domingo, 3 de setembro de 2023

“Não sou tão importante como tentam fazer crer”, diz Carla Zambelli

2023 caminha como ano a ser riscado no calendário da deputada Carla Zambelli (PL). Entre o agendamento e a realização desta entrevista, a parlamentar acabara de sair de internação hospitalar, por diverticulite, virara ré no STF por ter perseguido um homem na véspera da eleição de 2022 empunhando uma pistola 9mm e teve duas representações no Conselho de Ética da Câmara pedindo sua cassação por falta de decoro.

Pelas cenas de bangue-bangue, aliás, a ela foi atribuída boa parte da culpa da derrota pelos apoiadores de Jair Bolsonaro, de quem fazia parte da tropa de choque — tropa que a ignora desde então.

Ela virou o ano com os perfis em redes sociais bloqueados por espalhar “desinformação”. Quando conseguiu as contas digitais de volta, foi multada pelo TSE em R$ 30 mil por atribuir sem provas crimes financeiros a Lula — e, mais recentemente, teve a quebra dos sigilos fiscal, telefônico e telemáticos quebrados pela CPI dos Atos Golpistas, após intermediação do encontro do então presidente Bolsonaro com o hacker da Vaza-Jato, Walter Delgatti, para tentarem demonstrar fragilidade das urnas eletrônicas.

No cenário que se desenha, ela pode terminar o ano com mandato cassado e presa, em pena de estimados quatro anos em regime semi-aberto. Zambelli nega tudo à ISTOÉ, defende Jair Bolsonaro e joga a culpa em Lula.

•        Deputada, a senhora acaba de sair de internação hospitalar, foi declarada ré pelo STF e vivencia situação turbulenta. Pode fazer um balanço do atual momento?

O balanço que faço do atual momento é que saímos de um governo que pregava a liberdade, a honestidade e o respeito com o dinheiro público para presenciarmos um governo que zomba da população e que tenta retomar velhas práticas. A situação turbulenta não é vivenciada só por mim, mas por todo o Brasil.

•        O ex-presidente Jair Bolsonaro diz que não responde às suas mensagens desde a eleição. Ele é conhecido por deixar ex-aliados pelo caminho. A senhora acha que ele a abandonará também?

O presidente sabe que sempre poderá contar comigo.

•        A senhora se sente responsável de alguma forma pela derrota, como os apoiadores do ex-presidente a consideram, pelo evento com arma de fogo na véspera?

Jamais. Não sou importante como dizem.

•        Qual foi o seu papel na aproximação entre Walter Delgatti e Jair Bolsonaro?

Não há aproximação entre o presidente e Walter. Houve uma única reunião porque Walter se apresentava como expert em sistema de informática, afirmando que poderia colocar a teste o sistema das urnas, algo que era por nós contestado.

•        A senhora teme ser cassada?

A minha atuação como deputada sempre foi enérgica, com atitude, mas jamais pratiquei qualquer ato imoral ou ilícito.

•        Na Procuradoria-Geral da República a denunciou por porte ilegal de arma, o que a tornou ré pelo STF. Qual é a sua opinião sobre a denúncia?

Eu fui vítima e, naquela ocasião, acuada por cinco homens. Agi para detê-los e tentar fazer cessar as ofensas, ameaças e hostilidades praticadas. Durante o tramitar do processo confio que as acusações serão elididas e minha inocência, comprovada.

•        Sobre a ação com arma de fogo às vésperas da eleição presidencial, qual é a sua avaliação hoje? Atualmente repetiria a ação?

Hoje eu chamaria a polícia, justamente para minha atitude não ser mal interpretada. Repito que é intolerável ser xingada, ameaçada e receber cusparada por um homem de quase dois metros de altura. Poucas pessoas sabem que eu somente saquei a arma depois de ouvir um tiro, olhar para trás e ver o policial que me acompanhava no chão. Isso está comprovado inclusive em vídeo.

•        Bolsonaro é acusado de ter dado ordens para prejudicar eleitores de Lula no dia da eleição. A senhora acha que ele sairia vitorioso se a tática tivesse dado certo?

Desconheço esses fatos, mas vi diversas autoridades mencionando que isso não teria influenciado ou prejudicado o resultado das eleições.

•        O ministro Alexandre de Moraes tem sido rigoroso com bolsonaristas na aplicação da lei. A senhora acha que ele pode pedir a sua prisão?

Eu reitero que não participei de qualquer crime e sempre tive minha vida pautada pela seriedade, correção e idoneidade. Sei que minha inocência será reconhecida sobre todas as suspeitas contra mim, mas sempre estarei à disposição para colaborar com a Justiça e polícia para que isso seja demonstrado.

•        Todos viram pela TV a destruição da sede dos Três Poderes em 8 de janeiro. Os ministros do STF e o governo consideram os participantes tanto extremistas quanto golpistas. A senhora concorda com isso?

Qualquer protesto que contenha vandalismo e depredações, seja por quem for, deve ser repudiado. Participo de manifestações de direita há mais de uma década e sempre presenciei um ambiente ordeiro e pacífico. Espero que a CPMI volte o seu foco para a sua finalidade original: apurar quem foram as pessoas que iniciaram as depredações. Tudo leva a crer que naquele fatídico dia 8 havia muitos infiltrados se passando por apoiadores de Bolsonaro. E espero que os inocentes sejam colocados em liberdade.

•        Em torno do ex-presidente circulavam generais, como Augusto Heleno, favoráveis ao golpe. A senhora acha que não deu certo porque a maioria das Forças Armadas se recusou a pactuar com a ruptura democrática?

Estamos debatendo especulações como se verdades fossem. As eleições acabaram em outubro, precisamos discutir o Brasil de hoje e o retrocesso que tem sido o governo petista.

•        Em 7 de setembro de 2021, Bolsonaro chamou o ministro Alexandre de Moraes de canalha e disse que não seguiria suas decisões. A senhora concorda com essa posição?

Estamos em 2023, não tenho o que achar e nem opinar sobre declarações de dois anos atrás. Como membro do Legislativo, meu papel é respeitar as instituições e suas competências, como sempre fiz e farei.

A senhora acha que Jair Bolsonaro pode ser preso?

Acho que as especulações fomentadas pelos agitadores de esquerda há anos se intensificaram agora, mas não vejo razão para essa atitude drástica.

•        Como a senhora viu a ação de Roberto Jefferson ao receber a ordem de prisão com tiros de metralhadora?

Não se atira em polícia, é injustificável e vi com muita decepção.

•        Bolsonaro é acusado de tramar contra a democracia. A senhora acha que tinha projeto de perpetuação no poder?

Tanto ele não tinha esse projeto que lutou pela implementação da urna eletrônica com voto impresso auditável, o que reforça seu viés democrático. Quem dá sinais de querer a perpetuação no poder é o PT. Basta fazer as contas de quanto tempo o partido está no poder.

•        Delgatti falou que inseriu mandado de prisão falso de Alexandre de Moraes a seu pedido no Conselho Nacional de Justiça. O que diz sobre isso?

Essa acusação é mentirosa, leviana, não procede e já pedi ao meu advogado para que tome todas as atitudes cabíveis.

•        A senhora acha que a permissão que Bolsonaro deu aos acampamentos em portas de quartéis teria estimulado os atos de 8 de janeiro?

Bolsonaro nunca deu permissão para nada. Desde o resultado das eleições ele ficou em silêncio. Logo, a conclusão de que ele teria estimulado os atos não serve como conclusão. As pessoas foram por livre e espontânea vontade.

•        A senhora concorda com o trabalho que o gabinete do ódio fazia?

Desconheço o gabinete do ódio.

•        Concorda com análise de que Lula tinha interesse no 8 de janeiro?

Sim. Nada foi bem explicado. Ao que se constatou, já se sabia que aconteceria um evento e não se tomou atitudes para repreendê-los? Basta ver os mais de 500 homens de prontidão da Força Nacional a alguns metros do acontecido, que é uma força de pronta ação. Bastava um sinal do ministro da Justiça ou do presidente para eles impedirem o que estava acontecendo. Por que foi ignorado o aviso da Abin? Por que o comandante do GSI serviu até água para os vândalos? Por que não liberam 100% das imagens do dia 8?

•        Como a senhora avalia o governo Lula?

Caótico. Lula usa o Estado como instrumento de perpetuação no poder e perseguição de adversários políticos, censurando a direita e financiando setores de influência na opinião pública. O Brasil de Lula é a clara tentativa de implantação do comunismo como ele mesmo disse no último encontro do Foro de São Paulo com a presença de ditadores sanguinários.

•        Bolsonaro fez melhor governo do que o PT está fazendo?

Sim. Vou citar apenas um exemplo: em 2022, pela primeira vez desde 2013, o Brasil encerrou o ano com um resultado positivo no Tesouro Nacional, na Previdência Social, na geração de empregos e redução da violência. Fruto de um processo de retomada econômica e cortes de inúmeras despesas orçamentárias. Números que no governo Lula a previsão é desastrosa.

•        A senhora acha que Bolsonaro queria ficar com as joias recebidas no exterior ou foram erros administrativos? E a ex-primeira dama Michelle e a joia de R$ 16,5 milhões?

Jamais. A história das joias não passa de um jogo midiático.

•        Como amiga de Michelle, acha que é um bom nome para a eleição de 2026 no lugar do marido?

Precisamos falar menos de eleição, passadas ou futuras, e discutir como salvar o Brasil dessa administração caótica e perversa, além da busca da harmonia entre os poderes.

•        Para encerrar, a senhora se elegeu com mais de um milhão de votos. Considera que sua carreira política corre riscos ou pensa em voos maiores na política de São Paulo?

Eu honrei, honro e honrarei sempre meus eleitores. Não fiz nada de errado e isso ficará provado. Encerrarei insistindo: falemos menos de eleição e mais de Brasil. O momento é de reflexão e estratégia para combater os malefícios que Lula está causando no País. Estive e estou trabalhando diuturnamente para orgulhar meus eleitores. Deus cuidará do restante. Eu já entreguei em Suas mãos.

 

       Zambelli nomeia como defensor advogado que pediu ação contra Moraes em corte militar

 

A deputada federal Carla Zambelli (PL-SP) nomeou na sexta-feira (1°) o advogado Arthur Hermógenes Sampaio Junior para representá-la em ação tramitando contra ela na Justiça Eleitoral.

Em novembro do ano passado, Sampaio apresentou uma notícia-crime no STM (Superior Tribunal Militar) contra o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) e presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), Alexandre de Moraes.

O pedido foi negado sob a justificativa de que era estranho à competência do tribunal.

O advogado pedia que Moraes fosse investigado pela suposta prática de abuso de autoridade e do delito de prevaricação, conforme consta na decisão. Para justificar a atuação da corte militar, Sampaio invocou o artigo 142 da Constituição, com a utilização do "poder moderador" em sua argumentação.

Também no ano passado, Sampaio ingressou com um habeas corpus no STJ (Superior Tribunal de Justiça) contra ato de Moraes no TSE, solicitando que pudesse adentrar a seção eleitoral sem que tivesse de entregar o celular ao mesário.

Procurado pela reportagem, Sampaio afirmou que " todo o cidadão independente de posição política partidária tem o direito de defesa". E também que "quanto às antigas notícias de fato todo cidadão tem o direito de petição".

Zambelli é alvo de quatro Aijes (ação de investigação judicial eleitoral), tipo de ação que, além da cassação, também têm como possível consequência a inelegibilidade por oito anos, a contar das eleições de 2022. A petição nomeando Sampaio foi protocolada em uma das ações que tramita no TRE (Tribunal Regional Eleitoral) de São Paulo.

No início de julho, a advogada Karina Kufa deixou de representá-la em uma série de ações, incluindo as eleitorais.

Ao todo, seu escritório atuava em mais de 40 processos movidos contra a parlamentar, além de uma parcela menor de cerca de 20 ações judiciais iniciadas pela deputada, abrangendo as áreas cível, eleitoral e penal. Kufa atua também como advogada do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Duas das ações que têm Zambelli como alvo tramitam no TSE. Elas foram apresentadas pela coligação do hoje presidente Lula (PT) contra a chapa de Bolsonaro, além de vários de seus aliados.

Outras duas miram apenas a deputada e foram protocoladas no TRE-SP. Ambas chegaram a ser remetidas para o TSE, para tramitarem em conjunto com as ações protocoladas na corte, sob o entendimento de que havia conexão entre os temas.

Em julho, no entanto, por decisão do ministro do TSE e corregedor-geral eleitoral, Benedito Gonçalves, elas foram enviadas de volta ao TRE. Uma dessas ações foi movida pela deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP), enquanto a outra, além de Bomfim, tem o deputado federal Glauber Braga (PSOL-RJ) como autor.

Duas das ações pedindo a inelegibilidade da deputada afirmam que ela faria parte de um "ecossistema de desinformação bolsonarista", que atuaria para "usurpar temas do debate público".

Os autores do pedido argumentam que haveria um conjunto de perfis em redes sociais atuando para a aguda propagação de desinformação contra a candidatura do petista, contra a integridade do sistema eleitoral e em favor da candidatura de Jair Bolsonaro (PL).

Outras duas interpelações têm como foco ataques ao sistema eleitoral e à regularidade das eleições, em que é citado, por exemplo, vídeo do fim de novembro em que ela se dirigia a generais, pedindo que não aceitassem o resultado da eleição.

Nos autos, ainda sob a advogada anterior, a defesa de Zambelli pleiteou, em linhas gerais, que os pedidos das ações fossem considerados inválidos, questionando a argumentação e as provas apresentadas. Defendem que a conduta da parlamentar não caracterizou abuso de poder político, econômico ou uso indevido de meios de comunicação social.

 

Fonte: IstoÉ/FolhaPress

 

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