não há indícios de que a Ucrânia esteja vencendo a guerra.

De tudo que eu tenho lido, dá para perceber que o sentimento de que a Ucrânia está vencendo se baseia somente numa suposta frustração de um hipotético plano Russo de ganhar a guerra em poucos dias.

Os russos não são assim tão ingênuos. Eles sabiam exatamente no que estavam se metendo. Eles estavam tentando controlar a situação na Ucrânia há muito tempo e tinham total consciência das dificuldades que encontrariam.

Até agora, a Ucrânia recuperou apenas uma pequena parte do território ocupado pelos russos. Mesmo assim, alguns dos territórios recuperados já foram ocupados novamente pelas tropas russas.

Na minha opinião, essa guerra não pode ser vencida por nenhum dos lados. Não é possível nem mesmo saber o que seria uma vitória da Ucrânia. Seria apenas a recuperação de todos os territórios tomados pela Rússia? Seria a invasão da Rússia, com a destituição de Putin e uma imposição de que a Rússia indenizasse os danos?

Por outro lado, não é possível também definir o que seria uma vitória russa. A Ucrânia está situada na zona de fronteira entre o ocidente e o oriente. Mesmo que a Rússia consolidasse a ocupação de todo o território a leste do rio Dnieper, não se poderia dizer que ela ganhou a guerra, uma vez que não haveria nenhuma possibilidade de paz.

A única possibilidade dos Estados Unidos vencer essa guerra seria com uma ataque nuclear maciço sobre a Rússia e a China. Contudo, nessa hipótese, a probabilidade maior seria de uma destruição total da humanidade em que não haveria vencedores ao final.

Diante dessa situação, a melhor aposta é de que essa guerra vai durar ainda muito tempo, talvez décadas, como aliás costuma acontecer nas fronteiras entre o colonialismo ocidental e a resistência russa e oriental.

 

Fonte: BBC News Mundo/Reuters/Quora

 

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