quarta-feira, 11 de junho de 2025

'Preconceito com nordestino persiste porque é conveniente. Nordestinos protagonistas e com poder incomodam'

O jornalista potiguar Octávio Santiago aguardava um trem de Porto para Braga, em Portugal, quando um encontro inusitado mudou seus rumos acadêmicos.

Uma brasileira não estava conseguindo comprar o bilhete na máquina de atendimento automático, e ele ofereceu ajuda.

Em vez de agradecer, ela demonstrou espanto: "Nossa, você não é daqui e conseguiu".

Santiago disse então também ser brasileiro e, mais especificamente, de Natal.

Ela ficou novamente surpresa e respondeu: "Você não tem cara de nordestino, não parece nordestino. E conseguiu, está mexendo tão bem nessa máquina."

"Eu contrariava o padrão da ideia que ela tinha na cabeça, de como deveria ser fisicamente um nordestino e como deveria ser a conduta coerente ao assentado em sua cabeça", recorda o jornalista.

Desse episódio carregado de preconceito, Santiago surgiu a semente do livro Só Sei Que Foi Assim: A Trama do Preconceito Contra o Povo do Nordeste, que acaba de ser lançado pela editora Autêntica.

O trabalho é fruto de seu doutorado, defendido em dezembro de 2024 na Universidade do Minho.

O título é uma referência a uma frase icônica do Auto da Compadecida, peça de Ariano Suassuna, depois adaptada para o cinema.

Em seu livro, Santiago mapeia pontos que reforçam a discriminação contra os nordestinos — como o estigma de que eles seriam inferiores ao restante do país, a associação do sotaque a algo cômico e a própria generalização do Nordeste.

"O pessoal vai passar as férias e fala 'vou para o Nordeste'. Parece que é uma grande praia que começa no sul da Bahia e termina lá no Maranhão", exemplifica.

Depois de uma temporada morando em Portugal por conta do doutorado, Santiago está de volta a Natal, onde mora.

O potiguar é jornalista de carreira da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte desde 2017. Também já trabalhou como chefe de gabinete de deputados estaduais e federais.

Em entrevista à BBC News Brasil, Santiago analisou como diferentes reações a dois filmes recentes do cineasta Kleber Mendonça — Aquarius e Bacurau — revelam estigmas sobre a região.

Além disso, avaliou também como preconceitos contra o Nordeste se manifestaram na eleição presidencial de 2022 e como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) usa — ou deixa de usar — sua imagem como nordestino.

Santiago também apontou limitações do termo "sudestino", que reage ao estigma do nordestino.

"Não faz sentido se for para combater um preconceito devolvendo com algum tipo de preconceito", avalia o pesquisador.

<><> Confira a seguir os principais trechos da entrevista.

  • Por que a imagem preconceituosa do nordestino persiste?

Octávio Santiago - Porque é muito conveniente para o sul.

Quando falo "sul", estou falando das regiões Sul, Sudeste e parte do Centro-Oeste, que detêm a narrativa de que essa porção do Brasil é o Brasil da prosperidade — e o resto é o Brasil que não dá certo.

A manutenção desse status quo garante que os privilégios vão ficar com quem detém a narrativa. Quem está à margem não pode ter acesso ou precisa lutar mais para ter acesso a oportunidades profissionais e acadêmicas.

Há uma dificuldade em enxergar um nordestino na condição de poder.

Parece a reprodução da ideia eurocêntrica, de que a Europa é o centro de tudo, e o que não é Europa está à margem.

É uma coisa muito parecida com o comportamento de São Paulo e Rio em diversas oportunidades: o que é São Paulo é Brasil. O que é Rio é Brasil. O que não é São Paulo e Rio é visto como regional.

  • Há dificuldade em enxergar o nordestino em posição de poder? Ou uma recusa?

Santiago - Diria que são os dois, a recusa e a dificuldade. Quando a gente olha para o audiovisual, por exemplo, me parece que há uma dificuldade de autores colocarem personagens de origem nordestina para ocupar espaços de prestígio social legitimados pela competência, pela capacidade intelectual: professores, advogados e médicos...

Acho que as mulheres passaram por isso, e a população preta também passou por isso. Hoje, a gente vê protagonistas pretos bem-sucedidos por sua capacidade intelectual e não só na cozinha das casas.

Para o nordestino, ainda há essa dificuldade. Entendo que aí há mais dificuldade do que recusa, embora essas duas coisas aconteçam.

[O estigma] É conveniente também nas artes, porque é um produto mercadológico, vende, é de fácil associação.

Vem a redução estética, que é a carcaça de boi e o mandacaru sozinho em primeiro plano, ou vai ter o nordestino de folhetim, com o sotaque falacioso e usando expressões em demasia — muitas vezes das quais ninguém faz uso mais.

  • Os produtos culturais de hoje continuam reforçando esses estereótipos, ou alguns estão conseguindo denunciar o estigma?

Santiago - Esse caráter denunciativo era mais presente no cinema dos anos 1960.

Hoje, o que predomina é uma representação recreativa do Nordeste e da sua população, uma abordagem voltada mais para o entretenimento do que para a crítica social.

Quando No Rancho Fundo [novela da TV Globo] foi anunciada, a reação foi imediata: muitos nordestinos expressaram cansaço diante dessa forma repetitiva de nos retratar, sempre através do filtro insistente do atraso. Não se trata mais de uma denúncia, mas da apropriação de uma narrativa conveniente.

Enquanto o Nordeste for enlatado como um só, seguirão acontecendo erros graves de representação.

Por exemplo, a divulgação [na imprensa] da participação de Aquarius e Bacurau no festival de Cannes [ambos os filmes de Kleber Mendonça Filho, respectivamente de 2016 e 2019].

No primeiro, publicou-se coisas como "Kleber Mendonça emplaca narrativa com [a atriz] Sonia Braga em Cannes".

O outro [foi apresentado como], "Ode ao Nordeste vai a Cannes", porque era o Nordeste seco, árido e violento como protagonista do filme.

São dois filmes que se passam no mesmo Nordeste, mas aquela história urbana vivida por Sonia Braga, uma história pautada por várias questões muito mais complexas do que a terra, não é legitimada como sendo do Nordeste.

Central do Brasil [filme de Walter Salles indicado ao Oscar em 1999], por exemplo, é um dos filmes que eu mais gosto e acho interessante, porque pelo menos ele sai de uma necessidade de colocar a seca como personagem central. Existe nele uma camada de subjetividade.

Josué [o menino protagonista] quer conhecer o pai. Ele é uma pessoa para além do quadro de retirância. Isso já é muito, porque é um ganho mostrar as camadas que existem nas pessoas, não apenas a seca.

  • Há outros "bons exemplos" mais recentes?

Santiago - Amores Roubados [minissérie da TV Globo] também é uma exceção: apresentou um Nordeste das vinícolas, industrial, com personagens complexos, que desejam algo além da redenção pelo sul.

E existe uma ideia muito enraizada no imaginário nacional de que o artista nordestino deve se limitar ao que foi estabelecido como, entre aspas, cultura nordestina.

Aí que cantores como Pitty e Johnny Hooker sobem ao palco e rompem completamente com esse engessamento.

Por outro lado, o uso de elementos considerados regionais tem muito mais a ver com uma estratégia de mercado, como fez Luiz Gonzaga nos anos 1940, ao fundir a figura do vaqueiro com a do cangaceiro na construção de sua imagem. Não vejo isso como um erro, mas como uma escolha estratégica.

O problema está em assumir isso como regra: nem todos são cactos, nem todos usam chapéu de couro — na verdade, pouquíssimos usam —, assim como os brasileiros não equilibram frutas na cabeça, como Carmen Miranda.

  • Por que, no título do seu livro, você faz referência à obra de Ariano Suassuna?

Santiago - Teve uma dupla motivação. A primeira veio das conversas que eu tinha sobre esse preconceito: de onde vinha, quais eram suas motivações. E, muitas vezes, a resposta era simplesmente "não sei". Foi aí que começou a busca pelo "foi assim".

A segunda razão tem a ver com o papel que as produções culturais desempenharam na construção discursiva do Nordeste e do nordestino. O título também é uma forma de aludir a isso.

Agora, já sabemos como foi, mas não precisa continuar sendo assim.

  • No contexto de polarização política e ideológica, com a vontade eleitoral do Nordeste sendo decisiva para o resultado da última eleição presidencial no Brasil, o preconceito aumentou?

Santiago - O STJ [Superior Tribunal de Justiça] não por acaso reconheceu no contexto das eleições de 2022 que essa xenofobia [contra os nordestinos] é como racismo. […]

Acho que o fator político é quem abre essa torneira, faz sair o que está represado — o sentimento represado, interiorizado por muitos no país de que o nordestino é menos.

Na hora em que o nordestino contraria uma vontade, cria um incômodo na parte do Brasil que não aceita o nordestino como protagonista das decisões nacionais. Que não aceita o excessivamente miscigenado como aquele que vai dar a palavra final.

A natureza desse preconceito contra nós é de raiz racista.

Esse incômodo é manifestado nas eleições com a internet, que é um terreno muito fértil para a proliferação das manifestações de discriminação.

Mas é a partir de algo que já está na cabeça das pessoas. Na verdade, é um pensamento que existe e ganha força ou liberdade para sair da boca das pessoas, motivado pelo quadro político.

  • Seria como se o restante do país não visse o mesmo valor no nordestino?

Santiago - Não é nem que [o nordestino] valha menos ou mais, mas sim o significado de a decisão [eleitoral] caber ao Nordeste.

Essa ideia de Nordeste, como foi criada e construída discursivamente, também era um projeto de poder político para fazer com que as elites do sul vivessem o protagonismo que antes era das elites nordestinas.

O Brasil deixou de ser o Brasil dos senhores de engenho para ser o Brasil dos barões do café. Salvador deixou de ser a capital para o Rio entrar em cena.

A história mostra que a ideia de diminuir o Nordeste fazia parte de um projeto para enaltecer o sul. Você criava um contraponto e assim se firmava como o centro, o eixo, como quem dá as cartas.

  • Nos últimos anos, aflorou o conceito de "sudestino". Esse termo aumenta o preconceito ou pode funcionar para alavancar um orgulho do nordestino, reforçando a questão identitária?

Santiago - Dizer "eu sou nordestino, e você é sudestino" não faz sentido se for para combater um preconceito devolvendo com algum tipo de preconceito. Não consigo ver essa seta voltando e funcionando para qualquer um dos lados.

O que parece ser a boia de salvação nessa questão do sudestino é mesmo que as pessoas parem e percebam que o fato de Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo serem vizinhos não faz deles seguidores de uma mesma cartilha sociocultural, não faz com que haja uma unidade que seja capaz de reduzi-los.

Se eu propuser aqui uma novela sobre sudestinos e a gente pegar um "uai sô" [associado aos mineiros] e um "meu" [associado aos paulistas], com certeza vai ficar indigesto. Mas com o Nordeste, isso é feito sem qualquer preocupação.

O termo sudestino serve, na verdade, só para mostrar ao resto do Brasil como é muito difícil reduzir uma população vasta e plural sob um único guarda-chuva, um único rótulo.

  • Lula é nordestino e é presidente do país pela terceira vez…

Santiago - Acho que Lula tem o respaldo, mas, discursivamente, eleitoralmente, ele não se apresenta como um nordestino no poder.

Não é o que a campanha dele usa, o que a comunicação institucional da presidência utiliza. Ele não vai fazer como outros fizeram — não vai botar um chapéu de couro e sair num jegue pelo Nordeste e dizer "olha, isso é ser nordestino".

Entendo que o presidente se apresenta mais como um ex-operário do ABC paulista do que como um nordestino deslocado. Imagino que isso tenha sido uma orientação do marketing político, anos atrás, embora seja apenas uma suposição minha.

Ele é muito mais "um operário na presidência" que "um pernambucano na presidência". E talvez essa escolha tenha relação com o tipo de preconceito que abordo no livro. Contra Lula, pesam também preconceitos de classe e social, de caráter elitista, que dialogam diretamente com esse preconceito de origem de lugar.

¨      Como os nordestinos ‘inventaram’ o Sul do Brasil

Manifestações de desprezo e até ódio contra nordestinos marcaram algumas concentrações promovidas por eleitores inconformados com a derrota do presidente Jair Bolsonaro no segundo turno do pleito presidencial. Vídeos e áudios produzidos por estudantes de São Paulo e do Rio de Janeiro incluem, entre outros gestos, expressões degradantes contra brasileiros dos nove Estados do Nordeste.

Esse fenômeno expõe uma divisão política refletida em linhas mais ou menos geográficas: o Nordeste foi a única das cinco regiões brasileiras em que a votação de Luiz Inácio Lula da Silva superou a de Bolsonaro. Mas, na visão de historiadores ouvidos pela BBC News Brasil, essas manifestações expressam também, em uma perspectiva mais abrangente, os impasses e fraturas da formação do Estado nacional brasileiro.

Pesquisadores apontam a ironia de o ânimo antinordestino situar-se na contramão de uma evidência histórica: sem o protagonismo de indivíduos vindos do que é hoje a Região Nordeste, a existência das demais regiões não teria sido possível.

Entre os primeiros povoadores dessas regiões, especialmente do Sul, estavam sesmeiros, tropeiros, militares, comerciantes, artesãos, religiosos e sobretudo escravizados nascidos na Bahia, em Pernambuco, na Paraíba, no Rio Grande do Norte, no Ceará e no Maranhão.

Essa realidade pode ser constatada não apenas pelo exame dos sobrenomes das famílias mais antigas, muitos dos quais são ramos de célebres clãs baianos e pernambucanos - Azevedo, Coelho, Silva, Freire, Furtado, Melo, Cunha, Borges, Costa, Vieira e outros - como pela observação de tipos físicos, economia, religiosidade e cultura.

Autor da trilogia A Fronteira (2002 e 2015), sobre a fixação dos limites entre Brasil, Uruguai e Argentina, o historiador Tau Golin recomenda cuidado àqueles que, no Rio Grande do Sul, fizerem referência a nordestinos como inferiores. "Ao fazer isso, grande parte dessas pessoas está possivelmente degradando os próprios antepassados. Muitos descendem desses nordestinos", adverte.

Segundo o historiador, os atuais Estados do Sul e, principalmente, o Rio Grande do Sul foram inicialmente territórios conquistados e ocupados por uma grande variedade de brasileiros vindos do Norte, entre os quais se sobressaem os oriundos da região que hoje corresponde ao Nordeste.

Aqueles que hoje se chamam nordestinos eram especialmente numerosos entre os engajados nas primeiras expedições marítimas à costa rio-grandense.

"Nos períodos colonial e imperial, o Rio Grande do Sul foi povoado por políticas de Estado e por aventureiros. As políticas de Estado eram executadas por meio de projetos de povoamento territorial e, em época de guerra, pela concessão de lotes rurais e urbanos a soldados", descreve Golin, doutor em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.

A história do Rio Grande do Sul é permeada de personagens nascidos e criados na atual região Nordeste que, radicados ou de passagem pelo Sul, ajudaram a mudar a integrar o espaço ao Brasil.

Foi um militar nascido na Bahia, Domingos Alves Branco Muniz Barreto (1748-1831), o primeiro a incentivar a exploração do charque ("as carnes salgadas que devem ser exportadas a este reino em lugar das que vem da Irlanda") na região de Pelotas, destinada a Portugal pelo Tratado de Santo Ildefonso (1777).

No século 19, outros militares deixaram sua marca na história local, como o marechal Deodoro da Fonseca (de Alagoas), o almirante Custódio José de Mello (da Bahia) e o capitão Tupy Caldas (do Maranhão), a quem muitas vezes é erroneamente atribuída origem gaúcha.

Para Golin, porém, é um erro limitar a contribuição do atual Nordeste a esses personagens ilustres.

"São nomes da elite colonial, do Império e da República, conhecidos na história oficial. O fenômeno é muito mais profundo, porque é preciso levar em conta o contingente populacional. Os nordestinos vão contribuir muito na formação gentílica, na mestiçagem", explica Golin.

<><> A influência nordestina no charque

A indústria do charque (chamado de carne de sol no Nordeste), atividade econômica mais importante do Rio Grande do Sul no século 19, é um dos exemplos mais claros da influência nordestina.

A implantação de charqueadas com vistas à comercialização é atribuída a José Pinto Martins, português que criou a primeira fábrica de charque às margens do Arroio Pelotas ou do Canal de São Gonçalo no último quartel do século.

Pinto Martins chegou ao Rio Grande do Sul vindo do Ceará, onde já produzia carne de sol. A mudança foi motivada pela seca de 1777, conhecida como "Seca dos Três Sete", que se estendeu até 1880 e provocou a morte de mais da metade da população da região atingida no Nordeste.

"Uma das razões mencionadas para a transferência de Pinto Martins para o Rio Grande é que as secas tinham deixado o gado nordestino em estado reduzido e mal nutrido", afirma Ester Gutierrez, autora de Negros, Charqueadas e Olarias: Um Estudo sobre o Espaço Pelotense (2001).

Em 1824, Pinto Martins sentiu-se mal e ditou seu testamento. Solteiro, reconheceu como herdeiro João Pinto Martins, filho que tivera com uma ex-escravizada, e deixou dinheiro para dois outros filhos de ex-cativas.

"Esses escravos, que trabalhavam nas embarcações que levavam o charque para o porto de Rio Grande, eram nordestinos. No testamento, Pinto Martins libertou-os", diz a doutora em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.

<><> A ideia de identidades regionais

Para Jocelito Zalla, autor de Simões Lopes Neto e a Fabricação do Rio Grande Gaúcho (2022), a ideia de influência do Nordeste na formação do Sul antes do século 20 deve ser vista com cautela. Foi só a partir dessa época que se firmaram as noções de identidade regional predominantes até hoje.

"A ideia de Nordeste é recente. Segundo o historiador Durval Muniz de Albuquerque, até os anos 1920 usava-se o termo mais geral 'Norte' para a região. Os traços culturais e sociais, além da definição da paisagem representativa, só se estabelecem nesse período", lembra.

Nos períodos colonial e imperial, diz Zalla, a própria população do que hoje é conhecido como Nordeste definia-se a partir de outros recortes de identidade política, geralmente locais.

"Nem o Nordeste nem o nordestino existiam no período de formação do Rio Grande do Sul. Do ponto de vista da História, as pessoas que emigraram para cá (Sul) ainda não eram nordestinas", assinala.

No século 20, por outro lado, Zalla identifica não apenas trocas simbólicas entre as regiões mas uma verdadeira colaboração na construção das duas identidades, a do Sul e a do Nordeste.

"A visão de regionalismo de Gilberto Freyre confluiu com a dos modernistas do Rio Grande do Sul, como Moysés Vellinho, principalmente depois dos anos 1930. José Lins do Rego comentou literatura gaúcha em seus livros de crítica literária dos anos 1930 e articulou uma visita de Freyre ao Rio Grande do Sul", enumera o doutor em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

No terreno da cultura, essa proximidade evoluiu muitas vezes para a produção de obras. A primeira edição crítica da coletânea Contos Gauchescos e Lendas do Sul, de Simões Lopes Neto (1865-1916), em 1949, não foi organizada por nenhum pesquisador gaúcho, mas pelo alagoano Aurélio Buarque de Holanda Ferreira (1910-1989).

"Ele incluiu na obra um estudo formalista consagratório e um vocabulário que permitiu a compreensão do texto no restante do Brasil, além de mobilizar sua rede de sociabilidade intelectual no Rio de Janeiro para difundir o livro", explica Zalla.

Outro exemplo é o de Luiz Carlos Barbosa Lessa (1929-2002), um dos fundadores do movimento conhecido como tradicionalismo gaúcho, que, nos anos 1950, em São Paulo, produziu canções e programas regionalistas de TV em parceria com nordestinos e compôs um xote gravado por Luiz Gonzaga (1912-1989).

<><> O preconceito

Isso não significa, de acordo com Zalla, que não existam estigmas relacionados à região que corresponde ao atual Nordeste. "No Rio Grande do Sul, por exemplo, no século 19 chamavam-se de forma pejorativa de 'baianos' todos os brasileiros dos atuais Norte e Nordeste. Isso pode ser mapeado no cancioneiro da Revolução Farroupilha", observa.

Para Golin, esse preconceito antibaiano e antinordestino, no Sul, está ligado a um aspecto central da formação nacional brasileira: a questão racial.

"Esse problema se manifesta pela questão do fenótipo, do tipo físico, que, por sua vez, se relaciona ao lugar social dos nordestinos. Essa base, que vai se associar à ignorância histórica, tem um lastro muito acentuado entre os descendentes de migrantes", afirma.

Golin define esses contingentes como "grandes cotistas". "São pessoas que vêm para o Brasil com grandes vantagens, num processo de migração que tinha por paradigmas o estímulo à pequena propriedade e à produção para o mercado interno e, principalmente, o processo de apagamento da história da escravidão e o branqueamento da população", explica.

O pano de fundo dessa política foi, na opinião do historiador, o desejo do Império do Brasil de participar do Concerto das Nações.

Os migrantes instalaram-se em espaços desprezados pelo latifúndio e pela grande empresa rural: os territórios indígenas. "Foi preciso convencer esses migrantes, com um discurso ideológico e racial, de que estavam vindo para o Brasil travar uma luta entre civilização e barbárie", argumenta.

O resultado foi que, nas regiões de predomínio de migrantes, a população assentada tende a situar tudo que não se assemelha a sua etnia "em um nível inferior", diz Golin.

"Seu discurso se expressa em chacotas, mas também em formulações políticas, como uma forma de diminuição do que não pertence à comunidade de origem migrante. Os 'estranhos' são os brasileiros, os negros", conclui.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

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