Geração do desapego: por que os jovens não querem mais acumular bens
À mesma medida em que o número
de pessoas que moram de aluguel cresceu 135% nos últimos anos nos Estados Unidos,
o país que representa a ambição da propriedade própria crava em 34% o índice de
jovens adultos que afirmam que a casa própria está fora de seu alcance
financeiro e objetivo principal de consumo. No Brasil, a demanda fez com que a
quantidade de motoristas de aplicativo dobrasse desde 2018, com atuais 5,5
milhões de cadastrados — somente a Uber anuncia ter chegado a 30 milhões de
usuários. Em outra pesquisa, 77% dos consultados com menos de 30 anos dizem
preferir uma boa experiência a possuir um produto de qualidade. O final dessa
conta é anunciado por relatório da Proficient Market Insights, que prevê que o
mercado global da chamada Economia Compartilhada crescerá de R$ 550 bilhões em
2021 para R$ 3 trilhões em 2027.
É a vez dos:
* streamings no lugar de coleções
de discos ou filmes,
* do Airbnb em vez da
aquisição de casa para morar ou passar férias,
* dos aplicativos de
transporte substituindo os carros.
O usar sob demanda em troca de
possuir algo à disposição se tornou primazia junto à Geração Z, os nascidos na
era digital, entre 1997 e 2012.
A Goldman Sachs Global
Investment Research realizou pesquisa nos EUA com essa fatia da população e a
conclusão é que gradualmente a preferência tenda à aquisição de serviços, não
de bens de consumo.
Jeremy Rifkin, economista e
escritor de best-sellers na área, afirma que a propriedade individual de
automóveis será uma “anomalia” por volta de 2050, enquanto a norma será o
compartilhamento.
“Quando sair de casa, vai ser
para um apartamento pequeno ou para dividir, rachar as despesas. Não precisamos
de grandes espaços”, diz Julia Lana, 22 anos, fotógrafa.
O fator mais importante para
essa transformação geracional encontra-se no bolso e atende pelo nome de
aparelho celular. Hoje, o acesso a qualquer música, livro, filme ou série
lançada, além de transporte e até encomenda de refeição, está à distância de um
clique.
• Novos valores
Dentro do conceito da geração
que tende ao desapego, é possível criar uma categorização de princípios
variantes do usufruir à frente do possuir. São eles:
* empreender,
* transformar o conceito de
sucesso,
* prezar por experiências e
não pela aquisição de bens.
“Estamos vendo que isso é meio
supérfluo, que não possuímos tanto espaço para ter as coisas, como nossos pais.
É uma saída mais rápida, alugar, acumular menos”, diz Luiz Eugenio de Almeida,
25 anos, chef de cozinha e sócio do Suramu Sushi, em São Paulo, que após passar
por restaurantes premiados decidiu abrir o próprio negócio.
Ter outras opções de sustento,
entretanto, sempre fez parte do Plano B. A Deloitte realizou estudo com as
gerações Z e Millennial e um dos resultados foi que “42% da Z e 39% dos
millennials agora têm um trabalho paralelo para sobreviver”, com intenção de
tomada de protagonismo.
Tanto desapego, porém, às
vezes traz certo ônus. Estudo da empresa Resume Builder aponta que três quartos
dos profissionais em cargo gerencial nos Estados Unidos consideram funcionários
da Geração Z “difíceis de trabalhar” e 27% já demitiram representantes da faixa
etária no primeiro mês.
Parte do problema, contudo,
pode estar nos empregadores. “Muitos das gerações anteriores não têm
inteligência emocional ou habilidades de relacionamento para dar espaço às
pessoas crescerem, serem ouvidas e encontrarem sentido no trabalho”, diz
Carolina Costa Cavalcanti, doutora em Psicologia e Educação pela USP e
professora da Fundação Dom Cabral.
As prioridades da nova
população ativa não estão ligadas ao conhecimento técnico, apenas, mas ao
bem-estar e ao fortalecimento das relações.
“Ela quer voltar para a casa
de bicicleta, sair à noite com os amigos, fazer caminhada, ir à praia, não
trabalhar aos finais de semana”, comenta Carolina. “A questão não é ignorar
regras, mas não aceitar o que não faz mais sentido”, fala Almeida, que além do
aumento do lucro tem no foco a liberdade, de gerenciar o tempo e ser criativo.
À medida que o poder
aquisitivo do grupo continua a aumentar e os hábitos de consumo frugal ganham
ritmo no mundo, a geração do desapego parece pronta para florescer.
Fonte: IstoÉ

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