segunda-feira, 4 de setembro de 2023

'Escola terá que dar dois passos para trás', avalia professor

Quando iniciou a carreira como professor, em 2000, Marcelo Tavares, 46 anos, não via os alunos com celulares nas mãos. Hoje, se depara com jovens que se frustram ao entender que não podem pausar ou adiar a vida, como faziam ao escolher quando e como assistiriam às aulas, durante a pandemia. A crise sanitária mudou a rota de tudo - inclusive, da juventude, que, de casa, assistia a aulas, respondia provas e lidava com os dilemas da adolescência. Instituições como Todos pela Educação já apontaram deficiências nos modelos adotados na educação, com estudantes com pouco acesso à escola ou dificuldades no ensino remoto.

Professor de História e doutor em Ciência Política, Marcelo Tavares acredita que as escolas fizeram o que era possível. Mas concorda que o afastamento dos estudantes das salas de aulas - que durou dois anos, entre ensino remoto e híbrido - deixou duas lacunas, uma mais simples de ser resolvida, na avaliação dele.

A primeira é a "curricular", com dificuldades de aprendizado que podem ser convertidas mais rapidamente. A segunda, e mais complexa, é definida como "comportamental ou da habilidade" pelo também diretor do Land School, colégio que foca na instrução bilingue e no que chama de “formação de agentes de transformação”.

"O gap da habilidade é: o que vou fazer ao receber uma nota ruim, por exemplo. [...] Então, tem que dar um passo para trás. A nota pode ser ruim, faz parte de um processo não ser o melhor aluno. Era muito fácil fazer isso na pandemia. Os alunos estavam nas aulas, de casa, com as câmeras fechadas." As telas permanecem no cotidiano das escolas e “proibir não vai adiantar”, como explica Marcelo. As unidades de ensino, na verdade, precisam mostrar que não são substituíveis. "Ironicamente, é um paradoxo: quanto mais as telas invadem a escola, mais importante se torna o professor", acredita. Em entrevista do CORREIO, em uma das raras pausas do dia, Tavares reflete sobre educação, os desafios da escola pós-pandemia e o quanto, cada vez mais, o professor precisa ser um provocador – como ele próprio se coloca, em todas as respostas a seguir.

·         Você chegou aqui bem depois da pandemia. As heranças desse período foram superadas ou é uma construção?

Marcelo Tavares: Tem duas heranças da pandemia que afetam diretamente os alunos. Uma herança, que está numa prateleira inferior na minha opinião, é a herança do conteúdo. Por exemplo, se eu aprendi o que tinha que aprender de acordo com as normas da BNCC [Base Nacional Curricular Comum] até o sexto ano, se eu aprendi as fórmulas de química do nono ano, os cálculos de aritmética. Esse gap me parece importante, mas as escolas conseguem de maneira mais clara recuperar essas ausências, por meio de ações como aulas extras, grandes eventos para rever conteúdos, dando três passos para trás e vendo onde queremos chegar. 

Mas, para mim, o segundo e principal gap, que poucas pessoas percebem, porque envolve não só as crianças, mas as famílias, é o gap da habilidade. Esse gap não vamos conseguir superar agora, vai precisar de um processo muito longo. O gap da habilidade é: o que vou fazer ao receber uma nota ruim, por exemplo. Essa criança, normalmente, recebe a nota ruim e chora, se desespera, vai para casa e fala com os pais. A reação dos pais é ir na escola, reclamar porque não podem deixar o filho deles chorar, sofrer por uma nota baixa. Essas famílias não percebem que elas mesmas passaram por isso e que essa frustração gerava resiliência.

Era uma habilidade que estava no currículo oculto, mas era determinante para questões curriculares ocorrerem de forma efetiva. "Hoje, minha maior preocupação é saber como fazer com que uma criança entenda que certa dificuldade dela pode ser por uma organização ruim, porque ela não tem hábito de estudar, ou porque ela acredita que verá um vídeo de youtube e vai aprender." Ou como eu faço com um garoto do oitavo ano que acha que está tudo bem estudar na véspera da prova, porque ele vai receber tudo mastigadinho do professor e se não for bem na prova a família vem reclamar dizendo que ele não está aprendendo?

·         E como fazer para recuperar essa habilidade comportamental?

É simples. Ninguém vai conseguir fazer isso sem sangrar. O que significa sangrar? Todas as escolas que se comprometem em fazer com que as famílias não tenham esse susto, não tenham essa conscientização, que tratam as família como as famílias esperam que nós tratemos os seus próprios filhos, terão problemas. Aí é um esforço de Sísifo: vamos empurrar a pedra lá para cima e ela vai cair. As famílias precisam recuperar o que era fundamental no passado: o entendimento da construção do indivíduo como habilidade compartilhada pelos pais e pela escola. A responsabilidade é da família e a escola aparece como suporte, complementação.

"As famílias precisam enxergar as escolas como parceiras nesse processo, não como prestadoras de serviço, simplesmente, em que os filhos não podem se frustrar. Todas as escolas que se comprometem com isso estão reforçando uma ferida aberta na pandemia." Então, tem que dar um passo para trás, tem que sangrar. É isso mesmo, faz parte de um processo. A nota pode ser ruim, faz parte não ser o melhor aluno. Era muito fácil fazer isso na pandemia. Os alunos estavam nas aulas, de casa, com as câmeras fechadas, com os professores de certa forma perdidos. E as notas cresceram. Imagina esses alunos, que escolhiam o que queriam ver, de volta para esse cenário onde tudo acontece. É como aquele filme: Muito além do Jardim. [nota: um jardineiro chamado Chance cresce fechado na casa do patrão. Quando o chefe morre, Chance é despejado. Sem saber nada do mundo além do que assistia pela TV, ele encara a vida real entre a inocência e a sabedoria.] O protagonista, quando teve de sair, como ele resolvia as situações das quais ele queria sair? Com o movimento de click do controle remoto. É o que as crianças queriam fazer. Só que a vida não tem botão de retorno.

·         As escolas perderam a oportunidade, na pandemia, de fazer, de fato, uma grande mudança nos modelos educacionais?

Primeiro, tem uma coisa: todo mundo foi pego de surpresa. Então, precisa passar um pouco o tempo para entendermos os efeitos do que foi aquilo que vivemos, algo único na história da humanidade. Não foi um erro proposital das escolas, mas porque não sabíamos o que fazer. A coisa mais absurda que se pode imputar às escolas é a responsabilidade pelo que aconteceu. Nós não sabíamos. Lembre que o Jornal Nacional disse que não era para usar máscara e depois tinha que usar máscara. A mesma coisa com as escolas.

Então, é impossível reproduzir o ambiente da educação básica numa tela. Você pode passar conteúdos, variações, mas o ambiente de sala de aula é um ecossistema onde tudo acontece: a menina que não te empresta a borracha, e você tem que entender o que está acontecendo, é a relação que você cria com colegas, a habilidade de sentir quando você faz parte de um grupo. Essa ideia de que as escolas queriam reproduzir sala de aula nas telas é uma besteira. O que aconteceu é que vivíamos uma emergência e as escolas, sem alternativa, focaram no que era possível: a transmissão de conteúdo. Acho que hoje, e espero que isso não aconteça mais, os professores talvez compreendessem certos momentos com os alunos como espaços muito mais de discussão, sobre os grandes desafios, sobre escuta. Mas nós não sabíamos isso na época, fomos apanhados de surpresa. Esse é o ponto 1.

O ponto 2: as crianças e jovens vão buscar telas, não tem jeito. Você não vive hoje sem ter o celular. Eu passei minha adolescência inteira sem celular, mas eu tive videocassete, cd. Esses garotos fazem uma pesquisa apresentando para o Chat GPT alguma orientação do que eles querem desenvolver. No final das contas, as escolas precisam entender que as telas são inevitáveis. A questão é: vai fazer o quê com isso?

Se você olhar para as escolas do século 19 e as de hoje verá que as diferenças são mínimas. Todo mundo sentado numa sala, alguém falando, um quadro. A escola é mais lenta mesmo, é uma instituição tradicional. Toda escola é conservadora ao considerar que a etapa de desenvolvimento de um indivíduo cumpre certas etapas que são inescapáveis. O quanto as escolas podem servirpara pensar nesse cenário? Se as crianças acreditam que tudo pode ser substituído pela tela quem está errada é a escola.

·         E o que a escola pode fazer em relação às telas agora?

Um dos gaps da pandemia é desacreditar que a vida social precisa ter regras. Existem regras. A gente pode trazer as telas. Aqui é o seguinte: celular tem espaço e horário. Todo mundo respeita? Não. Mas temos uma zona chamada de cell free zone, para onde os alunos, na hora do almoço, podem ir e ficar mexendo no celular, em 45 minutos. Voltando para sala, você vai ver o jovem olhar para o celular. Mas uma coisa me chama atenção: quando ele vê o professor, esconde, porque elas sabe que não é o correto. Mas todos nós fizemos coisas erradas no Ensino Médio. Banir, proibir? Besteira. "A coisa mais ridícula é uma escola proibir celular, mas a coordenadora estar o tempo inteiro mandando mensagem. Como podemos usar essa ferramenta de modo útil para aprendizagem, aplicá-la nas propostas pedagógicas de cada escola? O caminho é esse. E a mesma coisa com o Chat Gpt."

Existem escolas que acreditam que boa parte do processo de aprendizagem está relacionado a ações colaborativas, ao desenvolvimento de sites, ok, o uso de celular e computador nelas pode ser mais forte. Mas, você pode permitir o uso do celular e computador sem que isso signifique uso de redes sociais. Existe uma coisa que está errada, e é para mim, que não sou o dono da verdade: proibir a tela porque você simplesmente quer as crianças longe da tela. Você tem que fazer com que elas compreendam que a tela faz parte da realidade, mas existem processos que a escola oferece em que nem sempre o celular vai fazer parte. Cada vez mais, todo mundo só olha para as telas, mas o professor nunca foi tão importante, não aquele que vomita o conteúdo, mas o professor que engaja, que tem empatia, inspira a ser melhor. Ironicamente, é um paradoxo: quanto mais as telas invadem a escola, mais importante se torna o professor. 

·         Você tem usado essa palavra "engajar", que hoje é muito própria das redes sociais. Tem que se usar algum elemento da rede social digital nos ambientes educacionais para mantê-las engajadas?

Não sou a melhor pessoa para falar de rede social, sou quase um fantasma por lá. Mas engajamento é uma palavra como outra qualquer, antiga, se ela está nos trending topics não é por causa das redes sociais. Ela sempre foi importante e sempre a usamos dentro da sala de aula. Minha preocupação sempre foi engajar os alunos. Professor que não engaja vai ter só aluno abaixando a cabeça e indo para a conversa paralela. Quando digo engajamento, somo a outra outra palavra: inspiração. Professor é talvez a profissão mais inesquecível que possa passar pela vida de alguém.

·         Para o bem e para o mal, né?

Para o bem e para o mal. Mas talvez tenha aquela pessoa que tenha sido fundamental para você se tornar o que você é. Quando falo de inspiração e engajamento, estou dizendo que os professores estão o tempo inteiro na primeira fronteira da vanguarda. Antes de os pais saberem o quê os filhos estão vendo, nós sabemos. Antes de os pais tomarem conhecimento sobre certos vídeos, ou influencers, nós sabemos. Porque estamos em contato com a novidade o tempo inteiro. Tenho 46 anos, mas os meus alunos, há 28 anos, têm 17, 18 anos. A grande pergunta é: o que fazia o jovem se engajar em 2001? Talvez contar a história da Revolução Francesa por um certo aspecto. Talvez hoje seja falar como uma revolução dessa mexe com ideologias políticas, movimentando pessoas a irem para rua em busca do que pensam ser os direitos dela e os alunos saírem da aula entendendo o que viram no jornal ontem.

Vejo o professor como o grande cozinheiro, que está toda hora recebendo aqueles ingredientes, mas vendo o que o público quer. Mas acho que a gente perde quando se subordina à rede social. Acho que chamo muito mais atenção quando digo: não tenho rede social, não concordo, não vejo dessa forma. Talvez isso traga mais discussões. Então, sim, não podemos fechar os olhos [para as redes sociais], mas os professores não precisam se subjugar à linguagem das redes sociais. Acho que se subjugar às redes sociais é o caminho errado.

·         Você fala como o tédio é primordial para a criatividade. É possível e preciso incorporar o ócio também como parte do ensino e aprendizagem?

Acho que seria deselegante, inapropriado, polêmico eu chegar para as famílias que vêm matricular seus filhos aqui e dizer: coloquem seus filhos aqui, paguem R$ 4 mil, para eles terem muito ócio. Colocar essa responsabilidade na escola é um erro. A escola tem sua função. Esse ócio, que eu defendo, está muito mais relacionado a outros aspectos da vida comum fora da escola, no sentido de fazer com que as famílias consigam proporcioná-lo. Ao contrário do que vemos, por exemplo, em um restaurante, quando bebezinhos, enquanto os pais comem, visualizam uma tela sem piscar.  "Tem horas que vai ser chato mesmo. A vida é assim: têm horas que vou ter que negociar com meu pai. Negociações que hoje não existem e quando a criança vai para vida adulta ela quer desligar, uma solução rápida." Ou quando o adolescente vê que o mundo é muito mais hostil do que ele pensava, os pais ficam preocupando e os psicólogos fazem milhares de reais todo mês se aproveitando desse cenário que ainda é pandêmico: a pandemia da ansiedade, do desespero, da frustração, porque tudo agora está muito galvanizado, mais forte, sob pressão.

Por que? Porque o ócio não é função da escola, é função da família, de dizer 'vamos aqui, vamos sentar e ver um filme'. Eu já vi nas escolas crianças se jogarem no chão, como se perdessem a razão da vida, quando ficam sem celular.

·         Você tem repetido sobre as responsabilidades da escola e dos pais. Esse é um aspecto que você acha que está cada vez mais fundamental: mostrar aos pais ou cuidadores diretos as responsabilidades deles?

Sim, porque da mesma forma que os filhos passaram pela pandemia, os pais também. Os pais de agora são mais imaturos, porque de repente eles tiveram as crianças dentro de casa, com trabalho parado, tentando organizar a vida de alguma maneira e os pais normalmente trazem a culpa para si. A resposta era: 'quando isso acabar tenho que fazer ele feliz'. "Acho que a escola vai ter que dar dois passos para trás e dizer: sim, bem-vindo à vida, você vai ser infeliz também, como vai ser feliz, ganhar, perder, conquistar, se levantar, existem pessoas que serão melhores, sim, que você."

Hoje, se uma criança não está preparada para fazer uma prova, os pais culpam a escola, o professor. Mas a ideia de parar e pensar no esforço, na preparação do filho, desaparece. E acho que o contexto é esse e ficou mais explícito: a escola é um lugar de aprender, todo mundo aprende, mas vivemos um cenário de muito mais resistência e agressividade. Hoje, para você ser liderança numa escola, você tem que ter uma inteligência emocional poderosa, se não você vai ser destruído.

As famílias têm que entender isso, porque, no final das contas, muitas [pessoas] também acreditam que [a escola] pode ser substituída por uma tela, e o aluno pode chegar e dizer o seguinte: 'Eu tô fora, eu não quero isso para mim'. E aí você entende porque cada vez mais jovens passando por burnout. Acho que a função da escola com as famílias, hoje, é trazer muito mais consciência do processo desse processo de construção.

·         Você falou sobre esse jovem que não vê a escola como algo para ele. Os modelos educacionais têm sido cada vez mais criticados como uma forma de reprodução, apenas, do sistema. Então, o que pensar para esse jovem que, por exemplo, não queira isso, não queira o vestibular?

O objetivo da escola é fazer com que esse aluno passe no vestibular? Pode ser. Agora, o objetivo da escola é ser um trampolim para seus próprios projetos? Já muda tudo.

Já trabalhei numa escola em que o grande objetivo de uma aluna era criar uma ONG para distribuir absorventes para meninas em condição de vulnerabilidade. O que a escola tem que fazer? Apoiar essa menina. É uma virada de chave e de novo voltamos as famílias.

Talvez a missão de uma família seja o vestibular, e tá tudo bem. Tenho famílias que estão saindo da Land porque querem isso e está tudo bem. Mas o nosso objetivo aqui é o projeto do aluno. Acreditamos piamente que seja qual for o projeto do aluno - criar, cuidar de pessoas, pensar logos para empresa, dramaturgia -, a escola precisa ouvir. "Talvez não estejamos acostumados com um cenário em que uma escola pergunte: qual é o seu sonho? Eu nunca fui perguntado sobre isso. Até porque estudei numa escola como bolsista, e todo mundo sabia que era uma escola que o objetivo era fazer com que eu passasse no vestibular. Ponto."

Então tudo depende. Você pode ter uma escola com valores tradicionais da família brasileira, ok, ou catapultar os sonhos de alunos a partir de embasamento acadêmico e mudar a vida de muitos.

·         O vestibular ainda é o principal atrativo dos pais?

Não diria o principal, mas 50% das famílias com filhos no Ensino Médio estão preocupadas com o vestibular. Outras 50% estão preocupadas também com o futuro do filho no mercado de trabalho, acreditam que talvez o vestibular não seja o único, mas não abrem mão da universidade. Talvez 10%, ou menos, estejam confortáveis com o sucesso do filho mesmo fora vestibular. Essa ainda é uma característica da educação brasileira: o vestibular, ou o Enem, é um peso.

Eu adoro o Enem, mas a ideia de criar uma narrativa que seu filho precisa de universidade para ter um futuro, que talvez seja uma característica desse momento que estejamos vivendo de tantas transformações, não.

·         Você começou em cursos pré-vestibular. Há muitas mudanças na forma que os estudantes viam a educação, o vestibular, e para hoje?

Muito. É uma loucura. Comecei a dar aula efetivamente, para grandes salas, em 2001. Não tinha celular, ou até tinha, mas não tinha smartphone. Você fala hoje para as crianças de um mundo sem uber e elas não entendem. Mas a escola mudou devagar, porque trabalhamos com uma memória afetiva poderosa das pessoas: nem todo mundo foi para a universidade, mas quase todo mundo passou pela escola alguma vez ou teve professor. Quando você trabalha com esses alicerces tão poderosos, é difícil promover mudanças, mostrar que as coisas são diferentes, chegar para as famílias: você tem certeza que precisa dessa universidade? A conotação pode mudar tudo.

·         E os jovens, quais são as principais demandas deles?

Estamos em 2023. Aqui em 2022 e 2021, os alunos ficaram em casa. Os jovens voltaram para a escola, depois daquele momento mais punk da adolescência em casa, caindo no ensino médio, naquela coisa meio pós-pandêmica e tentando entender como está mundo. O que vejo agora é que a sensação de 'estou perdido' é maior, o que faz parte, é uma raridade saber o que queremos aos 17 anos. Mas existe uma hora em que as famílias precisam falar que tudo bem estar perdido, que a vida é assim. Falta essa frase: 'está tudo bem ficar indeciso, está tudo bem não saber tudo agora, pensa no curto prazo e tudo bem mudar ano que vem'. Há uma ansiedade dessas famílias por definir um trilho mais seguro. Mas quando você está bem a ideia de que o mundo é inseguro, a ansiedade diminui.

·         A escola está bem em evidência por episódios de ansiedade e ataques. Dentro da escola, o que você enxerga por trás dessa violência? 

Esses casos de violência ficam mais notórios e conseguem se notorizar mais, mas não vejo essa violência tão grande. O cara sabe que se hoje fizer algo dentro da escola, de Pequim a Londres, vai estar todo mundo sabendo, e isso mexe muito com pessoas que têm seus problemas, seus desafios. Mas isso faz parte do mundo: o mundo hoje é o mundo das curtidas. Se você é uma pessoa que acha importante ter likes, e se você não tem, isso é destrutivo. Vivemos o paradoxo de não vivermos mais a vida do usufruto prazeroso individual. É uma doença. E essa doença tem efeitos variados. 

O que a escola pode fazer é trazer consciência para essa realidade. Houve uma pressão enorme para que eu fechasse a escola naquele fatídico dia em que estava rolando um boato que haveria um ataque nas escolas. Não fechamos e houve famílias que acharam um absurdo, uma irresponsabilidade, e o dia transcorreu na maior normalidade. Então, acho que o que está acontecendo é um ambiente favorável para que determinados episódios ganhem escala. A função da escola é tomar decisões com base em informações sobre esse cenário. Ao invés de se desesperar, sem nunca colocar alunos em risco, talvez seja necessário, por exemplo, pensar em protocolos para caso a escola for incendiada, assaltada?

Isso traz a ideia de que o mundo é esse e pode acontecer, não podemos viver numa bolha. A escola sempre vai sofrer, para o bem e para o mal, os efeitos das transformações sociais, mas o que está no nosso poder?

·         Estamos numa escola que cobra mais de R$ 4 mil por mês, mas não quer criar bolhas. Como trazer, então, a realidade local para essa escola?

A missão dessa escola é a seguinte: formar novos agentes de transformação capazes de alcançar realização profissional e pessoal com ética e responsabilidade social. Não fui eu que criei, cheguei assim. Tem famílias que chegam aqui com a maior preocupação de que os filhos estarão com seus pares e sairão da escola no final de semana e estarão todos juntos. Mas aí vem a pergunta: 'você viu que queremos ser agentes de transformação?'. Se você é um agente de transformação, você não está satisfeito com a zona de conforto. Como assim querer viver numa bolha se a missão da escola é responsabilidade social?

"Não tem escolha, só se fossemos mudar a missão da escola: para garantir a manutenção de valores tradicionais, por exemplo. A Bahia é um dos estados mais violentos do Brasil. É óbvio que de alguma maneira vamos trazer referências a essa violência vao acontecer na escola." A grande questão não é criar bolha para dizer que não vai acontecer, mas para se perguntar por que acontece, o que podemos fazer, o que está no nosso escopo e o que não está.

·         Como a desigualdade impacta no desenvolvimento coletivo, nas escolas?

A desigualdade impacta sempre, mas são duas questões: primeiro, qual nível de desigualdade de uma comunidade faz com que a comunidade não perca o que entenda como valores sociais fundamentais? Por exemplo, o ensino público. Há impactos, sim, mas eu não concordo que a existência da desigualdade seja inevitavelmente sinônimo de degradação do corpo social.

A segunda questão, agora olhando para a escola: não temos função de acabar com a desigualdade, essa função é do governo, agentes públicos e privados, talvez, de grandes empresários. A função de uma escola está sempre relacionada à missão.

"Numa escola com responsabilidade social, queremos, sim, falar de desigualdade, de que maneira a sociedade pode pensar para tentar reverter alguns desses quadros. Mas, ao mesmo tempo, o impacto na sala de aula vai depender do público da escola, num cenário de escola particular, e dos espaços que são deixados para permitir arejamento." Existem poros que permitem a chegada dos não iguais, de outras perspectivas e cenários, de interação? Depende de cada escola. Essa escola, por exemplo, é parceira de uma ONG, que permite alunos bolsistas. E isso traz uma perspectiva para eles. A grande questão é saber o que a escola faz com isso: ela se fecha ou cria poros para que essa desigualdade consiga de alguma maneira interferir no contexto maior em que a escola está. Trata-se de opções, não são verdades.

·         Quais bússolas teóricas você mais costuma utilizar? As maiores escolas de elite econômica paulistana usam Paulo Freire, paradoxalmente criticado, muitas vezes, pelos próprios pais, alinhados a outras ideologias. 

A gente precisa estar atento ao fato que em momentos de polarização, como a que esse país enfrentou, símbolos são sequestrados. Eu sou brasileiro e talvez se eu andasse com a bandeira do Brasil ano passado, diriam que eu seria bolsonarista. Ou se por acaso eu estivesse discutindo a relevância das ideias de Paulo Freire, seria chamado de esquerdopata. A maturidade individual, institucional e de uma sociedade gera percepção de símbolos de uma forma apurada. Não tem jeito, Paulo Freire faz parte da estrutura da visão escolar do país. Foi ele quem disse o seguinte: "aprendizado precisa ter contexto, ter impacto sobre a vida comum do aluno", você não vai conseguir falar de aprendizado com um aluno que mora em Salvador se a referência do que você vai discutir é a transformação no Rio de Janeiro do século 19. Mas Paulo Freire não foi o único.

Sobre as minhas bússolas, confesso que não tenho resposta pronta, mas posso te dizer quais são as minhas bússolas acadêmicas e pedagógicas. Paulo Freire, sem dúvida. Sou um cara muito ligado à Ciência Política, então, tenho bússolas vindas desses autores de todos os lados do espectro político. Edmund Burke, conservador, por exemplo, é uma bússola minha. "Qualquer liderança tem que ter repertório e o repertório não precisa ser só o que você aprendeu na sala de aula, na faculdade. Você precisa conhecer bons filmes, bons livros, ser interessante. Bússolas não podem vir antes de contexto, de onde você está, que escola é essa."

O que você pode, a partir daí, é pegar essas referências e aliar com o contexto. Se você parte do princípio que vai partir só dos clássicos, não. Você tem que ter chão, não estar numa torre de marfim. Nem sempre você consegue usar Paulo Freire para qualquer problema pedagógico.

·         Com tantas mudanças, qual é a função da escola hoje?

Não tenho dúvidas: se tornar um trampolim dos projetos desses indivíduos, desde que esses projetos estejam alinhados, dentro de qualquer comunidade, com a função de responsabilidade com o próximo. Seja o trampolim do projeto desse moleque, mas diz que esse projeto precisa de responsabilidade com a comunidade.

Eu sou republicano. Fico brincando o tempo todo aqui: o problema no Brasil é que ladrão é quem rouba mais que você. Você rouba o troco, estaciona em cima da calçada, usa carteirinha de estudante falsa, mas é íntegro. Quem roubou R$ 6 milhões, colocou na cueca, que é o ladrão.

Discutimos política sempre, mas ao contrário de doutrinar alunos, porque acho que, sim, durante algum período a escola fez, sem querer saber, quero conversar, mostrar autores, como pensam. É um trampolim provocativo. Ser professor e não ser provocador não existe. Professor é o provocador, o cara de poucas respostas e muitas perguntas, que te tira da zona de conforto, te desfaz das suas certezas. Esse professor vai ficar com você para o resto da vida.

 

Fonte: Correio

 

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