“Não sou tão importante como tentam fazer crer”, diz Carla Zambelli
2023 caminha como ano a ser riscado no calendário
da deputada Carla Zambelli (PL). Entre o agendamento e a realização desta
entrevista, a parlamentar acabara de sair de internação hospitalar, por
diverticulite, virara ré no STF por ter perseguido um homem na véspera da
eleição de 2022 empunhando uma pistola 9mm e teve duas representações no
Conselho de Ética da Câmara pedindo sua cassação por falta de decoro.
Pelas cenas de bangue-bangue, aliás, a ela foi
atribuída boa parte da culpa da derrota pelos apoiadores de Jair Bolsonaro, de
quem fazia parte da tropa de choque — tropa que a ignora desde então.
Ela virou o ano com os perfis em redes sociais
bloqueados por espalhar “desinformação”. Quando conseguiu as contas digitais de
volta, foi multada pelo TSE em R$ 30 mil por atribuir sem provas crimes
financeiros a Lula — e, mais recentemente, teve a quebra dos sigilos fiscal,
telefônico e telemáticos quebrados pela CPI dos Atos Golpistas, após
intermediação do encontro do então presidente Bolsonaro com o hacker da
Vaza-Jato, Walter Delgatti, para tentarem demonstrar fragilidade das urnas
eletrônicas.
No cenário que se desenha, ela pode terminar o ano
com mandato cassado e presa, em pena de estimados quatro anos em regime
semi-aberto. Zambelli nega tudo à ISTOÉ, defende Jair Bolsonaro e joga a culpa
em Lula.
• Deputada,
a senhora acaba de sair de internação hospitalar, foi declarada ré pelo STF e
vivencia situação turbulenta. Pode fazer um balanço do atual momento?
O balanço que faço do atual momento é que saímos de
um governo que pregava a liberdade, a honestidade e o respeito com o dinheiro
público para presenciarmos um governo que zomba da população e que tenta
retomar velhas práticas. A situação turbulenta não é vivenciada só por mim, mas
por todo o Brasil.
• O
ex-presidente Jair Bolsonaro diz que não responde às suas mensagens desde a
eleição. Ele é conhecido por deixar ex-aliados pelo caminho. A senhora acha que
ele a abandonará também?
O presidente sabe que sempre poderá contar comigo.
• A senhora
se sente responsável de alguma forma pela derrota, como os apoiadores do
ex-presidente a consideram, pelo evento com arma de fogo na véspera?
Jamais. Não sou importante como dizem.
• Qual
foi o seu papel na aproximação entre Walter Delgatti e Jair Bolsonaro?
Não há aproximação entre o presidente e Walter.
Houve uma única reunião porque Walter se apresentava como expert em sistema de
informática, afirmando que poderia colocar a teste o sistema das urnas, algo
que era por nós contestado.
• A
senhora teme ser cassada?
A minha atuação como deputada sempre foi enérgica,
com atitude, mas jamais pratiquei qualquer ato imoral ou ilícito.
• Na
Procuradoria-Geral da República a denunciou por porte ilegal de arma, o que a
tornou ré pelo STF. Qual é a sua opinião sobre a denúncia?
Eu fui vítima e, naquela ocasião, acuada por cinco
homens. Agi para detê-los e tentar fazer cessar as ofensas, ameaças e
hostilidades praticadas. Durante o tramitar do processo confio que as acusações
serão elididas e minha inocência, comprovada.
• Sobre
a ação com arma de fogo às vésperas da eleição presidencial, qual é a sua
avaliação hoje? Atualmente repetiria a ação?
Hoje eu chamaria a polícia, justamente para minha
atitude não ser mal interpretada. Repito que é intolerável ser xingada,
ameaçada e receber cusparada por um homem de quase dois metros de altura.
Poucas pessoas sabem que eu somente saquei a arma depois de ouvir um tiro,
olhar para trás e ver o policial que me acompanhava no chão. Isso está
comprovado inclusive em vídeo.
• Bolsonaro
é acusado de ter dado ordens para prejudicar eleitores de Lula no dia da
eleição. A senhora acha que ele sairia vitorioso se a tática tivesse dado
certo?
Desconheço esses fatos, mas vi diversas autoridades
mencionando que isso não teria influenciado ou prejudicado o resultado das
eleições.
• O
ministro Alexandre de Moraes tem sido rigoroso com bolsonaristas na aplicação
da lei. A senhora acha que ele pode pedir a sua prisão?
Eu reitero que não participei de qualquer crime e
sempre tive minha vida pautada pela seriedade, correção e idoneidade. Sei que
minha inocência será reconhecida sobre todas as suspeitas contra mim, mas
sempre estarei à disposição para colaborar com a Justiça e polícia para que
isso seja demonstrado.
• Todos
viram pela TV a destruição da sede dos Três Poderes em 8 de janeiro. Os
ministros do STF e o governo consideram os participantes tanto extremistas
quanto golpistas. A senhora concorda com isso?
Qualquer protesto que contenha vandalismo e
depredações, seja por quem for, deve ser repudiado. Participo de manifestações
de direita há mais de uma década e sempre presenciei um ambiente ordeiro e
pacífico. Espero que a CPMI volte o seu foco para a sua finalidade original:
apurar quem foram as pessoas que iniciaram as depredações. Tudo leva a crer que
naquele fatídico dia 8 havia muitos infiltrados se passando por apoiadores de
Bolsonaro. E espero que os inocentes sejam colocados em liberdade.
• Em
torno do ex-presidente circulavam generais, como Augusto Heleno, favoráveis ao
golpe. A senhora acha que não deu certo porque a maioria das Forças Armadas se
recusou a pactuar com a ruptura democrática?
Estamos debatendo especulações como se verdades
fossem. As eleições acabaram em outubro, precisamos discutir o Brasil de hoje e
o retrocesso que tem sido o governo petista.
• Em 7
de setembro de 2021, Bolsonaro chamou o ministro Alexandre de Moraes de canalha
e disse que não seguiria suas decisões. A senhora concorda com essa posição?
Estamos em 2023, não tenho o que achar e nem opinar
sobre declarações de dois anos atrás. Como membro do Legislativo, meu papel é
respeitar as instituições e suas competências, como sempre fiz e farei.
A senhora acha que Jair Bolsonaro pode ser preso?
Acho que as especulações fomentadas pelos
agitadores de esquerda há anos se intensificaram agora, mas não vejo razão para
essa atitude drástica.
• Como
a senhora viu a ação de Roberto Jefferson ao receber a ordem de prisão com
tiros de metralhadora?
Não se atira em polícia, é injustificável e vi com
muita decepção.
• Bolsonaro
é acusado de tramar contra a democracia. A senhora acha que tinha projeto de
perpetuação no poder?
Tanto ele não tinha esse projeto que lutou pela
implementação da urna eletrônica com voto impresso auditável, o que reforça seu
viés democrático. Quem dá sinais de querer a perpetuação no poder é o PT. Basta
fazer as contas de quanto tempo o partido está no poder.
• Delgatti
falou que inseriu mandado de prisão falso de Alexandre de Moraes a seu pedido
no Conselho Nacional de Justiça. O que diz sobre isso?
Essa acusação é mentirosa, leviana, não procede e
já pedi ao meu advogado para que tome todas as atitudes cabíveis.
• A
senhora acha que a permissão que Bolsonaro deu aos acampamentos em portas de
quartéis teria estimulado os atos de 8 de janeiro?
Bolsonaro nunca deu permissão para nada. Desde o
resultado das eleições ele ficou em silêncio. Logo, a conclusão de que ele
teria estimulado os atos não serve como conclusão. As pessoas foram por livre e
espontânea vontade.
• A
senhora concorda com o trabalho que o gabinete do ódio fazia?
Desconheço o gabinete do ódio.
• Concorda
com análise de que Lula tinha interesse no 8 de janeiro?
Sim. Nada foi bem explicado. Ao que se constatou,
já se sabia que aconteceria um evento e não se tomou atitudes para repreendê-los?
Basta ver os mais de 500 homens de prontidão da Força Nacional a alguns metros
do acontecido, que é uma força de pronta ação. Bastava um sinal do ministro da
Justiça ou do presidente para eles impedirem o que estava acontecendo. Por que
foi ignorado o aviso da Abin? Por que o comandante do GSI serviu até água para
os vândalos? Por que não liberam 100% das imagens do dia 8?
• Como
a senhora avalia o governo Lula?
Caótico. Lula usa o Estado como instrumento de
perpetuação no poder e perseguição de adversários políticos, censurando a
direita e financiando setores de influência na opinião pública. O Brasil de
Lula é a clara tentativa de implantação do comunismo como ele mesmo disse no
último encontro do Foro de São Paulo com a presença de ditadores sanguinários.
• Bolsonaro
fez melhor governo do que o PT está fazendo?
Sim. Vou citar apenas um exemplo: em 2022, pela
primeira vez desde 2013, o Brasil encerrou o ano com um resultado positivo no
Tesouro Nacional, na Previdência Social, na geração de empregos e redução da
violência. Fruto de um processo de retomada econômica e cortes de inúmeras
despesas orçamentárias. Números que no governo Lula a previsão é desastrosa.
• A
senhora acha que Bolsonaro queria ficar com as joias recebidas no exterior ou
foram erros administrativos? E a ex-primeira dama Michelle e a joia de R$ 16,5
milhões?
Jamais. A história das joias não passa de um jogo
midiático.
• Como
amiga de Michelle, acha que é um bom nome para a eleição de 2026 no lugar do
marido?
Precisamos falar menos de eleição, passadas ou
futuras, e discutir como salvar o Brasil dessa administração caótica e
perversa, além da busca da harmonia entre os poderes.
• Para
encerrar, a senhora se elegeu com mais de um milhão de votos. Considera que sua
carreira política corre riscos ou pensa em voos maiores na política de São
Paulo?
Eu honrei, honro e honrarei sempre meus eleitores.
Não fiz nada de errado e isso ficará provado. Encerrarei insistindo: falemos
menos de eleição e mais de Brasil. O momento é de reflexão e estratégia para
combater os malefícios que Lula está causando no País. Estive e estou
trabalhando diuturnamente para orgulhar meus eleitores. Deus cuidará do
restante. Eu já entreguei em Suas mãos.
Zambelli
nomeia como defensor advogado que pediu ação contra Moraes em corte militar
A deputada federal Carla Zambelli (PL-SP) nomeou na
sexta-feira (1°) o advogado Arthur Hermógenes Sampaio Junior para representá-la
em ação tramitando contra ela na Justiça Eleitoral.
Em novembro do ano passado, Sampaio apresentou uma
notícia-crime no STM (Superior Tribunal Militar) contra o ministro do STF
(Supremo Tribunal Federal) e presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral),
Alexandre de Moraes.
O pedido foi negado sob a justificativa de que era
estranho à competência do tribunal.
O advogado pedia que Moraes fosse investigado pela
suposta prática de abuso de autoridade e do delito de prevaricação, conforme
consta na decisão. Para justificar a atuação da corte militar, Sampaio invocou
o artigo 142 da Constituição, com a utilização do "poder moderador"
em sua argumentação.
Também no ano passado, Sampaio ingressou com um
habeas corpus no STJ (Superior Tribunal de Justiça) contra ato de Moraes no
TSE, solicitando que pudesse adentrar a seção eleitoral sem que tivesse de
entregar o celular ao mesário.
Procurado pela reportagem, Sampaio afirmou que
" todo o cidadão independente de posição política partidária tem o direito
de defesa". E também que "quanto às antigas notícias de fato todo
cidadão tem o direito de petição".
Zambelli é alvo de quatro Aijes (ação de
investigação judicial eleitoral), tipo de ação que, além da cassação, também
têm como possível consequência a inelegibilidade por oito anos, a contar das
eleições de 2022. A petição nomeando Sampaio foi protocolada em uma das ações
que tramita no TRE (Tribunal Regional Eleitoral) de São Paulo.
No início de julho, a advogada Karina Kufa deixou
de representá-la em uma série de ações, incluindo as eleitorais.
Ao todo, seu escritório atuava em mais de 40
processos movidos contra a parlamentar, além de uma parcela menor de cerca de
20 ações judiciais iniciadas pela deputada, abrangendo as áreas cível,
eleitoral e penal. Kufa atua também como advogada do ex-presidente Jair
Bolsonaro (PL).
Duas das ações que têm Zambelli como alvo tramitam
no TSE. Elas foram apresentadas pela coligação do hoje presidente Lula (PT)
contra a chapa de Bolsonaro, além de vários de seus aliados.
Outras duas miram apenas a deputada e foram
protocoladas no TRE-SP. Ambas chegaram a ser remetidas para o TSE, para tramitarem
em conjunto com as ações protocoladas na corte, sob o entendimento de que havia
conexão entre os temas.
Em julho, no entanto, por decisão do ministro do
TSE e corregedor-geral eleitoral, Benedito Gonçalves, elas foram enviadas de
volta ao TRE. Uma dessas ações foi movida pela deputada federal Sâmia Bomfim
(PSOL-SP), enquanto a outra, além de Bomfim, tem o deputado federal Glauber
Braga (PSOL-RJ) como autor.
Duas das ações pedindo a inelegibilidade da
deputada afirmam que ela faria parte de um "ecossistema de desinformação
bolsonarista", que atuaria para "usurpar temas do debate
público".
Os autores do pedido argumentam que haveria um
conjunto de perfis em redes sociais atuando para a aguda propagação de
desinformação contra a candidatura do petista, contra a integridade do sistema
eleitoral e em favor da candidatura de Jair Bolsonaro (PL).
Outras duas interpelações têm como foco ataques ao
sistema eleitoral e à regularidade das eleições, em que é citado, por exemplo,
vídeo do fim de novembro em que ela se dirigia a generais, pedindo que não
aceitassem o resultado da eleição.
Nos autos, ainda sob a advogada anterior, a defesa
de Zambelli pleiteou, em linhas gerais, que os pedidos das ações fossem
considerados inválidos, questionando a argumentação e as provas apresentadas.
Defendem que a conduta da parlamentar não caracterizou abuso de poder político,
econômico ou uso indevido de meios de comunicação social.
Fonte: IstoÉ/FolhaPress

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