terça-feira, 5 de setembro de 2023

A guerra da Coreia segue com a renovação da proibição de viagens à Coreia do Norte por Biden

A proibição do uso de passaportes dos EUA para viagens à Coreia do Norte impede a reunião de milhares de coreanos e mantém viva a lógica da Guerra da Coreia

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Em 22 de agosto, o Departamento de Estado dos EUA renovou a proibição do uso de passaportes norte-americanos para viagens à Coreia do Norte. Essa proibição de viagens impede cerca de 100 mil coreano-americanos que vivem nos Estados Unidos de visitarem seus parentes na Coreia do Norte. A proibição foi estabelecida pela primeira vez pelo governo Trump, em 2017 e - apesar dos repetidos apelos dos ativistas coreano-americanos para suspender a draconiana proibição - tem sido renovada anualmente desde então.

Durante sua campanha presidencial em 2020, Joe Biden prometeu "reunir os coreano-americanos separados de seus entes queridos na Coreia do Norte por décadas", mas estendeu a proibição de viagens todos os anos em que esteve no cargo. Essa proibição atual permanecerá em vigor até 31 de agosto de 2024, quando então será suspensa ou prorrogada novamente.

·         Famílias separadas pela proibição de viagens

Kate Youngjoo Shim, ativista da organização pacifista de mulheres Korea Peace Now! é uma das muitas coreano-americanas afetadas pela proibição de viagens. Nascida na Coreia, Shim mudou-se para os EUA aos 15 anos de idade. Ambos os ramos de sua família são originários da Coreia do Norte, e a proibição agora a impede de visitar primos e outros parentes próximos de lá.

Shim apontou a hipocrisia do governo dos EUA ao dar lições de direitos humanos à Coreia do Norte enquanto mantém tantos familiares coreanos separados.

"Para mim, a maior violação dos direitos humanos é não permitir que as pessoas vejam suas famílias", disse Shim. "O governo dos EUA está sempre tentando falar sobre as condições de direitos humanos [da Coreia do Norte], mas se você não está permitindo que as pessoas conheçam suas mães, seus filhos, suas famílias imediatas... não há desculpa."

As coisas nem sempre foram assim. A avó de Shim foi separada de seu filho mais velho - o tio de Shim - durante a Guerra da Coreia. Depois de décadas tentando encontrá-lo enquanto morava na Coreia do Sul, sua avó se mudou para os EUA aos 65 anos de idade, na década de 1980, na esperança de que isso aumentasse suas chances de encontrá-lo e voltar a se reunir. A tarefa havia se mostrado difícil para ela na Coreia do Sul devido à situação política entre o Norte e o Sul naquela época. Mesmo depois de décadas sem saber onde ele estava e contra todas as probabilidades, a avó de Shim continuou esperançosa de que ela e seu filho há muito sumido se encontrariam novamente. Depois de se mudar para os Estados Unidos, ela até começou a trabalhar em uma fábrica para que pudesse se dar ao luxo de trazê-lo de volta quando ele fosse encontrado.

Por fim, a família de Shim conseguiu encontrar seu tio perdido na Coreia do Norte, e sua avó finalmente se reuniu com o filho após 37 anos. Lá, a avó de Shim também encontrou seu irmão, após décadas de separação. Ela retornaria à Coreia do Norte novamente para participar do casamento do neto.

A avó de Shim morreu há mais de 10 anos. Se ela estivesse viva hoje, não poderia mais visitar seu próprio filho ou outros membros da família por causa da proibição de viagens.

A proibição é uma expressão cruel da política imperialista dos Estados Unidos e, uma vez que a geração de sobreviventes da Guerra da Coreia está chegando aos 80 anos, é mais urgente do que nunca acabar com ela.

"Minha avó foi uma das sortudas", disse Shim. "Há muitas pessoas azaradas que nem sequer podem ver seus familiares. Ou talvez uma mãe que tenha seus filhos lá. Agora já se passaram 70 anos [desde a assinatura do Acordo de Armistício], então as pessoas estão morrendo."

·         Viagens à Coreia do Norte foram 'transformadoras'

E não são apenas os coreano-americanos que estão impedidos de visitar seus familiares na Coreia do Norte - a proibição de viagem proíbe que qualquer portador de passaporte dos EUA viaje para lá, efetivamente impedindo qualquer tipo de intercâmbio cultural entre cidadãos americanos e coreanos no Norte. Esses intercâmbios são essenciais para desafiar a campanha de propaganda dos EUA que desumaniza os norte-coreanos a fim de justificar as sanções contra o país.

Gloria La Riva, uma organizadora da Coalizão ANSWER (Act Now to Stop War and End Racism – Aja Agora para Parar as Guerras e Acabar com o Racismo, em tradução livre), chamou suas viagens ao Norte em 1989 e 2015 de "experiências que mudaram sua vida".

"Vi pessoas e um país que é o oposto das imagens histéricas e demonizadoras que vemos no Ocidente", lembrou La Riva. "Conheci pessoas que eram atenciosas e gentis com os visitantes. Isso foi o que mais me impressionou. Quando embarcamos em um trem cheio, as pessoas imediatamente nos ofereceram seus assentos, sorrindo - a melhor linguagem de todas."

"Esse é o verdadeiro motivo pelo qual o governo dos EUA proíbe que seus cidadãos visitem a Coreia do Norte", continuou ela. "É o mesmo motivo pelo qual a proibição de viagens dos EUA a Cuba existe há mais de 60 anos. Os EUA temem que vejamos o povo coreano como nossos amigos, não como nossos inimigos. A proibição de viagens é uma negação do nosso direito de ver a Coreia do Norte por nós mesmos."

·         Pelo fim da Guerra da Coreia

Os crimes que Washington infligiu à Coreia não podem ser menosprezados. Foram os EUA que dividiram a Coreia ao longo do paralelo 38 em 1945 e separaram milhões de famílias, ocuparam o Sul e lançaram mais de 600 mil toneladas de bombas sobre a península durante a Guerra da Coreia. A campanha de bombardeio foi tão extensa que os pilotos americanos chegaram a ficar sem alvos a atingir, e jogavam bombas no mar para que pudessem aterrissar em segurança. Ao longo da guerra, os militares dos EUA arrasaram "quase 90% das principais cidades e vilarejos da Coreia do Norte", matando o impressionante contingente de 20% da população.

Além da campanha assassina de bombardeios em massa, toda a Guerra da Coreia foi marcada por atrocidades apoiadas pelos EUA: o assassinato de mais de 100 mil pessoas durante os massacres das Ligas Bodo em 1950, cometidos pelas forças do governo do presidente da Coreia do Sul Syngman Rhee, instalado pelos EUA, e que foi o principal responsável pela guerra; o massacre de Sinchon, no qual as forças militares dos EUA e as forças anticomunistas sul-coreanas mataram mais de 30 mil civis; o massacre de No Gun Ri, no qual as forças militares dos EUA abriram fogo contra refugiados civis, matando cerca de 300 pessoas. No geral, o envolvimento dos EUA na Guerra da Coreia não constituiu nada menos que um genocídio.

Embora a assinatura do Acordo de Armistício de 1953 tenha posto fim aos combates, ela não pôs fim ao conflito. Os EUA se recusam a assinar um tratado de paz e, juntamente com o Sul, permanecem em um estado oficial de guerra com o Norte. E mesmo após a assinatura do armistício, o governo dos EUA mantém uma forte presença militar na Coreia e continua a aumentar as tensões entre o Norte e o Sul. A Coreia do Sul continua sob ocupação: é o lar da maior base dos EUA no exterior, e um total de 28.500 militares norte-americanos estão estacionados no país. A Coreia do Sul também sedia os exercícios militares conjuntos anuais Ulchi Freedom Shield com os EUA. Esses exercícios anuais simulam a invasão da Coreia do Norte e incluem ataques com fogo real aéreo, terrestre, marítimo e espacial. Os jogos de guerra representam um ensaio geral para a mudança de regime na Coreia do Norte. E, especialmente desde 2006, o governo dos EUA, juntamente com o Conselho de Segurança das Nações Unidas, tem se apoiado em um regime de sanções brutais para punir a Coreia do Norte por desafiar o imperialismo dos EUA. Essas sanções causaram insegurança alimentar, desnutrição e escassez de suprimentos médicos no país, provocando enorme sofrimento e milhares de mortes evitáveis.

A proibição de viagens pelos EUA, portanto, é outra arma de guerra, parte de sua estratégia mais ampla para isolar ainda mais a Coreia do Norte e inflamar as tensões entre as duas metades da península. E com Washington forjando laços militares mais fortes com a AustráliaFilipinas e outros países do "Indo-Pacífico", bem como aumentando sua presença militar no Mar do Sul da China, o objetivo final do Pentágono é garantir a Coreia do Sul como aliada em seu percurso rumo a um conflito entre grandes potências na Ásia.

"Estamos em um período de extrema tensão na Coreia", explicou Ju-Hyun Park, um membro da organização sem fins lucrativos Nodutdol for Korean Community Development, que defende a reunificação do país. "Os EUA não querem fazer nada para diminuir essa tensão porque a situação atual beneficia os interesses dos EUA. Quanto maior for o conflito na Coreia, mais fácil será convencer a Coreia do Sul e o Japão a formar uma aliança não apenas contra a Coreia do Norte, mas também contra a China e a Rússia."

Esse caminho pelo qual Washington está direcionando a Coreia do Norte e a Coreia do Sul só levará mais guerra e devastação ao povo coreano. O governo dos EUA nunca se interessou pela paz na península coreana. Por mais de 70 anos, ele fez tudo o que estava ao seu alcance para dividir as Coreias do Norte e do Sul, obstruir todo e qualquer caminho para uma paz duradoura e colocar os coreanos uns contra os outros. O que o governo dos EUA deve ao povo da Coreia nunca poderá ser pago. Mas o caminho para a justiça começa com a suspensão da proibição de viagens para a Coreia do Norte - juntamente com a assinatura de um tratado de paz para pôr um fim oficial à Guerra da Coreia.

 

Ø  Putin quer exercício militar com Coreia do Norte e China contra os EUA

 

O governo de Vladimir Putin afirmou nesta segunda (4) estar estudando exercícios militares inéditos com a Coreia do Norte, ditadura aliada do Kremlin e da China, que poderá participar das manobras que farão frente à crescente assertividade bélica dos Estados Unidos na região.

A afirmação foi feita pelo ministro Serguei Choigu (Defesa) à agência estatal Tass. Ressaltando que falava em caráter pessoal, o embaixador russo em Pyongyang, Alexander Matsegora, afirmou que "a necessidade de alguma resposta conjunta parece apropriada", à luz dos "constantes exercícios conduzidos pelos EUA e seus aliados" Coreia do Sul e Japão.

Nos últimos meses, a cooperação militar entre Moscou e Pyongyang aprofundou-se, gerando críticas dos EUA. Para a Casa Branca, a visita que Choigu fez ao país de Kim Jong-un para celebrar os 70 anos do armistício da guerra que dividiu a península coreana prova que os norte-coreanos estão prontos para ajudar Putin em seu esforço de guerra na Ucrânia.

Pyongyang tem amplos estoques e capacidade produtiva de munição para artilharia, vital para a as operações russas, com a vantagem da comunalidade dos padrões bélicos empregados pelos dois países: a Coreia do Norte usa material de origem soviética e chinesa.

É uma via de duas mãos, com os russos podendo auxiliar os norte-coreanos em seu ambicioso programa de mísseis balísticos para uso convencional e nuclear. Analistas apontam indícios de que Moscou forneceu motores para um modelo capaz de atingir os EUA testado em 2017, embora nenhum dos lados confirme isso.

A aproximação entre os países ocorre em meio ao momento de maior tensão na península nos últimos anos. Após Kim acelerar seus testes com mísseis balísticos, assustando particularmente o Japão, o governo de Joe Biden respondeu de forma diferente da usual: em vez de abrir negociações, escalou o enfrentamento militar.

Assim, os EUA criaram com Seul um grupo de trabalho para o caso de guerra nuclear e enviaram pela primeira vez desde 1981 um submarino equipado com ogivas atômicas para o Sul. Biden, que já havia promovido o renascido militarismo de Tóquio, realizou uma cúpula inédita com líderes japonês e sul-coreano no mês passado.

De lá para cá, aumentaram o número de manobras militares com os parceiros, como junto à costa da ilha sul-coreana de Jeju semana passada, ao mesmo tempo em que fazia um grande exercício com Seul, inclusive simulando ataques com bombardeiros estratégicos B-1B.

Isso levou Pyongang a protestar e a realizar duas simulações de ataque nuclear tático contra os sul-coreanos, com lançamento de mísseis reais desarmados. Agora é a vez de a crise se ampliar no escopo da Guerra Fria 2.0 entre Pequim e Washington, com os lados bem definidos.

A influência do conflito na Ucrânia já havia se refletido na região do Indo-Pacífico, com o grupo Quad (EUA, Japão, Índia e Austrália) admoestando Xi Jinping a não se animar a fazer o mesmo contra Taiwan, apesar das diferenças históricas entre a ilha autônoma e o país independente europeu.

Xi segue como o maior apoiador de Putin, e tem estreitado laços militares com patrulhas conjuntas e exercícios. No ano passado, como é usual a China participou da maior manobra anual russa, que sempre ocorre em setembro em uma das principais regiões militares russa --no caso, o jogo de guerra Vostok (Oriente).

Neste ano, seria a vez pela rotação do exercício Zapad (Ocidente), que ocorreu a última vez em 2021 e envolve forças russas e de Belarus. Com 200 mil militares, aquela manobra foi vista como um ensaio para a invasão subsequente da Ucrânia.

Mas Choigu afirmou à Tass que a guerra impede sua realização, de forma jocosa. "Não, este ano nós estamos fazendo exercícios na Ucrânia", afirmou.

Além de necessitar de homens e equipamento, uma manobra no momento em que Belarus, aliada de Moscou e seu títere militar, se estranha com os vizinhos da Otan [aliança militar ocidental] na Polônia e nos Estados Bálticos poderia gerar atritos potenciais perigosos.

Ainda assim, eles seguem, com manobras frequentes da Rússia na região de Kaliningrado, exclave ensanduichado entre Polônia e Lituânia. No próximo sábado (9), a Otan fará, por sua vez, o primeiro exercício visando deter um ataque russo com forças navais no mar Báltico.

 

Fonte: Por Amanda Yee, para Globetrotter - Tradução de Pedro Marin para a Revista Opera/FolhaPress

 

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