João
Lister: Trump, o gangster global - a urgência histórica da resistência
democrática
Trump
atua como chefe de facção global, ataca a soberania brasileira e transforma
Bolsonaro em peça de um projeto autoritário transnacional.
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I. O eco da história: quando as sombras do autoritarismo cruzam o hemisfério
Em 14
de julho de 1789, o povo francês tomou a Bastilha — símbolo do absolutismo e da
opressão monárquica. Aquele ato, que daria início à Revolução Francesa, não foi
apenas a destruição de um cárcere físico, mas o desmantelamento de um sistema
político fundado no privilégio, na mentira e no medo. Hoje, mais de dois
séculos depois, a democracia brasileira vê-se desafiada por ameaças que, embora
distintas na forma, repetem os fundamentos do autoritarismo travestido de
populismo. Donald Trump, figura central dessa nova onda reacionária, voltou
recentemente suas armas contra o Brasil. Em 25 de junho de 2024, em comício no
Texas, declarou que Lula "nunca teria vencido uma eleição limpa",
acusando o sistema eleitoral brasileiro de fraude — sem apresentar qualquer
prova. A fala, embora risível em sua pobreza argumentativa, representa um gesto
gravíssimo de ingerência sobre a soberania de uma nação. Não é a primeira vez.
Em 2022, ao lado de Jair Bolsonaro, Trump já ensaiava o mesmo discurso
conspiratório, preparando terreno para a contestação de uma derrota que ainda
nem havia ocorrido. Hoje, o que se apresenta é a consolidação de uma tática
conhecida na história dos Estados Unidos: desestabilizar governos soberanos que
não se alinham aos seus interesses. E agora, em episódios mais recentes,
estabeleceu um “tarifaço”, justificado por uma suposta perseguição política do
STF a Jair Bolsonaro, a suposta censura das redes sociais e a desbragada fake
news de que a relação comercial Brasil/EUA é deficitária para aquele país. Algo
parecido com a fábula “O Lobo e o Cordeiro”, em que o predador, mesmo tomando
água no rio acima de sua vítima, reclamava que esta estava a turvar sua bebida.
Mero pretexto para abocanhá-la.
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II. O método Trump: colonialismo retórico, gangsterismo diplomático
As
recentes declarações de Trump não são isoladas. Elas seguem um padrão
estabelecido pela política externa norte-americana ao longo dos séculos XX e
XXI: a instrumentalização da mentira para justificar intervenções ou
deslegitimar governos. Do Irã de Mossadegh em 1953 ao Iraque de Saddam Hussein
em 2003, passando pelo Chile (Allende, 1973), Nicarágua, Panamá, Haiti e tantos
outros, a história é marcada pela repetição de um modelo imperialista de
intervenção. Agora, porém, essa lógica assume uma nova forma: a desinformação
como arma geopolítica. Trump não precisa mais de mísseis nem de tropas. Sua
artilharia é simbólica, mas devastadora: redes sociais, palanques repletos de
slogans vazios e um exército de seguidores que replicam mentiras em escala
global. O Brasil, ao ser apontado por ele como palco de "fraudes
eleitorais", é alçado à condição de inimigo simbólico — tal qual os
“Estados párias” nos tempos da Guerra Fria — apenas por ter exercido,
soberanamente, seu direito à alternância de poder. Essa prática, embora
aparentemente pueril, é deliberada. Trump age como um chefe de facção global,
emulando os velhos métodos do gangsterismo diplomático norte-americano, que
alimentava milícias, financiava golpes e apoiava ditadores, desde que servissem
aos seus interesses econômicos e geopolíticos. O Brasil, nesse cenário, aparece
como o mais novo alvo da estratégia de desestabilização por retórica.
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III. A subserviência bolsonarista: a ponte para o colapso institucional
Se
Trump age como operador externo, Bolsonaro e seus filhos foram os operadores
internos da tentativa de golpe. A visita secreta de Jair Bolsonaro a
Mar-a-Lago, em dezembro de 2022, pouco antes de sua fuga do Brasil, não foi
mera cortesia: foi reunião conspiratória. Relatórios de inteligência — hoje
públicos — apontam que houve troca de informações sensíveis e articulação para
contestação dos resultados eleitorais brasileiros, com o apoio de setores
extremistas nos EUA. Eduardo Bolsonaro, membro do chamado “The Movement”
(iniciativa internacional da extrema-direita liderada por Steve Bannon), atuou
como elo direto entre os sabotadores da democracia brasileira e o núcleo
trumpista. As fake news de fraude eleitoral foram amplificadas por redes
bolsonaristas com base em conteúdos norte-americanos. O 8 de janeiro de 2023,
em Brasília, foi o equivalente tropical do 6 de janeiro em Washington: dois
movimentos golpistas com um mesmo DNA ideológico, uma mesma matriz de
financiamento, um mesmo objetivo — a anulação da soberania popular. Essa
simbiose revela o nível de corrosão institucional que o Brasil enfrentou — e
enfrenta. Enquanto Trump ataca nossa soberania com palavras e acusações
infundadas, os Bolsonaro agem como intermediários servis, cúmplices de um
projeto global de extrema-direita que não hesita em destruir nações para
manter-se no poder.
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IV. A resistência brasileira: Bastilhas simbólicas, trincheiras democráticas
Mas
como na Paris de 1789, também aqui as massas não se curvaram. O povo brasileiro
— mesmo com um sistema corroído por desigualdades e polarizações — respondeu
com votos, não com fuzis. A vitória de Lula em 2022 não foi apenas uma vitória
eleitoral: foi um ato de resistência popular à tentativa de instaurar um regime
autocrático no coração da América do Sul. A reação institucional ao 8 de
janeiro, liderada pelo STF, mostrou que há ainda guardiões atentos ao pacto
democrático.
A
democracia brasileira, apesar de todos os seus limites, tem demonstrado uma
maturidade que faltou em outros momentos da história. A leitura dos atos
golpistas como crimes gravíssimos, e não como simples manifestações políticas,
foi um divisor de águas. E essa reação se insere em um contexto maior, de
resistência mundial ao avanço do neofascismo. Do levante do povo chileno contra
Piñera à resistência popular colombiana, da mobilização dos trabalhadores
franceses contra Macron à recente vitória da centro-esquerda no Reino Unido,
vê-se uma reversão progressiva da maré autoritária. O Brasil, nesse tabuleiro,
cumpre um papel histórico: o de trincheira democrática do Sul Global.
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V. O dever histórico da comunidade internacional e do povo americano
Não
basta, no entanto, resistir. É preciso julgar, punir e reparar. Jair Bolsonaro
já responde a processos e investigações que podem levá-lo à prisão. Mas não se
pode isolar o problema. A engrenagem que permitiu a tentativa de golpe
brasileiro foi montada além-mar. É indispensável que o povo estadunidense, em
sua responsabilidade histórica, impeça os desatinos de Donald Trump no poder —
seja por meio do voto, seja por mecanismos legais como o impeachment. A
presidência de Trump, retomada em 2025, já não é mais ameaça futura — é
presente deletério. Nos últimos trinta dias, o presidente norte-americano
reinstalado declarou guerra econômica ao Brasil por meio de um tarifaço
unilateral que afeta diretamente nossas exportações agrícolas e siderúrgicas,
em retaliação à posição soberana do Brasil no cenário internacional. Em
pronunciamento no Rose Garden, Trump exigiu abertamente que o Supremo Tribunal
Federal brasileiro “cesse a perseguição ao patriota Jair Bolsonaro” —
interferência diplomática inédita e ultrajante à independência dos Poderes de
uma nação estrangeira. Como se não bastasse, voltou a afirmar, em rede
nacional, que “Lula não foi eleito de maneira legítima”, replicando a mentira
golpista com aval da Casa Branca. E agora, cassa os passaportes dos ministros
do STF, após a instituição judicial máxima brasileira determinar o
monitoramento de Jair Bolsonaro por “tornozeleira eletrônica”, para impedir
eventual fuga aos EUA — já claramente sinalizada por Trump como possível, como
se este fosse um injustiçado e perseguido político. Não se trata mais de
retórica: trata-se de uma política externa imperial em sua versão 5.0 — moldada
agora pelo caos informacional, por sanções comerciais como chantagem e por
alianças com lideranças de extrema-direita ao redor do mundo. A soberania brasileira
está sob ataque direto, e a democracia global assiste, entre perplexa e
cúmplice, ao ressurgimento de um gangsterismo institucionalizado como método
diplomático.
A luta,
portanto, não é mais apenas comum — é urgente. E é histórica.
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VI. Conclusão: a hora da justiça, a hora da história
A
história julgará Donald Trump e Jair Bolsonaro não apenas como figuras
grotescas, mas como arquitetos de um colapso que ainda pode ser evitado — se
houver coragem. Trump age como o chefe de uma quadrilha ideológica
transnacional, sabotando o princípio da autodeterminação dos povos, corroendo
instituições e usando o poderio dos Estados Unidos para subjugar adversários
políticos sob o disfarce de patriotismo. Bolsonaro, seu espelho tropical,
continua a evadir a Justiça brasileira com apoio explícito de Trump — que o
trata como aliado estratégico, não como réu confesso. Ambos, ao promoverem
golpes simbólicos e concretos contra a democracia, devem ser responsabilizados
com o rigor que se espera diante de crimes contra a ordem internacional. O
julgamento moral e político precisa ceder espaço ao julgamento penal. O Brasil
resistiu ao golpismo, mas não pode resistir sozinho. É hora de todas as nações
comprometidas com a democracia — e, sobretudo, do povo estadunidense —
compreenderem o perigo em curso. A tarefa de impedir a continuação desse
desgoverno planetário passa pela pressão popular, pela mobilização política e,
se necessário, pelo impeachment de um presidente que já demonstrou desprezo
absoluto pelos limites do poder. Como em 1789, a Bastilha de hoje não é um
edifício de pedra, mas uma arquitetura de desinformação, chantagem econômica e
corrosão institucional. Que ela seja tomada. Que os tambores da liberdade soem
novamente — em Brasília, em Nova York, em Buenos Aires, em Kinshasa, em Gaza,
em Teerã — para lembrar que o mundo não pertence aos tiranos. O que está em
jogo, mais uma vez, é a liberdade. E, com ela, a dignidade das nações.
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Jornalista de Atlanta luta contra deportação, apesar das
acusações retiradas: 'Estou vendo o que o poder absoluto pode fazer'
Os
promotores retiraram as últimas acusações contra o jornalista Mario Guevara, da região
de Atlanta, na
semana passada, após sua prisão enquanto transmitia ao vivo um protesto em
junho. Mas o influente repórter salvadorenho continua confinado em um centro de
detenção no sul da Geórgia, lutando contra um caso de deportação,
extorsionários e desespero, disseram pessoas familiarizadas com sua situação ao
Guardian. O governo Donald Trump tem sido
radical de maneiras sem precedentes com imigrantes indocumentados. Mas o
tratamento dado a Guevara é um caso à parte. Transferido entre cinco celas na
Geórgia desde sua prisão enquanto cobria os protestos do "Dia Sem
Reis", o pecado do jornalista veterano com mais de 20 anos de experiência
foi documentar os indocumentados e a forma como os agentes de Trump os têm
caçado. Hoje, de acordo com o Comitê para a Proteção dos Jornalistas, ele
é o único repórter nos Estados Unidos que dorme em uma cela de prisão por fazer
seu trabalho. Os protestos do "Dia Sem Reis" varreram os EUA, com
mais de 100.000 pessoas se reunindo na cidade de Nova York contra as políticas
do governo Trump em 14 de junho de 2025. Fotografia: Carlos Chiossone/ZUMA
Press Wire/Shutterstock “Pela primeira vez na minha vida, estou vendo o que o
poder absoluto pode fazer”, disse o advogado de Guevara, Giovanni Díaz. “Um
poder que não se importa com a aparência. Um poder que não se importa com os
danos a vidas humanas para alcançar um resultado do qual só ouvi falar como
algo abstrato, algo que ouvíamos no passado, geralmente falando sobre outros
governos na forma como perseguem indivíduos. Isso é poderoso.” Em Atlanta,
Guevara é a pessoa para quem os imigrantes ligam quando veem uma operação do
Serviço de Imigração e Alfândega (Ice) acontecendo em seu bairro.
Guevara
trabalhava para o La Prensa Gráfica, um dos principais jornais de El
Frente Farabundo Martí de Libertação
Nacional (FMLN),
em 2003. A antiga organização paramilitar via os repórteres de seu jornal
como aliados do governo de direita e ameaçou sua vida. Ele fugiu para os
Estados Unidos em 2004, buscando asilo com a esposa e a filha, entrando
legalmente com um visto de turista. Desde então, ele tem trabalhado como
repórter para a mídia de língua espanhola nos Estados Unidos, surfando na onda
da imigração latina para os subúrbios de Atlanta, alcançando sucesso
profissional e reconhecimento da comunidade. Começou a cobrir as repressões
imigratórias durante o governo Obama, sendo um dos poucos repórteres a
registrar uma triplicação nas prisões de imigrantes não criminosos na região de
Atlanta, conforme observado em um vídeo de 2019 do New York Times sobre seu
trabalho. Documentou meticulosamente os casos e entrevistou as famílias dos
presos. Pessoas em Atlanta começaram a reconhecê-lo nas ruas como o jornalista
que perseguia a "la migra" . Seu trabalho continuou
durante o governo Trump, atraindo um público de milhões que o seguiu do Mundo
Hispânico até a operação de notícias startup que ele fundou no ano passado:
MGNews ou Noticias MG. “É um nicho único que foi preenchido pela
inovação e empreendedorismo do Mario, por assim dizer”, disse Jerry Gonzales,
diretor executivo da Associação de Autoridades Eleitas Latinas da Geórgia e do Fundo de
Desenvolvimento Comunitário Latino da GALEO. “Ele desenvolveu um relacionamento
muito forte com a comunidade. Desenvolveu uma confiança significativa com
grande parte dela. E, por causa disso, sua audiência começou a aumentar.”
Um juiz
do tribunal de imigração negou o pedido de asilo de Guevara em 2012 e emitiu
uma ordem de deportação. Os advogados de Guevara recorreram, e o tribunal
concedeu o encerramento administrativo do caso. Ele não estava sendo deportado.
Mas também não recebeu residência legal. Em vez disso, o governo lhe emitiu uma
autorização de trabalho, disse seu advogado. Com um dar de ombros, ele voltou a
trabalhar. Guevara é indiscutivelmente o jornalista mais assistido cobrindo as
operações da ICE nos Estados Unidos, uma história que a mídia de língua inglesa
praticamente ignorava, disse Gonzales. E a polícia local tinha pleno
conhecimento de seu trabalho. Ele vem negociando com eles acesso a locais de
fiscalização da imigração há mais de uma década. “Mario Guevara é bem conhecido
— às vezes querido, às vezes não — mas definitivamente bem conhecido pelas
agências de segurança pública, particularmente nos condados de DeKalb e
Gwinnett, e também pelos agentes federais, e particularmente pelos agentes de
imigração”, disse Gonzales.
Gonzales,
entre outros, acredita que isso o colocou como um alvo na administração atual. "Parece
que a polícia se coordenou e conspirou com os agentes federais", disse
Gonzales. Gonzales aponta como prova as acusações de contravenção de trânsito
apresentadas pelo gabinete do xerife do condado de Gwinnett logo após a prisão
de Guevara no condado de DeKalb pelo departamento de polícia de Doraville. “Os
fatos e a cronologia indicam isso claramente para qualquer pessoa que esteja
acompanhando”, afirmou. “Nesse sentido, é particularmente preocupante,
considerando que ele é jornalista e sua situação. Ele não tinha motivo para ter
sido alvo de sua prisão.” O Departamento de Segurança Interna não respondeu a
um pedido de comentário sobre seu relacionamento com as autoridades locais. O
gabinete do xerife do condado de Gwinnett afirmou, em resposta a um inquérito
de um parlamentar, que coopera com o Ice quando considerado "mutuamente
benéfico", mas não respondeu a pedidos de comentários adicionais. O chefe
de polícia de Doraville, Chuck Atkinson, não respondeu a um e-mail solicitando
respostas e fugiu de perguntas sobre o caso em uma audiência municipal. Mas o
prefeito de Doraville, Joseph Geierman, negou qualquer conexão entre Ice e a
prisão de Guevara por Doraville.
Em 14
de junho, dia de sua prisão, no condado de DeKalb, em Atlanta, Guevara
contornou rapidamente um caminhão da polícia de Doraville. Um grupo de
policiais de choque próximo percebeu. Um deles gritou: "Último aviso,
senhor! Saiam da estrada!" Guevara usava capacete e um colete preto sobre
a camisa vermelha com a palavra "PRESS" em letras brancas. James
Talley, policial do departamento de polícia de Doraville, usava um macacão
verde-oliva da Swat, capacete e máscara de gás. Um manifestante mascarado
detonou uma bomba de fumaça perto dos policiais. Guevara correu para a rua com
uma câmera estabilizada na mão para registrar a reação da polícia e a multidão
fugindo, como foi mostrado em um vídeo da câmera corporal da polícia.
A
polícia havia emitido uma ordem de dispersão e estava expulsando os
manifestantes da Chamblee-Tucker Road. Eles perseguiram o suposto atirador de
bombas no meio da multidão, sem sucesso. Mas Guevara estava na frente deles em
uma encosta gramada. A polícia do condado de DeKalb, responsável pelo protesto
barulhento, vinha sofrendo agressões verbais dos manifestantes há algum tempo –
um forte contraste com outros protestos realizados naquele dia em Atlanta. O
protesto estava chegando ao fim. Imagens de câmeras corporais do evento sugerem
que Talley estava com um humor agressivo. "Fique de olho no cara de camisa
vermelha", disse Talley a outro policial da Swat de Doraville. "Se
ele cair na estrada, tranquem o traseiro dele." Talley chamou outro
policial de lado. "Se ele entrar na rua, ele vai embora", disse
Talley. "Ele já foi avisado várias vezes." O outro policial passou o
dedo pelo peito. "A imprensa?", respondeu Talley. Os três esperaram a
cerca de 15 metros de distância enquanto um policial do condado de DeKalb se
aproximava de Guevara na colina, ordenando-lhe que fosse para a calçada.
Guevara se afastou do policial, com a atenção concentrada na gravação, deu dois
passos para a rua e a polícia de Doraville avançou. Guevara pediu que a polícia
fosse razoável.
"Estou
com a imprensa, policial!", disse Guevara. "Deixe-me terminar!" As
pessoas gritavam para os policiais: "É a imprensa!", enquanto o
levavam algemado até um veículo. "Por que vocês estão levando ele? Ele não
fez nada."
Mais de
um milhão de pessoas assistiam à transmissão ao vivo de Guevara quando ele foi preso.
Trump intensificou seus ataques retóricos a jornalistas desde sua posse. Na
semana passada, ele descreveu um repórter que perguntou sobre alertas e
resposta de emergência no desastre das enchentes no Texas como "uma pessoa
má", um epíteto ao qual ele tem recorrido com frequência crescente .
O caso
Guevara é um sinal da crescente hostilidade à imprensa livre, disse Katherine
Jacobsen, coordenadora de programa do Comitê para a Proteção dos Jornalistas.
Ela traçou uma linha que vai desde a
proibição da Associated Press de participar de briefings governamentais após a
recusa em aceitar a mudança de nome do Golfo do México para "Golfo da
América", passando pela reabertura de processos e investigações contra
empresas de mídia, passando por ataques a jornalistas que cobriam protestos em
Los Angeles, até a deportação do escritor
australiano Alistair Kitchen, aparentemente em relação às suas reportagens
sobre protestos estudantis.
“A
próxima coisa que percebemos é que Mario Guevara, um repórter de língua
espanhola veterano na região metropolitana de Atlanta, está detido pelo Ice”,
disse ela. “A situação está ficando cada vez mais preocupante.”
O
público de Guevara, no entanto, vê isso como mais do que um ataque à liberdade
de imprensa. Eles veem isso como um ataque a si mesmos. “Ele é um caso de teste
para desafiar os limites para imigrantes legais que não cometeram nenhum crime,
para forjar acusações contra eles”, disse Gonzales, do GALEO. “E a segunda
questão é como atingir jornalistas.” A prisão de Guevara desencadeou um
pesadelo imigratório semelhante ao que ele passou a última década documentando.
Sua prisão no sábado levou a um fim de semana na decadente cadeia do condado de
DeKalb e a uma audiência de fiança naquela segunda-feira. Um juiz do tribunal
de primeira instância concedeu a Guevara uma fiança sem valor, mas, a essa
altura, o Ice já havia tomado conhecimento da prisão e o havia mantido em
prisão preventiva. A cadeia o liberou sob custódia do Ice e o manteve
brevemente em uma unidade da região metropolitana de Atlanta.No dia seguinte, o
condado de Gwinnett acusou Guevara de três infrações de trânsito, alegando que
elas estavam relacionadas à transmissão ao vivo de uma operação policial
realizada por Guevara um mês antes. As acusações seriam suficientes para
mantê-lo preso e fornecer a Ice um argumento para sua deportação em uma
audiência federal de fiança. O gabinete do xerife do condado de Gwinnett
afirmou que a transmissão ao vivo de Guevara "comprometeu" as
investigações.
Os
advogados de Guevara tentaram trabalhar rapidamente, disse Diaz. "Os
processos de detenção estão tão lotados, e os centros de detenção de imigrantes
estão tão lotados que o que costumava levar dois ou três dias para conseguirmos
uma audiência de fiança, agora está levando cerca de uma semana", disse
ele. Advogados que trabalham para a imigração argumentaram no tribunal que as
reportagens de Guevara constituíam uma “ameaça” às operações de
imigração.Jacobsen, do CPJ, estava ouvindo a audiência quando o governo fez
esse argumento. “Sentimos um certo alarme”, disse ela. “O argumento do governo
soou alarmante, assim como o juiz não necessariamente refutou o argumento do
governo de que a transmissão ao vivo representa um perigo para as ações
policiais.” O juiz de imigração concedeu a Guevara uma fiança de US$ 7.500 para
o caso de imigração. Mas a família de Guevara não foi autorizada a pagá-la
porque os advogados do governo apelaram da ordem de fiança ao conselho de
apelações de imigração. No entanto, o tribunal levou sete dias para suspender o
recurso do governo. Enquanto isso, Ice começou a tocar celas musicais com
Guevara.
Ao
longo das três semanas seguintes, Ice levou Guevara entre três condados
diferentes ao redor de Atlanta e, por fim, para a enorme prisão privada que Ice
usa em Folkston, Geórgia, 385 quilômetros a sudeste de Atlanta, na divisa com a
Flórida.
“Não
ficamos surpresos com a apelação, porque o governo está reservando e, na
maioria dos casos, recorrendo de tudo, até mesmo de coisas que não deveriam
recorrer, porque estão desperdiçando o tempo de todos”, disse Diaz. “Mas não
sabíamos realmente a extensão do que estavam tentando fazer com ele.” No início
desta semana, Todd Lyons, diretor interino do Ice, emitiu um memorando alterando sua
política sobre audiências de fiança, argumentando que os detidos não têm
direito a essas audiências antes que seu caso de deportação seja julgado em
tribunal. Defensores da imigração esperam contestar a decisão judicialmente. Mas
Guevara não enfrenta nenhuma acusação criminal. O escritório do procurador do
condado de Gwinnett retirou as acusações de trânsito na semana passada,
observando que duas delas não poderiam ser processadas porque ocorreram em
propriedade privada – o complexo de apartamentos – e a terceira não tinha
provas suficientes para uma condenação. Por enquanto, o Ice tem mantido Guevara
principalmente em enfermarias médicas em prisões, mesmo que ele esteja
saudável, disse Diaz. "Desde o início, eles mantêm Mario sob uma
segregação especial porque alegam que ele é uma figura pública. Eles querem ter
certeza de que nada aconteça com ele."
Oraville
é um município com cerca de 10.800 habitantes no condado de DeKalb, com uma
força policial independente, e foi solicitado a auxiliar na gestão do protesto
no bairro vizinho de Embry Hills, com forte presença de imigrantes. Os
protestos se tornaram uma ocorrência regular no condado de DeKalb desde o
início das operações de imigração do governo Trump. Os policiais de Doraville
demonstraram um relacionamento mais cooperativo com as autoridades de imigração
do que muitos outros departamentos da região metropolitana de Atlanta, e
observadores levantaram questões sobre se o departamento de polícia prendeu
Guevara para facilitar uma detenção do Ice. Geierman, o prefeito, negou essas
acusações.
“O
departamento de polícia de Doraville não estava operando sob a direção ou em
coordenação com o Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE) durante o
protesto de 14 de junho”, disse ele em um comunicado. “Até onde o departamento
sabe, nenhum funcionário do ICE estava presente no evento. Policiais de
Doraville estavam no local para apoiar o gabinete do xerife do condado de
DeKalb como parte de um esforço coordenado de segurança pública.” Observadores
também questionaram as acusações feitas a Guevara no condado de Gwinnett —
ignorar placas de trânsito, usar um dispositivo de comunicação enquanto dirigia
e direção imprudente — que decorreram de um incidente ocorrido em maio, um mês
antes de sua prisão. “Mario Guevara comprometeu a integridade operacional e
colocou em risco a segurança das vítimas do caso, dos investigadores e dos
moradores do condado de Gwinnett”, disse o departamento em um comunicado.
Mas o
processo tardio de Gwinnett deixou seus advogados boquiabertos. “Na narrativa
que divulgaram, eles dizem que ele estava transmitindo ao vivo uma operação
policial e interferindo”, disse Diaz. “Mas quando foram a um juiz para obter
mandados, os únicos mandados que o magistrado conseguiu assinar foram por
infrações de trânsito. Quer dizer, isso é meio revelador. Acho tudo isso
suspeito", acrescentou. "Desde o início, parecia que eles estavam
realmente se esforçando para dificultar a liberdade dele."
Marvin
Lim, um deputado estadual filipino-americano cujo distrito abrange o complexo
de apartamentos em Gwinnett, citado por Guevara, fez ao gabinete do xerife uma
série de perguntas detalhadas sobre a relação do departamento com a polícia
federal de imigração. Ele não recebeu uma resposta adequada, afirmou em carta
aberta ao xerife. Seis organizações de defesa dos direitos humanos contestaram
o xerife de Gwinnett, Keybo Taylor, em uma carta na terça-feira sobre a prisão
de Guevara e sua postura em relação à imigração, exigindo detalhes sobre o
relacionamento. A GALEO, entre elas, também emitiu uma carta separada na
quarta-feira pedindo que Taylor fosse transparente sobre a prisão de Guevara.
Guevara
“foi preso enquanto realizava o trabalho vital que jornalistas em uma
democracia fazem”, afirma a carta da GALEO. “As circunstâncias que cercaram sua
prisão e a subsequente detenção por questões de imigração não apenas suscitam
sérias preocupações com os direitos civis, mas também alimentam um crescente
sentimento de medo e confusão no condado mais diverso da Geórgia. Estou sendo
perseguido”, escreveu Guevara em uma
carta de 7 de julho, pedindo intercessão humanitária de Nayib Bukele, o
presidente de direita de El Salvador. “Estou prestes a completar um mês na
prisão e preciso sair para continuar com minha vida, voltar ao trabalho e
sustentar minha família”, escreveu Guevara. “Moro nos Estados Unidos há quase
22 anos. Nunca havia sido preso antes. Nas últimas três semanas, estive detido
em cinco prisões diferentes e acredito que o governo esteja tentando manchar
minha ficha para me deportar como se eu fosse um criminoso.”
Fonte:
Brasil 247/The Guardian

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