30 anos do PCC: cúpula ostenta luxo enquanto “tropa” vive em muquifo
Quem está no alto da hierarquia do PCC e não segue
preso leva uma vida de luxo. Com remunerações de cinco dígitos e polpudas
comissões por serviços prestados ao narcotráfico, a elite da organização
criminosa vive em mansões, acumula patrimônio e circula entre ricaços no Brasil
e no exterior.
Já a realidade da maioria dos 100 mil
“colaboradores”, dos quais 40 mil são “batizados” pela facção, é inversa. Os
ganhos são modestos. Os riscos, altos. Até criminosos que ocupam algum posto de
chefia moram literalmente nas ruas ou habitam muquifos infestados por baratas.
“O
dividendo, o dinheiro do PCC, está na mão de poucos. Para a massa carcerária,
só tem ônus. Eles saem da cadeia como soldado, em uma função rasa, e nunca vão
atingir o topo”, diz o promotor Lincoln Gakiya, do Ministério Público de São
Paulo (MPSP), que investiga a facção há 18 anos.
Para o criminoso da base da pirâmide, os benefícios
oferecidos pelo PCC se resumem a ajuda de custo para comprar cesta básica e
passagens de ônibus, que vai pingando de cidade em cidade, caso a família
precise visitá-lo na cadeia.
As chances de ascensão são remotas. Os chefões
máximos, encarcerados no sistema federal, são praticamente os mesmos desde 2002
– quando Marcola tomou o PCC. É ele e mais cinco. Nas ruas, onde há maior
rotatividade de cargos, a escalada na hierarquia dificilmente se concretiza. O
comum é o colaborador ser preso ou assassinado.
O caso de Odair Lopes Mazzi Júnior, o Dezinho,
ilustra bem o que ocorre dentro do PCC. O traficante demorou quase 20 anos para
galgar a hierarquia do PCC, coordenar parte da expansão para a América Latina e
usufruir do dinheiro do narcotráfico.
Entre os bens atribuídos a Dezinho, está uma mansão
de 600 m², com cinco suítes e seis vagas de garagem, em Alphaville, na Grande
São Paulo. O imóvel é avaliado em R$ 3,6 milhões. O traficante também estaria
por trás de comércios em Moema, bairro de classe média alta da capital
paulista.
Patrimônio
de líderes
Chefes do PCC vivem luxuosamente ou proporcionam
uma vida de ostentação às suas famílias. Investigações já ligaram uma série de
bens a lideranças
>> Marcola
• Mansão
em Alphaville (SP)
• Avião
particular (bimotor)
• Estudos
da filha bancados na Austrália
>> André do Rap
• Lancha
• Helicóptero
• Mansão
em Angra dos Reis (RJ)
>> Gegê do Mangue
• Mansão
em Aquiraz (CE)
• Casa
de luxo no Eusébio (CE)
• Apartamento
de 232 m² em Fortaleza (CE)
>> Dezinho
• Mansão
em Alphavile (SP)
• Apartamento
no Panamby (SP)
• Viagens
internacionais
No caso da cúpula do PCC que está encarcerada, como
Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, a vida de alto padrão é desfrutada
pelos familiares. Em agosto de 2021, a esposa do número 1 da facção, Cynthia
Giglioli Herbas Camacho, de 46 anos, deu entrada no centro cirúrgico do Albert
Einstein, hospital de ponta em São Paulo, famoso por atender celebridades, como
Pelé e Faustão. Foi fazer uma rinoplastia, cirurgia para remodelar o nariz.
Sem convênio médico, a mulher de Marcola pagou R$ 8
mil, redondos, de forma antecipada. A conta deu R$ 13.098,89. Como a dívida
nunca foi quitada, o hospital enviou cobrança ao endereço que a própria Cynthia
informou no contrato: um prédio à beira-mar em Santos, no litoral paulista. O
calote foi parar na Justiça, em abril de 2023.
Uma casa de luxo em Alphaville, na Grande São
Paulo, também é ligada à família de Marcola. O MPSP estima que o imóvel, alvo
de operação policial em 2022, valha pelo menos R$ 10 milhões. No mesmo ano, um
salão de beleza da esposa de Marcola teve R$ 479 mil bloqueados das suas
contas, por suspeita de lavagem de dinheiro. A família nega ter bens de origem
ilegal.
Há mais de 15 anos, durante depoimento à CPI do
Tráfico de Armas, no entanto, Marcola foi questionado sobre como pagava seus
advogados e admitiu ter enriquecido ilicitamente com roubos a bancos. “O senhor
já viu meus crimes? Já viu os valores?”, disse ele. “Quinze milhões em um, 10
milhões em outro, quer dizer…”
Em 30 de agosto de 2023, a Polícia Federal
deflagrou a Operação Pactolo para reprimir o tráfico de cocaína, a partir do
Porto de Santos, o negócio mais lucrativo do PCC. Os investigadores conseguiram
na Justiça o bloqueio de 12 bens imóveis, como contas bancárias e apartamentos
de luxo. Ao todo, o patrimônio foi avaliado em R$ 2,8 bilhões. Os nomes dos
envolvidos não foram divulgados.
A Baixada Santista é berço do traficante
internacional André de Oliveira Macedo, o André do Rap, acusado de coordenar
esquemas de envio de droga para a Europa. Ele foi capturado em uma mansão em
Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, em 2019.
André do Rap se apresentava como agente de artistas
e jogadores de futebol. Para pegá-lo, investigadores rastrearam uma lancha, que
custou R$ 6 milhões, registrada no nome de uma empresa fantasma, com sede em um
casarão abandonado de Santos.
O traficante não ficou muito tempo atrás das
grades. Ele voltou às ruas, beneficiado por um habeas corpus concedido pelo
ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), em outubro de
2020. A soltura foi revogada e, desde então, André do Rap é caçado pela
polícia. Mesmo foragido, conseguiu reaver seus bens, que incluem uma mansão e
um helicóptero.
Para ocultar bens, diretores do PCC registram suas
propriedades em nome de laranjas. O promotor Lincoln Gakiya avalia que o maior
obstáculo é conseguir provar na Justiça que o patrimônio pertence, de fato, ao
criminoso – ainda que não seja condizente com a renda declarada na Receita
Federal.
“Essa é a dificuldade no Brasil”, afirma o
promotor, responsável por denunciar a célula de lavagem de dinheiro do PCC, em
2020. Nos Estados Unidos, onde máfias estruturadas atuam há mais tempo, cabe ao
declarante demonstrar a origem lícita dos seus bens.
Na outra ponta, os soldados do PCC acumulam
obrigações. Até pouco tempo atrás, eram forçados a contribuir financeiramente
para a máfia. Todos, incluindo os colaboradores não batizados, precisam se
submeter às regras e devem estar 100% disponíveis para executar “missões” – que
vão desde trabalhar nas “lojas” do tráfico a assumir culpa por crimes cometidos
por outras pessoas.
Na sua fundação, em agosto de 1993, a organização
instituiu o “Setor de Cebola”, a caixinha mensal, com preços a serem pagos de
acordo com a situação prisional do colaborador. Esse valor chegou a ser de R$
950 por mês.
A cada dois meses, o “Setor das Rifas” também era
responsável por arrecadar dinheiro dos colaboradores do PCC, com sorteios de
imóveis, carros e motos. Todo integrante era obrigado a comprar 20 números por
premiação. Para cada soldado, o esquema custava R$ 3,6 mil por ano.
Com os lucros bilionários da cocaína e a crescente
insatisfação da massa carcerária, o PCC só teria deixado de cobrar a “cebola” e
a “rifa” em 2020, de acordo com o Ministério Público paulista.
“É dito que [as lideranças] viraram as costas para
o sistema prisional”, afirma Gakiya. “A força do PCC está no sistema prisional,
mas a organização está abandonando a massa carcerária cada vez mais e olhando
só para a rua. O criminoso fala que está esquecido. Eles têm reclamado, eu
mesmo escuto isso.”
• Plano
de carreira
O PCC divide os territórios controlados em áreas,
cada uma com seus chefes. A hierarquia é rígida e tem cadeia de comando
definida.
>> Disciplina:
Criminoso ou grupo que toma conta de um bairro. Ele
cuida para que as regras do PCC sejam cumpridas na ponta da linha. É a primeira
instância da facção.
>> Sintonia Geral:
Criminoso ou grupo responsável por um conjunto de
bairros. Trata-se dos chefes dos disciplinas e corresponde à segunda instância
do PCC.
>> Sintonia Final:
Criminoso ou grupo que administra uma região da
capital paulista ou uma cidade do interior. Terceira instância, responde ao
“Quadro dos 14”, grupo seleto, ou chefes que estão na cadeia.
>> Quadro dos 14:
Elite das lideranças nas ruas, são criminosos
selecionados que concentram as grandes tomadas de decisões. O número varia para
dificultar investigações policiais. Por isso, também é chamado de “Quadro dos
36”. É a instância superior, diretamente ligada à cúpula.
Em territórios controlados pelo PCC, cada
colaborador tem posição bem definida. O primeiro na escala de chefia é o
chamado “disciplina”, responsável por garantir que as regras do PCC sejam cumpridas
em uma comunidade.
O cargo é importante em nível local. Cabe ao
“disciplina” mandar um integrante da organização que é acusado de desvio de
conduta para o “Tribunal do Crime”, ou “Tabuleiro”.
Com métodos cruéis, a justiça paralela do PCC
espanca, mutila e mata desde quem desvia dinheiro a quem é pivô de conflitos
banais. As punições incluem furar os olhos de suspeitos de roubar a
organização, fraturar membros a pauladas e matar por empalamento.
Também há casos de pessoas obrigadas a assumir
crimes que não cometeram e registros de vítimas que abrem a própria cova, onde
são mortas e enterradas em seguida.
Na hierarquia do PCC, o “disciplina” presta contas
ao “sintonia geral”, o responsável por um conjunto de bairros. Este, por sua
vez, deve satisfação ao “sintonia final” – o líder de toda uma cidade ou
região.
A elite dos “sintonias finais”, a chamada “Sintonia
dos 14” ou “Sintonia dos 36”, tem salário entre R$ 10 mil e R$ 20 mil. Esses
altos diretores, todos criminosos de confiança da cúpula, representam menos de
0,03% dos quadros do PCC.
O soldado raso não recebe remuneração fixa. Já um
gerente de região, cargo considerado bem-sucedido dentro do PCC, chega ao
salário de R$ 5 mil, com a responsabilidade de cuidar dos lotes de drogas e
revender no mercado interno.
Na “casa bomba”, o local de trabalho usado para
armazenar entorpecentes, as condições são precárias. Muitas vezes, os
criminosos utilizam equipamentos improvisados, como baldes comuns e
liquidificadores, para produzir e refinar cocaína – o que estraga vira crack.
De lá, as remessas saem para as biqueiras.
Hoje, o PCC permite que um integrante “rasgue a
camisa” – ou seja, peça demissão do grupo criminoso. A exigência é simples: o
ex-membro não pode continuar no crime. Caso contrário, paga com a própria vida.
Se pedir para sair, o tratamento muda, e o
ex-integrante também deixa de ser chamado de “irmão” ou de “companheiro”. No
linguajar do PCC, vira “Zé Povinho”.
Renato César, o Renatinho, de 44 anos, decidiu
entrar na vida do crime cedo. Filho de empregada doméstica, aproveitou que a
mãe passava a maior parte do dia no trabalho e começou a conviver com bandidos
de Sumaré, no interior paulista, onde nasceu.
Aos 14 anos, Renatinho já seguia os passos de um
integrante do PCC na região. “O falecido Agnaldo que me ‘adotou’ na época”,
afirma. “Ele me deu uma mochila e uma arma calibre 38, cano curto. Eu andava
com ela na cintura, vendendo droga.”
Ele foi detido, pela primeira vez, por roubar um
carro. Após várias passagens pela antiga Febem, onde ficavam os menores
infratores, foi parar no Pavilhão 9 do Carandiru, na capital paulista, assim
que atingiu a maioridade.
Segundo relata, Renatinho era companheiro de cela
do serial killer Pedrinho Matador – que seria assassinado a tiros em março de
2023. Também dividia o espaço com Idemir Carlos Ambrósio, o Sombra, liderança
histórica do PCC, de quem aceitou o convite para entrar oficialmente na facção.
“Batizado” em 1997, Renatinho teria chegado ao
posto de “Sintonia Final da 011” – ou seja, chefe na capital paulista. O número
usado para diferenciar as “sintonias” de cada cidade é o mesmo do DDD. Na
época, o PCC era recém-nascido, e a força do grupo se concentrava nas cadeias
paulistas. Em 2001, o criminoso teve um “despertar espiritual” e pediu
demissão.
“Quando eu assumi o Senhor Jesus, estava com várias
responsas [com a facção]. Nessa época, se converter era um ato repudiado e
sentenciado à morte”, diz. “Fui para as ideias, o negócio ficou doido, quase
morri.”
O caso foi debatido por 12 horas no Tribunal do
Crime até que os bandidos concordaram em dar aval para a saída. O motivo da
exclusão de Renatinho ficou anotado no caderno da facção: “Fraqueza”.
Hoje, Renato César é pastor da Assembleia de Deus.
Segundo afirma, ele ainda chegou a passar quatro anos na cadeia após deixar o
PCC. No período, peregrinou por 12 presídios e batizou 322 presos. Desta vez,
para a igreja evangélica.
“Tudo que eu passei foi propósito de Deus, entendi
assim”, diz o pastor. Ao encerrar a conversa com o Metrópoles, fez questão de
citar João capítulo 8 versículo 32: “E conhecerão a verdade, e a verdade os
libertará”.
Preso
que fugiu da Papuda matou sobrinho de PM em “batismo” do PCC
Ítalo Custódio da Cruz, 22 anos, um dos detentos
que fugiram do Centro de Internamento e Reeducação (CIR), na Papuda, na manhã
deste domingo (3/9), é membro do Primeiro Comando da Capital (PCC) e estava
preso por assassinar Denerson Albernaz, 37 anos, sobrinho de um policial
militar do Distrito Federal, durante batismo para entrar na facção.
O homicídio de Denerson ocorreu em 2022 e foi
exigido pelo PCC como uma forma de “batizar” Ítalo na facção. O criminoso
conseguiu escapar da Papuda ao lado de Emerson dos Santos Carneiro, 32, preso
por assassinato e duas tentativas de homicídio em outra ocasião. Os dois serraram
a grade sob o telhado da ala por volta das 7h.
Segundo a Secretaria de Administração Penitenciária
do DF (Seape/DF), autoridades da área de segurança do Distrito Federal estão à
procura dos criminosos.
“Equipes de recaptura da Polícia Penal do DF, com apoio
da Polícia Militar e Polícia Civil, foram imediatamente notificadas e estão
empenhadas na recaptura dos dois custodiados”, informou a Seape.
O Metrópoles apurou que Ítalo estava no Centro de
Internamento e Reeducação desde junho deste ano. Emerson, por sua vez, deu
entrada no CIR em outubro de 2021. Os detentos ocupavam a mesma ala do Bloco 3
da unidade e ambos estavam em regime semiaberto.
As circunstâncias exatas da fuga estão sendo
apuradas. Qualquer informação relevante sobre o paradeiro dos presos deve ser
reportada imediatamente à Polícia Penal do DF, pelo telefone (61) 99666-6000, à
Polícia Militar, pelo 190, ou à Polícia Civil, via 197. A denúncia pode ser
feita de forma anônima.
“Batismo no PCC”
Durante as investigações que precederam a segunda
fase da Operação Sicário, que terminou com Ítalo e outro assassino presos, a
18ª Delegacia de Polícia (Brazlândia) descobriu que a maior facção criminosa do
país recrutava novos soldados no Distrito Federal. A prova de fogo do “batismo”
era a execução de parentes de policiais militares da capital da República.
O recrutamento foi levado à risca pelos candidatos.
Os delinquentes aceitaram a proposta, e o sobrinho do PM foi morto à luz do
dia, na Quadra 58 da Vila São José, em Brazlândia, em 25 de setembro de 2022.
Ítalo e outro envolvido, também integrante do PCC,
foram presos em ação desencadeada no dia 29 de maio.
Fonte: Metrópoles

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