segunda-feira, 21 de julho de 2025

O que separa um esquecimento comum do Alzheimer?

Com o avanço da idade, é comum que pequenos esquecimentos passem a fazer parte do cotidiano, como não lembrar onde guardou as chaves, esquecer o nome de uma pessoa conhecida ou ter dificuldades para lembrar o que ia dizer em uma conversa. Esses lapsos geralmente não são motivo de alarme. A chamada "falha de memória benigna" é um processo natural do envelhecimento e também pode estar relacionada a fatores como estresse, ansiedade, noites mal dormidas, excesso de tarefas e até carências nutricionais.

"É importante entender que o cérebro também envelhece. Com o tempo, nós perdemos agilidade física e também esperamos que a agilidade mental diminua. O que não pode acontecer é esse esquecimento interferir na autonomia ou nas atividades básicas do dia a dia", explica a gerontóloga Cláudia Alves, autora do livro O bom do Alzheimer.

<><> Dados importantes

Segundo a Associação Internacional de Alzheimer (ADI), mais de 55 milhões de pessoas vivem com demência no mundo, e a estimativa é que esse número chegue a 139 milhões até 2050. No Brasil, cerca de 1,2 milhão de pessoas enfrentam a doença, e ainda não diagnosticamos muitos casos.

A especialista destaca que o esquecimento do envelhecimento natural tende a ser pontual e reconhecido pela própria pessoa. "Ela pode demorar a lembrar o nome de um ator ou onde colocou os óculos, mas geralmente se recorda depois. Já no Alzheimer, a pessoa não apenas esquece com frequência, como também nega ou não percebe que esqueceu", esclarece Cláudia.

Para ela, é fundamental romper com o tabu em torno do diagnóstico. "Muita gente evita procurar ajuda por medo da confirmação. Mas o diagnóstico precoce pode garantir melhor qualidade de vida, além de permitir que a pessoa participe ativamente das decisões sobre seu futuro."

<><> Emoções importam

Outro ponto importante é observar o comportamento emocional, e não apenas as falhas de memória. "Mudanças de humor, apatia, agressividade ou desorientação são sinais tão relevantes quanto o esquecimento. O Alzheimer é uma doença do cérebro como um todo, não só da memória", afirma.

Conforme dados da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), é importante buscar avaliação médica quando os esquecimentos se tornam frequentes e impactam tarefas do dia a dia, quando a pessoa repete histórias ou perguntas várias vezes sem perceber, apresenta confusão em lugares conhecidos ou com datas, tem dificuldades com palavras ou para seguir instruções simples, ou quando surgem mudanças bruscas de comportamento ou personalidade sem explicação.

Embora o Alzheimer ainda não tenha cura, profissionais tratam a doença com medicamentos, terapias cognitivas e apoio psicossocial, o que ajuda a retardar a progressão dos sintomas. E quanto antes for identificado, melhor.

Cláudia Alves propõe também uma nova forma de encarar a doença. Em seu livro, ela aborda como é possível encontrar vínculos, afeto e até redescobertas no convívio com quem foi diagnosticado. "O Alzheimer pode ser cruel, mas também pode ser um convite para desacelerar e viver o presente com mais presença e empatia", diz. E conclui: "Mais importante que lembrar tudo é não esquecer de olhar com carinho e paciência para quem está passando por esse processo."

•        Como substâncias como ayahuasca e LSD podem tratar saúde mental? Entenda

Vivemos uma verdadeira pandemia, mas não de vírus — e sim de sofrimento psíquico. Mais de 300 milhões de pessoas no mundo foram diagnosticadas com depressão.

No Brasil, somos líderes em índices de ansiedade, segundo a OMS. E só hoje, 38 brasileiros devem cometer suicídio, conforme dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde.

Além disso, uma em cada seis pessoas faz uso de medicamentos psiquiátricos. O cenário é grave, com perspectivas sombrias se medidas urgentes não forem tomadas.

<><> Limites dos tratamentos tradicionais

Embora os medicamentos convencionais sejam importantes em muitos casos, há controvérsias sobre sua eficácia e os efeitos colaterais. Antidepressivos, por exemplo, podem reduzir a libido e afetar a vitalidade.

Em vez de restaurar a força de viver, podem enfraquecê-la ainda mais. Isso levanta uma importante reflexão: será que não existem outras abordagens possíveis para enfrentar a crise de saúde mental global?

<><> O renascimento dos enteógenos

Nesse contexto, surge uma alternativa promissora: os enteógenos. O termo, cunhado em 1978 por cientistas como Gordon Wasson, substitui o termo “alucinógenos”, por considerarem inadequado o conceito de alucinação.

Enteógeno significa “manifestação do divino interior”, evocando uma experiência de reconexão com o sagrado. Substâncias como LSD, ayahuasca, psilocibina (presente nos cogumelos), peiote, iboga e cetamina têm sido estudadas em centros de pesquisa do mundo inteiro por seus potenciais efeitos terapêuticos.

Essas substâncias, amplamente utilizadas por povos originários há milênios em rituais cerimoniais, foram proibidas nos anos 1970, quando a política de guerra às drogas liderada por Richard Nixon as colocou na mesma categoria de drogas pesadas, como heroína e cocaína. Isso freou por décadas a ciência, que começava a demonstrar seus benefícios para o tratamento de transtornos mentais.

<><> Como os enteógenos agem no cérebro

A ciência moderna agora retoma esses estudos. Os enteógenos atuam em dois mecanismos principais: neurogênese (criação de novos neurônios) e neuroplasticidade (reconexão de neurônios antigos). Isso permite ao cérebro se regenerar, criar novas conexões e reinterpretar traumas sob nova perspectiva emocional. Durante a experiência psicodélica, diferentes áreas do cérebro se comunicam intensamente, proporcionando insights profundos, epifanias e até mudanças de crenças limitantes.

Um dos efeitos mais documentados é a suspensão temporária da “rede neural padrão”, estrutura relacionada à construção da identidade, ao planejamento e ao superego. Com essa suspensão, há um “afrouxamento” do ego, permitindo experiências de dissolução do eu semelhantes às vividas por meditadores experientes. Isso pode promover uma reconciliação com memórias dolorosas, redirecionar pensamentos suicidas e abrir espaço para uma nova compreensão de si.

<><> Resultados promissores e experiências transformadoras

Pesquisas conduzidas pelo Imperial College London com psilocibina em pessoas saudáveis mostram que um terço dos participantes relatou ter vivido a experiência mais impactante de suas vidas. Os outros dois terços apontaram como uma das cinco experiências mais marcantes. Isso ilustra o potencial transformador dessas substâncias, especialmente quando administradas com orientação terapêutica e em contextos seguros.

A grande questão é: o que cura de fato? Seria apenas a modulação química da serotonina, ou o reencontro com um sentido mais profundo da existência? Pela primeira vez, ciência e espiritualidade começam a dialogar de forma legítima. E os enteógenos podem ser a ponte entre esses dois universos.

 

Fonte: Revista Malu/CNN Brasil

 

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