Como
Israel exportou sua tecnologia colonial e racista ao mundo
A contradição
que mora no coração do Estado judeu teve pouco impacto em seu sucesso. No
entanto, ser judeu em Israel é muito mais perigoso do que viver como judeu em quase
qualquer outro lugar do mundo. Essa falta de segurança não se deve ao judaísmo,
mas à postura política e militar da nação.
“É uma
democracia na qual é preciso ser judeu para desfrutar de plenos direitos
cívicos”, escreve o cineasta, fotógrafo e acadêmico Haim Bresheeth-Žabner em
seu livro de 2020, An Army Like No Other: How the Israel Defense Forces
Made a Nation. “O sionismo marcou a mudança de muitos pequenos guetos
judeus europeus para um gueto moderno, grande e poderoso, que se destaca. Esse
gueto em particular fracassou em seu projeto utópico de construir uma
existência judaica sem o goy [não judeu].”
Isso
pode ser visto no relacionamento de Israel com a África. Muitos países
africanos apoiaram Israel depois de 1948 como uma nobre luta anticolonial
porque conseguiam se relacionar com a causa israelense. Um dos aspectos menos
conhecidos dessa dinâmica, pouco antes da Guerra dos Seis Dias, foi o apoio de
Israel à campanha contra o domínio da minoria branca na Rodésia, atual
Zimbábue. Israel condenou o regime liderado pelo nacionalista branco Ian Smith
após sua declaração unilateral de independência em 1965 e apoiou um boicote
militar e civil ao regime.
No
entanto, a defesa de Israel não se deveu a um amor pela autodeterminação
africana, mas a uma decisão calculada para reunir apoio africano contra o que
considerava uma “difamação” árabe e comunista. Israel também estava interessado
em explorar os recursos naturais da África e imediatamente começou a construir
relações com líderes flexíveis na República Centro-Africana depois que ela
declarou independência da França em 1960.
Documentos
desclassificados dos Arquivos do Estado de Israel indicam que Tel Aviv forneceu
treinamento a grupos rebeldes que lutavam contra o racismo na Rodésia, embora a
natureza exata do treinamento seja desconhecida. Algumas autoridades apoiaram a
luta armada. O embaixador de Israel na Zâmbia, Ben Zion Tahan, enviou um
telegrama inequívoco em 23 de novembro de 1965: “Na minha opinião, o principal
caminho é o terrorismo, ainda que seja o mais complicado para os combatentes”.4
Quando o primeiro líder do Zimbábue, Robert Mugabe, visitou Israel em 1964, ele
agradeceu ao Estado judeu pelo apoio ao seu movimento de resistência e
expressou o desejo de que seus combatentes recebessem treinamento israelense em
guerra de guerrilha.
Depois
de 1967, o interesse de Israel pelos movimentos de libertação diminuiu e seu
apoio a eles se tornou muito menos eficaz, pois o país se tornou ele próprio um
invasor. E não houve melhor aliança política, militar, diplomática e ideológica
entre nações com ideias semelhantes do que entre Israel e a África do Sul do
apartheid. O regime do apartheid assumiu o poder em Pretória em 1948 e logo
implementou restrições no estilo nazista aos não brancos, desde a proibição do
casamento interracial até a exclusão dos negros de muitos empregos.
A
comunidade judaica sul-africana era fortemente pró-Israel e se tornou o maior
apoiador financeiro per capita de Israel no pós-1948. A maioria desses judeus
se beneficiou do apartheid sul-africano e ajudou a sustentá-lo. Uma minoria
pequena, mas notável, opôs-se bravamente à segregação e se uniu ao Congresso
Nacional Africano (CNA) em sua campanha pela libertação.
Quando
os governos sul-africano e israelense consolidaram um relacionamento político,
ideológico e militar na década de 1970, muitas vezes centrado em armas que
haviam sido desenvolvidas e testadas pelos militares israelenses, muitos
membros do partido Likud no poder sentiram afinidade com a visão de mundo da
África do Sul. Como escreveu o jornalista e autor do livro The Unspoken
Alliance, Sasha Polakow-Suransky, tratava-se de uma “ideologia
sobrevivencialista de minorias, que apresentava os dois países como postos
avançados ameaçados da civilização europeia, defendendo sua existência contra
os bárbaros no portão”.
Um
desses proeminentes dissidentes judeus foi Ronnie Kasrils, que atuou como
ministro da Inteligência da África do Sul entre 2004 e 2008 sob um governo do
CNA. Ele disse ao Guardian que a comparação entre as duas
nações não era acidental:
Os
israelenses afirmam que são o povo escolhido, os eleitos de Deus, e encontram
uma justificativa bíblica para seu racismo e exclusividade sionista. Tal qual
os africânderes da África do Sul do apartheid, que também tinham a noção
bíblica de que a terra era sua por direito divino. E tal qual os sionistas que
afirmavam ser a Palestina da década de 1940 “uma terra sem povo para um povo
sem terra”, os colonos africânderes espalharam o mito de que não havia negros
na África do Sul quando eles se estabeleceram no século xvii, sendo que eles
tomaram a terra pela força das armas e do terror, em uma série de sangrentas
guerras coloniais de conquista.
·
Fazendo
bons negócios em meio à desigualdade
Em
meados da década de 1970, o relacionamento entre os dois países ficou tão
próximo que o primeiro-ministro israelense Yit-zhak Rabin convidou seu colega
sul-africano John Vorster para uma visita que incluiu um tour pelo Yad Vashem,
o memorial do Holocausto em Jerusalém. Vorster foi simpatizante nazista e
membro do grupo fascista africânder Ossewabrandwag durante a Segunda Guerra
Mundial.
Em
1942, ele expressou com orgulho sua admiração pela Alemanha nazista. No
entanto, ao chegar a Israel em 1976, Vorster foi homenageado por Rabin em um
jantar de Estado. Rabin brindou “aos ideais compartilhados por Israel e África
do Sul: a esperança de justiça e coexistência pacífica”. Ambas as nações
enfrentavam “instabilidade e imprudência de inspiração estrangeira”.
Poucos
meses depois da visita de Vorster, o anuário do governo sul-africano explicou
que ambos os Estados estavam enfrentando o mesmo desafio: “Israel e a África do
Sul têm uma coisa em comum acima de tudo: ambos estão situados em um mundo
predominantemente hostil, habitado por povos negros”. O relacionamento entre as
nações era amplo, mas também sigiloso. Em abril de 1975, foi assinado um acordo
de segurança que definiu as relações bilaterais para os vinte anos seguintes.
Uma cláusula do acordo afirmava que ambas as partes se comprometiam a manter o
documento em segredo.
Alon
Liel, ex-embaixador israelense em Pretória e chefe do escritório do Ministério
das Relações Exteriores de Israel na África do Sul na década de 1980, explicou
que a relação entre os dois países fora vital para os setores de Defesa de
ambos, transformando-os em importantes atores globais. Liel argumentou que, na
instauração da segurança israelense, muitos se convenceram de que Israel, como
nação ocupante, não teria sobrevivido sem o apoio dos africânderes. Ele e outro
ex-embaixador israelense na África do Sul, Ilan Baruch, escreveram em 2021 que
Israel era um Estado de apartheid, inspirado na África do Sul pré-1994. De
acordo com Liel:
Criamos
o setor armamentista da África do Sul. Eles nos ajudaram a desenvolver todos os
tipos de tecnologia, porque tinham muito dinheiro. Quando estávamos
desenvolvendo coisas juntos, geralmente entrávamos com o know-how e eles, com o
dinheiro. Depois de 1976, houve um caso de amor entre as instituições de
segurança dos dois países e seus exércitos. Estávamos envolvidos em Angola [a
África do Sul não reconheceu a independência do país em 1975 e apoiou seus
oponentes] como consultores do exército [sul-africano]. Havia oficiais
israelenses lá cooperando com o exército. A ligação era muito íntima.
·
Hostilidade
à opinião internacional
Às
escondidas do mundo todo, Israel ignorou o embargo de armas imposto pelo
Conselho de Segurança da ONU à África do Sul. Em 29 de agosto de 1984, Hanan
Bar-On, vice-diretor do Ministério de Relações Exteriores de Israel, enviou um
telegrama a David Kimchi, seu chefe, explicando:
“A
política israelense […] é de não admitirmos de forma alguma [as vendas de
armas], seja a um israelense ou a um ator estrangeiro. E menos ainda a um
congressista estadunidense, mesmo que ele seja considerado um amigo e a relação
com ele seja supostamente íntima”.
O
aspecto mais secreto do relacionamento foi o apoio mútuo dado à capacidade
nuclear de cada um. França e Grã-Bretanha forneceram materiais essenciais para
ajudar Israel a desenvolver armas nucleares, e a produção em grande escala
começou após a Guerra dos Seis Dias. Com um suprimento abundante de urânio, a
África do Sul tinha uma base sólida para construir seu próprio estoque, mas
precisou de Israel para fornecer conhecimento técnico. De acordo com o
ex-oficial de inteligência israelense Ari Ben-Menashe, a África do Sul permitiu
que Israel testasse armas nucleares no Oceano Índico em 1979, embora Tel Aviv
negue ter conduzido os experimentos.9 Israel chegou a oferecer a venda de
ogivas nucleares para a África do Sul na década de 1970, mas o acordo nunca se
concretizou.
Documentos
secretos trazidos a público indicam que a África do Sul queria as armas para
atingir potencialmente os Estados vizinhos, como forma de dissuasão de ataques.
O primeiro-ministro sul-africano P. W. Botha e o ministro da Defesa israelense
Shimon Peres conspiraram para manter o acordo totalmente secreto. Uma carta de
Peres de 1974 para a África do Sul afirmava que ambos tinham um “ódio comum à
injustiça” e que ele pressionava por uma “estreita identidade de aspirações e
interesses”. Na década de 1980, Israel era o principal fornecedor de armas da
África do Sul.
Inicialmente,
Washington não estava totalmente ciente da extensão da colaboração nuclear de
Israel com os sul-africanos, e o sigilo israelense continua até hoje. Sua
instalação nuclear em Dimona nunca foi inspecionada pela Agência Internacional
de Energia Atômica, e presume-se que Israel tenha mais de duzentas armas
nucleares. Durante a primeira reunião entre o presidente dos Estados Unidos Joe
Biden e o então primeiro-ministro israelense Naftali Bennett em agosto de 2021,
Washington reafirmou o antigo entendimento de que não forçaria Israel a aderir
ao Tratado de Não Proliferação Nuclear ou a abrir mão de suas bombas. Israel
concordou em não promover nenhum teste nuclear nem ameaçar realizar ataques
nucleares, mantendo sua “ambiguidade nuclear”.
Em
1971, C.L. Sulzberger, colunista do New York Times, escreveu que Israel e a
África do Sul haviam se tornado tão próximos que ele ouviu um boato não
confirmado de que “uma missão sul-africana foi a Israel durante a Guerra dos
Seis Dias para estudar táticas e uso de armas”. O premiê sul-africano Vorster
disse ao colunista que Israel enfrentava seu próprio “problema de apartheid” —
ou seja, como lidar com os árabes. “Nenhuma das duas nações”, escreveu
Sulzberger, “quer colocar seu futuro inteiramente nas mãos de uma maioria que a
cerca. Ambas preferem lutar”. Em 1977, Sulzberger foi acusado de ser um agente
da cia por Carl Bernstein, da equipe de reportagem do Washington Post que
revelou o escândalo do Watergate.
Os
benefícios mútuos dessa relação não se restringiam à capacidade de ganhar
dinheiro com o setor de defesa; trata-se de uma afinidade ideológica sobre como
lidar com populações indesejadas. Os bantustões da África do Sul, áreas em que
os residentes negros viviam sem autonomia, serviram de inspiração para boa
parte da elite israelense como um modelo viável para a Palestina. O sonho era
isolar os palestinos “indesejáveis” em enclaves não contíguos, bantustões
isolados do resto do país — algo bem parecido com a atual Cisjordânia, onde 165
“enclaves” palestinos são estrangulados por colônias israelenses, pelas IDF e
por colonos violentos.
Durante
a era do apartheid sul-africano, os diplomatas israelenses ao redor do mundo
foram instruídos a dizer à mídia que o Estado judeu não reconhecia os
bantustões. Isso era mentira, como provou um telegrama enviado por Natan Meron,
vice-diretor do Ministério das Relações Exteriores, em 23 de novembro de 1983:
“Não é segredo que figuras políticas e públicas israelenses estão envolvidas de
uma forma ou de outra, direta ou indiretamente, em atividades econômicas nos
bantustões”.
O uso
de retórica da era do apartheid sul-africano para defender a ocupação
israelense segue vigente. Durante a campanha eleitoral israelense de 2019,
Benny Gantz, líder da oposição, criticou o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu
por proibir as congressistas estadunidenses Ilhan Omar e Rashida Tlaib de
entrar em Israel e nos territórios palestinos. Em vez disso, disse Gantz, as
duas mulheres deveriam ter sido autorizadas a ver “com seus próprios olhos” que
“o melhor lugar para ser árabe no Oriente Médio é em Israel […] e o segundo
melhor lugar para ser árabe no Oriente Médio é a Cisjordânia”. Isso lembra a
declaração de John Vorster, líder do apartheid sul-africano, ao New
York Times, em 1977, de que “o padrão de vida do negro sul-africano é de
duas a cinco vezes mais alto do que em qualquer país negro da África”. Um dos
arquitetos do apartheid na África do Sul, o ex-primeiro-ministro Hendrik
Verwoerd, escreveu no Rand Daily Mail em 1961 que “Israel,
como a África do Sul, é um Estado de apartheid”, formado com a tomada da
Palestina dos árabes que “viviam lá há mil anos”.
O
ex-premiê israelense Ariel Sharon era um fã declarado dos bantustões — foi um
dos maiores defensores da construção de assentamentos nas colônias israelenses
a partir da década de 1970 e queria adaptá-los à Cisjordânia. Em sua
autobiografia, o ex-embaixador israelense Avi Primor escreveu a respeito de uma
viagem à África do Sul no início da década de 1980 com o então ministro da
Defesa Ariel Sharon e relembrou o quanto este ficou impressionado com o
empreendimento dos bantustões. O ex-primeiro-ministro italiano Massimo D’Alema
disse ao Haaretz, em 2003, que Sharon havia lhe explicado que o
modelo do bantustão era o mais apropriado para a Palestina.
·
Uma
arquitetura de controle global
Perto
do fim do regime de apartheid da África do Sul e da primeira eleição
democrática, em 1994, Israel era uma das últimas nações a manter relações com o
regime da minoria branca. O establishment de defesa israelense há muito tempo
estava encantado com sua própria propaganda e acreditava que o apartheid
duraria para sempre. Nelson Mandela percebeu. Em um discurso de 1993 para os
delegados da Internacional Socialista, ele disse: “O povo da África do Sul
jamais esquecerá o apoio do Estado de Israel ao regime do apartheid”.
A
missão inicial de Israel era ser um farol em um século que sofreu
catastroficamente os perigos do etnonacionalismo. Hoje, ideologicamente e com
equipamentos militares e de inteligência, Israel inspira outras nações a
aprofundar a sanha missionária israelense de encontrar e criar países com a
mesma mentalidade que a sua. Nenhum deles será igual a Israel, mas seu modelo
de chauvinismo e de orgulho descarado de priorizar os judeus acima de tudo é
como uma embalagem lisa, facilmente transportável, que pode ser adaptada a uma
infinidade de países e cenários.
Oficiais
estadunidenses e israelenses estão presentes em vários países do mundo,
treinando, armando ou pressionando autoridades locais para que apliquem suas
políticas de imigração, contraterrorismo e policiamento. O Norte global,
incluindo os Estados Unidos, a União Europeia, a Austrália e Israel, impõe seu
poder de forma implacável, controlando quatro quintos da renda mundial, sem
qualquer interesse em compartilhar essa riqueza.
Essa
arquitetura de controle precisa ser administrada internamente, mas também no
exterior, por meio de Estados-clientes confiáveis. As fronteiras internacionais
são fisicamente invisíveis, mas ideologicamente poderosas. Elas são compostas
de elementos diversos, como a manutenção de palestinos em um gueto por Israel;
o envio à força de refugiados em barcos para ilhas remotas e perigosas do
Pacífico pela Austrália; a União Europeia permitindo deliberadamente que
migrantes não brancos se afoguem no Mediterrâneo; os Estados Unidos expulsando
latino-americanos que, muitas vezes, estão fugindo de políticas projetadas por
Washington em seus países de origem.
Fonte:
Por Antony Loewenstein – Tradução Gabriel Rocha Gaspar, em Jacobin Brasil

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