sábado, 2 de setembro de 2023

Rui Martins: Jogando pedras no Zanin

Qual a diferença entre um fanático islamita do Iraque e um fanático cristão evangélico brasileiro? Vamos recorrer à literatura. No caso, ao prestigioso prêmio Goncourt do primeiro romance de 2021, concedido à escritora argelina Emilienne Malfatto por seu livro “Que por você se lamente o rio Tigre”.

É a história do último dia de uma jovem iraquiana, que será morta por seu irmão pelo crime de ter ficado grávida sem ter antes se casado religiosamente, como manda a lei do Profeta. Para manter a honra da família, seu irmão, assim que chegar do trabalho, quebrará sua cabeça com uma grande pedra e ninguém mais poderá pronunciar seu nome. Esse crime não será punido porque, na verdade, sua irmã pecadora nunca existiu…

A outra história de pedra, ou melhor pedras, é contemporânea. São 40 mil metros quadrados de pedras, importadas de uma pedreira de Hebron, na Cisjordânia, terra do patriarca Abraão, pelo fanatismo de Edir Macedo, para construir o Templo de Salomão da Igreja Universal. Pedras consideradas sagradas, na qual tocam com fervor as mãos dos fiéis pentecostais, à espera de bençãos e milagres, em gestos idólatras de “pedralatria”?

Vamos deixar de lado o fanatismo feminicida iraquiano. Felizmente, as fogueiras cristãs onde se assavam hereges já se apagaram faz tempo, embora a exigência da submissão feminina ao homem, considerado ser superior pelo livro sagrado, continue de maneira mais soft. O que nos interessa agora são as pedras. As pedras vindas em navio cargueiro, em 2011.

Quantos milhões de reais teriam custado esses 40 mil metros quadrados de “pedras sagradas”, que não podem ser mastigadas pelos 30 milhões de famintos brasileiros? Quantos pãezinhos poderiam ter sido comprados para serem distribuídos numa Santa Ceia nacional? De nada adiantou Jesus ter alertado: “qual de vocês, se seu filho pedir pão, lhe dará uma pedra?”; Edir Macedo trouxe pedras de Hebron, na Cisjordânia, em lugar de pão, e essa importação de “pedras sagradas” não preciosas implicava no pagamento de um imposto de importação igual a 85 mil reais. Edir Macedo se revoltou com essa imposição tributária.

É verdade, embora o Brasil seja um país laico, não siga a lei mosaica e garanta a liberdade de as pessoas terem outras crenças além da evangélica, existem as exceções (no Brasil, as exceções parecem ser a regra!). Uma dessas exceções é a de que os pastores e as igrejas evangélicas não paguem impostos, nem o de renda. Ao que a Receita Federal retorquiu com outra exceção: a imunidade tributária concedida aos evangélicos e às outras religiões só vale dentro do território brasileiro, não inclui o comércio exterior.

De nada adiantou Edir ter convidado Dilma Rousseff à inauguração do Templo de Salomão com pedras de Hebron. Como também de nada adiantou Dilma ter quebrado o princípio da laicidade ao participar dessa inauguração, esperando ali conquistar a confiança dos pentecostais evangélicos. Se as pedras falassem, muito teriam o que contar.

Diante da resistência da Receita Federal, apoiada numa decisão do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, existe a informação do pagamento do imposto pela Igreja Universal, no ano passado, no governo Bolsonaro. Porém, Edir Macedo fez um apelo à suprema instância que, provavelmente por milagre divino, caiu por sorteio para decisão monocrática com o “ministro terrivelmente evangélico”, André Mendonça, que chutou mais para baixo o princípio da laicidade do Estado brasileiro. Agora, a imunidade a impostos, ICMs inclusive, é “mista”, incluindo “o patrimônio, a renda e os serviços relacionados com as finalidades essenciais das entidades imunes”.

Ou seja, essa decisão de que importar pedra sagrada não precisa pagar imposto, pode abrir caminho para outras importações religiosas talvez mais valiosas do que pedras, desde que sirvam à missão da igreja. A porta foi aberta. Se Lula decidir dar mais alguns favores aos evangélicos, poderemos falar numa evangelização do STF, mesmo porque, embora não sendo evangélico, o mais recente ministro Cristiano Zanin vem se revelando conservador como os evangélicos, reforçando posições retrógradas e poderá travar aberturas esperadas pela esquerda.

Isso é bastante sintomático, ou seja, em poucos dias como ministro, a imprensa de esquerda e mesmo centro esquerda está assustada, pois Zanin terá pela frente uns 25 anos como ministro. Zanin preocupa os líderes de movimentos sociais petistas, que se sentem traídos, depois dos votos do novo ministro contra a equiparação da homotransfobia ao crime de injúria racial, contra a esperada descriminalização do porte de maconha para consumo pessoal e contra o princípio da insignificância para furtos de pequeno valor. Jurista experimentado na advocacia, Zanin parece mais fiel ao teor e letra da lei que à aplicação social da lei, lembrando nisso o rigorismo do inspetor Javert de “Os Miseráveis”.

A esperança agora é a indicação de uma mulher negra, porém desde que não seja evangélica porque isso poderia significar mais um reforço dos conservadores e criaria problemas em questões relacionadas com SGBT, aborto e igualdade racial.

 

       Flavio Dino defende Lula e Zanin de ataques

 

O ministro da Justiça, Flávio Dino (PSB), disse nesta quinta-feira (31) que as críticas feitas ao ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Cristiano Zanin são injustas.

Indicado pelo presidente Lula (PT), Zanin vem sendo criticado por juristas e políticos por suas posições tidas como conservadoras.

“Há uma incompreensão política nas análises. O nosso governo liderado pelo presidente Lula não é de esquerda, é um governo que expressa maioria democrática. Cristiano Zanin se insere nesse conceito de maioria democrática? Sim, claro. Significa dizer que em dezenas de votos, quem sabe centenas, não haverá um afinamento no que ele vota e as teses da esquerda. É muito cedo para julgar, é muito cedo para avaliar em um mês o desempenho de um ministro do Supremo”, disse em entrevista à GloboNews.

Segundo o ministro da Justiça, Zanin “nem sempre vai votar de acordo com uma consulta de Facebook”.

“Então, tem aspectos que ele votou com o qual eu não concordo e há outras que as críticas são até injustas, por exemplo, das guardas municipais, ele disse o que está na lei”, acrescentou.

Uma resolução do diretório nacional do PT divulgada nesta quarta-feira (30) mandou um recado velado para o novo ministro do STF.

Um trecho do texto, proposto pela presidente do partido, Gleisi Hoffmann, faz referência elogiosa a uma série de decisões recentes tomadas pela corte, mas que tiveram oposição do ex-advogado de Lula.

“No momento em que o Supremo Tribunal Federal deve retomar o julgamento do marco temporal, manifestamos a expectativa de que a Suprema Corte reafirme os direitos dos povos indígenas, como ocorreu em decisões anteriores. Esta expectativa de uma atuação em defesa da civilização é reforçada por recentes decisões e avanços do STF neste sentido”, diz a resolução.

Após a entrevista de Dino, nesta quinta-feira, o ministro Zanin votou de maneira contrária ao marco temporal para demarcação de terras indígenas, se alinhando, desta vez, com posicionamento comum aos apoiadores de Lula.

Também na entrevista, Dino também falou sobre a possibilidade de ser o próximo ministro do Supremo indicado pelo presidente Lula.

“Ser lembrado é uma honra, mas eu sempre soube que não existe candidatura e campanha para ser ministro do Supremo. Então, eu não sou candidato, estou focado na minha missão e não faço campanha. Se o presidente da República um dia propuser o debate, eu vou pensar. Até hoje nunca tocou no assunto comigo”, disse.

 

       Zanin mostra que apressado come cru. Por Eduardo Guimarães

 

Foi uma gritaria. Nem meia-dúzia de votos do recém-indicado ministro do STF, Cristiano Zanin Martins, bastaram para que um desses linchamentos virtuais descerebrados eclodisse com a força de um furacão.

Os apressados, os desatentos e os mal-intencionados se uniram em uma gritaria desnecessária contra o novo ministro e contra o presidente Lula. Além da estultice, ainda colaboraram com uma extrema-direita que vibrou com esse hábito de certa esquerda de imolar a si mesma achando que está abafando.

Remember 2013...

"Os votos do ministro Zanin, na seara trabalhista, foram excelentes. absolutamente técnicos e na direção correta, afirma o advogado Luís Carlos Moro, do Moro & Scalamandré Advocacia, referência em direito do trabalho", escreve a sempre atenta Mônica Bergamo.

Detalhe: nada que ver com o outro Moro, o Sérgio, de triste memória.

Ora, tanto criticamos (acertadamente) Nunes Marques e André Mendonça, os vinte por cento de Bolsonaro no STF, por atuarem milimetricamente de acordo com o capo da quadrilha fascista e, agora, queremos que Zanin seja um robô de Lula?

Há, ainda, mais um teste para o novo ministro do Supremo: o Marco Temporal. Pode ser que ele vote contra a população indígena? Até pode, ainda que seja improvável. Se o fizer, aí haverá motivo mais sério para preocupação.

Só que é improvável. Seria um golpe muito duro para a população indígena e colocaria o novo ministro ao lado do colega "terrivelmente evangélico", produto da mente doentia do chefe da orcrim bolsonarenta. Zanin precisará de muita ginástica retórica para justificar.

Antes disso, porém, a prudência e a inteligência exigem cautela. Até para não levar água ao fétido moinho da extrema-direita, que já ganhou um presentaço da esquerda camicase há exatos dez anos e dois meses.

 

Fonte: Observatório da Imprensa/FollhaPress/Blog da Cidadania

 

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