segunda-feira, 21 de julho de 2025

Ditadura abriu caminho para Bolsonaro e prisão é passo contra o fascismo, diz Paulo Vannuchi

A possível prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e os desdobramentos da tentativa de golpe de Estado articulada por ele e aliados precisam marcar uma virada definitiva na história brasileira, segundo Paulo Vannuchi, jornalista, ex-ministro dos Direitos Humanos e membro eleito do Comitê da Organização das Nações Unidas (ONU) contra Desaparecimentos Forçados. Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, ele afirma que a impunidade dos crimes da ditadura militar (1964-1985) abriu caminho para a ascensão do bolsonarismo e cobra uma punição exemplar para impedir o retorno do fascismo.

“A tese foi comprovada: se não houvesse a apuração rigorosa, individualizada e punições cabíveis para todos os que torturaram, mataram, massacraram, inclusive grupos indígenas e camponeses ao longo do período ditatorial, essa violência voltaria. E voltou, liderada por Jair Bolsonaro, que hoje ganha uma tornozeleira”, diz. “Agora é o passo para uma cadeia definitiva”, completa, citando os crimes de tentativa de golpe, elogio à tortura e, mais recentemente, o envolvimento em uma trama com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para desestabilizar a economia brasileira.

Vannuchi caracteriza o apoio de figuras como o governador de São Paulo Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o deputado licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) às taxas anunciadas por Trump como um “crime de lesa-pátria, de traição nacional”, que pode afetar profundamente o país e, inclusive, os aliados do ex-presidente. “Vai destruir em primeiríssimo lugar a fortuna dos seus aliados do agronegócio, os bolsonaristas empedernidos, que nunca imaginaram essa hipótese. E, pior ainda: não vão aprender a lição”, alerta.

O mandado de busca e apreensão contra Bolsonaro, cumprido nesta sexta (17) pela Polícia Federal (PF) é um ponto de virada, acredita o ex-ministro. “É o primeiro passo para estimular mais o novo momento que o povo brasileiro vive; para garantir que, em 2026, não volte o fascismo como estava planejado pelo mesmo agronegócio, agora sem Bolsonaro, mas com Tarcísio Freitas, que embarcou na onda, se lascou e eu espero que não se levante mais”, declara.

<><> 40 anos do ‘Brasil: Nunca Mais’

Ao comentar os 40 anos do lançamento do Brasil: Nunca Mais, livro que denuncia as torturas cometidas pela ditadura militar, o ex-ministro relembrou a atuação do autor da obra, o cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, e lamentou que as recomendações da Comissão Nacional da Verdade, concluídas em 2014, não tenham sido levadas adiante. “O segundo governo [da ex-presidente] Dilma [Rousseff (PT)] já nasceu sob golpismo. O primeiro golpista foi Aécio Neves, que questionou o resultado das eleições e começou uma onda toda”, destaca.

Apesar do histórico de impunidade, Vannuchi demonstra otimismo. “Haverá uma condenação severa, pela primeira vez na história do Brasil, dos generais golpistas e do seu chefe, o clã Bolsonaro”, celebra. Ele também destaca a atuação dos ministros Flávio Dino, Alexandre de Moraes e Edson Fachin para revisar a interpretação do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a Lei da Anistia. “Foi um erro do Supremo em 2010 e agora este ano deve ser corrigido, pelo menos para os desaparecidos. Aqueles que não temos o corpo”, indica.

Vannuchi defende uma profunda reformulação das Forças Armadas. “É preciso aproveitar, espero que o presidente Lula (PT) faça isso, sem tardar. Vamos começar a criar agora Forças Armadas que conheçam os problemas e a miséria do povo brasileiro, as desigualdades regionais”, opina. Para ele, não se pode mais tolerar militares “formados por uma doutrina de segurança nacional que vê o ‘inimigo interno comunista’ em qualquer música de Chico Buarque”.

•        ‘Bolsonaro acordou com a visita mais temida’, diz El País

A operação deflagrada pela Polícia Federal (PF) contra o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro, com o aval do Supremo Tribunal Federal (STF), tornou-se manchete nos jornais de todo o mundo logo nas primeiras horas desta sexta-feira (18/07). O jornal El País relatou que o político de extrema direita “acordou em sua casa em Brasília com a visita mais temida”, em referência aos agentes da PF.

O periódico espanhol ressaltou que os mandados de busca e apreensão tiveram como principal motivação “um risco crescente de fuga”, uma vez que Bolsonaro é alvo de um processo judicial por tentativa de golpe de Estado contra o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A Procuradoria-Geral da República solicitou ao STF, nesta semana, a condenação do ultradireitista e de outros sete réus por envolvimento na trama golpista. Cada um pode pegar até 43 anos de cadeia.

El País também lembrou que a operação policial ocorre um dia após uma carta enviada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que trava uma guerra comercial e política com o governo Lula. Na noite de quinta-feira (17/07), o magnata defendeu o fim imediato do julgamento contra seu aliado brasileiro e garantiu que irá seguir observando o Brasil “de perto”, embora o presidente brasileiro tenha diversas vezes criticado a interferência norte-americana no país sul-americano.

“Com uma tensão que aumenta a cada dia que passa, o juiz Alexandre de Moraes, que investiga o processo, decidiu se cuidar antes de Bolsonaro pedir asilo a Trump e se refugiar na embaixada dos EUA, por exemplo, hipótese que já se fala há algum tempo”, acrescentou o jornal.

<><> Washington Post

No título de sua matéria, o jornal norte-americano Washington Post escreveu que Bolsonaro foi “obrigado a usar um monitor eletrônico de tornozelo”.

O periódico retomou um trecho do relatório do procurador-geral Paulo Gonet, responsável pela solicitação da condenação aos acusados da trama golpista. O trecho selecionado em questão menciona as “evidências claras” de que “o réu agiu sistematicamente, ao longo de seu mandato e após sua derrota nas urnas, para incitar a insurreição e a desestabilização do Estado Democrático de Direito”.

O Washington Post também afirmou que Bolsonaro insistiu em se declarar inocente, ao descrever o julgamento do STF como uma “caça às bruxas”, o mesmo termo usado por Trump para justificar a medida tarifária anunciada ao Brasil na semana passada, após o encerramento da cúpula do BRICS.

<><> Al Jazeera

No lado do Oriente Médio, a emissora catar Al Jazeera informou que Bolsonaro foi ordenado a se submeter às medidas restritivas, como ao uso do tornozeleira eletrônica, a proibição ao uso das redes sociais e à interrupção de comunicação “com seu filho Eduardo, um legislador brasileiro que tem feito lobby em Washington em nome de seu pai”.

O veículo lembrou da invasão ao Capitólio, ao afirmar que a operação desta sexta-feira ocorre no momento em que Trump, “cujo apoiadores também tentaram reverter sua derrota eleitoral em janeiro de 2021, ameaçou o Brasil com tarifas de 50% sobre produtos brasileiros se Bolsonaro não recebesse indulto legal”.

•        'Intimidação' e 'arbitrária': a resposta de Lula a sanção dos EUA contra Moraes

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) manifestou neste sábado (19/7) solidariedade aos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) — um dia depois de o governo dos Estados Unidos anunciar a suspensão do visto de Alexandre de Moraes ao país.

"Minha solidariedade e apoio aos ministros do Supremo Tribunal Federal atingidos por mais uma medida arbitrária e completamente sem fundamento do governo dos Estados Unidos", disse Lula em nota oficial do governo brasileiro.

"A interferência de um país no sistema de Justiça de outro é inaceitável e fere os princípios básicos do respeito e da soberania entre as nações."

"Estou certo de que nenhum tipo de intimidação ou ameaça, de quem quer que seja, vai comprometer a mais importante missão dos poderes e instituições nacionais, que é atuar permanentemente na defesa e preservação do Estado Democrático de Direito."

O STF e seus ministros ainda não se manifestaram sobre a medida americana.

A declaração de Lula acontece em meio a uma escalada de tensões entre Brasil e EUA que culminou no anúncio feito na sexta-feira pelo secretário de Estado americano, Marco Rubio, contra Alexandre de Moraes.

Rubio anunciou a revogação imediata do visto de Moraes e de "aliados seus no tribunal" e familiares — sem especificar quem seriam exatamente os demais afetados.

O governo dos EUA acusa Moraes de praticar uma "caça às bruxas política" contra o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro.

Em postagem no X, Rubio disse que Moraes "criou um complexo de perseguição e censura tão abrangente que não só viola direitos básicos dos brasileiros, mas também se estende além das fronteiras do Brasil e atinge os americanos".

A sanção americana a Moraes foi anunciada no mesmo dia em que a Polícia Federal deflagrou operações de buscas contra Bolsonaro.

Sob ordem do ministro do STF, Bolsonaro recebeu na sexta-feira uma tornozeleira eletrônica, que será obrigado a usar. Moraes citou que haveria risco de fuga de Bolsonaro para o exterior — o que o ex-presidente nega.

Moraes também determinou que Bolsonaro não pode usar redes sociais e nem sair de casa entre 19h e 6h e durante os fins de semana. O ministro do STF também proibiu o ex-presidente de se comunicar com "demais réus e investigados" em inquéritos no STF, o que inclui o seu filho Eduardo Bolsonaro.

Deputado federal licenciado, Eduardo se mudou para os EUA com o intuito de pressionar o governo americano a tomar medidas contra Moraes e que levem à anistia dos envolvidos nos atos de 8 de janeiro, em Brasília.

Na decisão do STF de sexta-feira, Moraes afirma que as investigações indicam que Bolsonaro estaria atuando de forma deliberada e ilícita, em conjunto com seu filho Eduardo, para obter a imposição de sanções estrangeiras contra agentes públicos brasileiros.

O objetivo, ainda segundo a decisão, seria tentar submeter o funcionamento do STF "ao crivo de um Estado estrangeiro, por meio de atos hostis e negociações criminosas" com a finalidade de coagir a Corte.

O trecho é uma referência à carta em que o presidente dos EUA, Donald Trump, cita a decisão de impor uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros como uma reação, entre outras coisas, ao tratamento "injusto" dado a Bolsonaro.

Especialistas dizem que Brasil e EUA estão no em um dos piores momentos de sua relação histórica — com as medidas anunciadas pelo governo americano contra o Brasil e com trocas de farpas constantes entre Lula e Trump.

•        A tornozeleira de Bolsonaro é culpa de Tarcísio

A observação é de Marcelo Mirthoff:

“Ao pedir a dois juízes do STF que liberasse o passaporte de Bolsonaro para ele supostamente ir aos EUA ‘negociar’ com Trump, Tarcisio selou a determinação de uso de tornozeleira pelo primeiro. Foi uma demanda tão espantosa que fico na dúvida: foi sem pensar ou era esse o objetivo?”

De fato, o pedido extravagante de Tarcisio levantou as primeiras lebres sobre a fuga de Bolsonaro. Algumas questões saltaram à vista:

1.       Tarcísio não iria ao Supremo com essa demanda, se não tivesse sido solicitado diretamente por Bolsonaro.

2.       Era óbvio, tão óbvio quanto a terra é oval, que a intenção de Bolsonaro seria ir aos Estados Unidos e por lá ficar, ao lado do filho Eduardo.

Com base nessas premissas óbvias, o STF ordenou a colocação de tornozeleira em Bolsonaro e a proibição de qualquer contato com embaixadas estrangeiras.

e houvesse um mínimo de discernimento no cérebro confuso de Bolsonaro, ele já teria ido para a embaixada norte-americana, assim que Donald Trump deu a senha, apresentando-o como perseguido político.

Na verdade, o problema de Bolsonaro é o indulto. Para um machão pré-histórico como ele, seria o fim ter de abrir mão de presidência para Michele, além de tudo, uma mulher.

A lógica dele é neanderthal: ‘Eu não posso ter o carro, mas não admito que você tenha’.”

 

Fonte: Brasil de Fato/Jornal GGN/BBC News Brasil

 

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