quinta-feira, 12 de junho de 2025

Seu filho se comporta mal? Uso de telas pode ser a causa; entenda

Seu filho não te escuta? Ele esperneia e grita quando fica bravo? Você pode precisar repensar o tempo de tela dele, de acordo com um artigo publicado na segunda-feira (9) no Psychological Bulletin, um periódico da Associação Americana de Psicologia.f

Quanto mais tempo as crianças passavam olhando para uma tela, maior a probabilidade de suas ações e sentimentos não corresponderem às expectativas para seu estágio de desenvolvimento, de acordo com uma meta-análise de 117 estudos com crianças menores de 10 anos e meio quando a pesquisa começou.

Esses problemas socioemocionais incluíam ansiedade, depressão, hiperatividade e agressividade. A associação foi pequena, mas significativa, especialmente para meninas.

Os estudos foram elaborados de diferentes maneiras, mas o panorama geral mostrou que problemas ocorriam quando crianças com menos de 2 anos tinham qualquer tempo de tela (além de videochamadas), quando crianças de 2 a 5 anos tinham mais de uma hora por dia de tempo de tela e quando crianças mais velhas tinham mais de 2 horas por dia de tempo de tela.

Crianças que passavam muito tempo em jogos estavam particularmente em risco. E crianças de 6 a 10 anos eram mais propensas a desenvolver problemas socioemocionais do que crianças com 5 anos ou menos.

Além do mais, crianças que experimentavam esses desafios tendiam a recorrer ainda mais às telas para lidar com a situação, o que poderia exacerbar o problema. Isso era especialmente o caso dos meninos. "O alto uso de telas não é apenas uma causa de problemas - às vezes, é um sintoma", afirma a autora principal Roberta Pires Vasconcellos por e-mail, observando uma das descobertas mais marcantes.

"Em muitos casos, crianças que já estão lutando emocionalmente recorrem às telas, especialmente a videogames, como forma de lidar ou escapar", afirma Vasconcellos, que é professora associada na Universidade de New South Wales em Sydney, Austrália. "Embora isso possa oferecer alívio a curto prazo, com o tempo pode prendê-los em um ciclo que reforça essas dificuldades emocionais."

Uma das maiores de seu tipo, a meta-análise tem limitações, no entanto, porque não conseguiu contabilizar fatores como estilo parental ou status socioeconômico, segundo Vasconcellos. E como os estudos analisaram o tempo de tela de forma mais ampla, eles não puderam identificar os efeitos do uso de mídias sociais na saúde mental das crianças.

No entanto, esses dados mais recentes sobre crianças e tempo de tela sugerem ações específicas que pais ou responsáveis podem tomar para ter um impacto real e positivo na saúde mental de seus filhos.

<><> Não use telas para cuidar de crianças

Adultos frequentemente dão telas para as crianças ajudá-las a se acalmar, especialmente durante o horário de trabalho ou em outras situações em que as crianças precisam ficar quietas, como em um restaurante.

"Embora isso possa oferecer alívio a curto prazo, pode levar a problemas de longo prazo", alerta Vasconcellos. Isso ocorre porque pode impedir que as crianças aprendam a se comportar adequadamente e a lidar com suas emoções.

"Em vez de desenvolverem habilidades de autorregulação, elas passam a depender das telas para conforto e distração", afirma. "Isso pode reforçar um ciclo prejudicial em que as dificuldades emocionais são mascaradas em vez de abordadas, tornando ainda mais difícil para as crianças lidarem sem uma tela ao longo do tempo."

<><> Não deixe as crianças usarem telas para lidar com suas emoções

Procure sinais de que as crianças estão buscando telas quando têm um problema. Em vez de presumir que o problema é a própria tela, veja o quadro geral, orienta Vasconcellos.

"Se você notar seu filho recorrendo às telas com mais frequência quando está chateado ou retraído, pode ser a hora de verificar como ele está emocionalmente", ela aconselhou. "Em alguns casos, eles podem estar buscando o senso de conexão ou apoio que não estão encontrando em seus relacionamentos presenciais – em casa, na escola ou em outros ambientes sociais."

É quando eles mais precisam de apoio e orientação parental – "para ajudá-los a se sentirem ouvidos, compreendidos e emocionalmente seguros, tanto online quanto offline", afirma Vasconcellos.

Conselheiros escolares ou terapeutas também são boas fontes de apoio.

<><> Cuidado com os videogames

A quantidade de tempo que as crianças passam jogando também é importante de se observar, de acordo com o estudo.

"Jogos online, em particular, representam riscos adicionais porque muitas vezes funcionam como plataformas de mídia social", diz Vasconcellos. "Como esses jogos continuam mesmo quando um jogador se desconecta, as crianças podem sentir pressão para permanecer conectadas por períodos mais longos, o que pode levá-las a negligenciar atividades importantes da vida real, como sono, trabalhos escolares e interações presenciais.

"Por essa razão, os jogos podem exigir atenção extra e limites mais claros – especialmente para crianças mais velhas, que geralmente recebem mais independência em como usam seu tempo."

<><> Defina regras e use controles parentais

É importante definir regras para o tempo de tela das crianças e cumpri-las. "Manter as regras consistentes ajuda as crianças a saber o que esperar e facilita o cumprimento dos limites", afirmaVasconcellos.

Controles parentais em telefones e aplicativos também são úteis. "A maioria dos dispositivos oferece ferramentas embutidas para ajudar a gerenciar o tempo de tela e filtrar o conteúdo", explica. "Use essas configurações para definir limites diários razoáveis e garantir que seu filho esteja acessando apenas material apropriado para a idade."

Para ajudar a evitar que as crianças dependam demais de dispositivos, Vasconcellos sugere remover aplicativos como plataformas de streaming de vídeo que são particularmente tentadoras. Em vez disso, dê às crianças conteúdo educacional ou que sirva a um bom propósito.

<><> Não há problema em dizer não aos seus filhos

Os resultados deste estudo não me surpreenderam. Em minha pesquisa, terapeutas e professores frequentemente reclamam que pais ou responsáveis não estão dispostos a definir limites e dizer não quando seus filhos pedem telas.

Quando digo não aos meus próprios filhos, suas reações nem sempre são agradáveis. Tenho que me lembrar de que, como mãe deles, é meu trabalho saber o que é melhor para eles e tomar decisões que os manterão saudáveis a longo prazo – mesmo que isso leve a um sofrimento de curto prazo para todos nós.

Limitar o uso do telefone pelas crianças também é sensato. Uma declaração de consenso recém-publicada que coautora com especialistas de todo o mundo oferece evidências de que o uso intenso de mídias sociais e smartphones por jovens está ligado a problemas de sono, atenção, vício e insatisfação corporal.

<><> Você não precisa ser "justo"

Quando converso com pais sobre como lidar com o uso de mídias sociais de seus filhos, eles frequentemente me dizem que sentem que precisam dar um telefone aos filhos mais novos na mesma idade em que seus irmãos mais velhos receberam um. Isso não é verdade.

Diga aos filhos mais novos que fazem esse argumento que você tem mais experiência agora e tem mais dados mostrando como o tempo de tela pode ser prejudicial.

Considere também alternativas atraentes para um telefone. Uma mãe relatou que ofereceu à filha US$ 1.600 (cerca de R$ 8.915,52) para esperar até os 16 anos para ter um telefone. A filha dela aceitou o dinheiro. Embora muitas pessoas não tenham esse tipo de renda disponível, você ainda pode ser criativo e propor outras coisas que as crianças gostariam. Festas do pijama com amigos ou uma aventura de acampamento em família são apenas alguns exemplos.

Não importa o que você ofereça, é importante repensar a maneira como você permite que seus filhos usem a tecnologia. Como o tempo de tela pode ser tanto uma causa quanto um sintoma de problemas comportamentais e emocionais em crianças, sinta-se à vontade para dizer não. Isso pode provocar esperneio e gritos no momento, mas provavelmente levará a uma melhor saúde mental a longo prazo.

•        Qual a idade certa para crianças terem acesso a telas?

Atualmente, é difícil encontrar uma criança que não esteja conectada a alguma tela com algum jogo ou assistindo a algum desenho. Também é raro avistar um adolescente sem um smartphone em sua mão. As novas gerações, que nasceram com a revolução digital, são hiperconectadas e essa realidade preocupa especialistas e pais devido aos impactos à saúde mental e física.

Recentemente, a morte de duas crianças, de 8 e 11 anos, relacionadas a desafios online, chamou a atenção de pais e da sociedade médica para os conteúdos acessados pelo público infantil. Ambas as vítimas haviam inalado aerossol em um desafio do desodorante.

Além disso, segundo uma pesquisa realizada em abril pelo Porto Digital, em parceria com a Offerwise, empresa especializada em estudos de mercado na América Latina e no universo hispânico, nove em cada 10 brasileiros acreditam que os jovens não têm apoio emocional e social suficiente nas redes sociais.

Outro trabalho recente, publicado neste mês na revista científica Nature Human Behavior, mostrou que adolescentes entre 11 e 19 anos com problemas de saúde mental passam mais tempo nas redes sociais do que aqueles sem transtornos.

É diante deste cenário que iniciativas como o Movimento Desconecta surgem. A organização visa reduzir, controlar e adiar o acesso a smartphones e redes sociais por crianças e adolescentes. Para isso, ela propõe um acordo coletivo para adiar a entrega do celular até, pelo menos, 14 anos e o acesso a redes sociais até, no mínimo, 16.

"Essas idades foram escolhidas pelo Movimento por serem as recomendações mais comuns feitas por especialistas em desenvolvimento infantil, por psicólogos e por todos os profissionais que trabalham com saúde mental e digital de crianças e adolescentes", afirma Antonia Brandão Teixeira, co-fundadora e membro do Comitê Executivo do Movimento Desconecta à CNN.

<><> Por que adiar o acesso às telas e às redes sociais?

De acordo com Lilian Vendrame, psicóloga e neuropsicóloga especialista em adolescência, é importante adiar o acesso às telas e às redes sociais por crianças para preservar o desenvolvimento cognitivo e social. Ela cita a recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS), que afirma que crianças menores de dois anos não devem ter acesso às telas, por exemplo, e que para crianças de dois a sete anos, esse acesso deve ser de apenas uma hora por dia.

"Hoje nós vemos crianças de até um ano com tablet na mão, podendo haver um prejuízo no processo de desenvolvimento cognitivo, de habilidade social, de memória e de atenção", afirma à CNN. "Nessa faixa etária, a criança está desenvolvendo as sensações, tanto que o bebê coloca sempre a mão na boca. Se eu não abro espaço para o desenvolvimento da atenção e do pensamento, podem haver prejuízos", completa.

Já no caso de crianças mais velhas, de dois a sete anos, e pré-adolescentes, o risco se encontra nos prejuízos ao desenvolvimento de habilidades sociais, de memória e de linguagem. "Se eu deixo uma criança o dia inteiro com um tablet, ela pode não ter a habilidade de memória desenvolvida", completa. "No início da pré-adolescência, a habilidade social precisa ser desenvolvida no cara-a-cara", afirma.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), as recomendações para uso de telas por faixa etária são:

•        Menores de 2 anos: nenhum contato com telas ou videogames;

•        Dos 2 aos 5 anos: até uma hora por dia;

•        Dos 6 aos 10 anos: entre uma e duas horas por dia;

•        Dos 11 aos 18 anos: entre duas e três horas por dia.

No entanto, Vendrame ressalta que é importante o papel dos pais e responsáveis na imposição de limites. "Existem livros infantis que falam sobre os limites de uso de telas, então acredito que falta muito, hoje, até no próprio adulto, termos noção desse limite", considera. "É preciso que os pais tenham a consciência de ler e de conversar com seus filhos", completa.

<><> Meu filho já tem um smartphone. E agora?

No caso de pais que já permitiram o acesso às telas para crianças e adolescentes -- e, nos casos de filhos que já possuem o próprio smartphone ou tablet para uso pessoal -- é importante estar atento aos cuidados e medidas que podem protegê-los de eventuais perigos da internet e dos impactos das telas à saúde.

"Acredito que os pais que já deram o acesso às redes sociais fizeram isso sem saber de todos os malefícios. Até poucos anos atrás, não tínhamos tantas evidências em relação aos riscos. Hoje, eles estão claros", afirma Teixeira. "Então, cabe a nós -- pais, mães e famílias -- nos informarmos e nos conscientizarmos desses malefícios", completa.

Além disso, a co-fundadora do Movimento Desconecta considera importante as famílias apostarem em ferramentas de controle. "É importante, ao darmos esse dispositivo aos nossos filhos, termos esse controle. Existem ferramentas que nos ajudam, de alguma maneira, a controlar pelo menos o tempo de uso, bloquear acesso a site que não são adequados para crianças e adolescentes, limitar acesso a jogos que sabemos que são inseguros, e trocar conhecimentos com outros pais e outras famílias", completa.

Somado a essas questões, Vendrame acrescenta que é preciso que os pais retomem antigos hábitos com os filhos. "Devido à hiperconectividade [que os adultos também estão inseridos, segundo a especialista], nós não ampliamos mais nosso olhar para a solução de problemas. É preciso fazer o exercício de olhar para trás, ver o que era feito antigamente e tentar adaptar isso para o mundo em que vivemos atualmente", afirma.

Nesse sentido, é interessante retomar brincadeiras fora do ambiente digital, como jogos, brinquedos físicos, atividades ao ar livre, leituras, pinturas, entre outras atividades.

<><> Sinais de alerta para os pais ficarem atentos

A série "Adolescência", da Netflix, colocou à tona os perigos que as redes sociais podem oferecer aos adolescentes, como o cyberbullying. Para os pais do personagem principal da produção, a revelação de que o filho estaria sofrendo um tipo de violência na internet é chocante: eles não tinham noção das ideias nocivas às quais as crianças sob seus cuidados estão expostas e de como isso influencia suas vidas.

Apesar de fictícia, a narrativa escancara a possível desconexão que os pais podem ter de seus filhos na fase da adolescência, principalmente no que diz respeito a suas presenças nas redes sociais. Por isso, é importante que os responsáveis estejam atentos a sinais de alerta que indiquem prejuízos à saúde mental ou riscos comportamentais relacionados à internet.

De acordo com Vendrame e Teixeira, são eles:

•        Desinteresse pelos amigos ou por atividades ao ar livre;

•        Desinteresse pela prática de atividades físicas que, antes, eram praticadas;

•        Passar muitas horas dentro do quarto, na internet;

•        Maior irritabilidade ou reatividade;

•        Dificuldade de lidar com o não e com os limites impostos pelos pais;

•        Mudança de comportamento;

•        Mudança abrupta na forma de se vestir.

 

Fonte: CNN Brasil

 

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