segunda-feira, 4 de setembro de 2023

Desinformação: 5 pontos para entender a propagação de conteúdos falsos na internet

As fake news, ou ‘notícias falsas’ em português, ainda são uma pauta muito frequente em diversas discussões. A pandemia de covid-19, por exemplo, foi um cenário em que aumentou a circulação de informações incorretas nas redes sociais. Alguns especialistas, inclusive, gostam de dizer que a atualidade está sendo marcada pelo que chamam de ‘infodemia’, ou seja, um grande fluxo de informações que se multiplicam de forma acelerada e em um curto intervalo de tempo.

De acordo com um estudo realizado pela Avaaz, uma rede cujo objetivo é a mobilização social global por meio da internet, durante o período de isolamento social, 9 em cada 10 brasileiros viram pelo menos uma informação falsa sobre o coronavírus. 70% dos entrevistados acreditaram em, no mínimo, um desses conteúdos enganosos sobre a doença.

A desinformação tem ganhado ainda mais destaque com a guerra na Ucrânia e a proximidade das eleições em 2022. Para entender melhor esse fenômeno e como ele se comporta, a equipe do #TMJ conversou com Sérgio Lüdtke, jornalista e editor do Projeto Comprova, uma iniciativa da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) que faz a checagem de fatos.

O QUE É DESINFORMAÇÃO

Segundo o especialista, desde que o debate sobre desinformação começou a ganhar força em 2018, esse tipo de conteúdo é muito associado a uma espécie de boato, ou seja, uma informação com dados passíveis de investigação. No entanto, Lüdtke também explica que, hoje, tal definição já pode ser considerada ultrapassada. “Eu entendo a desinformação como um processo que leva as pessoas a firmarem convicções equivocadas a partir do consumo de conteúdos que são também enviesados, enganosos ou até deliberadamente falsos”, afirma. “É muito difícil fazer essa tipificação sobre a desinformação, porque muita coisa cabe aí. Você pode encontrar desde conteúdos satíricos e informações equivocadas de fatos até algo que é absolutamente fabricado”, completa.

POR QUE CONTEÚDOS FALSOS CIRCULAM MAIS ATUALMENTE

De acordo com o profissional, o cenário das redes sociais foi um fator que contribuiu para que esse tipo de conteúdo fosse disseminado com mais velocidade. “As pessoas sempre foram atores importantes na dispersão do conhecimento. Mas, até o surgimento da internet e das redes sociais, a gente ainda tinha uma linha de dispersão da informação. Era algo muito vertical, havia uma hierarquia”, comenta. “Não que não houvesse desinformação antes. Só que agora, as pessoas têm um empoderamento e, muitas vezes, nem sabem que têm esse poder. E, por isso, pode causar tantos danos”, acrescenta. “Essa configuração da rede é fundamental para que você tenha, com a instantaneidade que se tem hoje, a dispersão desses conteúdos”, finaliza.

O QUE LEVA AS PESSOAS A ACREDITAREM NAS MENTIRAS

Segundo Lüdtke, os produtores de desinformação procuram fazer conteúdos que trabalhem com a emoção de quem vai consumi-la. “A pessoa que produz esse tipo de conteúdo precisa fazer algo atrativo e, para fazer isso, ela busca emoção. Ela procura algum tipo de reação emocional para aquilo que ela está trazendo”, afirma. Por esse motivo, o especialista argumenta que, um ponto crucial no momento de investigar se determinadas informações são realmente falsas é entender as motivações de quem as produziu.

“É importante entender quais são as motivações das pessoas por trás disso e olhar lá na outra ponta o efeito que esse conteúdo provocou, que impacto ele teve”, comenta. “Ele se entrega como um conteúdo de desinformação a partir do momento que as pessoas reagem a ele. Não se pode esconder esse impacto. As pessoas se manifestam, fazem comentários, trazem outras informações que tentam cada vez mais enviesar aquela publicação”, reflete. “Olhar para os comentários e para como as pessoas reagem a isso, nos dá um quadro mais completo de como funciona esse processo da desinformação”, sugere.

COMO AS BOLHAS COLABORAM PARA A DESINFORMAÇÃO

Para o jornalista, o isolamento digital das pessoas em grupos que compartilham os mesmos tipos de interesse e as mesmas visões de mundo colabora para a proliferação de conteúdos falsos. “As pessoas que têm convicção sobre coisas que são enganosas já não precisam mais de uma dose diária de desinformação. Elas ficam absolutamente suscetíveis a qualquer dúvida que se possa lançar”, diz. “Qualquer dúvida que possa reforçar essas novas convicções já é suficiente”, adiciona. Ele ainda reforça que qualquer pessoa pode ser alvo ou vítima desse tipo de conteúdo. “É uma ferramenta utilizada por pessoas que querem, de alguma forma, intervir no debate público. Ela vai utilizar a desinformação para fazer vingar as suas ideias de mundo”, explica.

 

       7 dicas para identificar notícias falsas

 

Uma série de notícias falsas tem sido espalhada pelas redes. Veja alguns passos para identificá-las e quais as possíveis consequências para quem compartilha

Em momentos de crise, como o que estamos vivendo, as fake news são ainda mais perigosas. Por causa de uma informação falsa, pessoas podem se desesperar sem motivo, cair em golpes e até mesmo tomar decisões erradas que podem lhe prejudicar. “Só se percebe o prejuízo de uma notícia falsa ou boato quando você é atingido”, afirma Jorge Tarquini, professor do curso de Jornalismo da ESPM e curador de conteúdo do #TMJ.

O jornalista alerta que notícias falsas podem ter duras consequências. Ele cita como exemplo um caso de 2014, quando uma mulher morreu no Guarujá, litoral de São Paulo, após ser linchada depois que uma página na internet espalhou um boato de que ela sequestrava crianças para utilizá-las em rituais de magia negra. “Não dá para achar que você vai espalhar um boato, ofender a moral de alguém e que isso não terá nenhuma consequência”.

Quem espalha notícias falsas também pode responder na justiça. É o que afirma Luiz Carlos Correa, professor de Direito da ESPM. “No Brasil não há uma legislação específica sobre a divulgação das fake news. Entretanto, esta lacuna da lei não impede uma eventual responsabilização daqueles que produzam ou repassem essas notícias falsas, ainda mais quando são direcionadas a uma pessoa ou grupo específico, com o objetivo de prejudicar sua imagem”.

De acordo com o especialista em direito, vítimas de fake news podem buscar medidas judiciais para responsabilizar quem criou ou divulgou o conteúdo. “Seja na esfera cível, por meio de uma indenização reparatória, ou na esfera criminal, que pode levar a uma condenação quando praticados, por exemplo, os crimes contra a honra (injúria, calúnia e difamação)”.

:::::: Confira a seguir 7 dicas para não cair em fake news:

•        1 – Faça uma pesquisa

Recebeu algo e ficou desconfiado? Uma rápida busca sobre o assunto no Google pode te dar pistas se aquele conteúdo é verdadeiro ou não. Se aquela informação for verdadeira, provavelmente será publicada por um veículo de imprensa tradicional. Nessa busca você poderá descobrir também se alguma agência de checagem já investigou a veracidade dessa história. E se não encontrar nada sobre aquilo em suas buscas, terá mais um motivo para desconfiar.

•        2 – Desconfie até do seu melhor amigo

Não é porque alguém conhecido te enviou um conteúdo que aquilo é verdade. Seu amigo ou familiar também pode estar sendo enganado.

•        3 – Não conhece a fonte? Não compartilhe!

Recebeu algum conteúdo em um grupo de WhatsApp sem fonte ou de alguma que você nunca ouviu falar? Não compartilhe! Afinal, é assim que as notícias falsas se espalham.

•        4 – Verifique a data da publicação

A informação compartilhada pode ser verdadeira e de uma fonte confiável, mas ter sido publicada há meses ou até anos. É comum notícias antigas voltarem a circular como se fossem atuais. Por isso, verifique sempre a data de publicação. Encontrou algo errado? Avise quem compartilhou.

•        5 – Atente-se aos erros

Muitos criadores de fake News fazem um trabalho bastante “profissional” que só após apuração de agências de checagem conseguimos descobrir se são verdadeiros ou não. Mas não é difícil encontrar notícias falsas com erros grotescos de português e montagens toscas.

•        6 – Nem tudo que parece é

Não é porque alguém aparece de jaleco em um vídeo ou dá informações que parecem privilegiadas sobre os bastidores de um hospital, que aquele conteúdo é verdadeiro. Um exemplo é um áudio que rolou nas redes sociais esta semana em que uma mulher afirma que há de 600 a 700 internados por coronavírus no hospital Albert Einstein. As informações foram verificadas e desmentidas pelo Fato ou Fake.

•        7 – Ajude a combater as fake news

 Descobriu que recebeu algum conteúdo falso de um amigo ou em um grupo do WhatsApp? Ajude a quebrar essa corrente avisando quem te enviou que aquilo é fake. E se foi você mesmo quem compartilhou a mentira, faça o mesmo: avise todos os contatos que aquele conteúdo era falso.

>> Confira alguns sites que fazem checagem de notícias falsas:

 Aos Fatos

Comprova

Fato ou Fake

Lupa

 

Fonte: TMJuntos

 

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