Pela
revolta da terra e dos corpos
Primeiro
veio o Pleistoceno, uma época caracterizada por suas glaciações. Em seguida,
veio o Holoceno, um período mais quente, no qual vivemos agora. A espécie
humana desenvolveu a agricultura e diferentes civilizações, causando um impacto
sobre a terra – e a Terra. Por isso, alguns geólogos propuseram falar de uma
nova época: o Antropoceno. O termo é muito debatido na comunidade científica e
inspirou o campo das Humanidades, especialmente as chamadas humanidades
ecológicas, que analisam a crise climática e ecosocial a partir de abordagens
históricas, estéticas, econômicas, literárias, filosóficas e muito mais.
Esse
termo, que revolucionou o pensamento, recebeu uma resposta marcante do
historiador e economista político Jason Moore (EUA, 1971), vinculado à
Binghamton University de Nova York. Em vez disso, o pesquisador cunhou o termo
Capitaloceno, pois não foi toda a humanidade que contribuiu igualmente para o
colapso ecológico, mas sim as elites capitalistas que impulsionaram o processo.
Ele abordou isso em Capitalismo na trama da vida, um ensaio que se tornou
referência para muitos pensadores. Moore visitou a Espanha há alguns dias para
lançar seu novo livro, A grande implosão (Traficantes de Sonhos, 2025). Ele
reflete sobre os responsáveis pela emergência ambiental, seu papel na formação
das desigualdades e os limites da social-democracia para enfrentá-la.
• Sua tese principal com o conceito de
Capitaloceno busca descentralizar a atenção nos seres humanos no que diz
respeito à crise climática. Quem ou o que deve prestar contas?
Sabemos
quem são os responsáveis pela crise climática. Eles têm nomes, endereços e
contas bancárias. Com o relatório Carbon Majors (publicado em 2014 pelo Climate
Change Accountability Institute), aprendemos que 150 corporações são
responsáveis por 70% das emissões de gases de efeito estufa. Nunca antes
tínhamos causado tanto impacto no planeta. E, no entanto, muitos ambientalistas
locais se recusam a nomear os responsáveis. Recusar-se a mencionar o sistema e
quem o financia é uma forma de negar um fator fundamental do cenário em que
vivemos.
• Quem os ambientalistas identificam como
os responsáveis?
Eles
declaram que o responsável pelo colapso climático é o ser humano. E aqui está a
questão: separam humano e natureza. Essa forma de pensar não é inocente. É uma
visão de mundo baseada no “conflito eterno”, que é a visão das classes
dominantes. Ao longo dos séculos, as classes dominantes usaram a natureza para
justificar seus projetos. Por isso considero que “natureza” é a palavra mais
perigosa. É um elemento-chave do vocabulário conceitual do imperialismo.
Inicialmente, era usada para se referir aos habitantes de um lugar, mas, nas
conquistas das Américas, passou a incluir os povos indígenas como parte do
território conquistado, ou seja, para excluí-los da sociedade.
• As relações de exploração e dominação
produzem abstrações sociais, como a divisão homem-mulher ou
civilizado-selvagem, que são formas de alienação. Como funciona a divisão
humano-natureza?
Desde o
início do capitalismo, que eu situo no século XVI, houve primeiro um projeto de
cristianização e depois um projeto civilizatório. Hoje os chamamos de projetos
de desenvolvimento. Por trás desses conceitos está a ideia de que se está
civilizando quem é selvagem, ou seja, quem está, como diria John Locke, em
estado de natureza. Essa noção é obviamente uma forma de dominação sobre os
povos indígenas. Na verdade, ela envolve a invenção do conceito de indígena,
que não faz parte da sociedade e da humanidade, mas sim da natureza.
“Mulher”
também é um conceito natural. Especificamente, a ideia de que o trabalho das
mulheres é uma categoria natural significa que elas não merecem remuneração por
seu trabalho. Isso foi fundamental no processo de proletarização e na
consequente criação da classe trabalhadora.
Se
pausarmos um momento a leitura desta entrevista e refletirmos sobre como vários
grupos étnicos e raciais, as mulheres ou o coletivo LGTBIQ+ foram
historicamente caracterizados, logo perceberemos que tudo gira em torno da
percepção de natureza e do natural. Ainda vemos isso no panorama político. Por
exemplo, Josep Borrell, o ex-alto representante da União para Assuntos
Exteriores e Política de Segurança, se referia à Europa como “o jardim” e ao
resto do mundo como “a selva”. Essa é a noção clássica de lei natural.
• Em seus textos, você comenta que as
mudanças climáticas ao longo da história levaram a mudanças na organização das
sociedades. De que forma a atual crise climática desencadeia uma reestruturação
social?
A crise
climática tem duas implicações. A primeira é que suprime a produtividade da
agricultura, pois a terra perdeu muita fertilidade desde o século XIX. A
segunda é que provoca uma desaceleração progressiva da produtividade do
trabalho. Ainda veremos o que acontecerá com isso. Mas, desde os anos 1970,
vemos a taxa de lucro cair. Naquela época, nos prometeram que o futuro seria de
prosperidade global. Em vez disso, recebemos a exploração global, com bilhões
de pessoas obrigadas a viver em cidades e buscar trabalhos não manuais, além de
pessoas expulsas de suas casas porque as condições climáticas são
insustentáveis.
A
mudança climática não é apenas um produto do capitalismo, mas também está
aumentando suas contradições. Muitas vezes isso é mal interpretado, e quero
deixar claro: a emergência ambiental não causa nada diretamente, mas
intensifica todas as formas de conflito; os principais problemas sociais, a
migração, a ascensão da ultradireita populista… A crise climática tende a
desestabilizar tudo.
• Qual é o papel do colapso climático na
ascensão da ultradireita populista em todo o mundo?
Para
começar, as dinâmicas competitivas do capitalismo chegaram ao fim. As 50
maiores corporações do mundo detêm cerca de 30% das capitalizações de mercado.
Isso é uma centralização do capital sem precedentes, o que nos fez viver em um
capitalismo zumbi, já que ele perdeu seu caráter competitivo. E essa
centralização está relacionada ao fato de que, após 50 anos de neoliberalismo,
a centro-esquerda e a centro-direita se alinham a esse capital centralizado.
Uma das coisas em que concordam é em prejudicar os trabalhadores, mas isso não
traz benefício algum. É uma das profundas contradições do presente. A
ultradireita populista é uma resposta a essa centralização de poder.
Outro
elemento-chave é como esse extremo centro nos prepara para sociedades
pós-capitalistas baseadas no chamado “estado de segurança nacional”,
caracterizado pela interferência das forças militares em assuntos políticos e
econômicos. Pois no coração do extremo centro está a ideia de que a democracia
é ruim. Já vimos isso na pandemia, quando as classes profissionais ficaram em
casa pedindo Uber Eats enquanto a classe trabalhadora foi completamente
devastada.
• Os partidos verdes estão preparados para
responder a esse problema e, em geral, para enfrentar a crise climática?
Eu
diria que, objetivamente, os partidos verdes estão situados na direita
política. Há contradições entre eles, mas isso fica claro no caso do Partido
Verde da Alemanha. Eles são a favor das armas e da guerra e contra a classe
trabalhadora. Isso me preocupa, porque se há uma ameaça existencial hoje, é a
guerra.
Também
fala do “apartheid” climático, do patriarcado climático e da divisão de classes
climática como os três pilares do capitalismo.
Eles
formam uma trindade capitalogênica. A classe trabalhadora moderna entende seus
interesses, e isso deixa aos capitalistas uma tarefa importante: dividir o
mundo. Os métodos habituais são três: nação, raça e gênero, e todos são
naturalizados. A natureza é um instrumento de dominação porque divide pessoas
que recebem o mesmo salário. É o que vemos com políticas anti-imigração,
políticas de gênero de direita ou argumentos nacionalistas. O apartheid
climático e o patriarcado climático não são resultado da crise climática, mas
sim produzidos pelas dinâmicas de classe do capitalismo.
• Diante dessa divisão, como podemos nos
unir, não apenas o proletariado, mas todas as forças humanas e extra-humanas
que formamos o biotariado?
Todos
somos forças da natureza. A divisão entre humano e natureza é uma formulação
ideológica burguesa. Já ouvi marxistas ortodoxos dizerem: “Moore é tolo. Ele
quer criar alianças com os animais”. Bem, é claro que o ser humano é um animal
específico com suas particularidades, mas por trás da distinção humano-natureza
está a ideia de que algumas vidas são descartáveis e outras não. E temos uma
história do capitalismo que categorizou a natureza para redefinir o que é
humano, mas também o subumano. Essa noção está, por exemplo, na retórica de
Israel em seu genocídio contra a Palestina.
Marx
explicou que o capitalismo degrada e se apropria da terra, assim como degrada e
se apropria do trabalhador, de modo que o proletariado também faz parte do
biotariado. Marx acrescentou que as criaturas também devem ser livres. Ou nos
levantamos juntos ou fracassamos. Uma ferida em um é uma ferida em todos. Eu
desconfiaria de criar uma imagem da natureza como algo sobrenatural e místico.
Em vez disso, defendo entender a natureza como o trabalho de todas as espécies.
Sob essa perspectiva, devemos buscar a cooperação em massa. Cooperação
significa democracia e tende a ser um trabalho produtivo.
Fonte:
Jason Moore em entrevista a Adhik Arriluceam, no Publico | Tradução: Rôney
Rodrigues, em Outras Palavras

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