segunda-feira, 4 de setembro de 2023

O caso Sarkozy e como o MPF suiço, o americano e o brasileiro agiram contra o Brasil

A maneira como procuradores brasileiros, suiços e franceses atuaram contra os interesses do Brasil e da França deveria ser objeto de um estudo acadêmico. Principalmente para explicar a cegueira das Forças Armadas em relação aos interesses nacionais, a ponto de se transformarem nos maiores defensores da Lava Jato.

No seu terceiro livro de memórias, “O tempo de combates”, o ex-presidente francês Nikolas Sarkozy relata a maneira como a França reagiu ao acordo entre Brasil e Estados Unidos para desenvolvimento do submarino nuclear.

‘Eu transgredi as regras habituais e ignorei a oposição dos Estados Unidos, aceitando ajudar os brasileiros a adquirir submarinos com propulsão nuclear’’, conta ele,

Considerado de direita e pró-americano, em determinado trecho do livro:

‘Os americanos não aceitam bem a menor recusa de alinhamento sistemático, que é imediatamente percebida como uma traição’, escreve. Esse ex-presidente de uma potência média como a França exemplifica que ‘são os americanos’.

A prioridade de Sarkozy na relação que queria estabelecer com o Brasil na época de Lula visava a indústria de armamentos.

No artigo “Como o Departamento de Justiça dos EUA usou a Lava Jato contra a França”, contei parte desse caso, que teve como personagens centrais os procuradores da Lava Jato e oi procurador suíço Stefan Lenz, a contraparte da Lava Jato na Suíça. Nos diálogos da Spoofing, aparece Deltan Dallagnol comentando sobre a vinda de Lenz. Em determinado momento, Lenz decidiu prestar serviços a clientes brasileiros. O então Procurador Geral Rodrigo Janot chegou até em pensar em contratar Lenz como consultor da PGR..

O mercado global de energia e turbinas é dominado por quatro empresas: Siemens, Mitsubishi, General Eletric e Alstom. A Alstom surgiu em 1922, com a criação da CFTH (Compagnie Française Thomson-Houston). A empresa começou fabricando locomotivas, evoluiu para metralhadoras e chegou à eletricidade.

Depois, entrou na área eletroeletrônica, desenvolvendo turbinas para geração nuclear. Em 2006,  chegou a um modelo revolucionário, o Arabelle, o que lhe deu enorme vantagem sobre os concorrentes. As turbinas Arabelle foram consideradas as mais confiáveis do mundo, garantindo um ciclo de vida de 60 anos para usinas nucleares.

Em novembro de 2007, a UniStar, americano, selecionou a Alstom para fornecer as turbinas Arabelle para novas usinas nucleares dos EUA. É a 125a da Fortune, com receita de US $19,3 bilhões em 2006, sendo a maior fornecedora competitiva de eletricidade do país para grandes clientes comerciais e industriais e a maior vendedora atacadista de energia do país. 

Em 1o de setembro de 2006, foi anunciado que a Alstom construiria  maior turbina a vapor da história, em parceria com a estatal EDF. 

A operação contra a Alstom antecedeu e foi copiada em tudo pela Lava Jato, até na parceria do DoJ com procuradores suíços. Em 24 de março de 2010, vários escritórios da empresa, no Reino Unido, foram invadidos por policiais, executando mandados de busca e apreensão a pedido da justiça federal suíça. 

Relatórios do Ministério Público suíço, de maio de 2008, mostram evidências de que a Alstom teria pago 20 milhões de euros, por meio de empresas de fachada, na Cingapura, Indonésia, Venezuela e Brasil. Os relatórios mencionam, pagamentos de 6,8 milhões de euros em contratos de 45 milhões de euros para o metrô de São Paulo e uma usina de energia brasileira.

As investigações começaram em 2008. Em novembro de 2011, o MPF Suíço encerrou as investigações, concluindo pela inocência da empresa.

Mas o assédio judicial não parou.

Em 2013, o executivo Frédéric Pierucci foi preso ao chegar no aeroporto JFK, de Nova York, por suposto caso de corrupção na Indonésia no início dos anos 2000. O promotor ofereceu um acordo a Pierucci: ele poderia ser libertado se concordasse em atuar como informante secreto do FBI dentro da Justiça. Pierucci se negou.

A segunda investida foi contra o presidente da Alstom, Patrick Kron. Pressionado, Kron anunciou planos para vender o negócio de energia – 75% da empresa – para a GE em meados de 2014. Três dias depois, o acordo no caso de suborno tirou o alto escalão da Alstom do inquérito. A decisão foi apoiada pelo então Ministro da Economia Emmanuel Macron. Segundo Pierucci, vários executivos da Alstom – incluindo o presidente – receberam bônus polpudos quando o acordo com a GE foi finalizado.

Com o apoio do então Ministro Macron, a França deixou de lado qualquer veleidade estratégica. Passou a depender da GE para atender quase metade das turbinas a vapor da sua frota e dos quatro submarinos de mísseis balísticos. A GE passou a deter o monopólio do fornecimento até para a marinha francesa. 

Em entrevista à BBC News, Pierucci dizia ter sido peão em três grandes batalhas geopolíticas.

A primeira, a briga entre a Justiça americana e a Alstom, “que resultou na rendição total da empresa francesa”.

A segunda batalha foi a compra da maior parte da Alstom pela GE.

A terceira batalha teria sido a grande guerra da geopolítica mundial. 

Pierre Laporte, um ex-advogado da GE que agora trabalha como sócio de Pierucci, observou que 70% das empresas visadas pela ação anticorrupção dos EUA eram estrangeiras – principalmente europeias. A FCPA e outras leis que se aplicam além das fronteiras dos EUA, diz Laporte, são “ferramentas de dominação econômica”. Tempos depois, Perucci lançou o livro “The American Trap”, com o jornalista Mathieu Aron, mostrando como a Justiça americana pressionou para inviabilizar o braço de energia da Alstom. No livro, Pierucci revela que quatro empresas foram adquiridas pela GE nas mesmas condições.

A venda do ramo de energia da Alstom para a GE foi quase um escândalo. Havia propostas de maior valor da Siemens e da Mitsubishi. Mas o CEO da Alstom, Patrick Kron deixou de lado o processo de oferta pública, aproveitando o temor da Alstom com as denúncias de corrupção.

Assim como na Lava Jato, gradativamente a opinião pública francesa foi acordando para o jogo de interesses geopolíticos. O apoio inicial à venda da Alstom transformou-se em críticas até cair a ficha sobre as perdas estratégicas do país. E o grande defensor da volta foi a já presidente Macron, o mesmo que, na condição de Ministro da Economia de Sarkozy, autorizara a venda da Alstom.

Em novembro de 2022, a estatal francesa EDF (Électricé de France) assinou acordo para adquirir as atividades nucleares da GE Steam Power. O acordo também incluiu tecnologia de turbinas a vapor para futuras usinas nucleares, como os reatores pressurizados europeus (EPR2) e pequenos reatores modulares (SMR).

Em fevereiro de 2015, o Procurador Geral da República Rodrigo Janot encontra-se com Leslie Caldwell, procuradora-adjunta encarregada da Divisão Criminal do Departamento de Justiça dos Estados Unidos e, um pouco antes, advogada do maior escritório a trabalhar pela indústria nuclear norte-americana.

Um mês depois, é preso o Almirante Othon, pai do programa nuclear brasileiro, com base em acusações frágeis, mas obtidas diretamente do Departamento de Justiça.

 

Ø  Tacla Duran vê chantagem e achaque de Moro para se manter senador

 

O advogado Rodrigo Tacla Duran criticou o atual senador pelo Paraná, Sergio Moro (União Brasil), afirmando que o ex-juiz suspeito se vale de chantagens para garantir sua permanência no Senado. Duran fez uma publicação no Twitter em resposta a informações divulgadas pela coluna do jornalista Lauro Jardim, do jornal O Globo, que indicam que Moro estaria confiante em uma "bala de prata" que o permitiria completar os oito anos de seu mandato.

No tuíte, Tacla Duran afirmou: "Festa da cueca, investigações clandestinas em conluio com determinados procuradores e agentes da Receita Federal, uso ilegal do COAF entre outras ilegalidades que contornam o modus operandi de um chantagista, achacador, que usou da magistratura para se beneficiar politicamente. Russo". 

Vale lembrar que Moro está enfrentando um processo no Tribunal Regional Eleitoral do Paraná, que começará a ser julgado no dia 27 de novembro, referente a ações movidas pelo PT e PL, que alegam a suspeita de prática de caixa dois e abuso de poder econômico nas eleições de 2022 pelo ex-juiz. Se Moro for cassado, haverá uma eleição suplementar para o Senado, cuja data será definida pelo TRE-PR.

 

Ø  Partido Republicano coloca OTAN em risco

 

A guerra na Ucrânia pode levar o mais bem sucedido grupo de segurança militar na história global recente – a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) – ao colapso até o ano de 2025.

E a causa desse colapso seria a ala populista do Partido Republicano, liderada pelo ex-presidente Donald Trump, por conta da sua profunda diferença de perspectiva diante das preocupações de segurança por grande parte da Europa.

Em artigo publicado na revista The Atlantic, o professor de estudos estratégicos Phillips Payson O’Brien, da Universidade de St.Andrews, na Escócia, afirma que o catalisador imediato para o colapso da coalizão seria justamente a guerra na Ucrânia.

“Quando a facção dominante dentro de um dos dois principais partidos políticos americanos não consegue ver sentido em ajudar um país com mentalidade democrática a combater os invasores russos, isso sugere que o centro do espectro político mudou de uma forma que tornará os EUA um aliado menos confiável da Europa”, afirma o acadêmico.

O articulista ressalta que a perspectiva pró-Rússia e contra a Otan de Trump não é apenas um interlúdio, e a ala populista dos republicanos já tem como consenso a suspeita de envolvimento norte-americano no apoio à Ucrânia.

Tanto que os candidatos republicanos Ron DeSantis e Vivek Ramaswamy tentam se aproximar da ala trompista do partido ao argumentar de forma contrária em relação ao apoio norte-americano aos ucranianos, fazendo coro ao posicionamento de Trump.

“Ele (Trump), DeSantis e Ramaswamy estão todos a jogar para os mesmos eleitores – que, segundo sugerem as sondagens, representam cerca de três quartos do eleitorado republicano”, diz O’Brien.

Caso essa ala pró-Rússia venha a se fortalecer, tudo leva a crer que os europeus terão de fazer a maior parte do trabalho em apoio à Ucrânia, e o pesquisador afirma que os líderes da Europa já devem se preparar para uma realidade onde a administração norte-americana desista da OTAN para se aproximar da Rússia.

 

Fonte: Jornal GGN/Brasil 247

 

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