Economia
verde e sustentabilidade se tornam farsa ao absorver lógica capitalista de
preservação
A
economia ergueu-se como linguagem dominante dos nossos tempos, uma gramática de
números, crescimentos e promessas de abundância. Mas sob essa arquitetura há um
silêncio: o da natureza convertida em ausência contábil. Como um edifício
erguido sobre um abismo, a lógica econômica se expande sem reconhecer o chão
que a sustenta, o solo, a água, os ciclos, o corpo vivo do planeta. Nos últimos
anos, essa linguagem passou a incorporar o léxico da sustentabilidade, adotando
tons verdes, indicadores ambientais, metas de mitigação e resultados esperados.
Em relatórios, dashboards e painéis de governança, a vida vai sendo traduzida
em KPIs, outputs, outcomes. Tudo parece cada vez mais monitorado, e ainda
assim, cada vez menos transformado. O desconforto crescente de ver a natureza
transformada em ativo, o clima em índice de risco e a vida em planilha desafia
a consciência de quem se vê inserido nesse sistema. Escrevo não de fora, mas
entre essas estruturas, acompanhando de perto o esforço constante, por vezes
sincero, por vezes apenas protocolar, de tornar compatíveis dois mundos que
talvez não queiram mais se encontrar.
Essa
economia, que se apresenta como ciência exata, é antes um sistema de valores,
um código que atribui importância, determina o que conta e o que pode ser
descartado. Ela não apenas descreve o mundo, ela o reconfigura. A racionalidade
econômica se estende para além dos mercados e coloniza campos antes orientados
por princípios éticos, ecológicos ou comunitários. No campo ambiental, é
crescente a pressão por métricas: devemos comprovar impactos, demonstrar
resultados intermediários, justificar cada hectare conservado com indicadores
agregados e relatórios técnicos.
No
norte de Mato Grosso, por exemplo, comunidades envolvidas em projetos de
pagamento por serviços ambientais são incentivadas a demonstrar sucesso por
meio de metas como área mantida intacta, número de capacitações realizadas e
aumento da renda familiar. Mas, na prática, muitas dessas famílias passaram a
direcionar seus esforços para atender às exigências do projeto, substituindo
práticas agrícolas diversas por monocultivos de açaí voltados à exportação. O
resultado é uma floresta de pé nos relatórios, mas uma paisagem cultural
empobrecida e uma soberania alimentar fragilizada.
Nos
últimos anos, assistimos à ascensão de uma nova figura institucional: o
economista ambiental, não aquele que questiona os fundamentos da economia, mas
aquele que sabe traduzi-los em “linguagem verde”. É ele quem domina reuniões de
alto nível, revisa teorias de impacto, desenha mecanismos de precificação e se
torna referência em fóruns internacionais sobre clima, biodiversidade e
governança ambiental. Muitos desses profissionais passaram a ocupar cargos
estratégicos em organizações ambientais, trazendo consigo a promessa de
racionalizar o ambiental sob critérios de mercado. Com habilidade técnica e
retórica eficiente, transformam florestas em créditos, rios em serviços
ecossistêmicos e territórios inteiros em unidades de desempenho.
O
problema não está apenas na presença desses especialistas, mas na lógica que os
precede: a ideia de que só protegeremos o que soubermos precificar e de que só
há valor quando há retorno. É o que se viu no caso do projeto de REDD+
implementado entre os Paiter Suruí, em Rondônia. Uma iniciativa pioneira,
construída com forte participação local, foi gradualmente absorvida pela lógica
do mercado internacional de carbono, onde a floresta passou a ser valorizada
não por sua biodiversidade, espiritualidade ou cultura, mas pelas toneladas de
CO₂ equivalente que podia reter. Nesse movimento, o território indígena se
tornou um ativo ambiental negociável, e o mercado, mais uma vez, moldou os
contornos daquilo que seria considerado impacto positivo. O discurso muda, mas
a lógica permanece. E talvez o mais inquietante seja perceber como essa
operação não exige violência explícita. Basta o uso refinado das palavras
certas, nos fóruns certos, com os dados certos (ou nem tanto).
Há uma
crença amplamente difundida, repetida em relatórios, discursos institucionais e
compromissos públicos, de que é possível compatibilizar crescimento econômico
contínuo com sustentabilidade ecológica. Trata-se de uma ideia sedutora, mas
que ignora os limites físicos do planeta e a complexidade dos sistemas
naturais. A lógica da expansão, mais produção, mais consumo, mais eficiência,
persiste mesmo quando travestida de preservação. Indicadores de crescimento
sustentável multiplicam-se, enquanto a degradação avança em ritmos mais sutis,
menos visíveis, porém constantes.
Em
muitos contextos, comemora-se a intensificação da pecuária como solução
climática, especialmente em regiões como o Mato Grosso e Pará, onde o abate
precoce de bois com menos de dois anos reduz a emissão de metano por quilo de
carne. No entanto, a área de pastagem continua a se expandir sobre a vegetação
nativa, pressionando a floresta e as terras indígenas. O indicador melhora, mas
o planeta perde. Celebra-se a redução da emissão por hectare, mas evita-se a
pergunta sobre quantos hectares a mais foram convertidos. Os ganhos relativos
obscurecem as perdas absolutas. A lógica do crescimento não se nega a si mesma,
apenas se adapta, ajusta, simula contenção. E assim, mesmo os instrumentos de
mitigação acabam funcionando como mecanismos de legitimação. Dão à destruição
um prazo, uma taxa, uma curva aceitável.
Enquanto
o discurso da compatibilização avança, quem vive nas margens sociais,
ecológicas e territoriais segue enfrentando as consequências mais imediatas da
dissonância entre o que se diz e o que se faz. Comunidades ribeirinhas, povos
indígenas, agricultores familiares e trabalhadores do campo convivem com as
promessas do desenvolvimento sustentável ao mesmo tempo em que perdem acesso à
terra, à água e à própria memória dos lugares. A lógica dos indicadores
raramente contempla essas perdas. Não há KPI para o desaparecimento de um modo
de vida, nem output que capture a dor de um território silenciosamente
esvaziado. Os relatórios avançam, mas os vínculos se rompem.
O caso
da hidrelétrica de Teles Pires é emblemático: o projeto consta como gerador de
energia limpa e empregos formais. Mas o que não aparece nas planilhas é a
destruição dos peixes que sustentavam os Kayabi, Apiaká e Munduruku, o
alagamento de cemitérios ancestrais, a perda de locais sagrados e de formas de
vida que não cabem no balanço energético. Mesmo nas agendas que se pretendem
inclusivas, a voz dos que resistem fora do sistema ainda é tratada como
apêndice, quando não como obstáculo. O que se mede vira evidência, o que se
vive vira ruído. E nesse ruído habitam histórias que os gráficos não alcançam:
ciclos que se desfazem, alimentos que deixam de brotar, rituais que se
interrompem sem alarde. São custos que não entram na planilha, mas que pesam
nos ombros de quem menos tem margem para suportá-los.
Diante
dessa paisagem de racionalidades estreitas, torna-se urgente recuperar outras
formas de pensar o valor, aquelas que não cabem em planilhas, mas sustentam
territórios há séculos. Em diversas partes do mundo, e também neste país de
geografias feridas, existem formas de economia baseadas no cuidado, na
reciprocidade e na regeneração. Não se trata de idealizar essas práticas como
soluções perfeitas ou isentas de contradições. Elas são, antes, complexas
respostas adaptativas, forjadas no contexto e na necessidade, cuja evolução
oferece um contraponto vital à lógica linear do crescimento. Ainda que pouco
visíveis nas agendas globais, essas práticas insistem em existir. É o que se vê
nos sistemas agroflorestais praticados por comunidades quilombolas no Vale do
Ribeira, onde a banana orgânica, os extrativismos, os saberes medicinais e as
práticas comunitárias de gestão do território criam um modelo silencioso de
resistência.
Nessas
paisagens, não há commodities em escala, mas há diversidade, segurança
alimentar, regeneração do solo e redes de cuidado. Elas nos dizem que há futuro
fora da lógica da extração, e que talvez a verdadeira transição não esteja em
sofisticar os mecanismos de mercado, mas em descolonizar o olhar. Para isso, é
preciso não apenas escutar essas vozes, mas aceitá-las como legítimas
produtoras de conhecimento. Nem tudo o que é valioso pode ser escalável. Nem
tudo o que funciona em rede cabe na lógica do mercado. E talvez seja exatamente
aí que reside a potência de outras economias possíveis.
Não se
trata de recusar o diálogo com a economia, mas de recusar sua pretensão de
totalidade. O desafio que se impõe é o de descolonizar a razão econômica,
desconstruir a ideia de que só há valor onde há retorno, e de que só há futuro
onde há crescimento. Esse processo exige coragem para contrariar consensos
institucionais e maturidade para sustentar contradições. E talvez comece pelo
gesto simples, mas profundo, de recuperar o sentido das palavras: território,
cuidado, ciclo, limite, reparação… meio ambiente! Escrevo não por revolta, mas
por responsabilidade, por estar onde estou e ver o que vejo. É possível que já
tenhamos passado do tempo de fazer ajustes; talvez seja hora de reimaginar os
fundamentos. Não será fácil, nem rápido. Mas enquanto insistirmos em medir a
saúde do planeta com as mesmas métricas que impulsionaram sua doença,
seguiremos produzindo evidências impecáveis para sustentar decisões
equivocadas. Há um ponto, entre a planilha e o rio, entre o gráfico e a mata,
onde é preciso parar e ouvir. Talvez ali comecem, enfim, as perguntas certas.
Fonte:
Por Arley Haley Faria, no Correio da Cidadania

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