Usadas
para controle de diabetes, as "canetas" podem levar à cegueira
Medicamentos
amplamente prescritos para o controle do diabetes tipo 2 e perda de peso, os
agonistas do receptor de GLP-1 RAs — as famosas "canetas
emagrecedoras" — podem dobrar o risco de desenvolvimento de degeneração
macular relacionada à idade na forma neovascular (nAMD), uma das principais
causas de cegueira entre idosos. A conclusão é de um estudo publicado na
revista Jama Ophthalmology, realizado com dados de 139 mil pessoas — acima de
66 anos e com diagnóstico de diabetes. A pesquisa, porém, é observacional: ou
seja, não estabelece uma relação de casualidade.
Liderado
por pesquisadores da Universidade de Toronto e instituições associadas, o
estudo analisou os prontuários médicos de idosos com diabetes atendidos pelo
sistema público de saúde de Ontário, no Canadá. Os pacientes foram divididos
entre os que usavam agonistas do receptor de GLP-1 por pelo menos seis meses
(expostos) e os que nunca utilizaram esses medicamentos (controles).
A
degeneração macular neovascular (nAMD), que provoca crescimento anormal de
vasos sanguíneos na retina, foi diagnosticada em 0,2% dos usuários de GLP-1
RAs, em comparação com 0,1% dos não usuários. Apesar de a diferença parecer
pequena em termos absolutos, o risco relativo foi mais que dobrado. "Ainda
que a incidência seja baixa, os resultados chamam atenção para a necessidade de
vigilância oftalmológica em pacientes que usam esses medicamentos por longos
períodos", afirma o oftalmologista e autor sênior do estudo, Rajeev Muni.
• Tempo
A
análise também revelou que o risco de nAMD aumenta conforme o tempo de uso do
medicamento. Pacientes que utilizaram as "canetinhas emagrecedoras"
por mais de 30 meses apresentaram um risco 3,6 vezes maior de desenvolver a
doença, em comparação com os não expostos. Entre as substâncias utilizadas, a
semaglutida foi a mais comum, representando 97,5% das prescrições no grupo
exposto.
Embora
o estudo não estabeleça uma relação de causa e efeito, os autores sugerem que o
risco aumentado de nAMD esteja ligado à hipóxia (falta de oxigenação) induzida
pela rápida queda de glicemia, especialmente no início do tratamento. Isso
poderia levar à ativação de mecanismos que estimulam o crescimento anormal de
vasos na retina — um processo-chave na nAMD.
O
GLP-1, hormônio imitado pelos medicamentos indicados para diabetes 2 e
obesidade, ativa receptores presentes na retina e pode elevar os níveis de
substâncias pró-angiogênicas, como o fator de crescimento vascular endotelial
(VEGF) e o quimiocina CXCL12, diz o artigo. "Esses efeitos foram
inicialmente observados em estudos de retinopatia diabética. Agora, vemos
indícios de que eles também podem afetar outras doenças oculares
degenerativas", explicam os autores.
• Avaliação individual
A
endocrinologista Vanessa Estival, da Clínica Hewa, em Brasília, alerta que,
embora os dados do estudo sejam relevantes, especialmente para pacientes com
histórico de doenças oftalmológicas, eles não devem impactar na indicação dos
medicamentos GLP-1 RAs. "O que essa descoberta reforça é a importância da
avaliação individualizada e da titulação cuidadosa das doses, especialmente em
pacientes idosos, diabéticos e com alterações retinianas já conhecidas",
diz.
Segundo
Estival, já se sabia que uma melhora muito rápida da glicemia pode piorar
temporariamente a retinopatia diabética. "Isso está descrito nas bulas
desses medicamentos. Portanto, a associação não chega a surpreender os
profissionais que atuam com diabetes", diz.
Embora
o resultado não altere as condutas clínicas, Vanessa Stival diz que os dados
acendem um alerta. "É importante que os médicos estejam atentos a esse
risco e considerem o acompanhamento oftalmológico em determinados perfis de
pacientes", diz. Ela, porém, reforça: "O estudo não pode e não deve
ser usado para espalhar medo entre os pacientes. Estamos falando de medicações
seguras com benefícios comprovados, redução de risco cardiovascular, controle
da glicemia e melhora da qualidade de vida", afirma.
• Progressão
O
estudo publicado na Jama não é o primeiro a estabelecer uma associação entre os
medicamentos agonistas do receptor GLP-1 com alterações oftalmológicas (veja
quadro nesta página). "No estudo Sustain-6, com a semaglutida,
aproximadamente 3% dos pacientes em uso da medicação apresentaram progressão da
alteração retiniana, uma vez que a redução abrupta da glicemia pode causar
estresse da retina, agravando o dano dos pequenos vasos", descreve a
oftalmologista Viviane de Oliveira Pereira, especialista em retina e vítreo da
Clínica Olhar Prime, em Brasília. "Essa condição é observada também em
pacientes diabéticos descompensados, que iniciam o uso de insulina e apresentam
queda abrupta dos níveis glicêmicos."
A
oftalmologista observa, porém, que, até agora, não há evidência de que os
medicamentos GLP1-RAs sejam diretamente tóxicos à retina. "Considerando o
risco potencial de piora da retinopatia diabética ou o surgimento de neurite
óptica, é essencial que o paciente em uso dessas medicações sejam acompanhados
regularmente por oftalmologista especialista em retina durante o
tratamento", alerta. "Esse acompanhamento é a melhor maneira de
equilibrar os benefícios cardiovasculares e renais observados com as medicações
e a identificação precoce de possíveis complicações oculares", diz Viviane
de Oliveira Pereira.
• Descobertas anteriores
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Estudos anteriores associaram os medicamentos GLP-1 RAs a alterações
oftalmológicas:
• Sustain-6 (2016): complicações da
retinopatia diabética foram 3% no grupo da semaglutida e 1,8% no controle.
• Pioneer-6 (2019): encontrado um pequeno
aumento (0,8%) na incidência de retinopatia diabética no grupo semaglutida.
• Estudo retrospectivo (2024): publicado
na revista Jama, encontrou incidência de neuropatia óptica isquêmica anterior
não arterítica em 8,9% do gruo semaglutida, contra 1,8% no controle.
Fontes: New England Journal of Medicine e Jama
Ofhtalmology

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