Pandemia:
O futuro que deixamos para trás
Uma
pesquisa recente sobre a relação entre a pandemia da covid-19 e a vida dos
migrantes possibilitou o diálogo com vários sujeitos que vivenciaram aquela
relação sob diferentes perspectivas: acadêmicos/as, representantes de
instituições locais, profissionais da área social e os próprios migrantes.
Muitos
dos nossos interlocutores, ao ouvirem o argumento do que se pretendia falar,
ficaram interessados, mas, ao mesmo tempo, surpreendidos. Pareceu que tivessem
de fazer um esforço mnemônico, vasculhar no baú de recordações para encontrar
algo que já estava arquivado.
A razão
da surpresa e do interesse encontra-se num dado incontrovertível: o
esquecimento generalizado entre a população do que se passou e a normalização
das consequências trazida pelo refrão “voltemos à normalidade!”.
Desde
que a crise pandêmica recuou, pouco ou nada mais se falou aprofundadamente
sobre um assunto tão recente e dramático. Ninguém, ou quase ninguém, sentiu a
necessidade de refletir a posteriori acerca do que foi dito, legislado, vivido.
Ninguém, ou quase ninguém, tentou analisar duma forma pormenorizada que
transformações, direita ou indiretamente, têm sido induzidas ao longo daqueles
dois anos e meio e de que forma têm afetado a vida de todos nós, com destaque
de alguns setores do corpo social.
Não se
quer retomar aqui o debate importante e amplo que deu origem a posições muito
claras e contrapostas acerca da função da ferramenta utilizada pelos governos
europeus no fazer face à crise pandêmica. O que importa, pelo contrário, é
destacar, duma forma geral, o impacto que teve sobre as vidas, ou, para melhor
dizer, ao nível das vidas.
O
objetivo destas páginas provisórias é, portanto, tentar encontrar uma resposta,
igualmente provisória, à pergunta: “Passaram-se apenas três anos, como é
possível que já tenhamos esquecido tudo?”
A
pandemia gerou divisões profundas e diferentes níveis de cuidado entre a
população, tanto no seu conjunto, quanto no seu componente laboral. A
sobreposição destas duas entidades (população geral e população trabalhadora)
revelou como, desde do início do período pandêmico, a governamentalidade da
crise destacou a coexistência de trabalhos indispensáveis e corpos
dispensáveis.
Não se
trata dum aspecto que começa e termina nas condições laborais duma parte da
população. Pelo contrário, tem a ver com as suas condições de existência,
abrangendo desde as moradias até os meios de transporte, do acesso aos serviços
de saúde, às oportunidades de suporte social e psíquico para os mais frágeis.
Em outras palavras, a pandemia não foi “democrática”, não afetou a todos da
mesma forma: salientou e acentuou as deferências que já existiam. As medidas
biopolíticas que foram tomadas são medidas racistas: aprofundaram o sulco entre
os que tinham condições e os que não as tinham. Obviamente, entre esses últimos
cabem muitos “autóctones”, não apenas os migrantes.
Tudo
isto já estava bem claro após o primeiro ano da eclosão da pandemia, e
continuou assim até o “fim”. E então, o que é que aconteceu com as nossas
críticas, a solidariedade militante, as nossas experimentações de mútua ajuda?
Onde foi parar o segundo refrão, tão patético como o primeiro, embora seja um
pouco mais otimista, que repetia “nada voltará a ser como antes”?
Tudo
foi esquecido, porque tudo foi ultrapassado – ou vice versa. Existe uma
“gramática da crise”, como a define muito oportunamente Daniele Lorenzini num
artigo publicado em inglês e em italiano, que faz com que tudo o que é dito se
encaixe dentro dessas regras, inclusive os nossos pensamentos. As crises do
capitalismo partilham, em essência, a mesma gramática: a saída da crise traça o
rumo duma nova fase do desenvolvimento, ainda que inteiramente contida nas
lógicas de funcionamento do capital. Novos desafios, novas medidas num espaço
que pode expandir-se numa direção ou outras, mantendo porém inalterados os
pressupostos que constituem os alicerces econômicos, sociais e culturais do
sistema de normas em que vivemos. “There’s no alternative”, como sublinhou
amargamente o Mark Fisher, retomando uma dramática, embora muito “realista”,
expressão da Margaret Thatcher.
A
ligação estreita entre a saída da crise e esquecimento generalizado baseia-se
num tipo de narração que promove a autoabsolvição atuada pelos órgãos do poder.
Estes apresentam as causas como algo que está fora do alcance das suas escolhas
e políticas, algo que vem do exterior (mercados financeiros globais, mudanças
nos países “periféricos”, mudanças climáticas, hábitos insalubres, estratégias
de laboratórios biológicos), ou seja como algo incontrolável.
Ao
agirem desta forma, aqueles órgãos promovem a naturalização das crises e, no
mesmo tempo, a sua neutralização, recorrendo a instrumentos que não passam de
mecanismos totalmente compatíveis com as mesmas condições que deram origem a
essas crises. Em consequência disto, o sistema de normas que regula as vidas
propõe medidas que distribuem de forma desigual e discriminatória os recursos
para se abrigar dos efeitos negativos produzidos.
Neutralizar
as crises por meio da sua naturalização significa, então, intervir propondo
medidas cujo principal objetivo é desviar a atenção das suas verdadeiras
causas. A condição de possibilidade de sucesso deste desvio é induzir e manter
a união da população no seu conjunto em torno de alguns elementos essenciais,
indiscutíveis. A partir daí, qualquer medida tomada pode – e deve – encontrar o
apoio da população, se não na sua totalidade, pelo menos na sua vasta maioria.
Para os outros existe apenas o estigma, as piores acusações. Tudo que põe em
questão a validade dessas medidas não passa de fake news. Os meios financeiros
disponibilizados para o pós-crise (os PRRs nacionais) avalizam essa lógica de
autoabsolvição e relegam ao esquecimento tanto as causas quanto os efeitos das
crises, logo após a sua aparente — ou apenas proclamada — superação.
Esquecer
é uma necessidade. “Aceitar sem questionar o incomensurável e o insano –
escreve Fisher no seu Realismo capitalista – é [no capitalismo tardio] uma
técnica que desempenha um papel especial”. Sempre que ocorre uma reinvenção de
algo, o “oblívio coletivo” é induzido como técnica de adaptação ao novo – desde
que essa reinvenção possa, de alguma forma, ser associada a ideia de novidade.
Dado
que tudo é precário, “esquecer torna-se uma estratégia de adaptação”, cuja
eficácia é relacionada com uma percepção do tempo onde o passado e o futuro
colapsam num eterno presente. Manter tudo no presente significa alterar as
condições de analise duma experiência vivida, que precisa do passado, assim
como de imaginar o futuro, para poderem ser ambos modificados. Se tudo acontece
hoje, não precisamos de recordar, tampouco de imaginar, como bem nos ensina a
vida digital nas redes sociais.
Adaptação
a que?
Uma
resposta bastante clara surge no texto de Lorenzini acima mencionado. Ao
considerar que o novo paradigma governamental implica “uma extensão perigosa do
âmbito de intervenção dos mecanismos de poder”, o que interessa o Lorenzini é a
reação que vem do lado dos “governados”. No que diz respeito à pandemia, o que
o surpreende é o fato de tantos de nós terem respeitados as regras do
confinamento mesmo “quando o risco de sanções, na maioria das situações, é
baixo”. Isto, porque “o poder disciplinar e biopolítico funciona duma forma
automática, invisível e ordinária”.
Eis
então a adaptação que se relaciona com as medidas tomadas em tempos
“excepcionais”, tornando-as rapidamente normais, ordinárias. A passagem ao
esquecimento é fundamental e indolor: o excepcional dilui-se até ser
irreconhecível como tal, porque o nosso hoje – onde o passado colapsou – não
nos permite mais detetá-lo.
Isto
acontece num contexto em que não se pode dizer que faltem marcas claras do
legado que nos deixaram: quer a pandemia em si, quer as medidas tomadas naquele
período. São marcas que, vale a pena repeti-lo, fundam-se nas desigualidades
sociais preexistentes à crise e as acentuam.
Uma
geração de jovens está deitada nos divãs dos consultórios de psicanalistas, ou
estão tomando psicofármacos, ou ambos. Ainda entre os jovens, as relações são,
em sua esmagadora maioria, virtuais; o sexo tornou-se uma prática inusitada,
quase exotérica. Os casos de autismo entre as crianças disparou, o sono entre
jovens e adultos tornou-se um acontecimento, como emerge dos estudos e
rastreios da antropóloga médica Stefania Consigliere e de Cristina Zavaroni,
antropóloga cultural. É difícil negar que sejam consequências do período
pandêmico.
Não
obstante, há uma aceitação acrítica destas condições nos grandes meios de
comunicação e nas escolhas políticas dos governos e das oligarquias que gerem
as nossas vidas. Os Serviços Nacionais de Saúde e os de Educação estão cada vez
piores, nenhum investimento sério foi feito para pô-los em condições de
enfrentar as mudadas condições de existência duma parte considerável da
população. Pelo contrário, cresce a incidência – e o financiamento – em
empresas privadas destes setores, cujas lógicas de funcionamento mantêm-se
muito para aquém da promoção do bem-estar coletivo.
As
consequências no âmbito do trabalho seguem a mesma linha. As inúmeras
publicações sobre a gestão do trabalho no período pandêmico, bem como as
mudanças estruturais dele decorrentes, descrevem um cenário bastante claro. As
diferenças entre os mercados de trabalho e as regras que os gerem tornam-se
cada vez mais profundas, com níveis de garantia e possibilidade de contratação
que abrem um abismo entre eles. O domínio da chantagem em muitos empregos é uma
realidade visível a todos os que quiserem enxergá-la.
Com a
pandemia, a ideia do coletivo foi substituída pelo individualismo – desafio
central do neoliberalismo – e passa a ser a regra geral. A “amazonização” do
trabalho e da sociedade no seu complexo muda as relações entre os tempos que
compõem as nossa vidas, muda a própria ideia de emprego. Nada de novo, claro,
mas tudo foi acelerado com uma velocidade impressionante. Nem se quer faz
sentido falar em termos de precariedade do emprego; se calhar, seria mais
conveniente falarmos de nomadismo como condição existencial, que vai muito para
além do que respeita o trabalho.
Retomemos
apenas um aspecto que saiu da pesquisa mencionada no início. Ter a obrigação,
por exemplo, de ir trabalhar em condições já péssimas – para além daquelas
excepcionais ditadas pela crise pandêmica, que as agravou ainda mais – como no
caso dos estaleiros navais em Gênova, constituem uma grave forma de “atenção
diferencial” no que diz respeito ao mundo do trabalho. O testemunho que foi
recolhido conta-nos de máscaras encharcadas e sujas como panos para lavar o
chão, com as quais o trabalhador havia de ficar para horas em lugares com mais
de 40 graus de calor. O setor da construção de navios não parou, salvo por um
curto prazo: as grandes companhias que encomendaram os novos navios queriam ter
a sua entrega garantida logo após o fim da pandemia, para recuperar o dinheiro
perdido com o bloqueio forçado das suas atividades de cruzeiro.
Uma
situação que se pode multiplicar por milhares, se tivermos em conta o trabalho
de limpeza, o do cuidado pessoal, o setor da restauração, a entrega de comida e
de qualquer outro bem, assim como a agricultura e a construção civil.
A saída
da pandemia e, sobre tudo, os meios financeiros que foram disponibilizados
pelos PRRs poderiam ter representado uma oportunidade para as assim chamadas
forças progressistas repensarem de alguma forma as condições de vida e de
trabalho, bem como o papel dos serviços essenciais. Poderia ter sido o momento
certo para organizarem uma mobiliação geral que colocasse no centro a vida, em
todos os seus aspectos cruciais.
Não
aconteceu. Provavelmente nem teria tido muito sucesso. A espada de Dâmocles da
chantagem e, a seguir, a adaptação e o esquecimento colonizaram o nosso
inconsciente, até tornar tudo – dramaticamente – ordinário.
Fonte:
Por Stefano Rota, em Outras Palavras

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