segunda-feira, 4 de setembro de 2023

Patriotismo e nervos à flor da pele: a vida em Moscou após 18 meses de guerra na Ucrânia

O passado imperial da Rússia paira sobre Moscou. As muralhas e torres do Kremlin fazem os visitantes se sentirem como pequenos pontinhos na Praça Vermelha.

A 8 km de distância, tenho uma sensação semelhante quando vou ao Parque da Vitória. É um amplo complexo de museus e memoriais construídos para comemorar a vitória da União Soviética sobre a Alemanha nazista.

O ponto central é uma enorme praça com um obelisco de 141,8 m de altura — 10 cm para cada dia da "Grande Guerra Patriótica", como os soviéticos chamaram sua participação na Segunda Guerra Mundial após a invasão nazista.

Quando visito o parque, é o Dia Nacional da Bandeira Russa. Uma enorme bandeira tricolor — supostamente, a maior do país — está sendo desenrolada na praça.

Cercada por formações disciplinadas de soldados russos, a bandeira é estendida enquanto uma banda militar toca músicas patrióticas. O diretor de um museu faz um discurso, sublinhando que tais ocasiões “unem o nosso povo”.

O Kremlin tem estimulado mais ativamente eventos patrióticos como estes desde a invasão em grande escala da Ucrânia.

Dentro do próprio Museu da Vitória encontro uma exposição dedicada aos “heróis” da “operação militar especial”. Painéis informativos comparam as tropas russas que lutam na Ucrânia com os soldados soviéticos da Segunda Guerra Mundial.

Andrei Afanasiev, um blogueiro pró-Kremlin e professor universitário, topa se encontrar comigo. Ele me diz que o patriotismo é mais importante durante a guerra e que aquilo que ele chama de “guerra do Ocidente contra a Rússia” fez os russos perceberem que estão por conta própria.

"Você só pode confiar em si mesmo, no seu país e no seu exército. Definitivamente, o patriotismo é maior do que era antes. A guerra nos mobiliza e nos une", diz ele.

Eu pergunto a Andrei se ele acha que a guerra está indo mal para a Rússia.

“Eu não diria [isso]”, ele responde. "Acredito no sucesso da Rússia. Estamos prontos para a vitória."

Na TV estatal russa, fala-se também de “sucessos” e “progressos”, mas a realidade é diferente, diz-me um analista de questões militares que prefere não se identificar.

"Os militares russos entendem que estão numa situação grave. Eles perderam território... A moral não está muito alta".

"Eles não estão preparados para a guerra moderna. As perdas são grandes."

Pergunto se o presidente diz a verdade sobre a situação real no campo de batalha. Claro que não, o analista responde.

"As mentiras estão em toda a cadeia de comando. À medida que a informação sobe, ela se torna cada vez mais distorcida."

Para o analista, os oficiais russos na Ucrânia estão "nervosos" com a contraofensiva de Kiev, porque sabem que suas forças "estão apenas suportando".

Não são apenas os militares russos que estão ansiosos. A sensação que tenho em Moscou é de nervosismo geral. E, realmente, há muito com que se preocupar.

Em junho, Yevgeny Prigozhin lançou um motim e marchou para a capital. Dois meses depois, o líder do grupo mercenário Wagner foi registrado como um dos mortos em uma misteriosa queda de avião, levando a acusações de envolvimento do Kremlin.

No início deste mês, o valor do rublo despencou. Acrescente-se a isso os ataques de drones a Moscou, que se tornaram uma ocorrência quase diária.

Embora os russos não pareçam preocupar-se individualmente com estes acontecimentos, muitos admitem estar preocupados com o presente, bem como temerosos em relação ao futuro.

A cena no Parque Gorky — a versão moscovita do Hyde Park de Londres — é idílica, com famílias passeando na beira d'água e andando de patins. Em frente, porém, está o imponente edifício cinzento do Ministério da Defesa russo, no topo do qual está um sistema de defesa aérea.

É um contraste impressionante: um sistema de mísseis superfície-ar próximo a um parque com lindas imagens.

Uma mulher, Irina, diz que não se incomoda muito com a presença de mísseis no centro da capital da Rússia.

"Meu humor está estável, meu psicológico já se adaptou. O auge da minha preocupação já passou. Mas espero que tudo se resolva da melhor maneira."

Pavel está caminhando com sua esposa Olga. Eles discordam sobre a guerra na Ucrânia. Olga apoia o Kremlin e acredita que tudo é culpa da Ucrânia, enquanto o seu marido diz que a culpa é da Rússia.

“Preocupo-me com a possibilidade de os drones caírem sobre Moscou”, admite Pavel.

"Mas decidimos que não falaríamos sobre política, para não discutirmos e provocarmos um ao outro."

Muitas pessoas parecem relutantes em pensar no que está acontecendo nas cidades e vilas da Ucrânia — que estão a menos de um dia de carro.

Há poucos indícios da “febre de guerra” entre os moscovitas, apesar do que diz Andrei Afanasiev. Pouquíssimas pessoas andam pelas ruas com roupas que exibem a letra Z ou outros símbolos pró-Rússia. Entre a maioria, há indiferença, resignação ou aceitação mansa.

Este estado de espírito também prevalece entre muitos dos que estão nos corredores do poder, segundo uma fonte próxima do Kremlin que falou comigo sob condição de anonimato.

"Os funcionários da administração presidencial ou estão reprimidos ou deprimidos. Trabalham lá há tantos anos que não sabem mais nada. São pessimistas quanto ao futuro, mas apenas seguem o fluxo. Não há outra escolha", diz a fonte.

Ele me disse que as pessoas têm medo de se colocar: “Não há oposição a Putin no Kremlin”.

O medo é profundo em Moscou. Numa pequena sala escondida no topo de um centro comercial, está ocorrendo uma reunião de ativistas da oposição. Eles prepararam uma mesa com biscoitos, salgadinhos e bebidas.

Yulia Galyamina, uma política local que faz parte de um pequeno grupo de figuras da oposição que não foram presas ou forçadas a fugir da Rússia, lidera o encontro.

“Toda semana alguém é preso”, ela suspira. "Estou sempre pronta para alguém bater à porta. Sinto-me sozinha, mas penso que faço a coisa certa. O meu povo precisa de ter políticos no seu país."

Alguns dos ativistas relutam em revelar os seus nomes verdadeiros.

“Sou uma ativista antiguerra que tem sorte de ainda não estar na prisão”, diz uma delas, também chamada Yulia.

Ela deixou a universidade depois que vários professores expressaram apoio à operação militar do Kremlin. Pergunto-lhe que mensagem ela tem para as pessoas no Ocidente que pensam que todos os russos apoiam a guerra.

"Quero dizer que há muitas pessoas antiguerra aqui, ativistas antiguerra... a humanidade vencerá de qualquer maneira. Estamos lutando aqui e faremos o nosso melhor."

<><> Rússia homenageia vítimas de ataque terrorista em Dia da Solidariedade na Luta contra o Terrorismo

Uma escola na cidade de Beslan, no sul da Rússia, foi atacada por terroristas em 2004, que fizeram reféns centenas de pessoas dentro das instalações. Mais de 300 morreram durante o atentado.

Uma ação em memória das vítimas de um ataque terrorista de 2004 está sendo realizada neste domingo (3) em Moscou e na Ossétia do Norte e do Sul.

O ataque, que aconteceu em 1º de setembro desse ano, e durou até 3 de setembro em uma escola de Beslan, na república da Ossétia do Norte-Alânia, é assinalada com uma cerimônia de colocação de flores no monumento às vítimas na capital russa, a partir das 12h15, no horário de Moscou (06h15, no horário de Brasília). Os presentes honraram sua memória com um minuto de silêncio. Como tradição, 334 balões brancos foram lançados ao céu, para lembrar o número de vítimas mortais.

"[Há] 19 anos [aconteceu] uma tragédia terrível: desde bebês até idosos [morreram]. A proeza e o heroísmo das forças especiais, que sofreram as maiores perdas na história de suas operações. A crueldade dessas pessoas desumanas, o comportamento desumano, os enormes sacrifícios. E mesmo depois de tantos anos, a dor física diminuiu, mas a dor mental nunca diminuirá", disse Igor Barsukov, vice-premiê e representante plenipotenciário da república da Ossétia do Norte-Alânia junto da Presidência russa.

Na manhã de 1º de setembro de 2004, um grupo integrado por mais de 30 terroristas invadiu a Escola Nº 1 em Beslan durante uma assembleia festiva. Os terroristas forçaram mais de mil reféns, incluindo crianças pequenas, a ficar no ginásio esportivo da escola. As pessoas foram mantidas à força na escola por três dias, sem água ou comida.

Por volta do meio-dia de 3 de setembro, um carro com quatro funcionários do Ministério para Situações de Emergência chegou ao prédio da escola para buscar os corpos dos homens mortos pelos terroristas. Nesse momento, foram ouvidas explosões na escola, em seguida houve um tiroteio indiscriminado dos dois lados, e crianças e mulheres começaram a pular pelas janelas e pela brecha na parede do ginásio.

Entre as 334 vítimas da tragédia estavam 318 reféns, 186 dos quais eram crianças. Também morreram dez agentes das Forças Especiais do Serviço Federal de Segurança (FSB, na sigla em russo) da Rússia, dois funcionários do Ministério para Situações de Emergência e 15 policiais. Um total de 810 reféns, forças especiais do FSB, policiais e militares ficaram feridos em resultado do evento.

Desde 2005 que o Dia da Solidariedade na Luta contra o Terrorismo é comemorado na Rússia. Na Ossétia do Norte, de 1º a 3 de setembro, são assinalados três dias de luto, enquanto na própria cidade de Beslan, o início do ano letivo é adiado por três dias por causa do luto.

 

Ø  Forças russas utilizam na Ucrânia novos mísseis antiaéreos que evadem armadilhas térmicas, diz fonte

 

Os militares russos estão usando na zona da operação militar especial novos mísseis antiaéreos guiados 9M333 que não reagem às armadilhas térmicas usadas pela Força Aérea da Ucrânia, disse uma fonte à Sputnik.

O míssil 9M333 faz parte do sistema de mísseis antiaéreos Strela-10M3 e tem uma ogiva teleguiada multiespectral que permite distinguir o verdadeiro alvo do alvo térmico falso.

"A experiência de utilização do 9M333 na zona de operação militar especial mostra que o míssil resiste muito bem às interferências, em particular às armadilhas de calor, contornando-as e atingindo o alvo. Em oito casos de cada dez, o míssil atinge o alvo durante a colocação pelos meios aéreos do adversário de armadilhas térmicas, ou seja, em 80% dos casos. Este é um ótimo indicador de eficiência", explicou o interlocutor da agência.

Segundo ele, com a ajuda do 9M333 na zona da operação especial são atingidos com sucesso helicópteros e aviões das Forças Armadas da Ucrânia, em particular os aviões de ataque ao solo Su-25. Além disso, o míssil derruba drones com dimensões de um a um metro e meio.

Utilização de alvos térmicos falsos é um método padrão para as aeronaves de combate se defenderem contra mísseis antiaéreos com ogivas teleguiadas de infravermelhos.

Produzido pelo consórcio Kalashnikov, o 9M333 destina-se à destruição em qualquer época do ano de aviões e helicópteros voando em baixa altitude, bem como aeronaves pilotadas remotamente e mísseis de cruzeiro em condições de aplicação de interferências ópticas. O míssil pode atingir alvos a uma distância de até cinco mil metros, com velocidade dos alvos de até 680 metros por segundo e uma altura do voo de dez a 3,5 mil metros.

 

Ø  Ex-presidente da Rússia: Japão está se militarizando ao lado dos EUA, esqueceu Hiroshima e Nagasaki

 

Dmitry Medvedev falou, em uma cidade russa do Extremo Oriente, sobre a atual política do Japão, criticando suas autoridades por estarem "seguindo uma política de nova militarização do país".

O Japão está seguindo uma linha de nova militarização, se esquecendo da tragédia de 1945, disse Dmitry Medvedev, vice-presidente do Conselho de Segurança da Rússia, em declarações publicadas no domingo (3) no Telegram.

"É lamentável que as autoridades japonesas estejam seguindo uma política de nova militarização do país, elas se tornaram herdeiras daquele Japão que uma vez teve um fim inglório. Em sua adoração pelos Estados Unidos, elas se esqueceram há muito tempo da tragédia de centenas de milhares de concidadãos que arderam vivos em chamas nucleares e foram envenenados pela radiação por muitas gerações", disse no domingo (3) Medvedev.

Ele falava em Yuzhno-Sakhalinsk, no sul da ilha de Sacalina, Extremo Oriente da Rússia, por ocasião do Dia da Vitória Sobre o Japão Militarista e o Fim da Segunda Guerra Mundial, que é comemorado em 3 de setembro.

O alto responsável russo referiu que o Japão também está suspendendo as restrições, adotadas após a Segunda Guerra, "às chamadas Forças de Autodefesa e às operações militares no exterior".

"Vemos tentativas constantes de reescrever a história, justificar crimes de guerra, encobrir seus autores e, tal como em meados do século passado, dar apoio a mais um regime nazista, desta vez, infelizmente, na Ucrânia", apontou Medvedev.

Segundo Medvedev, "o Japão deve aprender as lições da história e reconhecer plenamente os resultados da Segunda Guerra Mundial, fazer todo o possível para evitar que o fogo de uma terceira guerra se acenda e abandonar seus planos militaristas em prol de seu próprio povo".

Na opinião de Dmitry Medvedev, ao bombardear as cidades japonesas, "os Estados Unidos só queriam demonstrar suas próprias ambições imperiais e força bruta".

"Os Estados Unidos da América estão prontos para agir agora da mesma forma, quando, pelas mãos de seus vassalos, estão travando guerras híbridas em todos os continentes do mundo, em particular na Ucrânia", disse Medvedev.

Em agosto de 1945, aviões estadunidenses lançaram bombas atômicas sobre as cidades chinesas de Hiroshima e Nagasaki. Como resultado da explosão atômica e das suas consequências, em Hiroshima morreram 140 mil pessoas (de uma população de 350 mil). Outras 74 mil pessoas em Nagasaki também se tornaram vítimas mortais do bombardeio nuclear. Os civis constituíam a maioria esmagadora dos mortos.

 

Fonte: BBC News Moscou/Sputnik Brasil

 

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