segunda-feira, 21 de julho de 2025

Economia verde e sustentabilidade se tornam farsa ao absorver lógica capitalista de preservação

A economia ergueu-se como linguagem dominante dos nossos tempos, uma gramática de números, crescimentos e promessas de abundância. Mas sob essa arquitetura há um silêncio: o da natureza convertida em ausência contábil. Como um edifício erguido sobre um abismo, a lógica econômica se expande sem reconhecer o chão que a sustenta, o solo, a água, os ciclos, o corpo vivo do planeta. Nos últimos anos, essa linguagem passou a incorporar o léxico da sustentabilidade, adotando tons verdes, indicadores ambientais, metas de mitigação e resultados esperados. Em relatórios, dashboards e painéis de governança, a vida vai sendo traduzida em KPIs, outputs, outcomes. Tudo parece cada vez mais monitorado, e ainda assim, cada vez menos transformado. O desconforto crescente de ver a natureza transformada em ativo, o clima em índice de risco e a vida em planilha desafia a consciência de quem se vê inserido nesse sistema. Escrevo não de fora, mas entre essas estruturas, acompanhando de perto o esforço constante, por vezes sincero, por vezes apenas protocolar, de tornar compatíveis dois mundos que talvez não queiram mais se encontrar.

Essa economia, que se apresenta como ciência exata, é antes um sistema de valores, um código que atribui importância, determina o que conta e o que pode ser descartado. Ela não apenas descreve o mundo, ela o reconfigura. A racionalidade econômica se estende para além dos mercados e coloniza campos antes orientados por princípios éticos, ecológicos ou comunitários. No campo ambiental, é crescente a pressão por métricas: devemos comprovar impactos, demonstrar resultados intermediários, justificar cada hectare conservado com indicadores agregados e relatórios técnicos.

No norte de Mato Grosso, por exemplo, comunidades envolvidas em projetos de pagamento por serviços ambientais são incentivadas a demonstrar sucesso por meio de metas como área mantida intacta, número de capacitações realizadas e aumento da renda familiar. Mas, na prática, muitas dessas famílias passaram a direcionar seus esforços para atender às exigências do projeto, substituindo práticas agrícolas diversas por monocultivos de açaí voltados à exportação. O resultado é uma floresta de pé nos relatórios, mas uma paisagem cultural empobrecida e uma soberania alimentar fragilizada.

Nos últimos anos, assistimos à ascensão de uma nova figura institucional: o economista ambiental, não aquele que questiona os fundamentos da economia, mas aquele que sabe traduzi-los em “linguagem verde”. É ele quem domina reuniões de alto nível, revisa teorias de impacto, desenha mecanismos de precificação e se torna referência em fóruns internacionais sobre clima, biodiversidade e governança ambiental. Muitos desses profissionais passaram a ocupar cargos estratégicos em organizações ambientais, trazendo consigo a promessa de racionalizar o ambiental sob critérios de mercado. Com habilidade técnica e retórica eficiente, transformam florestas em créditos, rios em serviços ecossistêmicos e territórios inteiros em unidades de desempenho.

O problema não está apenas na presença desses especialistas, mas na lógica que os precede: a ideia de que só protegeremos o que soubermos precificar e de que só há valor quando há retorno. É o que se viu no caso do projeto de REDD+ implementado entre os Paiter Suruí, em Rondônia. Uma iniciativa pioneira, construída com forte participação local, foi gradualmente absorvida pela lógica do mercado internacional de carbono, onde a floresta passou a ser valorizada não por sua biodiversidade, espiritualidade ou cultura, mas pelas toneladas de CO₂ equivalente que podia reter. Nesse movimento, o território indígena se tornou um ativo ambiental negociável, e o mercado, mais uma vez, moldou os contornos daquilo que seria considerado impacto positivo. O discurso muda, mas a lógica permanece. E talvez o mais inquietante seja perceber como essa operação não exige violência explícita. Basta o uso refinado das palavras certas, nos fóruns certos, com os dados certos (ou nem tanto).

Há uma crença amplamente difundida, repetida em relatórios, discursos institucionais e compromissos públicos, de que é possível compatibilizar crescimento econômico contínuo com sustentabilidade ecológica. Trata-se de uma ideia sedutora, mas que ignora os limites físicos do planeta e a complexidade dos sistemas naturais. A lógica da expansão, mais produção, mais consumo, mais eficiência, persiste mesmo quando travestida de preservação. Indicadores de crescimento sustentável multiplicam-se, enquanto a degradação avança em ritmos mais sutis, menos visíveis, porém constantes.

Em muitos contextos, comemora-se a intensificação da pecuária como solução climática, especialmente em regiões como o Mato Grosso e Pará, onde o abate precoce de bois com menos de dois anos reduz a emissão de metano por quilo de carne. No entanto, a área de pastagem continua a se expandir sobre a vegetação nativa, pressionando a floresta e as terras indígenas. O indicador melhora, mas o planeta perde. Celebra-se a redução da emissão por hectare, mas evita-se a pergunta sobre quantos hectares a mais foram convertidos. Os ganhos relativos obscurecem as perdas absolutas. A lógica do crescimento não se nega a si mesma, apenas se adapta, ajusta, simula contenção. E assim, mesmo os instrumentos de mitigação acabam funcionando como mecanismos de legitimação. Dão à destruição um prazo, uma taxa, uma curva aceitável.

Enquanto o discurso da compatibilização avança, quem vive nas margens sociais, ecológicas e territoriais segue enfrentando as consequências mais imediatas da dissonância entre o que se diz e o que se faz. Comunidades ribeirinhas, povos indígenas, agricultores familiares e trabalhadores do campo convivem com as promessas do desenvolvimento sustentável ao mesmo tempo em que perdem acesso à terra, à água e à própria memória dos lugares. A lógica dos indicadores raramente contempla essas perdas. Não há KPI para o desaparecimento de um modo de vida, nem output que capture a dor de um território silenciosamente esvaziado. Os relatórios avançam, mas os vínculos se rompem.

O caso da hidrelétrica de Teles Pires é emblemático: o projeto consta como gerador de energia limpa e empregos formais. Mas o que não aparece nas planilhas é a destruição dos peixes que sustentavam os Kayabi, Apiaká e Munduruku, o alagamento de cemitérios ancestrais, a perda de locais sagrados e de formas de vida que não cabem no balanço energético. Mesmo nas agendas que se pretendem inclusivas, a voz dos que resistem fora do sistema ainda é tratada como apêndice, quando não como obstáculo. O que se mede vira evidência, o que se vive vira ruído. E nesse ruído habitam histórias que os gráficos não alcançam: ciclos que se desfazem, alimentos que deixam de brotar, rituais que se interrompem sem alarde. São custos que não entram na planilha, mas que pesam nos ombros de quem menos tem margem para suportá-los.

Diante dessa paisagem de racionalidades estreitas, torna-se urgente recuperar outras formas de pensar o valor, aquelas que não cabem em planilhas, mas sustentam territórios há séculos. Em diversas partes do mundo, e também neste país de geografias feridas, existem formas de economia baseadas no cuidado, na reciprocidade e na regeneração. Não se trata de idealizar essas práticas como soluções perfeitas ou isentas de contradições. Elas são, antes, complexas respostas adaptativas, forjadas no contexto e na necessidade, cuja evolução oferece um contraponto vital à lógica linear do crescimento. Ainda que pouco visíveis nas agendas globais, essas práticas insistem em existir. É o que se vê nos sistemas agroflorestais praticados por comunidades quilombolas no Vale do Ribeira, onde a banana orgânica, os extrativismos, os saberes medicinais e as práticas comunitárias de gestão do território criam um modelo silencioso de resistência.

Nessas paisagens, não há commodities em escala, mas há diversidade, segurança alimentar, regeneração do solo e redes de cuidado. Elas nos dizem que há futuro fora da lógica da extração, e que talvez a verdadeira transição não esteja em sofisticar os mecanismos de mercado, mas em descolonizar o olhar. Para isso, é preciso não apenas escutar essas vozes, mas aceitá-las como legítimas produtoras de conhecimento. Nem tudo o que é valioso pode ser escalável. Nem tudo o que funciona em rede cabe na lógica do mercado. E talvez seja exatamente aí que reside a potência de outras economias possíveis.

Não se trata de recusar o diálogo com a economia, mas de recusar sua pretensão de totalidade. O desafio que se impõe é o de descolonizar a razão econômica, desconstruir a ideia de que só há valor onde há retorno, e de que só há futuro onde há crescimento. Esse processo exige coragem para contrariar consensos institucionais e maturidade para sustentar contradições. E talvez comece pelo gesto simples, mas profundo, de recuperar o sentido das palavras: território, cuidado, ciclo, limite, reparação… meio ambiente! Escrevo não por revolta, mas por responsabilidade, por estar onde estou e ver o que vejo. É possível que já tenhamos passado do tempo de fazer ajustes; talvez seja hora de reimaginar os fundamentos. Não será fácil, nem rápido. Mas enquanto insistirmos em medir a saúde do planeta com as mesmas métricas que impulsionaram sua doença, seguiremos produzindo evidências impecáveis para sustentar decisões equivocadas. Há um ponto, entre a planilha e o rio, entre o gráfico e a mata, onde é preciso parar e ouvir. Talvez ali comecem, enfim, as perguntas certas.

 

Fonte: Por Arley Haley Faria, no Correio da Cidadania

 

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