sábado, 2 de setembro de 2023

Régis R. Primo da Silva: Quem são os responsáveis pela polarização política?

Nos últimos anos, a ciência política tem se dedicado bastante a estudar as causas da polarização política. O fenômeno da polarização é mundial e parece crescer a cada dia, sendo hoje um dos maiores obstáculos ao fortalecimento da democracia e à paz.

O cidadão comum, que participa do debate público nos encontros do dia a dia e nas redes sociais, também está preocupado com a polarização política. Mas ele não precisa da ciência política para concluir que o grande responsável pela polarização é o “outro”, isto é, seu adversário político. A verdade é que o debate sobre as causas da polarização está, também ele, polarizado. De um modo geral, a esquerda culpa a direita, a direita culpa a esquerda, e os centristas culpam ambas – esquerda e direita.

Cass Sunstein, professor de Direito em Harvard, apresenta, porém, uma perspectiva diversa. Para ele, quando pessoas com ideias políticas semelhantes reúnem-se em grupos e conversam entre si, elas se tornam mais extremistas em suas posições políticas e mais intolerantes com quem pensa diferente.

A afirmação parece contraintuitiva, mas é o que algumas evidências mostram. Há algum tempo, Sunstein conduziu, com alguns colegas, um pequeno experimento na área da democracia. Eles reuniram 60 cidadãos americanos, os dividiram em grupos de 6 pessoas, e os membros de cada grupo foram convidados a deliberar sobre questões como uniões civis entre casais do mesmo sexo, ações afirmativas e aquecimento global. Como o experimento foi planejado, foi possível separar os grupos em “liberais” e “conservadores”. Sunstein e seus colegas primeiro pediram às pessoas que declarassem suas opiniões individual e anonimamente. Depois, as mesmas pessoas deveriam discutir essas questões com seu grupo e, em seguida, adotar um veredito público. Por fim, os participantes do experimento fariam suas declarações anônimas finais como indivíduos.

Concluído o experimento, os resultados foram perturbadores: segundo Sunstein, “em quase todos os grupos, seus membros acabaram adotando posições mais radicais depois de falarem uns com os outros”. Sunstein também notou que o experimento tornou os grupos liberal e conservador mais ideologicamente homogêneos, sufocando, assim, a diversidade interna. A conclusão de Sunstein é que a discussão interna nos grupos ajudou a ampliar a divisão entre liberais e conservadores.

A gravidade disso reside no fato de que, a cada minuto, esse pequeno experimento está sendo reproduzido nas mídias sociais e em muitos países. No Twitter, por exemplo, ao seguir pessoas que pensam como você, e ler o que elas têm a dizer, caro leitor, provavelmente você se tornará mais inflexível em sua posição. E isso sem sequer notar a mudança.

Um dos antídotos sugeridos por Sunstein contra a polarização é assegurar que os cidadãos sejam expostos a ideias, argumentos e narrativas as mais diversas. O problema está em como fazer isso, já que as plataformas de mídia social criam para seus usuários experiências personalizadas. Diariamente, somos submetidos a notícias, artigos, vídeos e postagens que adotam pontos de vista semelhantes aos nossos. Com isso, em vez de termos nossa visão de mundo desafiada, ela é cada vez mais reforçada. Logo, no mesmo passo em que nos sentimos mais confiantes em defender nossos pontos de vista, mais nos tornamos desconfiados e intolerantes com quem pensa diferente de nós. O pluralismo de ideias, um dos pilares da democracia, cede lugar ao fanatismo, e nossos interlocutores já não são vistos apenas como rivais no campo das ideias, mas como inimigos malvados a serem eliminados.

Um outro desafio à polarização é que não basta sermos expostos a opiniões diversas, dentro e fora dos nossos grupos ideológicos. Sem a disposição para ouvir, e a empatia para encarar o interlocutor rival como alguém de boa-fé, isso de nada adianta. Como esperar que haja diálogo genuíno, se estamos cada vez mais raivosos e certos das soluções que propomos para os problemas do mundo?

Uma terceira dificuldade é o narcisismo moral que tem se tornado hegemônico no século XXI. As pessoas já não são consideradas boas por aquilo que elas fazem: por serem gentis, pacificadores, ajudarem os necessitados, cultivarem o perdão, servirem ao próximo etc. Hoje, alguém é reconhecido como “bom” se professa determinada crença e manifesta essa crença em suas redes sociais. Alguém pode ser um péssimo pai, um profissional preguiçoso e um cidadão presunçoso e arrogante e, ainda assim, poderá ser reconhecido como “bom” se tiver as ideias “certas” (aprovadas por seu grupo) sobre as questões polêmicas do mundo moderno e as expressar publicamente: já não somos julgados por nossas virtudes e vícios, mas pelas opiniões que professamos. A polarização é também um efeito do narcisismo moral do mundo contemporâneo.

Não é fácil sair da situação em que nos encontramos. As redes sociais nos tornaram mais agressivos e hostis. São cada vez mais comuns, em debates pela internet, os ataques pessoais e os insultos. Julgamos tudo e todos, reagindo quase sempre instantaneamente a qualquer notícia ou postagem, sem pausa para checagem e reflexão. Substituímos a dúvida metódica pela certeza dogmática, e o silêncio prudente pelo ruído interminável da lacração e do cancelamento.

O filósofo italiano Norberto Bobbio tinha sua receita para o debate público: “avaliar todos os argumentos antes de se pronunciar, controlar todos os testemunhos antes de decidir, e não se pronunciar e nunca decidir à maneira de oráculo do qual dependa, de modo irrevogável, uma escolha peremptória e definitiva”. Mas Bobbio faleceu há quase 20 anos, e o diálogo verdadeiramente genuíno está fora de moda.

Amós Oz, escritor israelense, propôs como remédio para o fanatismo o senso de humor e a curiosidade. Humor é a habilidade de rirmos de nós mesmos, dizia Oz, e, dificilmente, alguém que ri de si mesmo se torna fanático. A curiosidade, para Oz, é a virtude que faz com que nos coloquemos no lugar do outro e nos abramos a novas perspectivas. Um curioso fanático simplesmente nunca existiu.

Infelizmente, a polarização está longe de acabar, pois sequer percebemos que somos nós mesmos que a alimentamos diariamente. Continuamos a acreditar que o inferno é sempre o outro. Tudo poderia, porém, ser muito diferente se começássemos reconhecendo que não precisamos ir além do nosso próprio coração para encontrar a fonte de toda a violência no mundo. Quem sabe essa pequena verdade nos fizesse despertar do sono da razão e pudesse ser o remédio eficaz de que a democracia e a paz tanto necessitam.

 

Ø  O governo Lula não é de esquerda. Por Luís Nassif

 

Com sua objetividade fulminante, o Ministro Flávio Dino descreveu o governo Lula:

# Não é um governo de esquerda.

E não se interprete a definição apenas na composição do Ministério. Lula não é de esquerda, se se entender como liderança política preocupada com mudanças estruturais na vida nacional. Não é um estadista na acepção do termo – o político que muda, que molda o Estado para os novos tempos. É um reformador, um pacificador, com certeza.

Nem no auge de sua popularidade ousou investir contra os pilares do conservadorismo nacional, mídia, mercado, Justiça e Forças Armadas. Menos agora, em uma posição politicamente mais vulnerável.

Daqui até o final do seu governo, sua preocupação maior será reunificar o país, depois da divisão de ódio que passou a imperar após a era Roberto Civita-José Serra culminando com o governo militar de Jair Bolsonaro. É uma tarefa monumental, essencial para espanar para sempre o fantasma da ultra direita que invadiu a política mundial.

A partir dessa estratégia se entendem alguns pontos.

Todos os fatores de atrito com o sistema serão trabalhados. Isso passa por jogar para segundo plano a imprensa alternativa, especialmente a que se dedicou ao embate frontal com a mídia; os movimentos de busca e reparação de desaparecidos; praticar uma política econômica ortodoxa, entre outros.

A lógica é simples. Quem é de esquerda, tem que apoiar. O segmento a ser conquistado é a direita liberal, são pactos com o setor produtivo, acenos às Forças Armadas, visando reduzir o principal mote do discurso golpista, o de que Lula pretenderia transformar o país em uma Venezuela, uma Cuba e outras bobagens.

Quando o Ministro da Fazenda Fernando Haddad fala em taxa de juros neutra, PIB potencial, assimilando todos os tics do mercado financeiro, e notas nos jornais especulam sobre embates internos com o governo, em torno de controle de gastos, está em curso a estratégia: é mercado e desenvolvimentistas se alinhando em torno de dois braços do mesmo tronco.

Em outra frente, vai abrindo espaço para movimentos sociais se institucionalizarem, tudo dentro dos parâmetros legais.

Quadro mais complexo é o dos crimes militares, na ditadura e no período Bolsonaro. Ontem, mães de desaparecidos foram à frente do Palácio do Alvorada tentar ser recebidas por Lula. Foram recebidas pela PM de Brasília, que ordenou que se retirassem, conforme reportagem de Leonencio Nossa no Estadão.

Foi um encontro de coincidência e simbolismo. Na manhã desta quinta-feira, 30, um grupo de familiares de vítimas da ditadura militar chegou à Praça dos Três Poderes para cobrar respostas do governo sobre os desaparecidos políticos quando se deparou com o ensaio da banda de fuzileiros navais. Havia uma data especial para a manifestação. As Nações Unidas instituíram 30 de agosto como Dia Internacional das Vítimas de Desparecimentos Forçados.

Homens da Polícia Militar do Distrito Federal apareceram para pedir que o grupo se retirasse. Horas depois, o Palácio do Planalto mandou um assessor da Secretaria-Geral à praça. Com um broche do rosto do presidente Lula na lapela, Cândido Hilário Garcia Araújo, o Bigode, recomendou que os familiares se organizassem em associação se quisessem ser recebidos pelo presidente. “É fácil ele ir à Argentina abraçar as Mães de Maio. Difícil é vir aqui”, respondeu Maria Mercês, irmã do guerrilheiro Antonio Teodoro, o Raul, do Araguaia. Ela referia-se ao encontro de Lula com mães e avós dos mortos da ditadura argentina, em janeiro, numa visita a Buenos Aires.

No esforço de dizer que o presidente estava sensível à pauta sobre a ditadura, o assessor lembrou, como se esperasse elogios, que o governo tinha reaberto a Comissão de Anistia, que avalia indenizações para quem foi atingido pela ditadura.

Os familiares dos mortos pela ditadura, no entanto, não estavam na praça para pedir dinheiro. Queriam apenas informações sobre os corpos de seus familiares. “Liberou a Anistia e não assinou a nossa. Isso é um desaforo do tamanho do mundo”, reclamou Eliane de Castro, também irmã de Raul, da família que se recusou a receber indenização do Estado. “Um monte de cabeça branca vem para cá e ninguém move um dedo. Só vem a polícia nos receber”, disse. “Ele (Lula) só perde com isso.”

É o preço da realpolitik. Daqui a três anos e meio se saberá se toda essa ginástica resultou em um país mais democrático e unido, ou em editoriais dos atuais jornais aliados justificando a falta de resultado como argumento para um novo impeachment. Mesmo sabendo-se que, na história do país, com exceção de JK, nunca houve um presidente tão arraigadamente democrático quanto Lula.

 

Fonte: Jornal GGN

 

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