domingo, 3 de setembro de 2023

Nos EUA, republicanos promovem batalha contra escolas, professores e livros

Em debate das prévias do partido, candidatos atacam a 'ideologia de gênero' e defendem 'derrotar' os sindicatos

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As chamadas guerras culturais estão sendo travadas a todo vapor nos Estados Unidos. No olho do furacão, estão as crianças e os adolescentes, as escolas e aquilo que é ensinado em sala de aula.

O professor Joseph Kahne, da Universidade da Califórnia, conduziu uma vasta pesquisa sobre o assunto. Ele conversou com o Brasil de Fato sobre o tema. Segundo ele, “muitas pessoas reconhecem que as experiências que os jovens têm na escola os ajudam a moldar seus valores e crenças”.

“Se, por exemplo, escolas oferecem apenas livros que falam sobre como a democracia norte-americana é maravilhosa, é diferente de se as escolas também mostram coisas que aconteceram no nosso passado e das quais, talvez, a gente não deveria se orgulhar”, afirma o professor, “se ninguém nunca ler um livro sobre afro-americanos ou sobre indígenas, ou todos os nossos livros de história que ignoram as contribuições dadas por mulheres… Isso molda como as pessoas veem a sociedade.”. 

Na semana passada, durante o primeiro debate das prévias republicanas, mediado pela Fox News, o tema não ficou de fora. Republicanos e grupos de extrema direita são, hoje, os principais atores que travam verdadeiras cruzadas contra uma educação plural no país.

·         Flórida, um laboratório das guerras culturais nas escolas

Segundo colocado nas pesquisas pela nomeação republicana, Ron DeSantis falou de doutrinação: “O declínio da educação é um dos motivos principais de porquê o nosso país está em declínio. Nós precisamos de educação neste país, não doutrinação”.

Como governador da Flórida, DeSantis aprovou uma série de leis que afetam a sala de aula e a autonomia de professores do estado. As chamadas guerras culturais estiveram no centro da sua campanha de reeleição, e deram a ele uma vitória esmagadora em um estado, até então, considerado dividido.

A lei conhecida como “Don’t Say Gay”, Não Diga Gay, em inglês, e que foi sancionada no ano passado, proibiu abordagem de temas relacionados à sexualidade e gênero até a terceira série nas escolas do estado.

Em maio deste ano, uma professora foi investigada por passar em sala de aula um filme da Disney que contava com um personagem gay. O caso aumentou o medo entre os educadores, mesmo que a professora tenha saído vitoriosa na disputa.

“Estamos vendo o que chamamos de ‘efeito inibidor’”, explica Kahne, “professores, de muitas formas, estão se autocensurando por conta das ameaças que existem. Algumas são políticas que os estados aprovaram, outras são medos sobre coisas que pais estão postando no Facebook criticando professores ou aparecendo em sala de aula para criticá-los. Mas o resultado é que os estudantes perdem. Estudantes têm menos chances de aprender sobre temas controversos”.

Mais recentemente, o governo da Flórida aprovou um novo currículo de história negra. Dentre os pontos, estudantes aprenderão que brancos e negros se beneficiaram da escravidão. Ron DeSantis se orgulha das medidas. 

“Na Flórida, nós eliminamos a teoria crítica de raça nas nossas escolas até o ensino médio”, disse o governador no debate, “nós eliminamos a ideologia de gênero nas nossas escolas até o ensino médio. E nós elevamos a importância da educação cívica norte-americana, ensinando nossos estudantes sobre a Constituição e a declaração de direitos”. 

Nos últimos meses, manifestações em reuniões escolares se transformaram em algo normal nos EUA. Na maioria dos casos, pais ultra conservadores se organizam para exigir censura de determinados assuntos na escola. 

Em maio, uma mãe da Flórida pediu que um livro de poesia de Amanda Gorman fosse retirado da biblioteca da escola do filho. O livro conta com a poesia “The Hill We Climb” (A Colina Que Subimos, em tradução livre), recitada pela autora na posse de Joe Biden. 

Mais tarde, veio à tona que a mãe em questão tinha ligações com o grupo extremista Proud Boys, que participou da invasão do Capitólio em 2020. De acordo com a pesquisa de Joseph Kahne, esse tipo de conflito é mais comum em distritos onde há uma maior paridade entre democratas e republicanos.

·         Maiores conflitos em distritos pêndulo  

A pesquisa conduzida pelo professor conversou com mais de 600 diretores de escolas país afora, em todas as regiões e considerando cidades pequenas e grandes. Uma das perguntas feitas aos diretores era se eles estariam presenciando este tipo de conflito com membros da comunidade e pais de alunos. 

“O que descobrimos foi que, por exemplo, que os conflitos eram mais intensos no que chamamos de distritos roxos, que são distritos que têm um número relativamente semelhante de republicanos e democratas”, comenta Kahne. “De muitas formas, isso não é surpreendente, certo? Você tem conflitos porque tem gente em ambos os lados da questão lutando pelo que eles querem”. 

·         Educação como grande inimiga

As tais guerras culturais vêm se mostrando uma arma importante para que políticos republicanos possam mobilizar bases ultraconservadoras. Situação semelhante aconteceu no Brasil há poucos anos atrás durante o auge da campanha “Escola Sem Partido”. 

No debate republicano da semana passada, nem mesmo os sindicatos dos professores ou o próprio Departamento de Educação - semelhante a um Ministério da Educação - foram poupados pelos candidatos do partido. 

Tim Scott, da Carolina do Sul, o único senador negro do Partido Republicano, disse: “Na educação, a única forma de mudarmos a educação neste país é derrotando os sindicatos dos professores”. Ele foi ovacionado logo em seguida. 

O empresário Vivek Ramaswamy, terceiro colocado nas pesquisas, foi além: “Vamos fechar a cabeça da serpente, o Departamento de Educação. Pegar esses U$$80 bilhões e colocar nas mãos de pais país afora. Essa é a questão dos direitos civis do nosso tempo”. Ele defende um esquema de vouchers para a educação, proposta semelhante a aventada por alguns nomes da direita brasileira. 

Para muitos, essa retórica é tida como perigosa. O professor Kahne concorda, e teme pela própria democracia do país. 

“Nos Estados Unidos, e eu sei que isso é verdade também em outros países, nós estamos vendo uma erosão do comprometimento com que pensamos como valores democráticos e normas. O que me preocupa com algumas das descobertas que estamos encontrando é que essas pressões talvez estejam levando a um efeito inibidor, o que significa que escolas estão colocando menos ênfase na sua missão democrática, porque estão com medo de enfurecer membros do público. Se escolas se sentem amedrontadas e escolhem não fazer isso, então estudantes não terão a preparação que os levaria a abraçar valores democráticos. Então, sim, isso me preocupa bastante”, conclui Joseph Kahne.

 

Ø  Extremistas do Proud Boys condenados por ataque ao Capitólio

 

Um tribunal norte-americano condenou nesta quinta-feira (31/08) dois líderes do grupo extremista Proud Boys por suas ações na invasão do Capitólio, a sede do Congresso dos Estados Unidos, no dia 6 de janeiro de 2021.

Joseph Biggs, líder do grupo na Flórida, recebeu pena de 17 anos de prisão, enquanto Zachary Rehl, da Filadélfia, foi condenado a 15 anos de detenção. Ambos tiveram papel de liderança na tentativa de impedir a transição pacífica de poder, após a derrota do republicano Donald Trump para o democrata Joe Biden nas eleições presidenciais de 2020.

Biggs e outros integrantes do grupo de estilo paramilitar estavam entre os apoiadores de Trump que romperam as barreiras policiais e forçaram a interrupção da sessão do Congresso que oficializaria a vitória de Biden.

Segundo os promotores, Biggs atuou como instigador do ataque ao derrubar uma cerca e escalar um andaime para invadir a sede do Congresso. Ele foi acusado de vários crimes ligados aos incidentes de 6 de janeiro de 2021.

Para Rehl, os promotores pediram pena de 33 anos de prisão. Ele foi filmado lançando uma substância química contra agentes de segurança. Junto com três outros homens, ele invadiu o gabinete de um senador e tirou fotos no local fazendo o gesto característico dos Proud Boys – semelhante ao "ok", com os dedos polegar e indicador juntos, e o médio, o anelar e o mínimo erguidos.

Rehl e Biggs foram os primeiros membros dos Proud Boys a serem condenados pelo juiz distrital Timothy Kelly, que também decidirá as penas a serem impostas a outros três integrantes do grupo, também condenados por um júri em maio deste ano após um julgamento que durou quatro meses em Washington.

O ex-presidente nacional dos Proud Boys, Enrique Tarrio, de Miami, receberá sua sentença na próxima terça-feira. A Promotoria pediu pena de 33 anos de prisão.

·         Trump indiciado

O juiz Timothy Kelly disse que o ataque de 6 de janeiro de 2021 rompeu uma "importante tradição norte-americana" da transferência pacífica de poder.

Mais de 1,1 mil pessoas foram acusadas por crimes associados à invasão do Capitólio.

O líder e fundador do grupo extremista Oath Keepers, Stewart Rhodes, recebeu pena de 18 anos de prisão. Em outro julgamento, no ano passado, seis outros membros foram condenados por conspiração sediciosa – quando há revolta contra uma autoridade ou perturbação da ordem pública.

No início de agosto, Trump foi formalmente indiciado por instigar a invasão do Capitólio. Ele também responde na Justiça por tentar reverter ilegalmente o resultado das eleições presidenciais de novembro de 2020, fazendo uso de pressão contra autoridades eleitorais estaduais, a exemplo do estado da Geórgia, para adulterar a contagem de votos.

 

Fonte: Brasil de Fato/Deutsche Welle

 

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