Agosto 2023 foi um mês com sabores diferentes
A história brasileira já ensinou que agosto “era um
mês de desgosto”. Desde que nasci (1950), foram sucessivos motivos de desgosto.
O 1º foi o suicídio de Getúlio Vargas, em 24 de agosto de 1954. Com a “Carta
Testamento", Gegê, que estava acuado pelos inquéritos da “República do
Galeão”, deu a volta por cima e foi chorado por quase toda a população. De quebra,
derrotou pela 3ª vez, “post mortem”, o candidato ungido pelo brigadeiro Eduardo
Gomes, patrono da Aeronáutica e instigador da ações radicais da força: a 1ª foi
em 1954, quando, já deposto, indicou seu ex-ministro da Guerra, marechal Eurico
Gaspar Dutra, para disputar a 1ª eleição livre desde 1930, quando Vargas tomou
o poder, e venceu Gomes de lavada; a 2ª foi em 1950, quando o próprio Getúlio
se lançou de última hora e a marchinha “bota o retrato do velho outra vez”
embalou sua vitória folgada contra o brigadeiro; a 3ª foi na vitória de
Juscelino Kubitschek, governador de Minas Gerais pelo PSD, que ficou com
Getúlio até o fim, e herdou votos de seus eleitores. Mesmo assim, JK, um
conciliador, enfrentou duas revoltas de inconformados oficiais da Aeronáutica.
A 1ª guarda semelhança com o 8 de janeiro (em
pequena escala), pois eclodiu em Jacareacanga, uma base da força área no
interior do Pará, próxima a Santarém, Itaituba, Belterra e Aragarças, em 11 de
fevereiro de 1956. Desde 1950 e até 1964, a posse dos presidentes e
governadores eleitos ocorria a 31 de janeiro (nasci nesta data), o que era
racional, pois os deputados e senadores eleitos tomavam posse em 1º de
fevereiro (como ocorre até hoje). Os radicais da Aeronáutica, que ameaçavam
bombardear cidades e alvos militares, foram dominados, mas não sossegaram. Em
dezembro de 1959, inconformados com a renúncia do candidato Jânio Quadros, que
apoiavam, o major Haroldo Veloso e o capitão José Chaves Lameirão, que estavam
à frente da revolta de Jacareacanga, se rebelaram em Aragarças (PA) e foram
dominados após alguns dias, fugindo para a Bolívia. Na época, o Pará não tinha
sofrido a devastação de suas florestas, iniciada pela construção da
Belém-Brasília, ainda em obras. As ligações com o Brasil eram feitas por avião
(e o Correio Aéreo Nacional, da FAB, era um importante fator de integração
nacional (os meios de comunicação eram o telégrafo e o rádio. A televisão,
surgida no começo dos anos 50, com a Tupi, só veio a ter relevância nos anos 60
em diante. Hoje, as notícias correm na palma da mão, no celular (felizmente,
apesar de quase dar certo em 8 de janeiro, a difusão de mensagens “online” na
ocasião, ao mesmo tempo em que mobilizou radicais, facilitou a reação tardia
das forças de segurança do governo Lula).
Pois o último grande desgosto foi a renúncia de
Jânio Quadros, em 15 de agosto de 1961, menos de sete meses após sua posse. A
renúncia era um pretexto para dar um golpe militar no Dia do Soldado. O vice,
João Goulart, eleito pelo PTB (o voto não era vinculado às chapas), desagradava
às forças armadas. Jânio, ensaiou a 1ª renúncia justamente para ter mais
liberdade de escolher seu vice (cogitando de um golpe, sempre quis ter Jango
como vice, para chantagear as forças armadas e receber seu apoio para governar
com mão de ferro. Jânio se deu mal, ao invocar as forças ocultas, para contar
com as armadas, pois o presidente do Senado e do Congresso, Aureo de Moura
Andrade leu a carta de renúncia (ato unilateral), declarou caga a presidência
da República e empossou no cargo o presidente da Câmara, Ranieri Mazzilli,
enquanto um atônito Jânio Quadros aguardava, em vão, na base aérea da
Aeronáutica, em Cumbica (AP), que deu origem ao hoje movimentadíssimo aeroporto
de Guarulhos, o apoio dos militares a seu golpe, frustrado.
O rastreamento e decodificação dos celulares do
ajudante de ordens, tenente-coronel Mauro Cid, seus imediatos, do pai, general
Lourena Cid, que Bolsonaro nomeara para uma sinecura na filial de Miami da
Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex), posto no
qual, nas horas de folga (?), fazia leilão das joias recebidas pela família
Bolsonaro, e mais os quatro aparelhos do advogado “oficial” Frederick Wassef,
os celulares do ex-presidente, da ex-primeira-dama e do ex-secretário de Comunicação
e advogado Fábio Wajngarten, estão permitindo à Polícia Federal fechar algumas
das peças do quebra-cabeças das tramas para o golpe desde que Bolsonaro perdeu
a eleição para Lula em 30 de outubro, apesar das tentativas da Polícia
Rodoviária Federal em dificultar a chegada dos eleitores de Lula à urnas do
Nordeste.
O golpe foi ensaiado na arruaça da noite de 12 de
dezembro, quando Lula e o vice Geraldo Alkimin foram diplomados pelo Tribunal
Superior Eleitoral. Investigações posteriores encontraram na casa do
ex-ministro da Justiça Anderson Torres - o mesmo que, já nomeado secretário de
Segurança do Distrito Federal, antecipou férias e voou na noite de 6 de janeiro
de Brasília para Orlando (EUA), onde estava Bolsonaro desde 30 de dezembro -
uma minuta de intervenção militar no TSE para anular as eleições. Faziam parte
do cenário de terror, atentados abortados, como a explosão de um caminhão
tanque de querosene de aviação no Aeroporto de Brasília no fim de semana
seguinte, e derrubadas de várias torres de transmissão de linhões de energia de
alta tensão, para deixar o país às escuras. O objetivo secreto (preparado em
grande escala para o 8 de janeiro) sempre foi o de promover uma situação de
descontrole da ordem pública que gerasse a convocação, via o artifício da
Garantia da Lei e da Ordem (GLO), das Forças Armadas, para gerir a situação.
Lula não mordeu a isca (virtualmente perderia o poder) e, com a ajuda do
ministro Flávio Dino, da Justiça e Segurança Pública, a PF avançou firme nas
investigações, que já indiciaram 1.300 pessoas, entre civis e militares.
·
Agosto amargo para Bolsonaro
A grande oitiva simultânea, pela PF, de oito
implicados, na 5ª feira, 31 de agosto, visava buscar as contradições entre os
acusados. O clã Bolsonaro, para não se incriminar e por arguir que o foro do
inquérito conduzido pelo ministro Alexandre de Moares, do STF (na verdade
investigações iniciadas por toda a preparação do golpe antes, durante e após as
eleições), devia ser a justiça de 1ª Instância (comum), pois Bolsonaro já não é
mais presidente desde 1º de janeiro de 2023, tenta pegar uma carona no parecer
canhestro da vice-procuradora geral da República, Lindôra Araújo (a mesma que
trancou várias ações contra o presidente da República na pandemia da Covid-19),
em sua última ação, antes de pedir licença médica da PGR. Na verdade, o casal
00 e Michelle tenta repetir a estratégia do filho 01, o atual senador Flávio
Bolsonaro (PL-RJ) que, usando o peso da eleição do pai a presidente, conseguiu
anular todas as provas levantadas pelo Ministério Público do Estado do Rio de
Janeiro pela prática de peculato, o saque de parte dos salários de apaniguados
funcionário que nomeou para seu gabinete de deputado estadual na Assembleia
Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). Como foi eleito senador (na
época da colheita das provas, era deputado), Flávio Bolsonaro conseguiu junto a
juízes e desembargadores amigos no Superior Tribunal de Justiça e no TJ-RJ, a
declaração de que o juízo de 1ª instância era incompetente (caberia o foro
especial do STJ) e, com isso, obteve o principal: a anulação de todas as provas
de desvio de recursos das contas dos funcionários para sua conta pessoal,
conduzidas pelo faz-tudo, o PM Fabrício Queiroz. Agora, Bolsonaro quer a 1ª
instância que o filho negava.
Os inquéritos conduzidos pelo ministro Alexandre de
Moares, do Supremo Tribunal Federal contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, a
ex-primeira-dama, Michelle Bolsonaro e seus auxiliares mais próximos estão
comprovando que o desrespeito às normas, explícitas nas manifestações do então
presidente Jair Bolsonaro na fatídica reunião ministerial de 22 de abril de
2020, quando disse que trocaria quadros da Polícia Federal, de delegados a
superintendentes, sem excluir o diretor geral e até o ministro da Justiça e Segurança
Pública, para evitar “sacanagens com seus parentes e amigos” - o que levou o
ministro da Justiça, Sérgio Moro, a se demitir no dia seguinte -, virou palavra
para a família, amigos& auxiliares diretos nos três anos restantes do
mandato.
Pego carona no que escreveu no seu blog no site
“Metrópoles” o meu amigo e colega jornalista Ricardo Noblat, um dos decanos da
cobertura política no país, e que explica bem o seu desprezo pela lei e pela
Constituição, apesar de, vira e mexe, dizer que estava “jogando dentro das
quatro linhas”, sem o VAR, digo eu, que passou a ser o STF; Bolsonaro preferiu
ir para a guerra, usou o WAR.
Disse o Noblat: “Para Bolsonaro, não faria, como
não fez, diferença. Bolsonaro só desejava uma coisa: torpedear a democracia
para pôr no seu lugar um regime autoritário à moda antiga com o apoio dos
militares. Se tivesse sido reeleito, era o que faria com chances de êxito. Como
estaria o Brasil se Bolsonaro tivesse vencido? Com mais um ministro do Supremo
Tribunal Federal nomeado por ele, e outro às vésperas de ser indicado; quatro
ministros de um total de 11. No Congresso, a extrema-direita estaria nadando de
braçada. Por desnecessário, não teria havido a tentativa de golpe abortada em
dezembro, nem acampamentos à porta de quarteis, nem o golpe fracassado do 8 de
janeiro. O golpe contra a democracia fora consumado em 30 de outubro, e pela
via do voto. O roubo das joias seguiria encoberto, mas caso revelado, não teria
importância. Dar-se-ia um jeito de rebaixá-lo. Quem se disporia a enfrentar um
governante no auge de sua força? Vida longa ao Rei, clamariam os súditos, e os
derrotados que se calassem”. Só que não. Deu errado. Do começo ao fim.
·
Atenção ao 7 de Setembro
O ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, um
político conciliador, formado nos quadros do PFL de Pernambuco, bem que tentou
com o presidente Lula apaziguar os ânimos para o 7 de Setembro. Há uma calma
aparente nas forças armadas. O discurso do general Paiva, comandante do
Exército, no Dia do Soldado, advertindo para o papel legalista dos militares,
ainda ecoa nas tropas. Mas já ouvi e li menções de que a bancada que tramava o
golpe com Bolsonaro convoca os adeptos a trocarem o verde amarelo que era
hábito, pelo luto do negro. Seria o assumir o figurino fascista dos “camisas
negras”?
·
Um agosto doce para Lula
Nos tempos idos, as duas semanas que separavam o
Dia do Soldado (15 de agosto, data do aniversário do patrono do Exército, o
Duque de Caxias) e a celebração da Independência eram períodos agitados. O que
contribuía para ampliar a agitação política do mês de agosto. O poder
Legislativo, após o recesso de julho, retomava os trabalhos em 1º de agosto com
a missão de aprovar o Orçamento da União para o ano seguinte que a União tinha
de apresentar até 31 de agosto. Como era também em agosto que se fazia o
preparo das terras das lavouras e os deputados e senadores voltavam de suas
bases com enormes demandas dos chefes políticos locais, as pressões por verbas
faziam ferver o caldeirão político. Para acomodar todas as demandas, seriam
necessários um PIB e meio, pelo menos. Ao fim e ao cabo, votava-se um orçamento
irrealista que só se cumpria com a disparada da inflação no ano seguinte, que
tirava dinheiro do bolso dos contribuintes para os cofres oficiais.
Lula pode continuar se queixando de dores no fêmur
(o que pode ser resolvido com operação no final de setembro), mas não tem
motivos para se queixar de agosto. Foi um mês extremamente doce. Com conquistas
no front internacional, a mais eloquente foi a ampliação do BRICS, com a junção
de mais seis países (Argentina, Egito, Etiópia, Irã, Arábia Saudita e Emirados
Árabes Unidos) ao bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do
Sul, a partir de 2024, o que altera a correlação de forças políticas-econômicas
no mundo. O G-7 não está sozinho. O novo BRICS faz sombra à tentativa americana
de cooptar parceiros no G-20, do qual o Brasil era membro, ele avançou mesmo
foi no Congresso, com aprovação do arcabouço fiscal e do Orçamento de 2024.
Ainda há receitas pendentes de aprovação de novos tributos sobre fundos
exclusivos de milionários (o governo quer equiparar a tributação ao
“come-cotas” dos investidores comuns) e das aplicações “off-shores” em paraísos
fiscais no exterior. É a política “Robin Hood”, tirar dos mais ricos para
aliviar o Imposto de Renda dos mais pobres. Mas há “novos ricos” no Congresso
que estão fazendo jogo duro, querendo negociar o apoio em troca de expoentes do
”Centrão” colocarem mais pés na canoa ministerial. Até aqui, Lula tem feito
tantos malabarismos que podem estar aí as dores no fêmur. Um dos que entraram
no Ministério na conta do “Centrão”, o ministro das Comunicações, Juscelino
Filho (perdão, nada a ver com JK) já foi pego com a boca na botija nas
maracutais da Codevasf, uma das joias da coroa do aparelho estatal cobiçadas
pelo “Centrão”. O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL) avalista do
“Centrão” e do apoio aos projetos do governo, põe os pés em duas canoas. E
agrada aos barões do mercado financeiro.
Mas a sorte de Lula é que a economia vai muito
melhor do que as expectativas. O crescimento do PIB é um dos fatores que
garante o desenho do arcabouço fiscal. Ou seja, o cumprimento das metas de
gastos em 2024 será mais fácil, sem gerar pressões inflacionárias ou aumento do
endividamento público se a receita subir pelo crescimento da economia, que
produz o círculo virtuoso da melhoria da distribuição da renda e realimenta o
próprio consumo e o aumento dos investimentos, que vão garantir o crescimento
duradouro da economia.
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Haddad cumpre promessa
E nisso a estrela de Lula brilhou mais do que a do
PT. O Produto Interno Bruto (PIB) - que já largara com forte crescimento no 1º
trimestre (+1,9%), fruto da supersafra de grãos plantada em 2022, que provocou
alta de 21% na agropecuária, derrubou a inflação dos alimentos e ajudou a
recompor a renda da classe média e das camadas mais pobres, amparadas pelo
Bolsa Família - cresceu 0,9% no 2º trimestre. Foi o triplo das previsões, na
variação trimestral com ajuste sazonal (3,4% em termos anuais).
Ao analisar a surpresa do índice, o Banco Itaú (que
previa alta de 0,4% e o Bradesco, 0,5%) explicou que a queda do setor
agropecuário no 2º trimestre “foi menor que a esperada, após crescimento
recorde no 1º, mas o PIB ex-agro também surpreendeu positivamente, acelerando
para 1,0% na variação trimestral (0,4% no 1º), atribuindo o bom desempenho à
“resiliência do mercado de trabalho e ao estímulo fiscal do período”. O Itaú
destacou o consumo das famílias, que avançou dos 0,7% no 1º trimestre para
0,9%. Com esse resultado, o Itaú já considera que “o carrego estatístico para o
2º semestre” do ano, já atingiu 3,0%. O banco tinha projetado alta de 2,5% do
PIB e vai revisar a meta para cima. O Bradesco não fica atrás. Considera “um
carrego estatístico de 3,1% para o restante do ano” e vai revisar para cima a
projeção do PIB, que era de 2,1%.
Com a fala mansa e alta dose de racionalidade, o
ministro da Fazenda, Fernando Haddad, um professor mais ligado à educação que à
teoria econômica, vai conquistando mais do que o ex-ministro da Economia, Paulo
Guedes. Haddad já cumpriu a promessa de crescer 2,5% e deve passar de 3%.
Fonte: Por Gilberto Menezes Côrtes, no JB

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